Eu,
Tonya
Eu fui ver esse filme com uma
expectativa: vai ser mais um filme de “atleta” com alguma dificuldade a ser
superada. Porém, não lembrava do “bafo” que envolvia Tonya Harding e a sua
rival Nancy Kerrigan. Para quem não se lembra, assim como eu, as duas
protagonizaram um escândalo na patinação. O marido de Tonya, planejou um ato
imbecil: eliminar Nancy da competição quebrando seu joelho. Isso antes das
Olimpíadas de 1993-1994. Nancy consegue se recuperar a tempo e ainda conquista
a medalha de prata e Tonya fica em 8º lugar.
Pela obsessão dos americanos por vitória talvez o óbvio era contar a história de Nancy. Contudo não há como
negar que, como personagem, Tonya é a melhor. O filme começa com as cartas
expostas: “foi tudo baseado nos depoimentos e entrevistas dos envolvidos no
caso” e que “esses depoimentos são totalmente contraditórios”. Com isso já
colocado o roteiro, com muito sarcásmo, vai desenrolando a vida nada fácil de
Tonya. Com uma mãe fria, dura e sádica começa os treinos de patinação aos 4
anos. E começa a ganhar seus primeiros prêmios. Aos 15 conhece seu futuro
marido que a espancava. Era inegável o talento para a patinação de Tonya como
era inegável o talento para estar num furacão emocional que a desestabilizava
sempre. Para suavizar a densidade da vida da protagonista e gerar dúvida sobre
os fatos o roteiro, deliciosamente, acerta em certos momentos ao quebrar a
quarta parede.
“Quebrar a quarta
parede” é um recurso cênico
que consiste em algum personagem falar diretamente ao público gerando uma
quebra de uma possível alienação que a obra tenha causado ou aquele
esquecimento de que se está diante de um filme, no caso. Isso é um recurso
perigoso em cinema. Bem usado deixa a obra mais instigante. E como foi bem
usado esse recurso aqui, pois nos leva a entender que nem os roteiristas sabem
direito se os depoimentos ali são confiáveis. Temos que lembrar que a obra foi
baseada em um crime que deixou mais pontos cegos que o normal. Até hoje não se
sabe ao certo o real envolvimento de Tonya, que alega não saber de nada. Outro
ponto interessante da história é a imbecilidade dos envolvidos no atentado
contra Nancy. Foi algo tão ridículo que chega a ser difícil de acreditar nas
patetadas que se sucederam.
É difícil tratar de um tema tão
pesado de uma maneira cômica. Tonya é agredida, emocional e fisicamente, o
tempo todo por seu marido Jeff Gilloly e por sua, mãe, LaVona Harding
emocionalmente. Tonya é magistralmente interpretada por Margot Robbie que já
possui outra personagem forte vítima de abuso, para quem não lembra ela foi a
Arlequina em “Esquadrão Suicida”. Jeff é interpretado pelo “Soldado Invernal”
Sebastian Stan. Mas o show de dramaturgia está em LaVona.
Só com esse nome
percebemos que a personagem é diferente e merece atenção. Allison Janney dá
vida a LaVona Harding. Essa atriz fez a série “Mom”, uma série cômica onde se vê muito de LaVona, com a diferença da mãe da série ser “amigona” apesar do egoísmo e inconsequência. Aqui
Janney pesa a mão ao levar a personagem para a caricatura de si mesma, em
outros papéis, de uma forma mais densa e
dramática. É uma megera que todos queremos longe, é aquela vilã de filme que
todos adoram odiar.
Em momento algum LaVona se mostra amorosa ou digna de pena.
Ela é assim por sua natureza, tem consciência disso e assume que foi uma mãe
terrível. Não ri, não parece satisfeita com nada, força sua filha ao máximo em
tudo da pior maneira possível. Desdenha, humilha, obriga a fazer as coisas
contra a vontade, é inconveniente, é amarga, é absurda, é “fantástica”. É
incrível uma personagem como esta.
E olha que Robbie não é ofuscada por Janney.
Estão em pé de igualdade, pois ambas dão o máximo em suas atuações. E dá certo,
o resultado é muito bom. Pena saber que tudo é baseado em fatos reais. Pois a
vida de Tonya não foi fácil apesar de o filme ser delicioso de assistir...
