domingo, 9 de agosto de 2026

Projeto: A Cidade Amaldiçoada - III - Diabolus ex Machina (1)

        




          O que seria o mal? Não seria apenas um ponto de vista? O ser humano acha mal tudo que lhe aflige negativamente. Então uma doença é má. Um animal que o ataque é mau. O vizinho que o incomoda com qualquer coisa é mal? Qualquer coisa que afete o indivíduo. E como faz no meio de tantos indivíduos? Quem está do lado do mal? Escolhas. Tem religião que joga tudo que é bom nas costas de uma divindade absoluta. Tem outras que tudo é mutável. De um mal vem um bem, de um bem vem um mal sucessivamente. Então o mal é plástico, se molda de acordo com grupos, com o humano. E se o mal é isso o bem vai para o mesmo lado. Moral, ética e até filosofia foram elaborados na tentativa de, sacralizando ou não, responder sobre a natureza do que é mal. No campo amplo o mal é visível? Fácil de definir? Algumas guerras entre grupos humanos que ocorrem podem contestar essa ideia. O mal é uma entidade ou um modo de agir dentro de um coletivo? Perguntas não faltam a respeito.

Alguns lugares são tão antigos quanto a própria existencia das placas tectônicas que o planeta formou. Alguns foram dominados pelos seres humanos, outros lhe são estranhos. E houve ou não alguma energia que esteve naquele lugar antes dos homens? Se levarmos em conta a materialidade das coisas, só outros seres vivos estiveram por ali. E na sobrenaturalidade? Aquilo que o ser humano ainda não conseguiu elaborar nenhuma tecnologia para observar? Aquela fagulha que os primeiros hominídeos entendiam como algo aterrador. Havia um equilibrio entre os seres de carne e o mundo sem carne. Não se atingia ele por ele estar em unidade com a Natureza. A própria Natureza era parte, e ainda o é, de alguma forma. Podemos chamar de um grande espírito que assim como o ar permeava tudo. E, na eterna evolução, algo aconteceu e os hominídeos ficaram um pouco mais evoluído, e um pouco mais desconectados desse grande espírito primordial. E nesse desespero, de não ter acesso mais a voz espiritual, iniciou o processo de escuta, tentando religar o homem, que se entendia cada dia mais racional, com o invisível, que não se explica por essa racionalidade. 

E como há pessoas mais propensas a desenvolver mais uma ou outra habilidade, com suas capacidades exercitadas na prática, há pessoas que tentam e não conseguem. Umas, desde muito novas, mostram que são boas em música. Tem quem estude a vida e tente melhorar e chega só a um certo patamar, além daquilo os genes não permitiram o aprimoramento do corpo em sua intergralidade para o executar. Tem quem consiga. Por mais que todos nós melhoremos em um exercício, tem quem parece ter um dom de nascença. Alguns odeiam essa ideia. Preferem achar que é esforço duro que determina uma técnica.  Contudo tem gente que se esforça muito, e tem gente que não precisa se esforçar tanto e consegue resultados tão bons ou melhores. Um nadador com o corpo mais próximo de uma determinada forma e tamanho, com os músculos mais desenvolvidos que se combina perfeitametneo com aquele tipo de esforço vai ser mais eficiente que uma pessoa que não tem coordenação com os braços. Em grandes épocas de fome, ter um tecido adiposo eficiente em guardar reserva é melhor que o que não tem. O mesmo corpo com genes bons para reserva de gordura pode não ser esteticamente aceitável e desejado nos dias de hoje. 

O mundo é muito mais antigo que uma pessoa possa imaginar. E tantos outros seres andaram por aqui antes. Seres sencientes que se emaranhavam pela matéria e pelo sobrenatural e ao terminarem seu ciclo natural de vida podem ter ficado por aqui se aglomerando. A religião que deu vasão a um lugar pós-morte que acolhe todos os seres humanos. 

E o não humano? Sem Paraíso para se apegar pode estar aqui até hoje, setorizando seus domínios, se juntando com outros como um grande organismo simbiótico como um líquen. Esse ser pode estar em briga com alguns discidentes de si mesmo, tomar seu posto e guardar com sua energia condensada por milhares de anos e sucessivas outras criaturas que também findaram. Alma, espírito ernergia. 

Bondade ou maldade é algo que o humano classifica. E se essas energias, se manifestasse de alguma forma com alguma capacidade dos humanos em percebê-las? E, sendo elas plásticas, elas tomassem formas convenientes. Cada grupo que adentrasse seus território, sendo esses conjuntos diversificados e fragmentados como talvez sejam, acaba assumindo um esteriótipo de ser ou não mal ou bom. E quem sabe haja só uma animosidade entre o que é material e o imaterial, ou um convívio mútuo sobreposto sem interação, e se houver interação? Tudo é possível concomitantemente. Se houvesse um ser colossal ou não, vários fragmentos em lugares proprícios como  um Pando, só que, ao invés de uma estrurura arbórea que replica seu próprio clone, uma entidade que agrega em si as centelhas infinitas de criaturas finitas. E temos sobreposto a nossa realidade material humana camadas de outras realidades não material e não humana. E se elas se adaptassem aos seus interesses se acoplando de alguma forma a quem estiver vivo? 

E como um corpo que se encaixa em uma utilidade criada pela existência humana pudesse estar mais sensível a essa presença, com um ouvido absoluto para a música. Nascer já propenso, mesmo que não exercitasse esse dom ele estaria lá. Uns mais sensíveis, outros menos. Uns jogariem isso para uma experiência mística religiosa.

Esse "grande espírito" "entidade", por falta de outra forma de nomear,  se estabelece em lugares que de início havia formas de vidas que ao longo das gerações sucumbiram. E continuaram ali conforme a evolução acontecia. Quando o homem surge, surge a percepção de captar algo dessa entidade. Desse ser que não está na materia mas vive no planeta. É como se fosse uma bolha energética que está em algum lugar, alimentada, protegida, sugada, absorvida por sua natureza própria de acordo com a forma que se adequou. 

E em São Lourenço do Rio das Pedras estava em uma espécie de planalto que se mantinha relativamente com poucas mudanças comparadas outras partes com canions ou mesmo regiões desérticas. E como qualquer lugar pelo planeta a vida começou. A constância e a evolução foi fincando ali  inúmeras centelhas que não tinham seu paraíso para ir. Sequer uma religião para pedagogicamente a ela se apegar e se entender nesse mundo como algo não físico. E somente foi existindo. Evoluía um ser vivo , se extinguia, um evento climático mais drástico, outro mais ameno, mudava um relevo pelo surgimento de um veio d'água. E lá ela se fortalecia e crescia. É difícil precisar como algo sem forma é. Contudo está lá e demorou vários braços evolutivos para os primeiros seres humanos modernos chegarem pela região. De início tímidos e assustadiços, criaram sua segurança conforme entendiam o lugar que estavam, se protegiam. Especificamente a região da futura cidade era só passagem. Dificilmente ficavam acampados ali por muito tempo. Só um grupo bem peçonhento de brancos, dissidentes de uma bandeira, parou ali em um pequeno acampamento. Não acharam ouro, nem outras pedras preciosas e foram embora. Deixaram para trás uma mulher. Estava doente demais para continuar. Não se vai achar nenhum registro disso. Como tantos outros agrupamentos de tropeiros discordantes dos líderes do grupo principal muitos se perderam pelos campos ainda não desbravados dos interiores do país. Alguns se encontraram com nativos e foram acolhidos ou eliminados. O que era o mais prudente. Assim como aquela mulher, muitos estavam contaminados com doenças europeias que os nativos não tinham anticorpos. 

Aquela mulher era chamada de Maria das Mercês. Tinha se amigado com um tropeiro que tinha conhecido em São Vicente. Seu pai, pobre de não poder ter  uma bota de couro, só a vendeu em troca da promessa do desposo e um punhado de toucinho salgado, carne seca e umas poucas moedas de prata. Não era um homem ruim aquele que virou seu companhiero, viveu dos seus onze anos até completar vinte com ele. Ele morreu de malária. Já era tropeiro e carregava a garota com ele para todo lado. Não teve filhos. Provavelmente o homem tivesse lhe passado sífilis e isso a impediu de engravidar. Passou, enquanto mostrava alguma formosura ainda, nas mãos de outros homens que a usavam sem assumir definitivamente. Não reclamava. Apesar das dificuldades das viagens era livre. O mais livre que uma mulher poderia aquela época. 

E ela não foi deixada para trás. Ela pediu para ficar, já estava com quase trinta anos e não aguentaria a viagem. Estava com feridas pelas pernas e costas. Escondia de todos, mas estava começando a ficar evidente. Conversou e convenceu seu parceiro que não tinha percebido sua doença. Ela disfarçou o que pode e ele era obtuso o suficiente para não perceber. Anos depois ele quem convalesceu numa cama em meio aos seus cinco filhos que teve com outra mulher da mesma ferideira pelo corpo. 

Maria estava lá, escutava o som da mata que era um pouco abafada pelo rio que tinha escolhido ficar perto. Ela tinha aquela predisposição de sentir o peso da misericórida de Deus e da pata do Diabo. Sua mente estava doutrinada na fé popularesca católica e só conseguia essa leitura do que sentia.  Passou dias arrumando seu lugar de ficar, uma cabana feita de cipó, forquilhas e folhas. Não conseguiria construir uma casa de sapé. A doença era implacável e estava avançando. E um dia estava lá sozinha deitada numa pedra da beira do rio e olhou para o céu e enxergou uma cortina quase invisível como uma proteção que vinha lhe abraçar. Achou que fosse suas vistas doentes. Pensou na beleza do que julgava ser criação de Deus. Não, era aquela entidade que estava ali. E a envolveu. Já tivera outros contatos com os indígenas que ali passavam, mas eles não eram muito receptivos. O viam como um  espírito negativo, do mal. Não era do mal. Para sua existência era irrelevante o mal, como o bem.  E duvidava ser espírito, mas era só a classificação humana. Estava além disso. Só estava ali tentando entender seu significado no mundo. Sua razão de existir. E aquela mulher cansada o acolheu e a primeira coisa que percebeu naquele coração foi medo e decepção. Os dois sentimentos lhe causou agrado. Havia outros tão intrigantes quanto esses. Ela morreria em alguns dias um pouco para o sul de onde estava e logo animais lhe comeriam a carne e seus ossos se perderiam, um irriquieto, curioso e guloso quati carregaria seu crânio para mais além do restante do que sobrara do corpo. E por fim, o que sobrou de Maria das Mercês  afundaria na terra. E aquele seria um marco para aquela  entidade. Sua primeira humana. 

Buscou sentir o efeito daquelas emoções de novo. Decepção era fugaz entre os animais. Medo? Medo era constante. Aquilo inebriava e dava um sentido de vida. Nunca tinha se aprofundado antes. Precisou daquela mulher moribunda para sentir melhor. Pelos contatos que tivera com  pessoas, antes e depois da Maria,  percebeu que o medo era presente nos humanos, mas o medo era algo que acontecia e ia sumindo de uma geração para outra, de um grupo para outro. E ao mesmo tempo se transformava e criava outras disposições por efeitos reais ou imaginários. Tentou com seus meios entender aquilo tudo. Não tinha uma mente racional, tinha uma articulação de busca e pulsão de apenas existir. Quando entrava em contato com certas energias só sentia uma fagulha de vivência. Com aquela mulher o sentido ficou muito mais claro. Não tinha como sair dali. Havia outras estruturas não materiais totalmente diferente de si que poderiam lhe absorver ou mesmo só repelir. E aquele solo era seu, lhe agradava. Surgira ali. E como em milhares de anos esperou.  Em pouco tempo, perto do que era sua existência, apareceu outro grupo de pessoas que fincariam residência naquele lugar. Era necessário também ser acolhido, em harmonia, um assentimento para ajustar uma ideia que se formava. Não existiam essas palavras como um vocábulario, tudo era entendimentos de acordo com suas estruturas do que se podia chamar de consciência. Por fim, o entendimento aconteceu, precisava de um pacto.  


sábado, 8 de agosto de 2026

Good Boy - Terapia de Choque





Bom, procurem o que vocês conseguirem achar. Com ajuda do poster talvez. Está confusa a difulgação desse filme. Não sei se eles esbarraram em algum problema, eu acho que "Bom Garoto" como título estaria perfeito, mas temos um deliciosinho filme de terror com esse mesmo título, em português e o equivalente em inglês de um cachorrinho que percebe uma entidade sobrenatural incomodando seu dono. E Terapia de Choque é um título explicativo contudo não atinge a essência do filme. E nesse filme o buraco é mais embaixo.

Eu não sabia muito do filme, e admito, estou com uma fixação, talvez não muito saudável em "correntes" prendendo uma coleira de ferro em um pescoço... Tsc-tsc-tsc-tsc-tsc-tsc-tsc...Como dizia eu me interessei pelo filme por curiosidade ao ver o cartaz pequeninho no menu de escolha do streaming. E depois de acopanhar por uns 10 minutos o Anson Boon interpretando um Tommy que é um adolescente heterossexual escroto demais, bebe, fuma, cheira, toma bala, transa com a amiga da menina que está afim dele na frente dela, mija onde não deve, se masturba no banheiro coletivo do lado de uma garota, vomita, briga, cheira mais, bebe mais, se perde dos amigos que estão indo embora e ele quer curtir mais em outro lugar, acaba cambaleando pela rua sozinho, quase desmaiando e é sequestrado pelo Chris. E foi aqui que vi que seria uma jornada bem interessante. O ator que faz o Chris é Stephen Graham. Não lembra? Ele fez o pai em estado de choque por seu filho adolescente fofo ser acusado da morte de uma menina da turma dele da escola na série Adolescência. Aí eu vi que talvez fosse para outro caminho. E foi. 

Nada é explicado sobre os motivos que Chris tem de levar um adolescente que é uma escória do mundo além de "querer ajudar". Tommy é levado para o porão de uma casa enorme nos interiores de Londres e numa metodologia parecida a de Laranja Mecânica, só que bem amadora, ele é "estimulado" a se recuperar. E isso dentro do seio familiar, um tanto estranho e perturbador, de Chris com sua esposa Kathryn (Andrea Riseborough) que parece ser uma fada frágil e deprimida. Fazia tempo que não via um semblante tão triste e uma alma tão quebrada e em sofrimento quanto essa atriz mostra na sua composição de personagem. Talvez, só em um lugar eu vi alguem nesse estado de penúria existencial, quando olho para o espelho, todos os dias. Em telas faz tempo. E junto a isso um garoto de seus 13 anos todo cuidadoso em ser o melhor filho do mundo, Jonathan (Kit Rakusen) e só sendo o que consegue ser naquele contexto esquisito. Para ajudar, Chris chama uma mulher que parece estar fugindo de algum passado perturbador. E aqui, numas poucas falas percebemos, nunca sabemos nada definitivamente, só percebemos insinuações no roteiro, que eles são de alguma família rica, tradicional e poderosa com contatos no governo. Ele sabe o passado inteiro dessa mulher, Rina (Monika Frajczyk), e a acaba aceitando o trabalho mesmo ela sendo obrigada a assinar um termo de confidencialidade e ficar horrorizada com o garoto no porão preso pelo pescoço. 

E aí você vai ter um suspense dramático com um final um tanto quanto inusitado. Não vou falar muito, mas o filme todo levanta várias questões e muitas destas não há respostas. É quase uma alegoria bem sintomática de nossos tempos. Eu gostaria de apontar uma situação para dizer como a vida do Tommy é miserável, não tem como, daria spoiler. Assista, esse foi um filme que me surpreendeu positivamente. E um aviso, ele é lento. Não espere cortes frenéticos e ação e plots e mais ação. Vá e contemple.  

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Elize: Sombras de uma Mulher





Eu falo e reafirmo, não tem sentido uma personagem que sua característica está ligada a uma região ter um sotaque de alguém do Leblon. O audivisual  do eixo Rio-São Paulo precisa se organizar para o profissinal da atuação fazer um trabalho de pesquisa de sotaques melhor ou devem contratar um profissional do lugar retratado. Eu amo os sotaques diversificados do Brasil. E, outro problema do audiovisual, essa diversidade não é mostrada quando há a possibilidade. Eu fico pistola que um paranaense, ou alagoano ou um araxaense, um capixaba com sotaque de Dona Helena do Manoel Carlos. Tenham cuidado  e o respeito devido com isso em 2026. As produções correndo o mundo e não mostrando o jeito de nosso povo falar?. "Mas povo de fora não vai saber." O problema é que nós sabemos e eu vou apontar issso só pelo desrespeito que é. 

Dito isso, temos um filme bem aos moldes das produções hollywoodianas pasteurizada pelo streaming. E não estou falando isso como demérito. É que recentemente tivemos a série da Prime Video que já abordou essa personagem de forma ampla e genérica em uma situação mais ligada ao tempo de prisão dela do que o crime em si. Tem resenha aqui https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/2025/11/tremembe-entre-crimes-e-celebridades.html

Nesse filme a bordagem tenta destrinchar a mente dos dois envolvidos diretamente, vítima e assassina, e tembém de algumas figuras importantes que ajudavam a colocar uma camada de pressão na situação toda. No caso as famílias dos dois. Isso é um ponto bem acertado. E aqui eu tento manter um pouco de respeito, não só pelo falecido, mas principalmente pela família que, além da Elize verdadeira, se encontram vivos ainda tocando suas vidinhas de milhonários do ramo alimentício e a Elize, no Uber, dizem. 

Ao mesmo tempo, a personalidade do Marcos (Henrique Kimura) é essencial para entender o que motivou Elize a fazer o que fez do jeito que fez. E, pelo pouco que se percebe, o príncipe dos produtos alimentícios, que tá com amendoim com preço exorbitante, tinha um padrão de comportamento bem delineado, que existia antes com a esposa anterior dele e estava se esboçando ao redor da vida perfeita que Elize achou que conseguira. Lorena Comparato, que é irmã de Bianca Comparato que interpretou a Caroline Jatobá na série, e parecem ter o DNA do crime em suas veias, ou pelo menos na interpretação. Não quero dizer que ela está melhor que a Carol Garcia em Tremembé, comparações são inevitáveis. Bianca teve tempo de apurar sua personagem mais que a Carol, tempo de tela, trablho de roteiro tudo o mais. 

Então vemos uma obra mais complexa nesse filme. Meandros e arestas desenvolvidas e aparadas, lugares cênicos melhor trabalhados. Uma super produção digna do que a Netflix tem buscado. E sabemos que é uma história muito conhecida do grande público. A comoção nacional foi tremenda. Eu duvido muito que algum brasileiro nunca ouviu falar de Elize. Os homens tem pavor que esse mito se fixe no imaginário das brasileiras. E as brasileiras só sorriem de lado com uma certeza... Qual? Não sei, eu sou homem acho que cabe às mulheres em seu universo de verdades secretas discorrerem sobre isso. E para longe de julgamento de certo ou errado, Elize está em liberdade condicional desde maio de 2022 e passou 10 anos presa. Eu trabalhei no sistema prisional como professor, em Santana, e as presas diziam constantemente que saindo dali a dívida estava paga. Então é isso. 

Assistam, se você for dos poucos que não sabe quem é essa Diva do trinchamento esse filme vai te ajudar a entender parte por parte do todo. E quem já conhece a história dela, destrinche e empacote a nova abordagem. Sugiro uma taça de vinho para acompanhar.  


PS: Perdão a demora em postar algo. Não tive tempo de assistir nada nos úlitmos dias  e como esse não é o meu ganha pão, faço por "amor" ao ofício ando meio ocupado com outros afazeres. Mas deixo abaixo meus outros projetos. Ajuda muito entrar lá, curtir, comentar. E realmente ando pensando em parar com esse Blog, não tem me proporcionado nenhum retorno. E estou com ele desde 2012. Nem monetizar eu cosigo pois o AdSense diz que não estou dentro das diretrizes. Mesmo lendo de cabo a rabo e percebendo que estou seguindo tudo o que pedem. Essas BigTechs adoram que produzamos coisas para alimentar os feeds deles, retorno tá difícil. Enfim.

Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões e convites para parcerias. Ficaria muito feliz, agora que ando estudando sobre roteirização. 

Pix: vinimotta2012@gmail.com

(que também é meu e-mail de contato)

Banco Inter — Vinícius Motta

Instagram: @vigamo500

Letterboxd: https://letterboxd.com/vigamo500/

Substack: https://substack.com/@vigamo

Blog: https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Projeto: A Cidade Amaldiçoada - II - O Despertar (3)





Era uma casa simples, de uma água só. porém do lado direito tinha um espaço onde uma área grande comportava dois carros estacionados um na frente do outro. Havia um coberto com uma capa própria de automóvel que eu não via há anos que devia estar protegendo a preciosidade máxima de meu avô, um Del Rey azul metálico que ele comprou de segunda mão em 1991. 

- Fiz um negócião!

Entrou um dia eufórico explicando para meu pai todos os passos da compra. Eu já achava aquele carro um trambolho na época. Como era um desejo dele fiquei feliz por ele. Era difícil vê-lo daquele jeito. E agora, devia ser um trambolho e um ferro velho. Depois veria a situação dele. Não que eu entendesse de carro. Era só curiosidade saudosa.  Quase enconstado na sua traseira via-se um Pálio, um dos últimos, prata sem graça e judiado. Minha mãe não era uma motorista cuidadosa. E pelo que ela dizia o carro tinha que ser funcional e não dar problemas. 

Essa área formava um L para a frente onde se via uma porta-janela de correr que a fechadura ficava no meio e ela abria para os dois lados. Vi coisas ali quando cheguei e reconhecia como uma mistura das minhas com as de minha avó e da minha mãe. E entendi que ficaria ali devido uma cama no canto o posto de onde entrava colada na parede. 

- Coloca suas coisas aqui que a gente fecha essa porta e usa o fundo para te dar privacidade. - Disse minha mãe me acomodando numa cama que já estava ali pronta. Empurrando umas caixas para passar continuou - Eu esqueci de arrumar uma cortina. Seu avô andou dando trabalho, amanhã arrumamos isso. Pensei em tapar com lençol mesmo por hoje. Depois pego uns velhos lá no meu quarto. Você é mais alto que eu e alcaça lá em cima. 

Eu aguardei uma explicação sobre o que havia acontecido com a casa de meus avós e a casa dela, apesar de suspeitar. E não veio naquele momento. Minha mãe se despedia do motorista agradecendo e oferecendo o banheiro. O que ele aceitou prontamente. saiu por um corredor que dava para a entrada do banheiro entre dois quartos. Escutei um "Ôh, Seu Antônio, espera aí que tô apertado  eu já vou aí já!" E a porta bateu. Eu não escutei o que meu avô pode ter falado. Só escutava um ruido assustadoramente familiar de algum equipamento. 

Esperei o motorista, que se chamava Gerson sair do banheiro fazer um comprimento animado e alto que ecoava pelo corredor. 

- O senhor está melhor?- Eu realemnte não escutava as respostas do meu avô. - O moleque tá aí já, Seu Antônio. Daqui a pouco ele aparece. Tá descarregando as malas. 

Não tinha muita mala não. Só uma que estava comigo e coloquei em cima da cama. 

- Vai lá ver seu avô - disse minha mãe segurando meu braço. - Ele não para de querer saber de você desde que ele saiu do hospital. 

- Faz tempo que ele saiu? 

- Mais ou menos na época que você despertou também. 

Minha mãe parou. Sem palavras e apertenado os labios numa expressão que era característica sua. Parecia querer segurar dentro de si tudo. Às vezes a pressão era tão grande que embranquecia os lábios e soltava essa tensão com um suspiro profundo. 

O Gerson deu uma espalhafatosa despedida ao meu avô dizendo que ia por o nome dele em algum lugar e  veio na nossa direção dando uma esbugalhada nos olhos e levantando as sobrancelha 

- Ele está querento te ver, Sônia, e eu já vou indo. Agradeço o banheiro viu, posso dar uma palavrinha com seu filho no particular? 

- Ah claro, Gerson, eu que agradeço. Eu preciso falar com a Tica também- e apontou para a direção oposta. 

E vi a Tica lá no fundo do corredor vindo de onde parecia ser uma cozinha dando um oi. Depois eu a cumprimentaria com mais tranquilidade. Minha mãe foi em sua direção e eu acompanhei o Gerson até o portão. Fiquei no limirar entre a fim da estreita área e o portãozinho do muro baixo diante do portão de grade aberto. 

- Deixa eu te falar, eu participo de um grupo espírita aqui da cidade, acho que você não se lembra disso,  se quiser passar lá para conversar, acho que vai ser de grande valia. E se quiser um passe, sempre é bom. Tem hoje, mas você deve estar cansado. Toda semana de quinta-feira às 19h. Temos umas ações em outros dias também, só para participantes mais assíduos. 

- Ah, sim - Disse sem muito ânimo, mas seguindo a tradição de concordar sem contrariar gentilmente. 

- Mas vai mesmo! Bom, vou indo e espero te ver lá um dia desses. Qualquer coisa me fala.

- Vou sim pode deixar. - Resposta padrão para dizer que não ia, e o importante, sem contrariar. Assim que ele saiu com o carro entrei e fui ver meu avô. 

Nada me preparou para o sentimento que tive ao entrar em seu quarto. E olha que tinha ficado muito tempo num hospital vendo pessoas se recuperando. Entrando no quarto já fui falando

  - Lincença, vô, como o senhor está?

Tentei não demonstrar nada, só sentei numa cadeira que estava do lado dele. Estava envelhedido demais, o tempo na UTI me judiou, mas a ele judiou mais ainda. Ele já era um homem magro quando tinha partido para estudar fora e agora estava esquelético e com uma cor amarelada, usava um respirador. Por isso não ouvia o que falava, ofegava muito e falava baixo e dessa vez eu consegui entender debaixo daquele equipamento de onde vinha o som que tinha reconhecido antes. 

  - Meu "fio", que bom te ver. Tá magro, mas tá bonito. - estendeu os braços para mim num gesto que eu conhecia de quando era criança - O vô tá só o pó da rabiola, "fio", só o pó da rabiola.

Eu tentei segurar o choro, tentei mesmo. 

- Está um pouco magro vô, mas logo já está bom para jogar bola de novo. - Era algo que ele adorava, mas que eu lembrasse ele não jogava desde antes de eu me entender por gente. 

- Desculpa não poder ir lá te ver. - disse ele se justificando sem precisar - Sua avó ficou doente no começo dessa desgraceira toda. Aí seu pai também ficou doente e eu e sua mãe ficamos cuidando deles. - Deu uma longa pausa e olhou bem nos meus olhos - Aí a vó foi "fio", a vó foi embora, não durou um mês. Ela sempre foi fraquinha, tinha bronquite. 

- Eu sei vô, eu não vi, eu não vi nada. - E eu chorei. Ali eu chorei de soluçar. Aquele barulho de respiração difícil, o som do oxigênio tão presente perto de mim umas semanas atrás. - Eu que peço desculpas por não estar aqui com vocês.

- A vacina só veio depois, "fio", ela já tinha ido. E quem ficou doente fui eu, quase fui também. 

Via a tristeza nos olhos fundos dele porém ele não chorava. Parecia que as lágrimas estavam secas. Contudo, com o tamanho do coração que ele sempre tivera, com certeza tinha sido para lá que as lágrimas escorreram. Dei um abraço meio desajeitado sentindo o quanto estava magro. 

- Tem que desculpar não, "fio". Eu sarei e você sarou e agora você tá aqui um pouco magro, eu tô também, a gente agora vai engordar junto. Pedi para sua mãe comprar uma carninha para a gente comemorar, acho que vai ser no domingo. Mas hoje a gente vai ter uma janta boa para comemorar sua volta, "fio". 

- Churrasco vô? - me animei  com a ideia - Vai ter uma cervejinha?

- Tá bebendo agora? - meu avô se admirou com a informação, para ele eu era um molecote que só tomava refrigerante ainda - Sônia, o "fio" tá bebendo agora é?

Minha mãe que entrava no quarto foi calma ao responder.

- Seu neto é adulto, pai, ele bebe faz tempo. 

Percebi que meu avô ficou um instante confuso e logo se recuperou e continuamos conversando, era hora dele tomar seu lanche e minha mãe montou uma mesinha de dobrar rapidamente e a moça, Tica, que a ajudava, trouxe logo o restante das coisas. Fiquei um pouco mais com ele conversando e logo depois fui arrumar meu novo quarto deixando ele descansar. Eu ia ficar naquela sala, pois os dois únicos quartos estavam um com minha mãe e outro com meu avô. Eu pelo que entendi, depois conversando com minha mãe, ela vendeu as duas casas para poder ajudar com os gastos do tratamento de nós todos. Me senti muito culpado por isso. Contudo ela me tranquilizou informando que não vivíamos de aluguel. Aquela casa era nossa, estava alugada e coincidentemente a inquilina tinha devolvido e voltado para Manaus dar apoio à família quando o sistema de saúde de lá  colapsara e vários de seus parentes ficaram doentes na Pandemia. E havia mais duas casas alugadas. Ela só vendeu as que valiam mais e davam mais trabalho, segundo seus próprios critérios.

Como meu avô tinha dito havia um Bauru de presunto e queijo que eu amava e frango assado que lele gostava e conseguia comer melhor sem lhe causar mal. Eu ainda não estava totalmente bem para comer e mesmo assim fiquei estufado de dois peços grandes. Quando fui dormir, arrumamos uma gambiarra para quebrar a claridade da rua que passava pela porta de correr quer era de vidro canelado transparente. O poste da quadra fustigava de luz o quarto improvisado. Enquanto segurava o lençol para me ajudar a prender nas frestas da porta minha mãe me disse:

- Se colar jornal no vidro só para hoje?

- E tem jornal aí? - eu brigava com o pano e perdia, pois ela insistia em não ficar preso no lugar que eu teimava em prender - Existe jornal ainda?

- Ah, nem sei se tem jornal, a banca que tinha no centro não tem mais. Ou tem? Nem lembro. 

Por fim, depois de socar um calço feito de papel dobrado várias vezes em si mesmo aqui e ali e prender com cuidado eu consegui deixar o tecido tapando a grande porta-janela. Era uma gambiarra que iria servir. O horário passou e eu mal tinha arrumado as roupas que trouxe. Minha mãe tinha trazido tudo do meu apartamento  encaixotado  e empilhado numa porção que formava uma mureta insólita fora do caminho. Amanhã teria que ir atrás da cortina, de um guarda-roupas e arrumar aquele cômodo para ficar um pouco habitável. Olhei para os pés da cama que dava para acesso ao corredor e pensei:

"Por uma porta sanfonada aí, mas é tão feia!"

Tomei os remédios que que precisava e dentre eles o de domir que estava usando só quando achava necessário. Era leve o suficiente para não ficar entorpecido e grogue e eficiente para ajudar  a cair no sono mesmo com aqula luminosidade toda. Fiquei menos de cinco minutos virando de um lado para o outro até escolher a melhor posição que coincidiu ser o que  ficaria olhando para a gambiarra pendurada. Resonvi virar as costas e ficar virado na parede naquela noite. Dormi.

Em algum momento da madrugada eu abri os olhos, sem sono algum  e vi a silhueta escura de uma pessoa de parruda parada do lado de fora. 

 




Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões e convites para parcerias. Fiquem à vontade. 

Pix: vinimotta2012@gmail.com

(que também é meu e-mail de contato)

Banco Inter — Vinícius Motta

Instagram: @vigamo500

Letterboxd: https://letterboxd.com/vigamo500/

Substack: https://substack.com/@vigamo

Blog: https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Snoopy Apresenta - Não Há Nada Como a Nossa Casa, Snoopy





A Apple TV nos presenteou com meia hora de nostalgia alinhada às minhas  memórias afetivas. Eu amo o Snoopy, uma de minhas lembranças mais antigas de algo sendo comprado para mim foi justamente um livreto com desenhos de vários personagens do universo dele. Havia umas bolinhas no meio dos traços para fazer uma aquarela. Um pincel de plástico vinha junto para passar na água e ativar a aquarela no desenho. Eu odiei, pois eu queria algo bem colorido, e a aquarela era tão diluida que ficava uma lembrança de cor no papel. Isso foi em um passeio que fiz para outra cidade com minha mãe quanto eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ao chegar em casa, peguei meus lápis de cor e soquei pigmentação naquela bosta pálida. 

A grande santíssima trindade de minha primeira infância era constituida pelo já citado Snoopy, Garfield e Turma da Mônica.  Eu tive os mais diversos produtos dessas três franquias e, se boberar, eu ainda compro algo deles. Eu até hoje leio o que aparece de tirinhas ou mesmo histórias completas. E os desenhos que lançam assisto como e quando posso. Só o filme do Garfield que não gostei tanto. E quando lia jornais físicos, na parte de cultura, eu adorava as tirinhas. E eu me lembro, com carinho e dor ainda hoje, por ocasião do falecimento do Charles M. Schulz, a homenagem do Jim Davis em suas tirinhas, era o Garfield diante da casinha vermelha vazia dando um suspiro. Foi de encher os olhos de lágrimas. 

E é interessante que em Não Há Nada Como a Nossa Casa, Snoopy a casinha vermelha é retomada como simbolo da própria alegria de Snoopy. Sally, irmã de Charlie Brown, decide fazer aquelas vendas de quintal que estadunidense adora e no meio da confusão a casinha é vendida. E, para consolar o seu bichinho de estimação angustiado e triste pelo sumiço de seu aconchego, Charlie vai comprar uma casinha nova. E lógico que não acham uma adequada aos gostos e necessidades do caprichoso cachorrinho que tanto amamos e resolvem procurar a casa original. E descobrem o óbivio, a casa física é uma coisa e o que importa é a pessoa que carrega todas as boas lembranças dentro de si. 

Parece até uma propaganda do governo de lá, já que as coisas estão piorando a ponto de muita gente não ter certeza, ou persperctiva nenhuma, da segurança de um teto sobre a cabeça e até mesmo um prato diário de comida quente em mãos nos próximos anos. O que é bem assustador para o país das oportunidades. Faça a América grande de novo! Olha, estão fazendo. 

Não que aqui esteja as mil maravilhas, mas somos um país diferente, graças a Deus, que por sinal, dizem ser brasileiro. Eu até defenderia a tese do Snoopy ser um cãozinho brasileiro, contudo, se for analizar ele foi o coadjuvante que brilhou mais que o personagem principal. Quem era o "dono" das historinhas era o Charlie Brown e ele realmente não tem como ser brasileiro. Ele é o símbolo da inadequação infantil. Por mais que simpatizasse com ele, eu não me identificava com seu jeito. Só com o fato dele ser uma criança como eu que gostava de cachorro. Dava um pouco de pena dele.  Por mais que vendam esse modelo aos brasileiros ainda não descolamos da imagem do garoto/garota serelepe. Talvez só em centros urbanos maiores as crianças sofram um pouco por viverem em apartamentos e ter pouca ou nenhuma rua segura para brincar. 

Eu gostei que o desenho tem uma textura que deixa mais agradável visualizar a imagem. Não é uma cor chapada. Há um esmero em atingir a sensação do clássico de 1965, O Natal de Charlie Brown. E isso faz muita diferença. É uma história redondinha que não foge da essência dos personagens. E isso, reproduzir algo sem o seu criador por perto, é o que esperamos, por nossas memórias afetivas e pelo respeito por sua obra que tanto amamos. 

sábado, 1 de agosto de 2026

Projeto: A Cidade Amaldiçoada - II - O Despertar (2)




Na semana seguinte a fisioterapeuta, compadecida, levou bala de coco para mim. A minha língua que estava estragada com o fel dos remédios regozijou naquele torrão de puro açúcar como um anjo degustaria seu pão do céu. E como em todos os momentos como aqueles eu realmente me sentia agradecido por estar recuperando a normalidade.  É engraçado como minha cabeça funciona. Eu, até aquele momento da sessão anterior, sequer lembrava de bala de coco. Realmente não tem sentido eu fazer uma comparação entre mim e aquele puxa-puxa da bala. Principalmente, como eu já disse antes, eu me lembrar de pouca coisa da minha infância. Contudo algo puxa um gatilho que me leva a uma lembrança perdida. E como estou escrevendo para investigar minhas memórias, por menores e menos importante que sejam elas podem me ajudar a compor algo que eu tenha deixado passar. E, pelo pouco que sei da psicanálise, nunca fiz, contudo li uns textos sobre o tema,  o solo da infância é terreno fértil para se entender o presente. Algo assim. 

Algumas semanas depois daquele quitute eu recebi alta e fui para casa no interior. Por ficar tanto tempo acamado, minha família no Lockdown rescindiu o contrato do apartamento que morava, encaixotou meus livros, e objetos de uso pessoal e os móveis maiores desfizeram-se deles. Acho que venderam. Tudo isso já  sabendo que seria necessária uma longa temporada de recuperação e em família seria tranquilo. Antes fosse. 

Levaram tudo o que tinha numa caminhonete alugada meses antes. Fiquei aliviado que naquela época não tinha nada comprometedor nas minhas coisas. Seria muito constrangedor se minha mãe achasse algo. Apesar que eu já estava com a idade de não me importar com isso. No fundo estava só preocupado com meus livros e meu laptop. Este sim tinha um conteúdo inapropriado para uma senhora da idade dela. Eu fui de carro, também alugado na cidade mesmo com um motorista de taxi. Nessa volta fiquei no banco da frente, sem querer conversar muito. Eu imagino que o motorista tenha conversado muito na vinda com minha mãe, pareciam não ter mais assunto ou só estavam me poupando. Saímos do hospital já no meio da manhã e seria uma viagem de cerca de cinco horas e meia se a Marginal Tietê estivesse sem congestionamento quando passássemos por lá. Estava feliz de sair daquele hospital barulhento e cheio de gente. Quando comentei sobre isso minha mãe se espantou:

- Achei tão calmo. A recepção era um pouco cheia dependendo do dia, mas o povo não fazia muito barulho não - Olhou para os prédios que que se intercalavam de tamanho, cores e formas - A ala das crianças era um pouco cheia de choro, mas acho que você não ia lá. 

- Nossa mãe - Eu incrédulo tentando falar sem olhar para trás, ainda tinha umas limitações na movimentação - Tinha madrugada que era tanta gente falando naquela enfermaria que eu acordava. E não parava de ver gente pasando pela porta do quarto. 

- Devia ser os enfermeiros e médicos - minha mãe olhou para mim e rapidamente desviou os olhos cobiçosa para uma loja com móveis expostos que passávamos do lado - E tem o pessoal da limpeza que não para. E ali onde você ficou é um dos maiores hospitais da cidade. É estranho ter tanto barulho num hospital. Nas noites que fiquei ali era bem silencioso. 

Minha mãe tinha sido enfermeira até se aposentar com pouco mais de cinquenta anos. 

- Teve uma vez que eu acordei com uma enfermeira me encarando  - recordei do momento que já estava em recuperação sem tomar remédios muito fortes - Levei um susto.

- Ela foi dar alguma medicação com certeza.

- Ela não falou nada, quando perguntei o que ela queria ela saiu e não emitiu som. Não vi mais ela e esqueci de perguntar para as enfermeiras quem era depois. 

- Ela não voltou outro dia - minha mãe insistiu - e você não viu por estar dormindo. Também podia ser uma paciente perdida.

- É possível - conjecturei - Que medo se é uma doida e faz algo?  

O motorista do carro quebrou o silêncio mudando de assunto de forma educada explicando onde faríamos alguma parada para comer e se necessário  para usar o banheiro. Já estávamos na Marginal naquele momento. Minha mãe até tentou retomar o assunto. Só que eu não quis sustentar. Logo eu estava virando a cabeça e cochilando. Só voltei acordar na primeira parada onde almoçamos. E logo continuamos e paramos mais uma vez, pois a bexiga da minha mãe não estava armazenando com mais eficiência os líquidos como antes e parece que a do motorista também. 

Em algum momento chegamos na Rodovia Washington Luíz e era um retão só que acentuava mais ainda meu sono. Nem vi quando entrou pela vicinal que passava na entrada principal da cidade São Lourenço do Rio das Pedras. De boa parte da estrada não se via a cidade de longe, mesmo dando a sensação de estar descendo para algum lugar. Meia hora depois, como era dia, se enxergava umas construções esparramadas por loteamentos começados e umas casas de sítio remanescentes. E no nível da estrada o que parecia ser o limite da cidade ao  lado, se olhasse melhor, ia perceber que em relação ao asfalto da via a cidade começava a afundar numa depressão natural, não chegava ser um vale, mas uma baixada do rio que acomodava a cidade. O próprio rio parecia uma cicatriz irregular de fora a fora o município. 

"Um verdadeiro buraco!" Pensei com amargura. 

Eu percebi que de onde estava se via uma cortina do que parecia uma poeira envolvendo a depressão que a cidade se encontrava. Não chegava a formar uma redoma. Também havia uma núvem de chuva carregada do outro lado bem escura. Parecia que ia desabar uma tempestade em algum momento. 

- Que poeirão! 

E realmente o vento começou a açoitar a lateral do carro e fazer muito barulho nas frestas que deixamos no vidro do carro. Logo subimos os vidros vedando o carro do som alto. 

- Não é poeira - rompeu o motorista. 

- É o quê? - perguntei tentando olhar melhor o céu com meu pescoço duro de ter pescado tanto por causa do sono. Tive torcicolo no dia seguinte. 

- É alguma coisa daqui, pois toda vez que o tempo muda, não importa o clima que seja, isso aparece, e só dá para ver desse ponto. Como viajo muito eu percebi isso faz tempo. E conversei com outros motoristas que falaram a mesma coisa. 

- Que estranho - disse minha mãe atrás - eu não estou vendo nada. 

- Faz muito tempo que tem isso. De moleque quando eu viajava com meu pai eu já existia. Deve ser alguma coisa meterológica, a posição que a cidade está. Aqui é mais seco sempre. Ajuda a levantar a terra que vira um pó fino.

Eu meio intrigado por nunca ter notado nas vezes que fiz o caminho, poucas vezes por sinal: 

- Se eu lembrar eu pesquiso depois na internet, não conheço esse fenômeno.  

E o trevo da cidade apareceu à distânica de uns quilômetros e logo entramos e o motorista fez o percurso da rua principal que tanto conhecia passando em frente da igreja martriz e seu largo. Contudo, ao invés de virar à esquerda três quadras passadas da praça da matriz ele continuou reto bem mais para cima e virou à direita na avenida do cemitério e desceu até cinco quadras antes de chegar no velório e parou na frente de uma casa que eu não conhecia. 

  





Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões e convites para parcerias. Fiquem à vontade. 

Pix: vinimotta2012@gmail.com

(que também é meu e-mail de contato)

Banco Inter — Vinícius Motta

Instagram: @vigamo500

Letterboxd: https://letterboxd.com/vigamo500/

Substack: https://substack.com/@vigamo

Blog: https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Leviticus



Eu odeio filmes de terror. Dito isso, eu odeio hipocrisia religiosa cristã. Dito isso, que conveniente que no Brasil, assolapado por um horda de pessoas com Bíblias na mão e com cadeiras cativas por votos questionáveis no congresso e grupos religiosos despejando seu jorro fétido de ódio gratuito à minorias, principalmente os LGBTQIAPN+, não tenha conseguido distribuição para passar nos cinemas. 

Quem tem amigo tem poder de quebrar barreiras de dificuldades, o que é basicamente a mensagem do filme. Eu tenho uns amigos pelo mundo e obviamente eles me contaram como a história é. Então, translitero o que me disseram a respeito. Afinal, NÃO TEM COMO ASSISTIR NO BRASIL, dito isso, todo mundo vai dar seu jeito. Bem sabemos. 

Dito isso tudo acima, segundo meus amigos que moram por aí, o filme é M-A-R-A-V-I-L-H-O-SO! Correndo riscos de entregar um ou outro spoilers, vou realmente tentar não fazer, vemos um jovem que está descobrindo o que é o amor com um colega da escola. Se fosse um casal heterossexual o filme iria para outra seara. Contudo, magistralmente, o diretor Adrian Chiarella transforma tudo o que se sucede em um terror tenso e, contrariando o estilo, otimista. Não estou defendendo finais felizes em Terror, defento finais coerentes com o restante que foi passado. Depois que o Brian De Palma fez aquele final demoníaco em Carrie de 1976 todo mundo soca um fim trágico em tudo. Tem morte em fim de filme que não faz sentido.  O filme ser de roteirista e diretor australiano ajudou muito no desenrolar do que acontece no filme. A Austrália ser do Hemisferio Sul só trás luz solar às produções. 

Foi simplificado por aqui que o filme seria sobre uma cura gay. Como disse acima, vemos dois jovens Naim (Joe Bird)  e Ryan (Stacy Clausen) começando os trelelês gostosos da juventude pouco depois de uma cena estranha de uma garota ser pega por alguém e aparentemente morta em um banheiro próximo a uma pscina. E descobrimos depois mais sobre isso. A mãe de Naim era de outra cidade e decidiu morar por aquele lugar para buscar paz. E ela acha que o filho tem que ter a mesma paz, e consequentemente salvação. E ele só quer viver a vida sem o peso da religião dizendo que o que ele faz é errado. Porém, ele pega seu interesse amoroso com outro garoto, filho do pastor onde sua mãe congrega, Hunter (Jeremy Blewitt) se agarrando no meio do quintal. E conta para o pastor. Isso faz os pais, preocupados com aquele pecado, chamarem um missionário que faz um ritual, na frente de toda a comunidade, de exorcismo. Contudo, ele não exorcisa nenhum demônio, ele atrai um demônio para o encalço dos jovens. E depois da morte um tanto estranha de Hunter, Naim é obrigado pela mãe a fazer o mesmo ritual. E lógico que o capeta do preconceito cristão contra gay vira a vida dele de ponta cabeça. É prudente eu parar de contar a história aqui para não entregar mais nada que não deva. 

Existe sim uma criação intensional de suspense com cenas de vivencias juvenis corriqueiras e suas descobertas. E esse medo que o grupo religioso coloca é bem trabalhado. Eu estou fazendo um curso de roteiro para entender melhor os filmes e séries que tanto gosto e vi uma construção consistente. E coisas que eu acharia falhas de roteiro anteriormente eu percebi que são escolhas para justamente causar o efeito desejado. Uma coisa é a falta de conhecimento básico que os personagens demonstram. Eu achava isso ruim e besta, mas é o contraste para mostrar que algumas coisas só o conhecimento consegue te livrar de certas situações, e num filme isso deve pelo menos demora até o fim para acontecer, se acontecer. E é interessante ao público se achar mais inteligente que os personagens, isso causa um efeito que ajuda na tensão da cena.

Como disse acima, digo, meus amigos gostaram muito do filme e é uma pena, coincidentemente, com um tema desses, não ter sido lançado por aqui. O que tenho certeza não vai ser problema para ninguém. 



Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões e convites para parcerias. Fiquem à vontade. 

Pix: vinimotta2012@gmail.com

(que também é meu e-mail de contato)

Banco Inter — Vinícius Motta

Instagram: @vigamo500

Letterboxd: https://letterboxd.com/vigamo500/

Substack: https://substack.com/@vigamo

Blog: https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/