terça-feira, 28 de julho de 2026

Projeto: A Cidade Amaldiçoada - II - O Despertar (1)




Eu lembro de ir na casa de um colega da escola após o almoço para brincar. Sua mãe fazia salgadinhos, doces e balas de coco para festas de aniversários. Eu nunca comia nada a não ser a bala. Geralmente eu não prestava atenção na feitura só sentindo o cheiro adocicado pelo ar e, de longe, em meio a qualquer brincadeira que fosse, eu via uma panela sendo levada para a mesa de pedra e seu conteúdo despejado e escutava sempre que nós nos aproximávamos:

- Cuidado que tá quente!

O aviso era contundente, pois pelo brilho de nossos olhos, se percebia que aquilo nos encantava. Era de início um líquido viscoso que logo ia encorpando e virando uma espécie de vídro de puro açúcar. Em algum momento aquilo ficava frio o suficiente para aquela mulher corpulenta pegá-lo com as mãos e a mágica acontecia. Ela colocava num grande parafuso que ficava na batente da porta num ângulo que não enroscava em ninguém acima da altura do ombro de alguém alto. O bolo daquela massa colocado enroscado ali e era puxado para baixo e se esticava  novamente, era ajuntado, enroscado e puxado sem parar várias vezes. A massa vítrea começava embranquecer e ficar totalmente opaca. Era um estica,  puxa, enrosca, estica, puxa e enrosca infinito. Até que ela já colocava na mesa e ia fazendo rum rolinho comprido com as mãos e roliço, feito meu dedo do meio, e cortava na porção própria para por no papel e embrulhar posteriormente. Agora, além dos olhos das crianças que estavam presentes brilharem a saliva quase escapava da boca de tanto que juntava. Ela percebendo, separava os feios que não servia tanto para embalar e nos dava. Ao colocar na língua ele esquentava e a saliva envolvia aquele cilindo branco e derretia quase que instantaneamente. Quanto maior a qualidade da bala e mais bem feita mais rápido derretia. Eu realmente mal sentia o gosto do coco, mas era gostoso mesmo assim. 

E como aquela bala eu estava sendo puxado e esticado para todos os lados possíveis. E sem um doce na boca que vivia amarga de remédios. Assim que acordei minha reabilitação começou. Exames e fisioterapia tomaram conta do estado semi-vegetativo de dorme e acorda sem uma consciência firme. Vendo minha cara de dor ao me fazer esticar a perna a fiseoterapeuta deu uma folga e disse que eu estava indo muito bem. 

Bala de coco! - disse meio desajeitado precisava também me recuperar de uma sequela por ter batido a cabeça em uma mureta quando fui arremessado por um carro que perdeu a direção ao tentar desviar de um caminhão que vinha em direção contrária. O motorista, fiquei sabendo, teve um mal súbto. Ele sobreviveu. Uma senhora que estava passando próximo não.  A fisioterapeuta me olhou curiosa tentando entender o contexto e expliquei que estava pensando em como as balas eram puxadas para ficarem na consitência que conhecemos. E eu me sentia  igual. 

- Nossa, faz tanto tempo que eu não como uma bala de coco, desde a faculdade. Uma garota de outra turma vendia. - Disse ela animada. Eu ainda não me comuniquei tão fluente e claro como ela. Eu tinha dificuldades motoras e a reabilitação era para isso. Todos os médicos estavam, aparentemente, otimistas com minha evolução. 

- Se você terminar o resto dos exercícios sem careta nenhuma eu tento arrumar umas balas de coco e trago na próxima sessão. - E já inciou outra série daqueles movimentos que eram dolorosíssimos. 

Eu resmunguei qualquer coisa e continuei nas caretas exagerando ainda mais. Ela só disse que daquele jeito não ia trazer nada. 

- Pelo menos... Eu... Não tô pedindo... Para parar! - disse com muita dificuldade. 

Deu um sorriso concordando e continuou seu trabalho. 

Eu não sei como faria se não fosse nosso sistema de saúde. Sei que muita gente reclama de demoras pontuais, contudo, ali dentro do hospital que estava, eu não tinha muito que reclamar. Talvez, se eu fosse muito chato, e sou, reclamaria do tanto de gente que entrava e saía. E convenhamos, fiquei sabendo umas semanas depois, quando já estava melhor para entender as coisas, que tínhamos saído de uma pandemia. O sistema só não colapsou pois as equipes de saúde fizeram o possível e o impossível para dar conta. As internações cresceram drasticamente, os doentes lotaram os Pronto-socorros, logo os leitos e por fim as UTIs. Eu, pela minha condição, já estava no hospital e não tenho ideia de como aconteceu. Muita coisa fiquei sabendo depois e a gravidade real só quando já estava fora do hospital em recuperação em casa. Somente nesse momento que vi o verdadeiro show de horrores que políticos cometeram diante de um desastre dessa proporção. Teve político das três esferas, federal, estadual e municiapal que se dividiram em negar tudo e em tentar resolver o máximo possível da demanda que aparecia. Principalmente por parte de quem era negacionista da situação de calamindade usando a desculpa de salvar a economia. A morte espreitou o mundo masssivamente por meses. A economia que esperasse. Epidemias que tinha estudado ou lido à respeito que ceifaram milhões de vida. Elas  pareciam tão distantes de minha realidade  nos livros. E agora, isso estava acontecendo de novo, e eu lá feito a princesa Aurora. O mundo com um dragão demoníaco feito de vírus e desinformação e eu "sonhando um sonho" Disney. Se bem que o que sonhava parecia mais um conturbado conto de fadas sem fadas. 

Como meu caso era grave, de início não se cogitou mudar para o hospital da cidade que minha família morava. Depois, quando a pandemia começou até levaram em consideração rever minha situação, contudo como as cidades do interior ainda estavam com menos casos relatados num primeiro momento,  achou-se melhor me deixar onde estava, principalmente por estarem entendendo como a doença evoluía naquele instante e se eu realmente corresse o risco de contrair. Claro que se contraísse, possivelmente eu já debilitado pelo acidente, não sobreviveria. 

- Seu guia é muito poderoso e forte - me disse uma vez uma enfermeira em tom confidencial como se contasse um segredo baixinho para ninguém ouvir - Ele está com você desde que você teve uma piora e quase te perdemos e nunca mais saiu do seu lado. Vai cuidar disso quando sair daqui, rapaz. 

Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer com o "Vai cuidar disso quando sair daqui, rapaz". Intuí que era para ir em um Centro Espírita para eles me ajudarem. Percebam que sou muito perspicaz, feito um jiló. Se fosse analisar naquela época eu não era religioso. Pelo contrário. Estava vivendo um conveniente ateísmo prático. Era católico de família, batizado à minha revelia, obrigado a frequentar a catequese e comungar aos domingos com a família toda que ia na missa por tradição. Eu, deixando bem frisado, por imposição. Crisma também fui, dessa vez motivado pelos meus amigos que fariam e, se eles estavam lá, teria bagunça e diversão. Não teve, e no dia do rito achei bem desagradável aquele dedão branco do bispo melecado de óleo na minha testa. Assim que saí da frente dele já limpei aquilo com a mão mesmo. E depois que saí da cidade para estudar fora nunca mais pus meus pés em uma igreja para qualquer coisa a não ser visitar por interesse histórico e artístico. 

O quadro era assustador o suficiente para eu ter que ir atrás de um lugar que lidava com espíritos. Claro que não ia. Sou brasileiro, e se algo dá medo nós vamos em direção oposta, é cultural. Costumo dizer que não existe terror no Brasil por isso. Bom, costumava dizer isso. 

O verdadeiro terror para mim já era o quadro que a pandemia tinha promovido no mundo. Contudo na minha família tinha causado um verdadeiro massacre: um primo, duas tias, minha avó e meu pai morreram. Meu avô estava com sequelas e minha mãe estava despedaçada por dentro e acabada por fora de tanto sofrimento que enfrentou. E eu, sendo um dos motivos desse sofrimento, sem poder dar qualquer apoio a ela. 









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