Era uma casa simples, de uma água só. porém do lado direito tinha um espaço onde uma área grande comportava dois carros estacionados um na frente do outro. Havia um coberto com uma capa própria de automóvel que eu não via há anos que devia estar protegendo a preciosidade máxima de meu avô, um Del Rey azul metálico que ele comprou de segunda mão em 1991.
- Fiz um negócião!
Entrou um dia eufórico explicando para meu pai todos os passos da compra. Eu já achava aquele carro um trambolho na época. Como era um desejo dele fiquei feliz por ele. Era difícil vê-lo daquele jeito. E agora, devia ser um trambolho e um ferro velho. Depois veria a situação dele. Não que eu entendesse de carro. Era só curiosidade saudosa. Quase enconstado na sua traseira via-se um Pálio, um dos últimos, prata sem graça e judiado. Minha mãe não era uma motorista cuidadosa. E pelo que ela dizia o carro tinha que ser funcional e não dar problemas.
Essa área formava um L para a frente onde se via uma porta-janela de correr que a fechadura ficava no meio e ela abria para os dois lados. Vi coisas ali quando cheguei e reconhecia como uma mistura das minhas com as de minha avó e da minha mãe. E entendi que ficaria ali devido uma cama no canto o posto de onde entrava colada na parede.
- Coloca suas coisas aqui que a gente fecha essa porta e usa o fundo para te dar privacidade. - Disse minha mãe me acomodando numa cama que já estava ali pronta. Empurrando umas caixas para passar continuou - Eu esqueci de arrumar uma cortina. Seu avô andou dando trabalho, amanhã arrumamos isso. Pensei em tapar com lençol mesmo por hoje. Depois pego uns velhos lá no meu quarto. Você é mais alto que eu e alcaça lá em cima.
Eu aguardei uma explicação sobre o que havia acontecido com a casa de meus avós e a casa dela, apesar de suspeitar. E não veio naquele momento. Minha mãe se despedia do motorista agradecendo e oferecendo o banheiro. O que ele aceitou prontamente. saiu por um corredor que dava para a entrada do banheiro entre dois quartos. Escutei um "Ôh, Seu Antônio, espera aí que tô apertado eu já vou aí já!" E a porta bateu. Eu não escutei o que meu avô pode ter falado. Só escutava um ruido assustadoramente familiar de algum equipamento.
Esperei o motorista, que se chamava Gerson sair do banheiro fazer um comprimento animado e alto que ecoava pelo corredor.
- O senhor está melhor?- Eu realemnte não escutava as respostas do meu avô. - O moleque tá aí já, Seu Antônio. Daqui a pouco ele aparece. Tá descarregando as malas.
Não tinha muita mala não. Só uma que estava comigo e coloquei em cima da cama.
- Vai lá ver seu avô - disse minha mãe segurando meu braço. - Ele não para de querer saber de você desde que ele saiu do hospital.
- Faz tempo que ele saiu?
- Mais ou menos na época que você despertou também.
Minha mãe parou. Sem palavras e apertenado os labios numa expressão que era característica sua. Parecia querer segurar dentro de si tudo. Às vezes a pressão era tão grande que embranquecia os lábios e soltava essa tensão com um suspiro profundo.
O Gerson deu uma espalhafatosa despedida ao meu avô dizendo que ia por o nome dele em algum lugar e veio na nossa direção dando uma esbugalhada nos olhos e levantando as sobrancelha
- Ele está querento te ver, Sônia, e eu já vou indo. Agradeço o banheiro viu, posso dar uma palavrinha com seu filho no particular?
- Ah claro, Gerson, eu que agradeço. Eu preciso falar com a Tica também- e apontou para a direção oposta.
E vi a Tica lá no fundo do corredor vindo de onde parecia ser uma cozinha dando um oi. Depois eu a cumprimentaria com mais tranquilidade. Minha mãe foi em sua direção e eu acompanhei o Gerson até o portão. Fiquei no limirar entre a fim da estreita área e o portãozinho do muro baixo diante do portão de grade aberto.
- Deixa eu te falar, eu participo de um grupo espírita aqui da cidade, acho que você não se lembra disso, se quiser passar lá para conversar, acho que vai ser de grande valia. E se quiser um passe, sempre é bom. Tem hoje, mas você deve estar cansado. Toda semana de quinta-feira às 19h. Temos umas ações em outros dias também, só para participantes mais assíduos.
- Ah, sim - Disse sem muito ânimo, mas seguindo a tradição de concordar sem contrariar gentilmente.
- Mas vai mesmo! Bom, vou indo e espero te ver lá um dia desses. Qualquer coisa me fala.
- Vou sim pode deixar. - Resposta padrão para dizer que não ia, e o importante, sem contrariar. Assim que ele saiu com o carro entrei e fui ver meu avô.
Nada me preparou para o sentimento que tive ao entrar em seu quarto. E olha que tinha ficado muito tempo num hospital vendo pessoas se recuperando. Entrando no quarto já fui falando
- Lincença, vô, como o senhor está?
Tentei não demonstrar nada, só sentei numa cadeira que estava do lado dele. Estava envelhedido demais, o tempo na UTI me judiou, mas a ele judiou mais ainda. Ele já era um homem magro quando tinha partido para estudar fora e agora estava esquelético e com uma cor amarelada, usava um respirador. Por isso não ouvia o que falava, ofegava muito e falava baixo e dessa vez eu consegui entender debaixo daquele equipamento de onde vinha o som que tinha reconhecido antes.
- Meu "fio", que bom te ver. Tá magro, mas tá bonito. - estendeu os braços para mim num gesto que eu conhecia de quando era criança - O vô tá só o pó da rabiola, "fio", só o pó da rabiola.
Eu tentei segurar o choro, tentei mesmo.
- Está um pouco magro vô, mas logo já está bom para jogar bola de novo. - Era algo que ele adorava, mas que eu lembrasse ele não jogava desde antes de eu me entender por gente.
- Desculpa não poder ir lá te ver. - disse ele se justificando sem precisar - Sua avó ficou doente no começo dessa desgraceira toda. Aí seu pai também ficou doente e eu e sua mãe ficamos cuidando deles. - Deu uma longa pausa e olhou bem nos meus olhos - Aí a vó foi "fio", a vó foi embora, não durou um mês. Ela sempre foi fraquinha, tinha bronquite.
- Eu sei vô, eu não vi, eu não vi nada. - E eu chorei. Ali eu chorei de soluçar. Aquele barulho de respiração difícil, o som do oxigênio tão presente perto de mim umas semanas atrás. - Eu que peço desculpas por não estar aqui com vocês.
- A vacina só veio depois, "fio", ela já tinha ido. E quem ficou doente fui eu, quase fui também.
Via a tristeza nos olhos fundos dele porém ele não chorava. Parecia que as lágrimas estavam secas. Contudo, com o tamanho do coração que ele sempre tivera, com certeza tinha sido para lá que as lágrimas escorreram. Dei um abraço meio desajeitado sentindo o quanto estava magro.
- Tem que desculpar não, "fio". Eu sarei e você sarou e agora você tá aqui um pouco magro, eu tô também, a gente agora vai engordar junto. Pedi para sua mãe comprar uma carninha para a gente comemorar, acho que vai ser no domingo. Mas hoje a gente vai ter uma janta boa para comemorar sua volta, "fio".
- Churrasco vô? - me animei com a ideia - Vai ter uma cervejinha?
- Tá bebendo agora? - meu avô se admirou com a informação, para ele eu era um molecote que só tomava refrigerante ainda - Sônia, o "fio" tá bebendo agora é?
Minha mãe que entrava no quarto foi calma ao responder.
- Seu neto é adulto, pai, ele bebe faz tempo.
Percebi que meu avô ficou um instante confuso e logo se recuperou e continuamos conversando, era hora dele tomar seu lanche e minha mãe montou uma mesinha de dobrar rapidamente e a moça, Tica, que a ajudava, trouxe logo o restante das coisas. Fiquei um pouco mais com ele conversando e logo depois fui arrumar meu novo quarto deixando ele descansar. Eu ia ficar naquela sala, pois os dois únicos quartos estavam um com minha mãe e outro com meu avô. Eu pelo que entendi, depois conversando com minha mãe, ela vendeu as duas casas para poder ajudar com os gastos do tratamento de nós todos. Me senti muito culpado por isso. Contudo ela me tranquilizou informando que não vivíamos de aluguel. Aquela casa era nossa, estava alugada e coincidentemente a inquilina tinha devolvido e voltado para Manaus dar apoio à família quando o sistema de saúde de lá colapsara e vários de seus parentes ficaram doentes na Pandemia. E havia mais duas casas alugadas. Ela só vendeu as que valiam mais e davam mais trabalho, segundo seus próprios critérios.
Como meu avô tinha dito havia um Bauru de presunto e queijo que eu amava e frango assado que lele gostava e conseguia comer melhor sem lhe causar mal. Eu ainda não estava totalmente bem para comer e mesmo assim fiquei estufado de dois peços grandes. Quando fui dormir, arrumamos uma gambiarra para quebrar a claridade da rua que passava pela porta de correr quer era de vidro canelado transparente. O poste da quadra fustigava de luz o quarto improvisado. Enquanto segurava o lençol para me ajudar a prender nas frestas da porta minha mãe me disse:
- Se colar jornal no vidro só para hoje?
- E tem jornal aí? - eu brigava com o pano e perdia, pois ela insistia em não ficar preso no lugar que eu teimava em prender - Existe jornal ainda?
- Ah, nem sei se tem jornal, a banca que tinha no centro não tem mais. Ou tem? Nem lembro.
Por fim, depois de socar um calço feito de papel dobrado várias vezes em si mesmo aqui e ali e prender com cuidado eu consegui deixar o tecido tapando a grande porta-janela. Era uma gambiarra que iria servir. O horário passou e eu mal tinha arrumado as roupas que trouxe. Minha mãe tinha trazido tudo do meu apartamento encaixotado e empilhado numa porção que formava uma mureta insólita fora do caminho. Amanhã teria que ir atrás da cortina, de um guarda-roupas e arrumar aquele cômodo para ficar um pouco habitável. Olhei para os pés da cama que dava para acesso ao corredor e pensei:
"Por uma porta sanfonada aí, mas é tão feia!"
Tomei os remédios que que precisava e dentre eles o de domir que estava usando só quando achava necessário. Era leve o suficiente para não ficar entorpecido e grogue e eficiente para ajudar a cair no sono mesmo com aqula luminosidade toda. Fiquei menos de cinco minutos virando de um lado para o outro até escolher a melhor posição que coincidiu ser o que ficaria olhando para a gambiarra pendurada. Resonvi virar as costas e ficar virado na parede naquela noite. Dormi.
Em algum momento da madrugada eu abri os olhos, sem sono algum e vi a silhueta escura de uma pessoa de parruda parada do lado de fora.
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