domingo, 31 de dezembro de 2017

Dezembro - Filmes que Criticam o Cristianismo - Última Postagem do Ano: Má Educação

Má Educação



         Meus queridos, chega ao fim, com essa resenha de filme o meu projeto de 2017. De início a proposta era fazer duas resenhas por semana dentro de um tema mensal. E ainda mais uma resenha de um filme novo ou uma série e por fim, se tudo desse certo uma resenha de qualquer outro evento cultural, ou apenas um texto mesmo. Como tenho que ganhar o meu pão diariamente com um trabalho não muito rentável e bem cansativo, acabei por deixar passar várias resenhas. Teve mês que quase não escrevi. Mas o começo foi bem promissor e no conjunto todo não fiquei tão longe do objetivo, só um pouquinho... erh...
        
Praticamente todos os temas tinham relação com algo de minha vida. Então nada mais que justo que o último fosse um crítica à Igreja Católica. Confesso que não é algo difícil. São praticamente 2000 anos de história com atos execráveis. Para quem não sabe, eu frequentei um seminário por quase 10 anos. Na verdade passei por 3 dioceses: São Carlos, Itaguaí e Campinas. Fui expulso nas três. Mas não pense que fui um vilão, entre tantas coisas fui um jovem comum e conto um dia em forma de crônicas o que aconteceu. Na verdade já tenho um blog só para isso. Está um pouco parado, mas logo retomo. Para quem quiser dar uma olhada o link está aqui: Seminário com Purpurina
        
“Má Educação” não foi um filme que eu gostei tanto. O buchicho em torno dele foi mais forte que o próprio filme em si. Almodóvar prometeu e não cumpriu, aos meus olhos. O filme narra como dois garotos se conhecem num colégio interno e se apaixonam e são obrigados a não continuarem com a relação, um dos garotos era o fetiche de um dos padres. Com o tempo ambos crescem, um vira cineasta e o outro faz um roteiro baseado no que viveu. No roteiro vemos a história duplicada na tela, adultos um dos meninos se tornou um travesti. Existe algumas reviravoltas, ninguém é quem realmente parece ser e certa tensão ocorre. O que Almodóvar prometeu foi um escândalo, e não sei se por estar dentro do seminário naquele tempo, não vi nada de tão escandaloso assim. Como roteirista e como diretor Almodóvar nunca foi muito sutil. E nesse filme algumas coisas ficam nessa linha. Pelo menos a primeira parte que trata dos garotos no internato. Sei que o filme possui muito mais camadas que eu estou revelando aqui. Um dia desses prometo fazer uma resenha mais apurada...
         Geralmente o senso comum joga a pedofilia para os padres. E eu não vi isso no seminário. Nesses quase 10 anos eu só vi um padre com forte indício de pedofilia. Entenda aqui pedofilia como atração patológica por crianças. Conversei com meu superior a respeito e foi dito que eu devia parar de me preocupar e que o tal padre estava em observação já havia um tempo e que o bispo da diocese estava ciente. Mas que realmente era para eu não me preocupar. É uma metodologia meio revoltante esse tipo de coisa. E fiquei com as mãos atadas sem poder me reportar a ninguém. Por sorte, ou providência divina, esse padre acabou morrendo alguns meses depois de infarto.  Causando um alívio nos padres de lá pelo que fiquei sabendo.
Por mais que nossas leis sejam claras ao dizer alguém abaixo de 18 anos é menor de idade, o que vi foi muitos padres, e seminaristas, interessadíssimos em novinhos, acima dos 14 anos geralmente. Sabe aquela fase que o jovenzinho já formou o corpo e está com os músculos de quase adulto? Isso já descaracteriza e dizem ser outra coisa: efebofilia (o que também é crime em nosso país por se tratarem de menores de idade). Pois é esse o maior interesse de vários. Não todos. Vi padres que gostavam de homens adultos novos, maduros e até idosos. Tudo é relativo e diversificado como o desejo sexual da população. Em menor número também havia os que se interessavam em mulheres. E no geral esses eram os que causavam mais problemas. Entre eles corriam o risco de engravidar as mulheres.
Esse é um risco imperdoável na Igreja. Conheci um seminarista que cometeu tal crime com a ordenação marcada e foi detonado. Expulsaram-no sem nem um pingo de misericórdia ou um mínimo de apoio. Ele inteligentíssimo e esforçado, para sua sorte, assumiu a paternidade e se casou com a garota e logo passou num concurso público e, pelo que soube estava indo bem. Ao contrário da beesha que o denunciou, por despeito, pois era apaixonada por ele e não consegui lidar com a “traição” que julgou em sua mente desmiolada ter sofrido. Esse virou padre e anda um pouco surtada lá pelas bandas de onde se encontra...
         Essa resenha está se tornando outra coisa. É matéria para o outro blog... Chega!

         Reservo-me no direito de deixar esse Janeiro de 2018 mais light para meu lado. Preciso mesmo usufruir de minhas férias, descansar de verdade. Então, pensarei em algo para esse ano vindouro.  Fico muito grato a todos vocês que acompanharam o blog. Um ótimo ano para todos nós. 







quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Dezembro - Filmes que Criticam o Cristianismo: O Código Da Vinci

O Código Da Vici




        Ao contrário do que muitos querem acreditar o cristianismo católico não foi algo planejado e o seu início foi “desinstitucionalizado”. Era exigido muito pouco: conversão, mudança de vida, adesão à palavra de Jesus, sempre pelo viés dos discípulos, e estar em união a um grupo eclesial. De início a “Igreja” instituição não existia.
        Existiam várias pequenas igrejas praticamente autônomas que expandiam por cidades do oriente, sul da África e por fim pela Europa. E com o tempo vários relados da vida de Jesus foram surgindo. Os mais antigos são conhecidos como Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, nessa ordem. E pouco depois surgem outros relatos com outros pontos de vista. Chegou um momento que as pequenas igrejas, se infiltrando em Roma, a cidade mais importante da época, precisaram se organizar melhor. E principalmente a comunidade de Roma foi, aos poucos, conquistando o império romano. Com Constantino foi que ocorreu a unificação da crença cristã e instituída como religião oficial no Império.            De certa forma, os bispos, que eram autônomos em suas comunidades, usavam os livros que bem lhes aprouvessem. Mas houve uma predileção pelos que se tornaram depois os livros oficiais da Bíblia cristã. Essa oficialidade dos livros usados foi só determinada no século IV e ratificada de forma definitiva no Concílio de Trento séculos depois. Esse conjunto de livros bíblicos aceitos pela maioria é chamado de Cânon. Há algumas divergências entre os grupos cristãos existentes em relação a alguns livros. Como que aqui quem nos interessa é o Cânon Católico, deixemos explicações dos outros de lado. Com essa definição já no século IV temos um grupo de livros oficiais e o grupo de livros não oficiais definidos como Apócrifos. Dentro desses apócrifos ficaram as histórias mais fantasiosas sobre a vida de Jesus, as exageradas e as que foram constatadas que não eram do primeiro século. Dentro desses Apócrifos temos os Evangelhos de Tomé, Tiago, Pseudo-Mateus, Hebreus, Nazarenos, Ebionitas, Marcião, Pedro, Bartolomeu, Judas, Maria Madalena e tantos outros Evangelhos, Epístolas e escritos diversos.
     Para nós o mais importante é o Evangelho Apócrifo de Maria Madalena. Ele foi a base para o livro de Dan Brown. Junte-se a história do Apócrifo de Maria Madalena lendas históricas sobre uma ordem religiosa perseguida pela Igreja Católica, identificados como Priorado de Sião e temos o enredo do livro.  A lenda “histórica” diz que eles se dispuseram a cuidar dos segredos do Santo Graal que é um código para dizer que Jesus tinha deixado descendentes frutos de sua união sexual com Maria Madalena. Essa sociedade secreta guardaria e defenderia esses descendentes que ainda hoje seriam perseguidos pela Igreja.
     Verdade ou não, saberemos somente na segunda vinda de JC... Mas o livro faz um bom levantamento histórico e costura uma bela colcha de retalhos colocando personagens históricos importantes como membros do Priorado. Inclusive o próprio Leonardo Da Vinci que teria feito no seu afresco “A Última Ceia” uma referencia direta ao relacionamento de JC e Maria Madalena. O filme consegue uma boa adaptação do livro, com pequenas alterações, nada que mude o contexto final. A crítica aqui fica para com a versão da vida de Jesus defendida com interesses óbvios pela Igreja. Um Jesus “Deus” e solteiro que morre e ressuscita era muito mais conveniente para os interesses de um grupo que almejava controle do povo que um Jesus “humano” que fornicou com uma mulher de índole duvidosa e teve filhos como qualquer mortal.
    Não é fácil chegar a uma verdade. Por vezes colocam a Igreja como uma vilã fria e calculista, sendo que muitas coisas foram acontecendo e não há como negar que seu início foi até “puro” sem grandes interesses a não ser a salvação do homem, custasse o que custou. E com o tempo, foi crescendo sua importância política e assim a corrupção a assolou e como a grandiosa instituição que se tornou e por mais de um milênio ela manteve a contradição com exemplos bons e outros execráveis dentro de si.
    O filme tenta se apoiar mais na polêmica de um Jesus humano e sua relação com uma mulher. É interessante e fantasioso ao mesmo tempo. Como disse não há provas de que Maria Madalena tenha sido esposa de Jesus. Só há provas que as pequenas comunidades cresceram e se tornaram a grande instituição que dominou com punhos de ferro, e pouca caridade, a Europa na Idade Média.
    Com elenco de peso vemos o detetive casual Robert Langdon, interpretado por Tom Hanks que não foi a melhor opção pela aparência. Contudo Hanks é um bom ator e faz bem o papel. Temos também a participação de: Audrey Tautou, Paul Bettany, Alfred Molina, Jean Reno, Ian McKellen entre outros menos conhecidos. Ron Howard dirige e imprime mais ainda a característica comercial da qual o livro é fruto. 

Dezembro - Filmes que Criticam o Cristianismo: O Nome da Rosa

O Nome da Rosa




Umberto Eco, saudoso, filósofo, escritor, semiólogo, linguista, bibliógrafo e conhecedor da de Idade Média realizou o romance “O Nome da Rosa”. Que tentei ler aos meus 14 anos e esbarrei na linguagem hermética do período medieval usado nas descrições. Até que saiu o filme e assisti. Muitas explicações ou descrições foram mostradas nas imagens, que para um leitor pouco desenvolto em período medieval, como um adolescente normal, eu não alcancei o livro, o filme me deixou instigado e maravilhado.

    Esse primeiro livro de Eco é um romance policial aos moldes conhecidos. Ele só situa a ambientação num mosteiro. Lá assassinatos de monges sugerem a ação do demônio. E Guilherme de Baskerville, ou na versão em inglês Willian, acompanhado de seu fiel pupilo Adso de Melk vai investigar com os recursos mais modernos possíveis naquele período não muito ilustrado. Já vemos em Guilherme uma referência a Sherlock Holmes, o seu sobrenome é presente em um conto do famoso detetive “O Cão de Baskervilles”. Possivelmente não é coincidência.

    E o fato de ter um ajudante não muito brilhante ao estilo Watson também entre outras coincidências aos moldes de Arthur Conan Doyle. Como também não é coincidência toda a crítica ao sistema monacal que perdurou por longos séculos. Os monges, preservados dentro dos seus muros, se dedicavam a Deus enquanto o povo, pessoas miseráveis, passava fome e se sujeitavam a comer restos que descartavam. E mais, é visto a disputa de poderes entre facções, ou ordens religiosas naquele período. De forma especial franciscanos e dominicanos. A abadia é dominicana e Willian é franciscano.

    Enquanto seus anfitriões resguardam os métodos e pensamentos filosóficos voltados ao aristotelismo escolástico, o monge investigador é empírico, analítico, o que não é considerado adequado para aquela época que se usava a lógica aristotélica para chegar na verdade. O método empírico denotava observação e para a mentalidade escolástica os sentidos enganavam, era bom não confiar.

    A crítica está em vários âmbitos. Como já citei acima, vemos um povo empobrecido e faminto comendo restos de monges bem nutridos. Contudo o que mais é criticado é a forma que a Igreja manipulou a população para que não tivesse acesso ao conhecimento. Esta é a maior crítica. Através do mistério que será desvendado ao final, vemos como a Igreja age escondendo conhecimento e até matando quem queria ter acesso a ele.

    Principalmente como juíza, através de um dos monges, a Igreja determinava quais livros eram bons ou não para se ler. E infringir as regras poderia causar a morte. Metaforicamente no contexto de “O Nome da Rosa” vemos o que o Catolicismo (e qualquer outra religião que ascende ao poder) fez com livres pensadores e conhecimentos novos que contradiziam suas estruturas.


    Sean Connery faz o monge Guilherme e seu ajudante/noviço é interpretado por Christian Slater. Temos vários outros nomes menos ou mais conhecidos, ótimos atores assumindo a interpretação dos demais monges. A direção ficou com Jean-Jacques Annaud que deu ao filme uma alma europeia que tanto era necessária. E a “rosa” é uma referência ao feminino que foi tão perseguido e desprezado por esse clero que julgava o sexo como algo inferior ao celibato e castidade.
 
    Contudo a real natureza humana vem como um fogo abrasador e causa uma marca no jovem Adso que o faz questionar tudo em sua vocação. Por isso talvez a castidade seja algo pouco praticado fora e, principalmente, dentro da Igreja ainda hoje. Por certo que há no clero pessoas que pratiquem o celibato e a castidade, principalmente os mais velhos, apesar do advento do Viagra... 









quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Dezembro - Filmes que Criticam o Cristianismo: Alexandria

Alexandria



(spoilers nessa resenha é algo um poco complexo pois é uma história de mais de 1600 anos de domínio público) 

Antes que 2017 acabe, preciso pelo menos postar alguma resenha temática. Não sou muito adepto de filmes de Natal. Em sua maioria esmagadora são péssimos, sentimentalóides e incentivam o lado errado da festa ao invés da verdadeira essência. Não que também ligue muito para essa data com cunho cristão. Pois é sabido que Jesus não nasceu em Dezembro, foi só uma forma dos padres tentarem acabar com uma festa popular pagã.
 Pelo pouco que se sabe é mais provável que JC tenha nascido entre Março e Abril. Como não há provas, nem que ele existiu de verdade, imagina saber a data do nascimento. Porém o marketing foi bem feito e os cristãos iludidos. Até a chegada do Capitalismo desenfreado que deslocou uma festa religiosa para uma suruba consumista descomunal. O Deus Dinheiro é o mais festejado e ainda prevalece.
 Então, pensei muito e decidi escrever sobre filmes que criticam o cristianismo de alguma forma. E de uma maneira especial a Igreja de Pedro. Afinal não há cristianismo sem contradições... E Natal é a festa mais contraditória que os adeptos do Nazareno inventaram até agora.
Primeiro filme, se não der tempo talvez o único, que comento é “Alexandria”. Um filme muito bom que ficou praticamente no anonimato. Acabei assistindo em DVD. É a não tão famosa, propositalmente, história da filósofa Hipátia de Alexandria. Ela foi uma filósofa e estudiosa muito influente e obteve alguns avanços em seus estudos. Claro que o filme romantiza um pouco. Possivelmente ela morreu com uma idade de 50 anos. Tudo é um pouco impreciso. E, mesmo para a sociedade helênica, Hipátia estava além das mulheres de sua época. Era independente e não estava casada. Fazia estudos e cuidava da biblioteca de Alexandria junto com o pai. Era inteligente e bonita e isso deu uma comichão de ciúmes e despeito no proeminente bispo da cidade, Cirilo. Santo de índole apologista, à surdina efetuou um ato “muito” cristão: incita seus seguidores contra a filósofa por ela ser favorável ao seu inimigo político, Orestes, governador do Egito.
     Ensandecidos eles a abordam no caminho e a arrastam para uma igreja, no filme para a biblioteca mesmo, e a matam. Dizem que ela foi esfolada viva com cacos de conchas, outros ainda que foi desmembrada e queimada. Mas é consenso entre os estudiosos que o termo correto para se usar é “ASSASSINADA”. Cirilo conseguiu eliminar uma inimiga que ele não conseguia de forma alguma desmoralizar. Ela era irrepreensível. No filme dão um jeitinho de tudo acontecer através de um monge mendicante do deserto apaixonado por aquela mulher estupenda que Hipátia foi. Interpretada pela talentosa Rachel Weisz que faz bonito na tela e ainda conta com Max Minghela como o monge Davus apaixonado, Oscar Isaac como Orestes e Sami Samir como Cirilo e direção de Alejandro Amenábar que fez “Os Outros” com a Nicole Kidman. Tudo é bem executado no filme.
     O ar helênico que o filme mostra é fantástico. E ainda temos uma reprodução do que seria o Farol de Alexandria e a poluição que causava com a queima do combustível usado para deixa-lo aceso.
O filme acaba com a morte da protagonista, mas dá uma pequena explicação do quanto seus estudos foram inovadores. Porém a Igreja a relegou praticamente ao esquecimento em seu domínio medieval. Era insuportável para homens do clero aceitarem que uma mulher fosse totalmente proeminente, bela e principalmente inteligente.
Ela estudava os astros e como eles efetuavam rotas elípticas no céu e a igreja viu isso como algo inconcebível, pois Deus era perfeito e em sua perfeição ele usaria um círculo para os planetas se mexerem ao redor do nosso planeta. Era o modelo ptolomaico de universo com a Terra no centro de tudo que era conveniente aos interesses clericais.
     No fim a verdade prevaleceu e a história do assassinato de Hipátia é reconhecida como  um marco da intolerância e muitos ainda afirmam ser o fim do período clássico e o início do domínio medieval nefasto dos cristãos. 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Extraordinário - O Filme Perde um Pouco do Brilho do Livro

Extraordinário






        

        Ano passado li o livro “Extraordinário” de R.J. Palacio e fiz uma pequena resenha: http://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com.br/2016/10/extraordinario-quando-tiver-que.html . Dei uma revisada, pois percebi uns errinhos de digitação e falta de atenção ao corrigir e agora falo do filme. 
        Não mordo minha língua em relação ao filme. Refiro-me a um comentário que fiz na resenha acima. O filme não é uma coisa deplorável, também, enquanto adaptação, não ficou a melhor coisa do mundo. Bem feito, bem executado e um pouco da fofura do livro se esvai ao ser transposta para a tela. A história segue Auggie Pullman, interpretado pelo fofo Jacob Trembley. Ele possui uma doença hereditária que o deixou com má formação no crânio e por isso foi obrigado a fazer inúmeras cirurgias ficando em casa fora do contato com a maioria das crianças do jardim de infância e anos iniciais de aprendizado, enfim, estudava em casa com a mãe. Aqui eles apelaram descaradamente ao colocarem Julia Roberts como Isabel Pullman, mãe de Auggie. Ela faz toda a diferença. Principalmente do lado do insosso e feioso Owen Wilson que perde o carisma do pai do garoto. Apesar de alguns momentos cômicos que protagoniza não dá muito ao personagem.
    Via, irmã do garoto, é interpretada pela Izabela Vidovic que consegue, ao contrário do Wilson, chegar ao cerne dos sentimentos da personagem que é sempre relegada em função dos problemas do irmão. E Sônia Braga faz uma pontinha como a avó que dava o ombro amigo a Via quando todos se esqueciam dela. Jack Will, o amigo número um de Auggie, foi muito bem selecionado, Noah Jupe, que consegue ser todo molecão e ao mesmo tempo fofo.
    Já Julian, poderiam achar um garoto mais asqueroso, ficaram com Bryce Gheisar. Imagino que fazer de uma criança um vilão não é algo muito legal mesmo. Temos até certa “redenção” de Julian ao final. Summer foi um pouco esquecida na adaptação, interpretada pela tão fofa quanto todos Millie Davis. Miranda, outra personagem emblemática, melhor amiga de Via que sem explicação some é realizada Danielle Rose Russel, bem bonita e menos ousada que no livro. Não escolheram uma criança feia, nem que não demonstrasse um grau de fofura digno de causar convulsões e vômitos de arco-íris. Todos executam bem a história.
     Trembley não se intimida pelo elenco adulto, faz sua parte bem feita. E olha que eu ficaria intimidadíssimo pela Julia Roberts. Por questões estéticas imagino que não tenham realmente pesado na maquiagem de Auggie. No livro dava impressão dele ser pior. Demos um desconto para Hollywood. Afinal, desde seus primórdios, ela embeleza criaturas estranhas... Errr Clark Gable... Ops!!!
         Bom, deixemos o veneno de lado, pois neste filme só cabe fofura. E por isso vale o ingresso. Pelo menos a meia entrada que paguei. E se você for mais sensível se prepare para as lágrimas. Elas descem sem você nem perceber. 










terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente: O Retorno do Detetive Belga

Assassinato no Expresso do Oriente








         Na adolescência fui um devorador de livros de Agatha Christie. Uma coleção de peso se fazia presente na Biblioteca Municipal com umas folhas ásperas e amareladas. E lá ia eu toda semana renovar alguma leitura retardatária ou escolher outro livro que me deliciasse. Em casa mesmo eu contava com cinco títulos, “Um Crime Adormecido”, “O Caso dos Dez Negrinhos” (título antigo que por questões raciais foi mudado o nome para “E Não Sobrou Nenhum”), “Morte no Nilo”, “Os Quatro Grandes” e “Uma Aventura em Bagdá”. Lidos vorazmente nesta respectiva ordem. Então meus grandes parceiros por um bom tempo foram Miss Marple, Hercule Poirot, Tommy e Tuppence Beresford entre outros tantos personagens recorrentes ou não.
         E assim que podia eu assistia aos filmes baseados em seus livros: “Morte no Caribe”, “Um Brinde de Cianureto”, “Morte no Nilo”, “Testemunha de Acusação”, “Assassinato Num Dia de Sol”, “Mistério no Caribe” entre outros com produção menos digna foram. E somente neste ano que consegui assistir “A Maldição do Espelho” e “Assassinato no Expresso do Oriente” teve várias adaptações sendo que a mais celebrada é a versão de 1974 dirigido por Sidney Lumet. Foi laureado com várias indicações a prêmios e protagonizou as “pazes” entre os produtores hollywoodianos com a estrela Ingrid Bergman que havia abandonado tudo para viver um escandaloso caso amoroso com o diretor italiano Roberto Rossellini. E é um filme bem mais próximo do livro de Agatha Christie.
       A versão de agora, 2017, dirigida por Kenneth Branagh consegue atualizar umas questões que ficam subentendidas no livro ou no filme de 1974. Para situar a geração nova Hercule Poirot, feito pelo próprio diretor, é introduzido resolvendo um caso em Jerusalém que poderia, dependendo do criminoso, causar uma revolta popular. Com seu jeito metódico e gosto pelo equilíbrio, consegue resolver o caso e tenta partir para tirar férias. Contudo é chamado de última hora para se apresentar em Londres para um caso e é obrigado a tomar o Expresso do Oriente que em seu interior contava com passageiros das mais variadas procedências. Até que um passageiro é assassinado e Poirot é incumbido de solucionar o caso. E por trás de um grupo que aparenta não se conhecerem, Hercule Poirot vai desvendar um dos mistérios mais famosos e também um dos melhores.
   O ponto alto do filme é a atualização de várias situações do universo de Poirot para o público de hoje. É explicado emoções que a própria Christie não desenvolve tanto para seu texto não ficar tão pesado. O filme já prefere explorar esses dramas secretos. Tanto que começa num tom leve e divertido, bem ensolarado, e se transforma em um suspense denso até o seu fim.

****Deste ponto em diante: spoiles****        

        Não sei se uma história que tem um pouco mais de 80 anos possa ter algo que se considere spoiler. E, tirando a introdução inicial, o filme não muda praticamente nada do original o qual é baseado. No máximo acrescenta. De modo geral o rapto e o assassinato da criança Armstrong é explorado mais. A dor e destruição que causa são avassaladores  para amigos e familiares e no livro fica tudo colocado de uma forma menos enfática deixando os personagens mais frios. Aqui vemos o contrário. Até o momento que cada personagem esconde sua ligação com o caso da criança assassinada há uma forma mais caricata de cada um agir. Quando Poirot os confronta em segundos depoimentos todos mostram suas caras, amarguras, frustrações e ódio pelo assassinado. Para quem não lembra uma criança tinha sido raptada e mesmo os pais pagando o resgate os sequestradores a matam. Com isso a família toda se desestrutura e isso dá mote ao filme. Pois a vítima de assassinato no filme é o sequestrador responsável pela morte da garotinha.
   É incrível como a direção faz uso do ambiente claustrofóbico de um trem de luxo. É interessante ver a câmera passar por uns biombos com vidraça e a imagem dos suspeitos sendo interrogados duplicam e até mesmo triplicam, dando a entender que quem está sendo interrogado tem mais que uma cara, esconde algo. O roteiro é competente, a fotografia linda, o figurino deslumbrante. A direção se esmera em conseguir o máximo dos atores. Um ou outro se destaca mais. Michelle Pfeiffer é o epicentro dos acontecimentos e no momento que é desmascarada, ou revelada sua real participação nos eventos, é incrível como até seu semblante muda. Todos possuem seus pontos altos para brilhar.
    Um filme de falas e deduções fiel ao estilo da dama do crime que pode aborrecer alguns. Mas tenho segurança em afirmar que foi um dos filmes lançados até agora que mais gostei este ano. Tanto que assisti duas vezes e não me senti aborrecido na segunda vez.  Algo que acontece com certa frequência comigo. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Novembro - Filmes de Minha Vida: Comer, Rezar, Amar

Comer, Rezar, Amar







         Sabe aquele filme bobo, leve, sem grandes atrativos, a não ser uma atriz famosa e que é baseado supostamente numa história real?
         “Comer, Rezar, Amar” é esse filme em que Julia Roberts faz Elizabeth Gilbert uma escritora que entra em crise no momento que sua vida parece engrenar para a felicidade. Casada com o homem de seus sonhos, percebe que não é bem aquilo que imaginou. Separa-se e entra numa disputa rancorosa com o ex pelos bens que adquiriram juntos. Num outro momento começa um relacionamento com um professor de yoga mais jovem e que também não dá certo. Tudo desmorona. Sem perspectivas decide fazer uma viagem de descoberta de si mesma. Vai se empanturrar deliciosamente na Itália. Depois rezar na causticante Índia e por fim, na paradisíaca Bali, descobre o amor depois de alguns contratempos. E o interessante é que esse amor é um brasileiro, interpretado pelo espanhol Javier Bardem.
         Até aí tudo bem?
        Claro que não. Esse filme estreou num dos piores momentos de minha vidinha pregressa. Hoje vejo que tive outros piores momentos, mas esse foi um onde tive uma ilusão que minha vida no sacerdócio daria certo. Ali meus anseios foram definitivamente assassinados pela mesquinharia de um bispo e pela tentativa desesperada de um padre salvar o namoradinho da forca. Sem entrar em grandes detalhes, eu estava a serviço de outra diocese, lá no estado do Rio de Janeiro. E havia um seminarista que brigava com todo mundo. E ele era namoradinho do padre G. que obviamente queria ele ordenado. E houve uma reunião, no período de férias de julho, esse padre simplesmente levantou poeira para o meu lado para acobertar o outro. Só para ter uma noção, eu andava bem na minha por lá.
    Ficava de boa, e fazia tudo o que me mandavam fazer. Esse rapaz entrava em tretas com todo mundo que lhe questionava alguns tipos de comportamentos.  Ele tinha, poucas semanas antes, brigado feio com outro padre que ele dependia de aval para ir adiante. Foi extremamente grosso e ofensivo. E no dia da reunião, não tendo eu quem me defendesse, e isso ficou entalado na minha garganta, pois não só o bispo, mas outros padres estavam lá que me conheciam se omitiram descaradamente, o G. falou mal de mim e disse que eu seria uma incógnita, ninguém sabia nada a meu respeito. Eu estava lá há dois anos e esse mesmo padre deveria me acompanhar, e adivinhe, ele nunca ia conversar comigo. Tentava sempre conversar com ele, que propositalmente, me evitava. Enfim, outra hora em outro blog conto isso de forma mais adequada.
      O final dessa história foi que recebi um telefonema no meio de minhas férias do bispo me desligando do seminário por motivo nenhum. Só alegou que o conselho simplesmente tinha decidido e pronto. Sem explicações. Tive que sair ligando para quem eu conhecia para ter uma noção do que houve. E muito puto eu fiquei. Porém como em todas as coisas internas da Igreja o segredo tem que permanecer. E que se foda quem não está dentro dela.
            Nessas férias tinha ido a Uberaba a convite de um amigo, que é padre, e tinha sido expulso comigo na primeira vez, a história que contei na resenha de “Kill Bill Vol. 1”. Ele me deu um bom apoio, pois, por incrível que pareça, eu fiquei dilacerado. Se a primeira vez eu estava meio confuso se queria ou não seguir o sacerdócio, desta vez eu tinha certeza. E, na medida do meu possível fiz tudo o que pude para caminhar certo e conquistar o grande prêmio de ser aceito na Igreja católica. Yeeehh.
  Minha tristeza foi enorme. E num dia daqueles eu decidi ir ao cinema e o filme era “Comer, Rezar, Amar”. Eu chorei copiosamente o tempo todo da segunda parte em diante. Chorei... Chorei... Chorei...  Não sei o que me pegou direito, talvez a busca por uma nova vida que a protagonista travou e minha nova realidade de ter sido expulso injustamente, mais uma vez, tenha sido demais. Sei que saí com os olhos inchados do cinema e tentei me levantar. Reformular meu novo rumo na vida e criar uma nova estratégia para conseguir viver. E infelizmente isso me impulsionou mais uma vez para uma terceira tentativa frustrada com a Igreja. Que conto com o próximo filme que marcou minha vida.
    “Comer, Rezar, Amar” pode não ser o melhor filme do mundo, contudo tem uma mensagem positiva: “siga seus sonhos”. Ele valeu para eu conseguir descarregar toda a amargura que senti naquela fase. Depois de uns meses descobri que minha mãe tinha o livro em sua casa e peguei-o para ler. Claro que o filme é diferente, mas a mensagem é a mesma. A linguagem literária é diversa da cinematográfica, estava lá a esperança em mudar para uma vida melhor de Liz Gilbert. Se ela pode, eu deveria tentar também.  Eu até agora, sete anos depois, ainda não consegui... 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Novembro - Filmes de Minha Vida: Kill Bill Vol. 1

Kill Bill Vol. 1




    

         Meus queridos leitores, todos os dois que leem com afinco meus escritos, hoje coloco Kill Bill no panteão de filmes de minha nada mole vidinha desvirtuada. Para quem não sabe, estive um período numa vida ligada ao espiritual. Era um “consagrado” do senhor. E no processo o capataz, digo, reitor que assumiu uma das fezes, digo fazes, que todos tinham que passar mudou.
    Da doce e gentil Glinda, a bruxa Boa do Sul, para a peçonhenta, pútrida e falsa Bruxa Má do Oeste. Quem não entendeu a referência é de “O Mágico de OZ” de 1939. Dá um Google. Tudo isso um ano antes de eu iniciar meus estudos lá naquela etapa de salvação. Logo essa fase se mostrou umas das piores desgraças e esse reitor que tinha o princípio de ação “não tive direito na minha época, então ninguém vai ter...” ou ainda “vou moralizar essa situação toda que o meu antecessor por incompetência deixou acontecer...”. Detalhe, o antecessor dele foi bispo com 35 anos, um feito bem raro na atualidade, e hoje é um arcebispo reconhecidíssimo pela sua competência. E esse reitor?
    Por causa de suas maldades foi deposto do cargo, e relegado a seu feudo agonizante. O lugar tem um puta potencial, mas a “competência” dele não permite crescer mais. Contudo antes de tirarem ele do poder houve muita maldade espalhada pela terra. E ele só saiu do poder, pois, não tinha só pisado em nós, seminaristas, tinha também pisado em vários padres, e isso é um pecado mortal dentro do clero, pois se você puxa o tapete de um par seu, logo, algum padre mais ambicioso e competente, puxa o seu tapete. Tem algo relacionado ao amor que Cristo tanto pregou, pode conferir lá.
    Meu primeiro ano nessa fase do período de estudo passou com muita angustia. Já estava em crise, já pensava em sair, mas tinha medo do que aconteceria, possivelmente teria que voltar para a cidade pequena que tanto odiava. Resolvi ficar mais um pouco. Quando começou umas perseguições gratuitas. E entre os perseguidos logo eu estava no meio. Digamos que tinham fortes indícios que eu praticava sexo desenfreado sempre que podia. Essa era a acusação. E essa foi a causa de minha “ruina” que hoje vejo como redenção plena. E como todos sabem nenhum candidato a padre comete o pecado contra a castidade... Sei que fui jogado do dia para a noite num furação de situações que culminou na minha expulsão da noite para o dia do seminário.
    Sem uma causa plausível exposta. A Bruxa Má só disse que eu e mais meia dúzia de outros garotos éramos imaturos para continuar lá. E, injustiça, pois não havia homem naquela casa que não dava suas escapadinhas, um com bispo, outro com velhos, outro com quem tivesse rola, outro com a vizinha, e até desconfiamos que  o próprio infeliz reitor tinha uns “trelelês” com a outra vizinha... Hoje, analisando melhor, acho que não era uma “relação” onde se consumava algo de fato... Era algo mais sórdido e doentio, coisa de psicopata. Um dia desses conto em outro tipo de texto.
    E justamente neste período conturbado estreou “Kill Bill – Vol. 1”. Foi o que deu a gana de tentar buscar justiça. Pena que na época uma espada samurai verdadeira não estava ao alcance... Para quem não sabe o filme nos mostra, em duas partes, a trajetória de “A Noiva” que não sabemos o nome. Só no Vol. 2 que será dito. “A Noiva” está num hospital em coma inerte numa cama. E dois enfermeiros surgem para abusar daquele corpo. E bem nessa hora que ela acorda com toda a sua ira em chamas.
    Mata os dois e, após colocar seus pensamentos em ordem, vai atrás de quem a colocou lá naquele hospital: Bill. E para matar Bill “A Noiva” tem que primeiro matar seus antigos colegas de “trabalho”, matadores de aluguel perigosos a serviço de Bill. E assim faz uma listinha e vai matando um por um para chegar até no grande chefe.
    O primeiro filme ela fica praticamente com duas mortes de sua lista de cinco, sem contar os jagunços que ela decepa, fatia, tritura e pica. Mas a vingança se faz presente e clara. E isso que me deu forças para tentar lutar com os outros colegas na mesma situação. Tanto que dizíamos que teríamos o nosso “Kill Bill” mas seria “Kill Biltela” em referência ao tamanho gigantesco do reitor. No fim, não houve vingança real de nossa parte.
    Todos os padres tentaram amenizar a situação e por panos quentes em na situação. Ainda mais que depois descobrimos que havia algo mais pesado e problemático por trás. A diocese tinha levado um desfalque de um milhão e meio de reais, um funcionário que respondia diretamente a esse reitor, se apossou da grana. Então nosso caso foi uma cortina de fumaça para algo maior que nem ouso insinuar.... errr... enfim...
       A justiça veio depois de formas inusitadas, ainda não da minha parte... que fique claro.
         Mas o filme veio num momento perfeito de uma injustiça sofrida. Calçou como uma luva. No filme “A Noiva” teve sua vingança. Na vida real eu ainda sequer tive justiça... Mas terei...







segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Novembro - Filmes da Minha Vida: Três Formas de Amar

Três Formas de Amar






        Em 1994-1995 eu estava numa encruzilhada da vida. Como meus 16-17 anos, acabando o segundo grau, e sem dinheiro, sem faculdade. Não estava bem. Vivia num lugar que gostava menos cada dia que passava. E não via saída.
                O mundo dos filmes e dos livros era meu refúgio. E no cinema adaptado de um teatro eu via algumas produções. Umas boas, outras nem tanto, de forma bem improvisada e ao mesmo tempo aproveitando o que tinha. Meus amigos da época eram um pouco broncos, para dizer o mínimo, e muitas vezes eu acabava indo sozinho ao cinema. Dessa vez fui com um amigo assistir “Três Formas de Amar”. Hetero até a medula dos ossos, filho e neto de sitiantes que não se permitiam luxos e firulas. Um bom garoto, que nunca se preocupou com o próprio estudo. Era “repetente”, um ano atrasado na escola e se esforçava para estudar as matérias.
Na prática, estudei até a oitava série, atual nono ano, numa escola agrícola. Ele era bom em carpir e cuidar dos bichos eu na teoria e notas. Nos metemos em algumas encrencas, e eu era o cérebro destrambelhado, ele um ajudante cético. Até que na vida, ele, amparado por uma condição familiar melhor, conseguiu abrir seu negócio e namorar uma das garotas mais populares da cidade, até então. Pouco antes disso, ele era um garoto feioso que apenas tinha um pai com dinheiro e uma bicicleta Aluminium da Caloi. O que era muito para quem tinha 16-17. Ele já seus 18 escondidos na sua molecagem. E até então éramos amigos, no ano seguinte o exército nos separaria.
        Eu sei que ele gostou muito do filme. Sei que conversamos depois e o que mostrava lá deu certo nó na cabeça dele. Mas como todo adolescente hetero de cidade pequena ele abstraiu e logo se esqueceu do filme. Pelo menos nunca mais tocamos no assunto. O que gerou esse constrangimento é que o filme não era considerado “gay”. Foi vendido como uma comédia romântica e todo mundo foi assistir de boa. Eu tinha lido a sinopse e sabia o que me aguardava. Nessa época já trabalhava numa locadora na cidade e era bem informado sobre os lançamentos. E o filme tinha uma história que poderia ser considerada gay.
       A motivação era de uma garota ter que dividir o quarto com outros dois caras por um erro na interpretação do seu nome. Lembramos que era uma era pré internet, não havendo Facebook ou ainda um sistema on line para resolver coisas do tipo. E lá vai ela morar com mais dois caras no alojamento da faculdade. Alex (Lara Flynn Boyle) se depara então com o sensível e interessante Eddy (Josh Charles), que explora sua homossexualidade, recém-descoberta, e o bonitão grosseiro e biscateiro Stuart (Stephen Baldwin). E evidentemente que Alex se apaixona por Eddy que por sua vez se apaixona por Stuart que por sua vez fica com tesão pela Alex.
O jogo começa. É um gato-e-rato para ver quem consegue pegar quem, cada um do seu jeito e sempre rolando uma fuga. Até que, eles ficam a três... E gostam. Lógico que Hollywood dos anos de 1990 era pudorada demais. O máximo de gay que aconteceu foi Alex ficar no meio dos “varões” e numa escapadela a mão, nada boba, de Eddy escorregar para a bunda carnuda de Stuart e este ao invés de ficar incomodado e tirar ela dali, olha, e ao sinal do outro querer retirar o membro (ops!!!) de sua bunda, por vergonha, ele pega a mão do outro e insiste com ela ali onde estava...
        O filme todo para isso...
       Claro que a ideia de sexo a três era bem interessante nos idos de 1990, principalmente para um adolescente que fazia pouco sexo. Pelo menos era o que achava.  O que mais fez meus olhos brilharem, entretanto foi a sanha de morar fora da minha cidade, e frequentar um campus de uma universidade que o filme causou. Isso me doeu no coração por saber que algo assim estaria tão longe como o planeta Urano. No fim das contas não estava nada tão longe assim. Só bastava a oportunidade certa e os passos certos. Dos quais, modestamente dei e finalmente saí daquela cidade pequena. Não criei nenhum “trio”, o nome do filme em inglês é “Threesome” que é justamente “trio” em português, apesar de ter virado, várias vezes, pivô de triângulos amorosos. Uns até perigosos, o que vim saber depois... Outra história para outro blog...
        O filme marcou muito minha vida por ser a história certa no momento certo. Seu roteiro ajudou a me fortalecer e começar um plano de “fuga” daquela realidade que me sufocava. E vingou, mesmo que para isso uma crise me assolou antes... E algumas escolhas duvidosas.
        Até hoje o filme prefigura entre meus preferidos. E olhe que assisti somente aquela vez e nunca mais tive oportunidade. Não sei se essa lembrança resistiria ao meu olhar crítico de agora. Prefiro guardar somente a memória com carinho. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Novembro - Filmes da Minha Vida: A Liberdade é Azul

A Liberdade é Azul








A Liberdade é Azul


         Pense num filme que dói na alma. Pelo menos na minha doeu.   
     Eu assisti esse filme por volta do ano de 1995. Faz parte da intitulada “Trilogia das Cores”. Cada filme, usando uma das cores da bandeira francesa e o lema faz uma referência ao conceito que remete. Com o primeiro filme “A Liberdade é Azul”, título autoexplicativo no Brasil, temos o belíssimo relato de Julie. Ela perde num acidente o marido, um compositor famoso com uma obra importante inacabada, uma música que iria celebrar a virada do milênio, e sua pequena filha. Devastada ela se recolhe do olhar público, se isola dos amigos se protege dentro de si mesma. Mas a lembrança está lá, prendendo-a. Julie é interpretada por Juliette Binoche numa interpretação fantástica ao mesmo tempo que discreta. Conseguimos ver a dor encarnada na alma da personagem. Sua tranquilidade é quebrada quando um amigo da família a procura para que ela entregue a música que o marido compunha antes de morrer.
     O problema, ou a solução para Julie sair de sua misantropia é que ela tem que acabar a música e o amigo é apaixonado por ela. Tomada por sentimentos antagônicos, perda e vontade de continuar ela se vê numa encruzilhada de escolha para sua vida. Como é um filme europeu nada é fácil e nada é direto. Ela tem algo que não pode esquecer, a memória de sua família perdida, e a música não a abandona, fazendo-a relembrar. No filme a tela fica preta e ouve-se pedaços da música que ela tem na cabeça. Isso não abandona em momento algum e a atormenta.
      Tinha entre 16-17 anos e esse filme me pegou de uma forma que o guardei com todo o carinho que pude no lugar mais íntimo e pessoal de mim mesmo. Esse foi um libelo ao meu desejo de crescer, sair daquela cidade pequena, voar alto. Ter uma “liberdade azul”.
      Via nos olhos da personagem principal minha própria melancolia. Se ela com a perda eu com a ânsia de ganhar o mundo. Se ele se fechando em si eu querendo me abrir para o mundo. Por fim a busca pela liberdade da personagem passa pelo sofrimento que a paralisa diante de suas memórias e a minha busca passou pela dor de criar memórias. Os momentos que a tela ficava escura e a música que o marido compunha, com sua participação, dava um acorde alto nós víamos que nada mais era que toda a lembrança que Julie tentando romper em sua vida dizendo o quanto ela não poderia deixar tudo para trás e sim precisava manter algo para não se deprimir. E simbolicamente ela guarda as lembranças que um móbile de pedras azuis lhe causa. O móbile estava presente no quarto de sua filha. Assim ela pode se libertar e caminhar para seu próprio futuro.
     A direção é do Krzysztof Kieslowski além do roteiro, que também conta com a participação de Agnieszka Holland. Se não sabe quem são, não se preocupe, eles são poloneses e ótimos em seus filmes, seja na direção ou no roteiro. Kieslowski já nos deixou em 1996, cerca de dois anos após finalizar a “Trilogia das Cores”. Os demais filmes são tão bons quanto, mas só “A Liberdade é Azul” é que consta na minha memória afetiva. É denso e bom. Para quem gosta de filmes europeus é necessário. 








terça-feira, 7 de novembro de 2017

Novembro - Filmes da Minha Vida: Prelúdio ou Doce Novembro...

Ahhhh, doce Novembro...



              E aí galerinha que “enfrenta” meu blog com determinação!!!
              Novembro é um dos melhores meses por vários motivos, é o último mês de trabalho pesado nas escolas, quem não sabe sou professor, é quando começa os preparativos para o Natal, estamos no meio da primavera aqui no hemisfério sul, e eu gosto muito na primavera, não mais frio e ainda não tão quente. Mas, mas... “MAS” principalmente é o mês do meu aniversário. Sim queridos eu sou um novembriano raiz, sou de escorpião do segundo decanato, que no fundo não quer dizer nada... Nasci numa primavera do longínquo ano de 1978 em pleno domingo ensolarado, dez horas da manhã. É o horário que até hoje acho perfeito para acordar. E o que é que isso tem a ver com o blog?
         Esse Novembro eu vou simplesmente comentar algumas produções que as coloco na minha lista de “Filmes da minha vida” que marcaram de uma forma intensa ou coincidiu com alguma situação significativa de minha existência. Olha o chororô e o mimimi!!!
               Eu já comentei quatro filmes que estariam nesta lista “...E o Vento Levou”, “As 7 Faces do Doutor Lao”, “A Menina e o Porquinho” na versão de 1973 e “AFantástica Fábrica de Chocolate” versão de 1971. Basicamente esses filmes assisti antes dos 10 anos de idade e deram todo o necessário para eu me encantar pela magia do cinema. Mesmo que três deles sejam “infantis”, apesar de ter ficado com um pouco de medo do “Dr. Lao”, eu lembro de cada um com muito carinho.
        Deram o tom a uma criança que se apaixona pelo cinema, mesmo que pela telinha do televisor. E até hoje eu não entendo como pude assistir “...E o Vento Levou” umas duas vezes de madrugada com tão pouca idade, entender a longa história de amor e ainda gostar, sem sucumbir ao sono.
          Claro que não posso esquecer que fui uma criancinha e algumas coisas também me influenciaram muito como alguns desenhos. Adorava assistir no Show da Xuxa “He-man” que me casou um pouco de confusão em relação ao meu próprio corpo. Hoje sei e sou favorável a todo tipo de corpos, mas na época achei que só marombados eram os que conseguiriam conquistar alguém para namorar.
        A adolescência veio e derrubou totalmente esse conceito e me mostrou que essas imagens cristalizadas podem e devem ser quebradas. Outro desenho que me influenciou muito, e até hoje me causa comoção, pois adoro coisas fofas, é o desenho dos “Ursinhos Carinhosos”.
     Lembro vivamente que com meus 5 anos eu pedi o mais querido de todos o “Feliz Aniversário” e um padrinho meu olhou com desdém quando abri o embrulho na festa que estava presente e ainda soltou um “Ursinho de pelúcia não é brinquedo para menino!” e eu não entendi o motivo.
        E eu já ligava um “foda-se”, sem saber a palavra era, muito criança, e aproveitava a felicidade que me causava o brinquedo que tanto quis. Pena que nas idas e vindas de mudanças e tudo meu ursinho favorito sumiu. Gostaria de tê-lo agora, apesar de achar que minhas filhotas teriam tomado posse dele e destruído com suas dentadas. 
        Também lembro de outros desenhos determinantes como “Moranguinho” e “Transformers”, até lancheira e carrinho eu quis dessas franquias, e tive... Liguem os pontos...  O.o. Outro ponto determinante é a série do “Chaves” e “Chapolin” que fizeram parte também de minhas tardes.
        Os bordões que reconheço até hoje, o humor pastelão, a história dramática, por trás do humor,  de um garoto órfão abandonado numa vila morando num apartamento sozinho e se escondendo num barril e o herói que tem um grande coração e se atrapalha todo em suas aventuras.
        Até hoje os aerólitos num Chroma Key mal feito fazem parte de meu imaginário.
         Mas o foco não serão os desenhos e séries infantis e sim alguns filmes. E aqui, como já informei, comentei três e mais uma animação. Nos próximos falo de outros filmes.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Séries: Stranger Things 2 - 1984

Stranger Things 2






        
O sucesso de “Stranger Tings” se acorrentou a uma sensação de nostalgia que promovia. Inúmeros elementos da década de 1980 surgiam na tela através de comerciais, brinquedos ou até mesmo referências a outros filmes. Esse movimento já vem de um tempo e até J.J. Abrams com seu “Super 8” deu sua contribuição. No Facebook pululam inúmeras postagens com “As crianças de hoje não sabem...” e afins.
Mas a história também era interessante. Principalmente a amizade e companheirismo dos garotos que tentam achar o amigo Will, que some no caminho de volta para casa após dez horas de uma partida de RPG.
         Como já falei sobre a primeira temporada no post "Stranger Things: 1983vamos para a segunda. 

Percebi que tudo ficou mais refinado. Digamos que eles, ao perceberem o sucesso que foi a temporada anterior, deram umas aparadas em várias arestas. Não que antes estivesse ruim, pelo contrário, estava muito bom. Nessa o roteiro foi mais elaborado e deram mais destaque a atuações em si.
Winona Ryder consegue melhorar sua interpretação da mãe desesperada Joyce. Se antes se mostrava uma mulher fragilizada, nervosa, à beira de um colapso agora ela está mais forte, talvez tenha percebido que seus problemas não eram tão grandes diante do sumiço do filho em outra dimensão paralela. Isso realmente muda a perspectiva de vida de forma radical de qualquer um.
Com um namorado novo, Bob Newby, uma participação especialíssima de Sean Astin, um astro mirim dos anos de 1980, ela consegue mais tranquilidade na vida para se dedicar à sua família. Já David Harbour consegue mais destaque. Não ouso falar o motivo por ser um spoiler. E tendo mais destaque conseguimos ver que sua interpretação realmente é boa. Faz o típico machão daquela década, com alguns anacronismos da nossa, mais informações também denota spoilers. As crianças estão maravilhosas.  Os não tão mais pequerruchos Finn Wolfhard, Caleb MacLaughlin e Gaten Matarazzo se destacam. Foram os que mais precisaram mostrar certo traquejo na atuação. E arrebentam. Já Milli Bobby Brown perdeu algo no meio do caminho, talvez carisma. E o fofo Noah Schnapp continua fofo e algumas vezes a emoção pedida na cena soa um pouco forçada... Nada que atrapalhe o resultado, pois sempre ao seu lado temos Winona que dá um show em cena.






 O trio Natalia Dyer, Charlie Heaton e Joe Keery, respectivamente Nancy Wheeler, Jonathan Byers e Steve Harrington consegue um tempero, pois na primeira temporada estavam muito ensossos. E Harrigton como o valentão macho alfa do colégio não estava muito convincente, então inseriram o musculosinho Dacre Montgomery com o papel de Billy, o revoltado  malvado da vez.
Ele conta ainda com a presença de sua meia irmã mais nova a ruivíssima Sadie Sink fazendo Max, o interesse amoroso de Dustin e Lucas, que também se revela ser uma fofa.

         Ouvi algumas pessoas dizendo que perdeu um pouco a graça, mas vejo isso como normal em uma série. O impacto da primeira temporada sempre vai ser forte. A segunda não deixa a desejar pois não perde em qualidade, só perde a novidade. A história é mais trabalhada no drama dos personagens e suas histórias.
O desenvolvimento é bem satisfatório e o final nos deixa cientes que houve a intenção de dar uma amarrada nas pontas soltas. Isso é muito importante. E ao mesmo tempo deu umas novas pontas também. Alguns clichês são necessários, ainda mais com o roteiro retomando o tempo todo pontos dos anos de 1980. Achei um pouco monótona a “jornada” de Eleven tentando resgatar o seu passado, mas sei o quanto era necessária para sabermos algumas coisas. E nesse arco da história vemos outros personagens que não acrescentam muito ao que nos interessa que é saber o que irá acontecer com a galerinha de Hawkins.
         Se terá ou não uma terceira temporada isso é outra história. O ciclo foi fechado ao mesmo tempo que abre possibilidades. Afinal é uma série que quer retorno financeiro. No mais, eu assisti tudo no último fim de semana... Uma maratona que a Netflix proporciona. E diante das acusações da irmã de Lucas “Nerd!” eu admito, sou e vou me esforçar mais um pouco para conseguir elevar o nível de nerdice...
Ah, um “PS”, esse artigo está escrito desde domingo... Esse ritmo de trabalho está me matando... Help me, please!!!!!   O.o