Reza a lenda que o aclamado escritor de terror Stephen King escreveu It, A Coisa inspirado na história do assassino que essa série agora nos contempla. Gacy era um homem complexo e mostrava uma fachada comportamental simpática, gostava de se vestir de palhaço, o Pogo, e fazer apresentações para o público infantil, seja em aniverários, seja em hospitais e eventos beneficientes em Chicago. Tinha uma rede de amigos adultos com muita influência e de diversas classes sociais.
Eu assisto séries de casos reais com parcimônia. Nem todo caso eu tenho estômago, por mais que seja roteirizado e passar por um filtro ficcional, há um resquício ali impregnando a obra. Tanto que o marketing se faz valer disso para vender a produção. Contudo há formas e formas de fazer um assassino. Não vejo problema o Hannibal ser sedutor e carismático, afinal é ficção. Agora um Dahmer? Sendo que há vídeos do julgamento do cara que mostra a frieza e indiferença com todos e os produtores o fetichizam enquanto personagem, isso é complicado. Por isso que não assisto as coisas do Ryan Murphy sobre os assassinos que "ele" tem feito.
O Diabo Disfarçado: John Wayne Gacy mostra como ele era "bonzinho" sem o fetichizar. Isso acontece ele sendo um querido para a mãe que o foi visitar, ou antes mesmo, numa festa num clube da cidade que ele está tirando fotos de todos animadamente, e as senhoras dali o amam. Contudo, algo é mostrato que risca essa imagem, um comentário de alguém, algo dele mesmo aponta ou o clima reproduzido é feito para não gostarmos dele totalmente. Ele é o que é: um assassino frio que esconde-se numa fachada de boa pessoa. É interessante, em dado momento, uma garota dando o depoimento sobre o desaparecimento do colega de trabalho, o primeiro que deu margem para se iniciar a investigação com Gacy, que diz que ele era grosseiro com as meninas e muito simpático com os garotos. Isso chama atenção do investigador. Essa dicotomia que vai causando de início uma estranheza e escalonando para uma indignação sobre a loucura desse homem é representada muito bem. E a caracterização do Michel Chernus como esse abjeto assassino em série trabalha bem esses pontos, voz calma, simpatia polida em do nada, ele pesa o clima com um comentário que quebra essa fachada perfeita. E, por um lado é bom e gostei muito, mas é ruim também, pois nos deixa angustiados, a série já coloca no primeiro episódio como aconteceu a prisão dele. E depois os demais episódios vão destrinchando o julgamento que chamou muita atenção na época e, de cortar o coração, a vida de algumas vítimas e suas relações com as famílias e amigos. Em determinado momento a fala de um investigador deixa claro, ele foi preso uma vez em outro estado e foi liberado depois de um tempo, se ele tivesse cumprido a pena completa todas aquelas mortes não tinham acontecido. E quando ele, solto, começa a fazer suas vítimas, são sempre garotos "problemáticos" e pobres. Gente invisíviel, gente descartável, e ainda há o estigma de serem gays. Um policial em outra fala diz que mereciam. Ninguém merece morrer assassinado, e essa série vai demonstrando isso, principalmente na mão de alguém tão depravado e frio quanto Gacy.
A série é boa, difícil de assistir. O drama que se instaura entre os familiares é aterrador. A maioria dos desaparecimentos foi reportada e a polícia tratou com todo descaso possível que uma instituição poderia ter. E deu nisso. Gacy foi condenado a morrer por injeção letal e isso se deu 1994. Foi em 1978 que a família de Robert Piest reportou o desaparecimento do garoto, que contava com 15 anos na época. E dias depois, 21 de dembro de 1978, o assassino é preso. Por fim, Gacy, foi acusado e condenado pela morte de 33 pessoas ao todo. Todos garotos e rapazes.



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