Esses dias não tive muita vontade de assistir nenhum filme, a não ser o curta-metragem musical Equilibrivm II. Eu li, então segue a resenha.
Eu lembro quando começou o burburinho em torno desse livro. Foi justamente quando eu comecei a parar com minhas leituras. Logicamente eu estava iniciando um processo que culminou com a deterioração de minha saúde mental. Que referência não é? Seria gratuita se esse livro também não estivesse presente nesse atual momento que ando retomando o controle do que eu tinha perdido.
Eu desde 2023 tento me aprumar e voltar aos eixos mentais mais equilibrados, contudo tive uma perda significativa no ano seguinte e passei um tempo grande tentando sair desse processo de luto. E ano passado que eu consegui realmente taterar para fora dessa avalanche emocional. Não é fácil e eu mesmo mal conseguia ler. Não era só ter vontade, eu não conseguia mesmo. Então, usei o que eu conseguia e gostava, um livreto, uma matéria sobre isso e aquilo, muitas séries e filmes e principalmetne eu escrevi. E no começo desse ano eu consegui retomar a leitura. Comecei com Cabeça de Santo e levei seis meses para concluir. Foi muito tempo mesmo com um livro que é bem curto. E ao mesmo tempo tentei ler outras coisas como Annie Ernaux, Os Anos, e acho que li errado, não senti tudo isso que todo mundo tá falando, porém, falta concluir então aguardem um pouco mais. Também li um bom tanto de O Fim, de Édouard Louis, e como se dizia entre uns amigos "Ele é branco, né! E só." Vou ler com mais calma os dois e com calma eu um dia escrevo uma resenha. Em função do filme que ia lançar em junho corri tentar ler o romance adolescente Quinze Dias do Vitor Martins. Eu desisti de ler na metade e não quis ver o filme. Entendam, todos esses livros são muito bem escritos e cada a um a seu modo referência em suas áreas. Contudo os enredos e desenvolvimentos não me agradaram. O personagem principal deste ultimo é um garoto bem neurótico, e não ajudou muito o ator que faz ele no filme emular demais o Paulo Gustavo. Sem julgamentos, mas já julgando, não é para mim nesse momento. Com calma, em outro momento, aquilo que já falei ali em cima.
Torto Arado tinha me chamado atenção pela crítica favorável, ganhar prêmios e tudo o mais. Contudo, o que me fez lê-lo foi saber de um fato, o livro tem um Encantado como personagem. Eu soube dos Encantados há muito tempo atrás nas minhas pesquisas aleatórias que faço por curiosidade no Google. Essa pesquisa me levou um dia a um blog que falava de umas plantas pelo norte do país que possuiam seres que se despertados da forma certa poderiam proteger a casa e seus moradores. Esses seres enram Encantados, que não se limitavam às crenças nortistas, havia relatos da existência deles em toda região norte e nordeste e até centro oeste. Eles seriam criaturas místicas protetora e moradoras de regiões com alguma energia ligada ao lugar como matas, cavernas, rios e etc. A cultura popular conta algumas histórias através de lendas que chegam até nós como, por exemplo, a Caipora que seria um Encantado da mata.
A história de Torto Arado é bem gostosa e com escrita fluida simples, porém, é acadêmica até certo ponto. Representa a vivência de pessoas simples e pobres, mas é claramente escrita por quem domina a gramática e o bem escrever e pesquisou ou conhece bem o assunto. Comento isso por ler uns críticos dizendo que as pessoas simples do livro não falam igual às pessoas na vida real. Eu acho que ninguém nos livros fala igual ao jeito do mundo real. Uma coisa é a realidade e a linguagem oral outra é a escrita e a literatura.
São três partes que dão um ponto de vista de um personagem por vez. Em Fio de Corte, primeira parte, temos a infância e juventude das duas irmãs que vivem em uma fazenda que remonta a tempos da escravidão. Eles não sabem que são quilombolas no início. O livro constrói justamente essa percepção. São descendentes de escravos que foram trabalhar nas jazidas de diamantes no região baiana próxima da Chapada Diamantina e foram ficando pelas terras. Aqui acontece um acidente que explicita os mistérios da trama que serão elucidados no decorrer do restante do livro. Bibiana e Belonísia, ainda crianças, se deparam com uma faca misteriosa escondida pela avó e acabam incorrendo em um acidente que decepa a língua de Belonísia. E também vemos a relação das irmãs se fortalecedo e depois se desatanto feito laço devido o amor que aparece na vida de uma delas. O ponto de vista aqui é pelas percepções de Bibiana.
Em Torto Arado, a segunda parte, a percepção é agora é pela Belonísia que não fala, mas sente o mundo dentro de si. Ela conta o que aconteceu com a irmã e depois vai relatando sua difícil vida. E como sua vida é totalmente ligada àquela terra. Como já fomos introduzidos no começo, aqui continua a mostrar um pouco de como é a relação da religião que seu pai é um sacerdote, o Jarê. Parece muito uma umbanda mais sertaneja, sem a influência e pasteiurização que houve no Sudeste e Sul. O livro não explica muito como funcionava. Sabemos que surgiu entre os pretos escravizados e foi se passando de geração em geração. E aqui ficamos sabendo o motivo do livro ser chamado de Torto Arado. É uma metáfora bem forte na história. Dura e condizente com a vida de uma das personagens.
E por fim, temos Rio de Sangue, com nossa estrelinha e alminha penada sensata Santa Rita Pescadeira. Eu amei essa personagem. Ela já aparece antes em uma reunião do Jarê na casa do pai da Belonísia, bem espevitada, mas é só mais uma que está lá. E nesse capítulo vemos a que veio. Já vou por ela no meu altarzinho mental de personagens queridos da literatura brasileira.
Eu li uns críticos que falavam coisas eu eu só entendi isso, "Ain, eu sou um branco escroto de classe média que acha que esse livro não fala de pobre, pois o que eu idealizo ou me nego a saber de pobre é o que importa", mas eu gostei de um absurdo de alguém que postou por aí "Livro ruim, só fala de ideologia de esquerda." E é isso. Eu gostei muito do livro, e ao contrário dos que citei acima, eu gostei muito da história. A segunda parte me aborreceu um pouco, é a parte mais longa e acabou sendo um pouco mais explicativa em questões de "esquerda", afinal quem liga para descendentes de escravos que estão se articulando diante de seus direitos sobre a terra que é de propriedade de um homem branco digno, do lar, cristão e rico herdeiro por natureza direto da coroa portuguesa? Só deixando claro: estou sendo irônico. Quem liga para esses temas não é mesmo? Vou parar por aqui senão começo a escrever o que não deveria.
Estou escolhendo a próxima leitura que precisa ser tão forte e bela como essa. Precisamos de autores como o Itamar Vieria Junior. que escrevam de costumes e grupos há tanto tempo invisibilizados pela cultura dominante branca do país. É uma luta constante e necessária e ter literatua boa sobre isso é maravilhoso. Valei-me Santa Rita Pescadeira!
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