quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Projeto: A Cidade Amaldiçoada - II - O Despertar (3)





Era uma casa simples, de uma água só. porém do lado direito tinha um espaço onde uma área grande comportava dois carros estacionados um na frente do outro. Havia um coberto com uma capa própria de automóvel que eu não via há anos que devia estar protegendo a preciosidade máxima de meu avô, um Del Rey azul metálico que ele comprou de segunda mão em 1991. 

- Fiz um negócião!

Entrou um dia eufórico explicando para meu pai todos os passos da compra. Eu já achava aquele carro um trambolho na época. Como era um desejo dele fiquei feliz por ele. Era difícil vê-lo daquele jeito. E agora, devia ser um trambolho e um ferro velho. Depois veria a situação dele. Não que eu entendesse de carro. Era só curiosidade saudosa.  Quase enconstado na sua traseira via-se um Pálio, um dos últimos, prata sem graça e judiado. Minha mãe não era uma motorista cuidadosa. E pelo que ela dizia o carro tinha que ser funcional e não dar problemas. 

Essa área formava um L para a frente onde se via uma porta-janela de correr que a fechadura ficava no meio e ela abria para os dois lados. Vi coisas ali quando cheguei e reconhecia como uma mistura das minhas com as de minha avó e da minha mãe. E entendi que ficaria ali devido uma cama no canto o posto de onde entrava colada na parede. 

- Coloca suas coisas aqui que a gente fecha essa porta e usa o fundo para te dar privacidade. - Disse minha mãe me acomodando numa cama que já estava ali pronta. Empurrando umas caixas para passar continuou - Eu esqueci de arrumar uma cortina. Seu avô andou dando trabalho, amanhã arrumamos isso. Pensei em tapar com lençol mesmo por hoje. Depois pego uns velhos lá no meu quarto. Você é mais alto que eu e alcaça lá em cima. 

Eu aguardei uma explicação sobre o que havia acontecido com a casa de meus avós e a casa dela, apesar de suspeitar. E não veio naquele momento. Minha mãe se despedia do motorista agradecendo e oferecendo o banheiro. O que ele aceitou prontamente. saiu por um corredor que dava para a entrada do banheiro entre dois quartos. Escutei um "Ôh, Seu Antônio, espera aí que tô apertado  eu já vou aí já!" E a porta bateu. Eu não escutei o que meu avô pode ter falado. Só escutava um ruido assustadoramente familiar de algum equipamento. 

Esperei o motorista, que se chamava Gerson sair do banheiro fazer um comprimento animado e alto que ecoava pelo corredor. 

- O senhor está melhor?- Eu realemnte não escutava as respostas do meu avô. - O moleque tá aí já, Seu Antônio. Daqui a pouco ele aparece. Tá descarregando as malas. 

Não tinha muita mala não. Só uma que estava comigo e coloquei em cima da cama. 

- Vai lá ver seu avô - disse minha mãe segurando meu braço. - Ele não para de querer saber de você desde que ele saiu do hospital. 

- Faz tempo que ele saiu? 

- Mais ou menos na época que você despertou também. 

Minha mãe parou. Sem palavras e apertenado os labios numa expressão que era característica sua. Parecia querer segurar dentro de si tudo. Às vezes a pressão era tão grande que embranquecia os lábios e soltava essa tensão com um suspiro profundo. 

O Gerson deu uma espalhafatosa despedida ao meu avô dizendo que ia por o nome dele em algum lugar e  veio na nossa direção dando uma esbugalhada nos olhos e levantando as sobrancelha 

- Ele está querento te ver, Sônia, e eu já vou indo. Agradeço o banheiro viu, posso dar uma palavrinha com seu filho no particular? 

- Ah claro, Gerson, eu que agradeço. Eu preciso falar com a Tica também- e apontou para a direção oposta. 

E vi a Tica lá no fundo do corredor vindo de onde parecia ser uma cozinha dando um oi. Depois eu a cumprimentaria com mais tranquilidade. Minha mãe foi em sua direção e eu acompanhei o Gerson até o portão. Fiquei no limirar entre a fim da estreita área e o portãozinho do muro baixo diante do portão de grade aberto. 

- Deixa eu te falar, eu participo de um grupo espírita aqui da cidade, acho que você não se lembra disso,  se quiser passar lá para conversar, acho que vai ser de grande valia. E se quiser um passe, sempre é bom. Tem hoje, mas você deve estar cansado. Toda semana de quinta-feira às 19h. Temos umas ações em outros dias também, só para participantes mais assíduos. 

- Ah, sim - Disse sem muito ânimo, mas seguindo a tradição de concordar sem contrariar gentilmente. 

- Mas vai mesmo! Bom, vou indo e espero te ver lá um dia desses. Qualquer coisa me fala.

- Vou sim pode deixar. - Resposta padrão para dizer que não ia, e o importante, sem contrariar. Assim que ele saiu com o carro entrei e fui ver meu avô. 

Nada me preparou para o sentimento que tive ao entrar em seu quarto. E olha que tinha ficado muito tempo num hospital vendo pessoas se recuperando. Entrando no quarto já fui falando

  - Lincença, vô, como o senhor está?

Tentei não demonstrar nada, só sentei numa cadeira que estava do lado dele. Estava envelhedido demais, o tempo na UTI me judiou, mas a ele judiou mais ainda. Ele já era um homem magro quando tinha partido para estudar fora e agora estava esquelético e com uma cor amarelada, usava um respirador. Por isso não ouvia o que falava, ofegava muito e falava baixo e dessa vez eu consegui entender debaixo daquele equipamento de onde vinha o som que tinha reconhecido antes. 

  - Meu "fio", que bom te ver. Tá magro, mas tá bonito. - estendeu os braços para mim num gesto que eu conhecia de quando era criança - O vô tá só o pó da rabiola, "fio", só o pó da rabiola.

Eu tentei segurar o choro, tentei mesmo. 

- Está um pouco magro vô, mas logo já está bom para jogar bola de novo. - Era algo que ele adorava, mas que eu lembrasse ele não jogava desde antes de eu me entender por gente. 

- Desculpa não poder ir lá te ver. - disse ele se justificando sem precisar - Sua avó ficou doente no começo dessa desgraceira toda. Aí seu pai também ficou doente e eu e sua mãe ficamos cuidando deles. - Deu uma longa pausa e olhou bem nos meus olhos - Aí a vó foi "fio", a vó foi embora, não durou um mês. Ela sempre foi fraquinha, tinha bronquite. 

- Eu sei vô, eu não vi, eu não vi nada. - E eu chorei. Ali eu chorei de soluçar. Aquele barulho de respiração difícil, o som do oxigênio tão presente perto de mim umas semanas atrás. - Eu que peço desculpas por não estar aqui com vocês.

- A vacina só veio depois, "fio", ela já tinha ido. E quem ficou doente fui eu, quase fui também. 

Via a tristeza nos olhos fundos dele porém ele não chorava. Parecia que as lágrimas estavam secas. Contudo, com o tamanho do coração que ele sempre tivera, com certeza tinha sido para lá que as lágrimas escorreram. Dei um abraço meio desajeitado sentindo o quanto estava magro. 

- Tem que desculpar não, "fio". Eu sarei e você sarou e agora você tá aqui um pouco magro, eu tô também, a gente agora vai engordar junto. Pedi para sua mãe comprar uma carninha para a gente comemorar, acho que vai ser no domingo. Mas hoje a gente vai ter uma janta boa para comemorar sua volta, "fio". 

- Churrasco vô? - me animei  com a ideia - Vai ter uma cervejinha?

- Tá bebendo agora? - meu avô se admirou com a informação, para ele eu era um molecote que só tomava refrigerante ainda - Sônia, o "fio" tá bebendo agora é?

Minha mãe que entrava no quarto foi calma ao responder.

- Seu neto é adulto, pai, ele bebe faz tempo. 

Percebi que meu avô ficou um instante confuso e logo se recuperou e continuamos conversando, era hora dele tomar seu lanche e minha mãe montou uma mesinha de dobrar rapidamente e a moça, Tica, que a ajudava, trouxe logo o restante das coisas. Fiquei um pouco mais com ele conversando e logo depois fui arrumar meu novo quarto deixando ele descansar. Eu ia ficar naquela sala, pois os dois únicos quartos estavam um com minha mãe e outro com meu avô. Eu pelo que entendi, depois conversando com minha mãe, ela vendeu as duas casas para poder ajudar com os gastos do tratamento de nós todos. Me senti muito culpado por isso. Contudo ela me tranquilizou informando que não vivíamos de aluguel. Aquela casa era nossa, estava alugada e coincidentemente a inquilina tinha devolvido e voltado para Manaus dar apoio à família quando o sistema de saúde de lá  colapsara e vários de seus parentes ficaram doentes na Pandemia. E havia mais duas casas alugadas. Ela só vendeu as que valiam mais e davam mais trabalho, segundo seus próprios critérios.

Como meu avô tinha dito havia um Bauru de presunto e queijo que eu amava e frango assado que lele gostava e conseguia comer melhor sem lhe causar mal. Eu ainda não estava totalmente bem para comer e mesmo assim fiquei estufado de dois peços grandes. Quando fui dormir, arrumamos uma gambiarra para quebrar a claridade da rua que passava pela porta de correr quer era de vidro canelado transparente. O poste da quadra fustigava de luz o quarto improvisado. Enquanto segurava o lençol para me ajudar a prender nas frestas da porta minha mãe me disse:

- Se colar jornal no vidro só para hoje?

- E tem jornal aí? - eu brigava com o pano e perdia, pois ela insistia em não ficar preso no lugar que eu teimava em prender - Existe jornal ainda?

- Ah, nem sei se tem jornal, a banca que tinha no centro não tem mais. Ou tem? Nem lembro. 

Por fim, depois de socar um calço feito de papel dobrado várias vezes em si mesmo aqui e ali e prender com cuidado eu consegui deixar o tecido tapando a grande porta-janela. Era uma gambiarra que iria servir. O horário passou e eu mal tinha arrumado as roupas que trouxe. Minha mãe tinha trazido tudo do meu apartamento  encaixotado  e empilhado numa porção que formava uma mureta insólita fora do caminho. Amanhã teria que ir atrás da cortina, de um guarda-roupas e arrumar aquele cômodo para ficar um pouco habitável. Olhei para os pés da cama que dava para acesso ao corredor e pensei:

"Por uma porta sanfonada aí, mas é tão feia!"

Tomei os remédios que que precisava e dentre eles o de domir que estava usando só quando achava necessário. Era leve o suficiente para não ficar entorpecido e grogue e eficiente para ajudar  a cair no sono mesmo com aqula luminosidade toda. Fiquei menos de cinco minutos virando de um lado para o outro até escolher a melhor posição que coincidiu ser o que  ficaria olhando para a gambiarra pendurada. Resonvi virar as costas e ficar virado na parede naquela noite. Dormi.

Em algum momento da madrugada eu abri os olhos, sem sono algum  e vi a silhueta escura de uma pessoa de parruda parada do lado de fora. 

 




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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Snoopy Apresenta - Não Há Nada Como a Nossa Casa, Snoopy





A Apple TV nos presenteou com meia hora de nostalgia alinhada às minhas  memórias afetivas. Eu amo o Snoopy, uma de minhas lembranças mais antigas de algo sendo comprado para mim foi justamente um livreto com desenhos de vários personagens do universo dele. Havia umas bolinhas no meio dos traços para fazer uma aquarela. Um pincel de plástico vinha junto para passar na água e ativar a aquarela no desenho. Eu odiei, pois eu queria algo bem colorido, e a aquarela era tão diluida que ficava uma lembrança de cor no papel. Isso foi em um passeio que fiz para outra cidade com minha mãe quanto eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ao chegar em casa, peguei meus lápis de cor e soquei pigmentação naquela bosta pálida. 

A grande santíssima trindade de minha primeira infância era constituida pelo já citado Snoopy, Garfield e Turma da Mônica.  Eu tive os mais diversos produtos dessas três franquias e, se boberar, eu ainda compro algo deles. Eu até hoje leio o que aparece de tirinhas ou mesmo histórias completas. E os desenhos que lançam assisto como e quando posso. Só o filme do Garfield que não gostei tanto. E quando lia jornais físicos, na parte de cultura, eu adorava as tirinhas. E eu me lembro, com carinho e dor ainda hoje, por ocasião do falecimento do Charles M. Schulz, a homenagem do Jim Davis em suas tirinhas, era o Garfield diante da casinha vermelha vazia dando um suspiro. Foi de encher os olhos de lágrimas. 

E é interessante que em Não Há Nada Como a Nossa Casa, Snoopy a casinha vermelha é retomada como simbolo da própria alegria de Snoopy. Sally, irmã de Charlie Brown, decide fazer aquelas vendas de quintal que estadunidense adora e no meio da confusão a casinha é vendida. E, para consolar o seu bichinho de estimação angustiado e triste pelo sumiço de seu aconchego, Charlie vai comprar uma casinha nova. E lógico que não acham uma adequada aos gostos e necessidades do caprichoso cachorrinho que tanto amamos e resolvem procurar a casa original. E descobrem o óbivio, a casa física é uma coisa e o que importa é a pessoa que carrega todas as boas lembranças dentro de si. 

Parece até uma propaganda do governo de lá, já que as coisas estão piorando a ponto de muita gente não ter certeza, ou persperctiva nenhuma, da segurança de um teto sobre a cabeça e até mesmo um prato diário de comida quente em mãos nos próximos anos. O que é bem assustador para o país das oportunidades. Faça a América grande de novo! Olha, estão fazendo. 

Não que aqui esteja as mil maravilhas, mas somos um país diferente, graças a Deus, que por sinal, dizem ser brasileiro. Eu até defenderia a tese do Snoopy ser um cãozinho brasileiro, contudo, se for analizar ele foi o coadjuvante que brilhou mais que o personagem principal. Quem era o "dono" das historinhas era o Charlie Brown e ele realmente não tem como ser brasileiro. Ele é o símbolo da inadequação infantil. Por mais que simpatizasse com ele, eu não me identificava com seu jeito. Só com o fato dele ser uma criança como eu que gostava de cachorro. Dava um pouco de pena dele.  Por mais que vendam esse modelo aos brasileiros ainda não descolamos da imagem do garoto/garota serelepe. Talvez só em centros urbanos maiores as crianças sofram um pouco por viverem em apartamentos e ter pouca ou nenhuma rua segura para brincar. 

Eu gostei que o desenho tem uma textura que deixa mais agradável visualizar a imagem. Não é uma cor chapada. Há um esmero em atingir a sensação do clássico de 1965, O Natal de Charlie Brown. E isso faz muita diferença. É uma história redondinha que não foge da essência dos personagens. E isso, reproduzir algo sem o seu criador por perto, é o que esperamos, por nossas memórias afetivas e pelo respeito por sua obra que tanto amamos. 

sábado, 1 de agosto de 2026

Projeto: A Cidade Amaldiçoada - II - O Despertar (2)




Na semana seguinte a fisioterapeuta, compadecida, levou bala de coco para mim. A minha língua que estava estragada com o fel dos remédios regozijou naquele torrão de puro açúcar como um anjo degustaria seu pão do céu. E como em todos os momentos como aqueles eu realmente me sentia agradecido por estar recuperando a normalidade.  É engraçado como minha cabeça funciona. Eu, até aquele momento da sessão anterior, sequer lembrava de bala de coco. Realmente não tem sentido eu fazer uma comparação entre mim e aquele puxa-puxa da bala. Principalmente, como eu já disse antes, eu me lembrar de pouca coisa da minha infância. Contudo algo puxa um gatilho que me leva a uma lembrança perdida. E como estou escrevendo para investigar minhas memórias, por menores e menos importante que sejam elas podem me ajudar a compor algo que eu tenha deixado passar. E, pelo pouco que sei da psicanálise, nunca fiz, contudo li uns textos sobre o tema,  o solo da infância é terreno fértil para se entender o presente. Algo assim. 

Algumas semanas depois daquele quitute eu recebi alta e fui para casa no interior. Por ficar tanto tempo acamado, minha família no Lockdown rescindiu o contrato do apartamento que morava, encaixotou meus livros, e objetos de uso pessoal e os móveis maiores desfizeram-se deles. Acho que venderam. Tudo isso já  sabendo que seria necessária uma longa temporada de recuperação e em família seria tranquilo. Antes fosse. 

Levaram tudo o que tinha numa caminhonete alugada meses antes. Fiquei aliviado que naquela época não tinha nada comprometedor nas minhas coisas. Seria muito constrangedor se minha mãe achasse algo. Apesar que eu já estava com a idade de não me importar com isso. No fundo estava só preocupado com meus livros e meu laptop. Este sim tinha um conteúdo inapropriado para uma senhora da idade dela. Eu fui de carro, também alugado na cidade mesmo com um motorista de taxi. Nessa volta fiquei no banco da frente, sem querer conversar muito. Eu imagino que o motorista tenha conversado muito na vinda com minha mãe, pareciam não ter mais assunto ou só estavam me poupando. Saímos do hospital já no meio da manhã e seria uma viagem de cerca de cinco horas e meia se a Marginal Tietê estivesse sem congestionamento quando passássemos por lá. Estava feliz de sair daquele hospital barulhento e cheio de gente. Quando comentei sobre isso minha mãe se espantou:

- Achei tão calmo. A recepção era um pouco cheia dependendo do dia, mas o povo não fazia muito barulho não - Olhou para os prédios que que se intercalavam de tamanho, cores e formas - A ala das crianças era um pouco cheia de choro, mas acho que você não ia lá. 

- Nossa mãe - Eu incrédulo tentando falar sem olhar para trás, ainda tinha umas limitações na movimentação - Tinha madrugada que era tanta gente falando naquela enfermaria que eu acordava. E não parava de ver gente pasando pela porta do quarto. 

- Devia ser os enfermeiros e médicos - minha mãe olhou para mim e rapidamente desviou os olhos cobiçosa para uma loja com móveis expostos que passávamos do lado - E tem o pessoal da limpeza que não para. E ali onde você ficou é um dos maiores hospitais da cidade. É estranho ter tanto barulho num hospital. Nas noites que fiquei ali era bem silencioso. 

Minha mãe tinha sido enfermeira até se aposentar com pouco mais de cinquenta anos. 

- Teve uma vez que eu acordei com uma enfermeira me encarando  - recordei do momento que já estava em recuperação sem tomar remédios muito fortes - Levei um susto.

- Ela foi dar alguma medicação com certeza.

- Ela não falou nada, quando perguntei o que ela queria ela saiu e não emitiu som. Não vi mais ela e esqueci de perguntar para as enfermeiras quem era depois. 

- Ela não voltou outro dia - minha mãe insistiu - e você não viu por estar dormindo. Também podia ser uma paciente perdida.

- É possível - conjecturei - Que medo se é uma doida e faz algo?  

O motorista do carro quebrou o silêncio mudando de assunto de forma educada explicando onde faríamos alguma parada para comer e se necessário  para usar o banheiro. Já estávamos na Marginal naquele momento. Minha mãe até tentou retomar o assunto. Só que eu não quis sustentar. Logo eu estava virando a cabeça e cochilando. Só voltei acordar na primeira parada onde almoçamos. E logo continuamos e paramos mais uma vez, pois a bexiga da minha mãe não estava armazenando com mais eficiência os líquidos como antes e parece que a do motorista também. 

Em algum momento chegamos na Rodovia Washington Luíz e era um retão só que acentuava mais ainda meu sono. Nem vi quando entrou pela vicinal que passava na entrada principal da cidade São Lourenço do Rio das Pedras. De boa parte da estrada não se via a cidade de longe, mesmo dando a sensação de estar descendo para algum lugar. Meia hora depois, como era dia, se enxergava umas construções esparramadas por loteamentos começados e umas casas de sítio remanescentes. E no nível da estrada o que parecia ser o limite da cidade ao  lado, se olhasse melhor, ia perceber que em relação ao asfalto da via a cidade começava a afundar numa depressão natural, não chegava ser um vale, mas uma baixada do rio que acomodava a cidade. O próprio rio parecia uma cicatriz irregular de fora a fora o município. 

"Um verdadeiro buraco!" Pensei com amargura. 

Eu percebi que de onde estava se via uma cortina do que parecia uma poeira envolvendo a depressão que a cidade se encontrava. Não chegava a formar uma redoma. Também havia uma núvem de chuva carregada do outro lado bem escura. Parecia que ia desabar uma tempestade em algum momento. 

- Que poeirão! 

E realmente o vento começou a açoitar a lateral do carro e fazer muito barulho nas frestas que deixamos no vidro do carro. Logo subimos os vidros vedando o carro do som alto. 

- Não é poeira - rompeu o motorista. 

- É o quê? - perguntei tentando olhar melhor o céu com meu pescoço duro de ter pescado tanto por causa do sono. Tive torcicolo no dia seguinte. 

- É alguma coisa daqui, pois toda vez que o tempo muda, não importa o clima que seja, isso aparece, e só dá para ver desse ponto. Como viajo muito eu percebi isso faz tempo. E conversei com outros motoristas que falaram a mesma coisa. 

- Que estranho - disse minha mãe atrás - eu não estou vendo nada. 

- Faz muito tempo que tem isso. De moleque quando eu viajava com meu pai eu já existia. Deve ser alguma coisa meterológica, a posição que a cidade está. Aqui é mais seco sempre. Ajuda a levantar a terra que vira um pó fino.

Eu meio intrigado por nunca ter notado nas vezes que fiz o caminho, poucas vezes por sinal: 

- Se eu lembrar eu pesquiso depois na internet, não conheço esse fenômeno.  

E o trevo da cidade apareceu à distânica de uns quilômetros e logo entramos e o motorista fez o percurso da rua principal que tanto conhecia passando em frente da igreja martriz e seu largo. Contudo, ao invés de virar à esquerda três quadras passadas da praça da matriz ele continuou reto bem mais para cima e virou à direita na avenida do cemitério e desceu até cinco quadras antes de chegar no velório e parou na frente de uma casa que eu não conhecia. 

  





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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Leviticus



Eu odeio filmes de terror. Dito isso, eu odeio hipocrisia religiosa cristã. Dito isso, que conveniente que no Brasil, assolapado por um horda de pessoas com Bíblias na mão e com cadeiras cativas por votos questionáveis no congresso e grupos religiosos despejando seu jorro fétido de ódio gratuito à minorias, principalmente os LGBTQIAPN+, não tenha conseguido distribuição para passar nos cinemas. 

Quem tem amigo tem poder de quebrar barreiras de dificuldades, o que é basicamente a mensagem do filme. Eu tenho uns amigos pelo mundo e obviamente eles me contaram como a história é. Então, translitero o que me disseram a respeito. Afinal, NÃO TEM COMO ASSISTIR NO BRASIL, dito isso, todo mundo vai dar seu jeito. Bem sabemos. 

Dito isso tudo acima, segundo meus amigos que moram por aí, o filme é M-A-R-A-V-I-L-H-O-SO! Correndo riscos de entregar um ou outro spoilers, vou realmente tentar não fazer, vemos um jovem que está descobrindo o que é o amor com um colega da escola. Se fosse um casal heterossexual o filme iria para outra seara. Contudo, magistralmente, o diretor Adrian Chiarella transforma tudo o que se sucede em um terror tenso e, contrariando o estilo, otimista. Não estou defendendo finais felizes em Terror, defento finais coerentes com o restante que foi passado. Depois que o Brian De Palma fez aquele final demoníaco em Carrie de 1976 todo mundo soca um fim trágico em tudo. Tem morte em fim de filme que não faz sentido.  O filme ser de roteirista e diretor australiano ajudou muito no desenrolar do que acontece no filme. A Austrália ser do Hemisferio Sul só trás luz solar às produções. 

Foi simplificado por aqui que o filme seria sobre uma cura gay. Como disse acima, vemos dois jovens Naim (Joe Bird)  e Ryan (Stacy Clausen) começando os trelelês gostosos da juventude pouco depois de uma cena estranha de uma garota ser pega por alguém e aparentemente morta em um banheiro próximo a uma pscina. E descobrimos depois mais sobre isso. A mãe de Naim era de outra cidade e decidiu morar por aquele lugar para buscar paz. E ela acha que o filho tem que ter a mesma paz, e consequentemente salvação. E ele só quer viver a vida sem o peso da religião dizendo que o que ele faz é errado. Porém, ele pega seu interesse amoroso com outro garoto, filho do pastor onde sua mãe congrega, Hunter (Jeremy Blewitt) se agarrando no meio do quintal. E conta para o pastor. Isso faz os pais, preocupados com aquele pecado, chamarem um missionário que faz um ritual, na frente de toda a comunidade, de exorcismo. Contudo, ele não exorcisa nenhum demônio, ele atrai um demônio para o encalço dos jovens. E depois da morte um tanto estranha de Hunter, Naim é obrigado pela mãe a fazer o mesmo ritual. E lógico que o capeta do preconceito cristão contra gay vira a vida dele de ponta cabeça. É prudente eu parar de contar a história aqui para não entregar mais nada que não deva. 

Existe sim uma criação intensional de suspense com cenas de vivencias juvenis corriqueiras e suas descobertas. E esse medo que o grupo religioso coloca é bem trabalhado. Eu estou fazendo um curso de roteiro para entender melhor os filmes e séries que tanto gosto e vi uma construção consistente. E coisas que eu acharia falhas de roteiro anteriormente eu percebi que são escolhas para justamente causar o efeito desejado. Uma coisa é a falta de conhecimento básico que os personagens demonstram. Eu achava isso ruim e besta, mas é o contraste para mostrar que algumas coisas só o conhecimento consegue te livrar de certas situações, e num filme isso deve pelo menos demora até o fim para acontecer, se acontecer. E é interessante ao público se achar mais inteligente que os personagens, isso causa um efeito que ajuda na tensão da cena.

Como disse acima, digo, meus amigos gostaram muito do filme e é uma pena, coincidentemente, com um tema desses, não ter sido lançado por aqui. O que tenho certeza não vai ser problema para ninguém. 



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terça-feira, 28 de julho de 2026

Supergirl

 






Supergirl


Faz tempo que é preciso rever os filmes sobre heróis fantasiados e com capa. Eles dão certo em quadrinhos e em animações. No cinema a verossemilhança se perde e o encanto acaba caindo e o público fica um tanto deslocado. E temos uma categoria de fãs que é insuportável: o fandom. 

O que é um fandom? É a base de fãs que surgem em torno de alguma produção, livros, games, séries, filmes, HQs e etc. Quando a internet não estava tão entranhada em nossas vidas esse grupo amorfo em torno de um símbolo qualquer da cultura pop se organizava através de encontros e eventos sobre seus gostos específicos. Hoje, existem grupos articulados para destilar opiniões positivas e negativas em todos os lugares. E esses grupos, pelo menos alguns, não todos, são complicados. Entre pré-adolescentes, adolescentes, adultos e senhores de mais de 50 anos, todos se homogenizam numa disforme turba incontrolável de opiniões. E geralmente eles são racistas, misóginos, homofóbicos e empacotam tudo em uma capa de "é só o que eu penso."  

Geralmente eles adoram heróis homens sendo colocados com seus músculos através de um ator fetiche. Se o diretor do filme contribui para essa imagem idealizada melhor. Um exemplo foi o Henry Cavill com seu Superman todo testosteronizado a ponto de fazer as cuecas de vários homens se melarem conforme as lentes do Zack Snyder o erotizava mais ainda. Até hoje existem as "viúvas" do Cavill/Snyder que não dão trégua. 

Eles entre outras coisas não gostam muito de mulheres. A não ser que sejam hiperssexualizadas e sempre coadjuvantes. Talvez uma excessão tenha sido a Mulher-Maravilha. As demais, judiação. Coitada da Capitã Marvel. Junte a isso roteiristas e produtores que estão cagando para a história e temos os fiascos todos. Wanda precisou recorrer ao subterfúgio de virar série para televisão, o que teve uma ótima adaptação, e rendeu uma continuação de igual qualidade que foi a Agatha Desde Sempre. Não importa a qual universo pertençam mulheres sempre incomodam como titulares de filmes.

E veio a Supergirl que tentou emular os trejeitos do atual responsável das produções do Universo DC, James Gunn. Ele já iniciou seu controle e perspectiva com a série O Pacificador e o filme do Superman. Que um foi bem aceito e aclamado pelo fandom, o outro execrado, mesmo tendo boas críticas e ótima bilheteria. "Mas não era o Cavill nem o Snyder..." O luto continua. 

Com a garota super usaram todo o ódio que puderam para desmerecer a história. E realmente o roteiro é um pouco confuso e cheio de informações. A garota de aço vai para um lugar de sol vermelho para encher a cara e curtir a vida já que um sol amarelo não deixa os efeitos do álcool acontecerem. Ela leva o Kripto e, lógico que ela se envolve numa briga, o bicho é envenenado então ela resolve ajudar uma garota que iniciou o problema para salvar seu cachorro. Não era só levar para um lugar de sol amarelo? Toda vez que ela está mal ela faz isso com ela mesmo. E aí vira aquela jornada um tanto masculinizada de uma personagem feminina. E isso é proposital para tentar agradar o marmanjo que é fã. Parece uma versão um pouco genérica do que já foi feito em outros trabalhos do Gunn, só é o diretor Craig Gillespie, que fez o fantástico Eu, Tonya e o divertido Cruella entre outros, que assume o comando dessa obra. Então, capacidade tinha, parece que não teve autorização dos produtores. 

O Fandom chegou a falar que a atriz Milly Alcoock é feia, é ruim, não tem pegada de heroína, mas é aquilo né, famdom, eles queriam o Snyder na direção e o Cavill fazendo a Supergirl, só que como Superman. O grande problema do filme é na verdade, além do fandom, os produtores, que só cagam. Com heróis eles praticamente tem um monte de arcos de histórias prontos. Só executar e  mesmo assim erram. Uma curiosidade, es colocar no Google Supergil vai na página que mostra os atores e "principais notícias", e tem uma gracinha para os fãs, a patinha do Kripto na tela que muda conforme você passa o cursor e clica com uma música animada. É muita fofura kriptoniana. 

    Ah, tem o Momoa de Lobo. Eba!





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Projeto: A Cidade Amaldiçoada - II - O Despertar (1)




Eu lembro de ir na casa de um colega da escola após o almoço para brincar. Sua mãe fazia salgadinhos, doces e balas de coco para festas de aniversários. Eu nunca comia nada a não ser a bala. Geralmente eu não prestava atenção na feitura só sentindo o cheiro adocicado pelo ar e, de longe, em meio a qualquer brincadeira que fosse, eu via uma panela sendo levada para a mesa de pedra e seu conteúdo despejado e escutava sempre que nós nos aproximávamos:

- Cuidado que tá quente!

O aviso era contundente, pois pelo brilho de nossos olhos, se percebia que aquilo nos encantava. Era de início um líquido viscoso que logo ia encorpando e virando uma espécie de vídro de puro açúcar. Em algum momento aquilo ficava frio o suficiente para aquela mulher corpulenta pegá-lo com as mãos e a mágica acontecia. Ela colocava num grande parafuso que ficava na batente da porta num ângulo que não enroscava em ninguém acima da altura do ombro de alguém alto. O bolo daquela massa colocado enroscado ali e era puxado para baixo e se esticava  novamente, era ajuntado, enroscado e puxado sem parar várias vezes. A massa vítrea começava embranquecer e ficar totalmente opaca. Era um estica,  puxa, enrosca, estica, puxa e enrosca infinito. Até que ela já colocava na mesa e ia fazendo rum rolinho comprido com as mãos e roliço, feito meu dedo do meio, e cortava na porção própria para por no papel e embrulhar posteriormente. Agora, além dos olhos das crianças que estavam presentes brilharem a saliva quase escapava da boca de tanto que juntava. Ela percebendo, separava os feios que não servia tanto para embalar e nos dava. Ao colocar na língua ele esquentava e a saliva envolvia aquele cilindo branco e derretia quase que instantaneamente. Quanto maior a qualidade da bala e mais bem feita mais rápido derretia. Eu realmente mal sentia o gosto do coco, mas era gostoso mesmo assim. 

E como aquela bala eu estava sendo puxado e esticado para todos os lados possíveis. E sem um doce na boca que vivia amarga de remédios. Assim que acordei minha reabilitação começou. Exames e fisioterapia tomaram conta do estado semi-vegetativo de dorme e acorda sem uma consciência firme. Vendo minha cara de dor ao me fazer esticar a perna a fiseoterapeuta deu uma folga e disse que eu estava indo muito bem. 

Bala de coco! - disse meio desajeitado precisava também me recuperar de uma sequela por ter batido a cabeça em uma mureta quando fui arremessado por um carro que perdeu a direção ao tentar desviar de um caminhão que vinha em direção contrária. O motorista, fiquei sabendo, teve um mal súbto. Ele sobreviveu. Uma senhora que estava passando próximo não.  A fisioterapeuta me olhou curiosa tentando entender o contexto e expliquei que estava pensando em como as balas eram puxadas para ficarem na consitência que conhecemos. E eu me sentia  igual. 

- Nossa, faz tanto tempo que eu não como uma bala de coco, desde a faculdade. Uma garota de outra turma vendia. - Disse ela animada. Eu ainda não me comuniquei tão fluente e claro como ela. Eu tinha dificuldades motoras e a reabilitação era para isso. Todos os médicos estavam, aparentemente, otimistas com minha evolução. 

- Se você terminar o resto dos exercícios sem careta nenhuma eu tento arrumar umas balas de coco e trago na próxima sessão. - E já inciou outra série daqueles movimentos que eram dolorosíssimos. 

Eu resmunguei qualquer coisa e continuei nas caretas exagerando ainda mais. Ela só disse que daquele jeito não ia trazer nada. 

- Pelo menos... Eu... Não tô pedindo... Para parar! - disse com muita dificuldade. 

Deu um sorriso concordando e continuou seu trabalho. 

Eu não sei como faria se não fosse nosso sistema de saúde. Sei que muita gente reclama de demoras pontuais, contudo, ali dentro do hospital que estava, eu não tinha muito que reclamar. Talvez, se eu fosse muito chato, e sou, reclamaria do tanto de gente que entrava e saía. E convenhamos, fiquei sabendo umas semanas depois, quando já estava melhor para entender as coisas, que tínhamos saído de uma pandemia. O sistema só não colapsou pois as equipes de saúde fizeram o possível e o impossível para dar conta. As internações cresceram drasticamente, os doentes lotaram os Pronto-socorros, logo os leitos e por fim as UTIs. Eu, pela minha condição, já estava no hospital e não tenho ideia de como aconteceu. Muita coisa fiquei sabendo depois e a gravidade real só quando já estava fora do hospital em recuperação em casa. Somente nesse momento que vi o verdadeiro show de horrores que políticos cometeram diante de um desastre dessa proporção. Teve político das três esferas, federal, estadual e municiapal que se dividiram em negar tudo e em tentar resolver o máximo possível da demanda que aparecia. Principalmente por parte de quem era negacionista da situação de calamindade usando a desculpa de salvar a economia. A morte espreitou o mundo masssivamente por meses. A economia que esperasse. Epidemias que tinha estudado ou lido à respeito que ceifaram milhões de vida. Elas  pareciam tão distantes de minha realidade  nos livros. E agora, isso estava acontecendo de novo, e eu lá feito a princesa Aurora. O mundo com um dragão demoníaco feito de vírus e desinformação e eu "sonhando um sonho" Disney. Se bem que o que sonhava parecia mais um conturbado conto de fadas sem fadas. 

Como meu caso era grave, de início não se cogitou mudar para o hospital da cidade que minha família morava. Depois, quando a pandemia começou até levaram em consideração rever minha situação, contudo como as cidades do interior ainda estavam com menos casos relatados num primeiro momento,  achou-se melhor me deixar onde estava, principalmente por estarem entendendo como a doença evoluía naquele instante e se eu realmente corresse o risco de contrair. Claro que se contraísse, possivelmente eu já debilitado pelo acidente, não sobreviveria. 

- Seu guia é muito poderoso e forte - me disse uma vez uma enfermeira em tom confidencial como se contasse um segredo baixinho para ninguém ouvir - Ele está com você desde que você teve uma piora e quase te perdemos e nunca mais saiu do seu lado. Vai cuidar disso quando sair daqui, rapaz. 

Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer com o "Vai cuidar disso quando sair daqui, rapaz". Intuí que era para ir em um Centro Espírita para eles me ajudarem. Percebam que sou muito perspicaz, feito um jiló. Se fosse analisar naquela época eu não era religioso. Pelo contrário. Estava vivendo um conveniente ateísmo prático. Era católico de família, batizado à minha revelia, obrigado a frequentar a catequese e comungar aos domingos com a família toda que ia na missa por tradição. Eu, deixando bem frisado, por imposição. Crisma também fui, dessa vez motivado pelos meus amigos que fariam e, se eles estavam lá, teria bagunça e diversão. Não teve, e no dia do rito achei bem desagradável aquele dedão branco do bispo melecado de óleo na minha testa. Assim que saí da frente dele já limpei aquilo com a mão mesmo. E depois que saí da cidade para estudar fora nunca mais pus meus pés em uma igreja para qualquer coisa a não ser visitar por interesse histórico e artístico. 

O quadro era assustador o suficiente para eu ter que ir atrás de um lugar que lidava com espíritos. Claro que não ia. Sou brasileiro, e se algo dá medo nós vamos em direção oposta, é cultural. Costumo dizer que não existe terror no Brasil por isso. Bom, costumava dizer isso. 

O verdadeiro terror para mim já era o quadro que a pandemia tinha promovido no mundo. Contudo na minha família tinha causado um verdadeiro massacre: um primo, duas tias, minha avó e meu pai morreram. Meu avô estava com sequelas e minha mãe estava despedaçada por dentro e acabada por fora de tanto sofrimento que enfrentou. E eu, sendo um dos motivos desse sofrimento, sem poder dar qualquer apoio a ela. 









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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Resenha de Livro: Torto Arado - Itamar Vieria Junior




Esses dias não tive muita vontade de assistir nenhum filme, a não ser o curta-metragem musical Equilibrivm II. Eu li, então segue a resenha. 


        Eu lembro quando começou o burburinho em torno desse livro. Foi justamente quando eu comecei a parar com minhas leituras. Logicamente eu estava iniciando um processo que culminou com a deterioração de minha saúde mental. Que referência não é? Seria gratuita se esse livro também não estivesse presente nesse atual momento que ando retomando o controle do que eu tinha perdido. 

 Eu desde 2023 tento me aprumar e voltar aos eixos mentais mais equilibrados, contudo tive uma perda significativa no ano seguinte e passei um tempo grande tentando sair desse processo de luto. E ano passado que eu consegui realmente taterar para fora dessa avalanche emocional. Não é fácil e eu mesmo mal conseguia ler. Não era só ter vontade, eu não conseguia mesmo. Então, usei o que eu conseguia e gostava, um livreto, uma matéria sobre isso e aquilo, muitas séries e filmes e principalmetne eu escrevi. E no começo desse ano eu consegui retomar a leitura. Comecei com Cabeça de Santo e levei seis meses para concluir. Foi muito tempo mesmo com um livro que é bem curto. E ao mesmo tempo tentei ler outras coisas como Annie Ernaux, Os Anos, e acho que li errado, não senti tudo isso que todo mundo tá falando, porém,  falta concluir então aguardem um pouco mais. Também li um bom tanto de O Fim, de Édouard Louis, e como se dizia entre uns amigos "Ele é branco, né! E só." Vou ler com mais calma os dois e com calma eu um dia escrevo uma resenha. Em função do filme que ia lançar em junho corri tentar ler o romance adolescente Quinze Dias do Vitor Martins. Eu desisti de ler na metade e não quis ver o filme. Entendam, todos esses livros são muito bem escritos e cada a um a seu modo referência em suas  áreas. Contudo os enredos e desenvolvimentos não me agradaram. O personagem principal deste ultimo é um garoto bem neurótico, e não ajudou muito o ator que faz ele no filme emular demais o Paulo Gustavo. Sem julgamentos, mas já julgando, não é para mim nesse momento. Com calma, em outro momento, aquilo que já falei ali em cima. 

Torto Arado tinha me chamado atenção pela crítica favorável, ganhar prêmios e tudo o mais. Contudo, o que me fez lê-lo foi saber de um fato, o livro tem um Encantado como personagem. Eu soube dos Encantados há muito tempo atrás nas minhas pesquisas aleatórias que faço por curiosidade no Google. Essa pesquisa me levou um dia a um blog que falava de umas plantas pelo norte do país que possuiam seres que se despertados da forma certa poderiam proteger a casa e seus moradores. Esses seres enram Encantados, que não se limitavam às crenças nortistas, havia relatos da existência deles em toda região norte e nordeste e até centro oeste. Eles seriam criaturas místicas protetora e moradoras de regiões com  alguma energia ligada ao lugar como matas, cavernas, rios e etc. A cultura popular conta algumas histórias através de lendas que chegam até nós como, por exemplo, a Caipora que seria um Encantado da mata. 

A história de Torto Arado é bem gostosa e com escrita fluida simples, porém, é acadêmica até certo ponto. Representa a vivência de pessoas simples e pobres, mas é claramente escrita por quem domina a gramática e o bem escrever e pesquisou ou conhece bem o assunto. Comento isso por ler uns críticos dizendo que as pessoas simples do livro não falam igual às pessoas na vida real. Eu acho que ninguém nos livros fala igual ao jeito do mundo real. Uma coisa é a realidade e a linguagem oral  outra é a escrita e a literatura. 

São três partes que dão um ponto de vista de um personagem por vez. Em Fio de Corte, primeira parte,  temos a infância e juventude das duas irmãs que vivem em uma fazenda que remonta a tempos da escravidão. Eles não sabem que são quilombolas no início. O livro constrói justamente essa percepção. São descendentes de escravos que foram trabalhar nas jazidas de diamantes no região baiana próxima da Chapada Diamantina e foram ficando pelas terras. Aqui acontece um acidente que explicita os mistérios da trama que serão elucidados no decorrer do restante do livro. Bibiana e Belonísia, ainda crianças,  se deparam com uma faca misteriosa escondida pela avó e acabam incorrendo em um acidente que decepa a língua de Belonísia. E também vemos a relação das irmãs se fortalecedo e depois se desatanto feito laço devido o amor que aparece na vida de uma delas. O ponto de vista aqui é pelas percepções de Bibiana. 

  Em Torto Arado, a segunda parte,  a percepção é agora é pela Belonísia que não fala, mas sente o mundo dentro de si. Ela conta o que aconteceu com a irmã e depois vai relatando sua difícil vida. E como sua vida é totalmente ligada àquela terra. Como já fomos introduzidos no começo, aqui continua a mostrar um pouco de como é a relação da religião que seu pai é um sacerdote, o Jarê. Parece muito uma umbanda mais sertaneja, sem a influência e pasteiurização que houve no Sudeste e Sul. O livro não explica muito como funcionava. Sabemos que surgiu entre os pretos escravizados e foi se passando de geração em geração. E aqui ficamos sabendo o motivo do livro ser chamado de Torto Arado. É uma metáfora bem forte na história. Dura e condizente com a vida de uma das personagens. 

E por fim, temos Rio de Sangue, com nossa estrelinha e alminha penada sensata Santa Rita Pescadeira. Eu amei essa personagem. Ela já aparece antes em uma reunião do Jarê na casa do pai da Belonísia, bem espevitada, mas é só mais uma que está lá. E nesse capítulo vemos a que veio. Já vou por ela no meu altarzinho mental de personagens queridos da literatura brasileira. 

Eu li uns críticos que falavam coisas eu eu só entendi isso, "Ain, eu sou um branco escroto de classe média que acha que esse livro não fala de pobre, pois o que eu idealizo ou me nego a saber de pobre é o que importa", mas eu gostei de um absurdo de alguém que postou por aí "Livro ruim, só fala de ideologia de esquerda." E é isso. Eu gostei muito do livro, e ao contrário dos que citei acima, eu gostei muito da história. A segunda parte me aborreceu um pouco, é a parte mais longa e acabou sendo um pouco mais explicativa em questões de "esquerda", afinal quem liga para descendentes de escravos que estão se articulando diante de seus direitos sobre a terra que é de propriedade de um homem branco digno, do lar, cristão e rico herdeiro por natureza direto da coroa portuguesa? Só deixando claro: estou sendo irônico. Quem liga para esses temas não é mesmo? Vou parar por aqui senão começo a escrever o que não deveria. 

Estou escolhendo a próxima leitura que precisa ser tão forte e bela como essa. Precisamos de autores como o Itamar Vieria Junior. que escrevam de costumes e grupos há tanto tempo invisibilizados pela cultura dominante branca do país. É uma luta constante e necessária e ter literatua boa sobre isso é maravilhoso. Valei-me Santa Rita Pescadeira!  






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