quarta-feira, 20 de maio de 2026

Desgraça e Masculinidade

 




Desgraça e Masculinidade

De forma direta ou apenas insinuando, eu já deixei clara minha vontade de fazer outras coisas e talvez até encerrar o Blog para me dedicar a vídeos no YouTube ou mesmo Instagram, e ando estudando e me organizando para tal. Contudo, esbarro na minha vergonha de tela. Nunca gostei muito de aparecer em vídeo e também tenho um pouco de restrição em me expor, paranoia minha. Essa aversão em "aparecer" chega ao ponto de me atrapalhar muito essa vontade de me dedicar à produção de conteúdo. Gosto bastante de escrever, preparar e eu sei que preciso ter meu conteúdo próprio. E sabemos como limitado é escrever no Blogger. Enquanto não faço nada a esse respeito, continuo com textos quilométricos por aqui. No máximo faço um card para postar no Instagram informando que há uma resenha nova sobre um filme ou série. 

Outra coisa que gostaria muito é diversificar meus textos com assuntos pertinentes ao que gosto de fazer, não só filmes e um pouco de série. Falar de arte, literatura, cotidiano, o que me apetecesse: cultura geral. Penso até num projeto ousado que juntaria minha formação em Letras para falar de escrita, livros e estilo de vida de quem tenta conciliar tudo isso com o ganhar o pão diário. Ideias tenho de monte, falta execução. Não posso esquecer que meu contexto de vida atual está um tanto conturbado, moro, no momento, numa cidade do interior de São Paulo, acreditem, se tem um lugar onde a cultura está minguando é aqui. Não vou enveredar pelo caminho da reclamação de como não suporto estar aqui, senão o chororô vai longe. Contudo, tenho que admitir que esse sacrifício vai ser benéfico para mim. O que não deixa nada mais fácil, mas estou aqui por um bom motivo. Resolvendo, volto a morar em São Paulo no dia seguinte. 

Quem não me conhece de outros escritos pode dar uma olhada no meu texto em que falei sobre meus primórdios nesse Blog e vai entender um pouco umas coisas que vou abordar aqui sem aprofundar. Quem quiser o link é este aqui:

https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/2026/04/meus-primordios-neste-blog.html

Eu sou um cara branco do interior de São Paulo, de uma cidade que se fortalece e cresce com a controversa vinda dos italianos para o Brasil para embranquecimento do país. Estou pisando aqui, ao falar disso, em um terreno bem movediço. Muitos não sabem da história do país e acabam estranhando quando alguns assuntos são abordados. Por mais que os europeus estivessem em busca de uma melhor condição de vida, fugindo da guerra, coincidentemente nossos líderes políticos estavam preocupados com a substituição da mão de obra escrava, que a libertação tinha ocorrido há algumas décadas, e também, a pior e mais nefasta preocupação, era embranquecer a população. Todo tipo de sandice na época era usada para justificar essa mazela. Com isso, não houve nenhuma reparação histórica para os escravizados e seus descendentes, pelo contrário, em muitas regiões do país o estado pagou indenizações aos donos das pessoas que se acharam lesados ao perder o patrimônio humano escravizado com a Abolição. Isso me dá um nó na garganta ainda hoje ao ter que falar disso. 

No interior de São Paulo onde cresci, a presença negra era muito menos visível socialmente do que em outros lugares que conheci depois. Eu mesmo tive pouquíssimos colegas na escola que eram negros. E eu precisei aprender muita coisa que não era ensinada na escola e em minha casa. Meu avô mesmo, por quem eu nutria um carinho enorme, foi o primeiro que me atentou para a cor da pele de um garoto que era meu amigo. Não que eu não percebesse que o tom de pele de alguém fosse diferente do meu. Eu percebia claramente, mas não tinha noção de que aquilo era motivo para eu me diferenciar e me achar melhor. Meu avô sim. E mesmo assim, não concordando com ele, eu introjetei muitos preconceitos que até hoje eu luto bastante para não influenciar negativamente, e muitas vezes eu traio nessa empreitada.

Por esse viés regional eu também recebi o catolicismo como religião de berço. Até houve um tempo em que flertei com o ateísmo e quiçá o agnosticismo, mas para quem leu o texto que indiquei sabe que eu me tornei seminarista da Igreja Católica. Maus tempos aqueles... Contudo, isso me propiciou morar em outras cidades e conhecer outros modos de viver que não o interiorano tacanho paulista. Cheguei a morar em Jaú, São Carlos e Campinas. Tive a oportunidade de morar em Nova Iguaçu, Seropédica e Piranema, no estado do Rio de Janeiro, e estava sempre pela capital do estado. O que pude conhecer eu conheci. E aqui começa um ponto de virada nos meus conhecimentos que é pertinente a tudo que estou escrevendo. Eu tive meus primeiros contatos com religiões não católicas através de pessoas que eram praticantes ao mesmo tempo que frequentavam a igreja. E foi ali que me despertou a percepção do senso religioso. Eu mesmo achava tudo que eu vivia no seminário muito racional e árido. Primeiro estudamos Filosofia, três anos, e depois fui para a Teologia, dependendo do lugar há alguma variação de tempo e de cursos. A vivência, até eu morar no Rio, era muito sem sentido místico, mas rica intelectualmente. E depois, quando abandonei de vez o seminário, quer dizer, fui mandado embora pela terceira vez, eu resolvi viver minha vida afastado da religião. Sempre aparecia alguém na minha vida com quem eu me relacionava, seja amizade ou no campo amoroso, que era do espiritismo, ou da umbanda, candomblé e outras denominações e até religiões. E, apesar de não sentir tanto a mística dentro do catolicismo, eu estudei bastante sobre o senso religioso, com viés católico, obviamente. E me espantei que o senso religioso era o mesmo em qualquer pessoa que acreditasse em algo. Parece óbvio, para mim não foi. Isso que chamo de senso religioso era o mesmo, mudavam as particularidades de cada religião em si. E sempre que era possível eu fui no que pude ir para conhecer os lugares. E vi e aprendi coisas, muitas coisas, e tudo com a segurança acadêmica de ter feito uma faculdade que me deu base científica para observar os eventos que presenciei. 

Este domingo eu escutei em algum lugar a Anitta com uma de suas músicas do seu álbum novo e, como alguns clipes já estavam lançados, eu quis saber por curiosidade o que o povo de fora do Brasil estava pensando e dizendo sobre ele. Aqui ela vai bem, mesmo que os evangélicos estejam criticando. E fui assistir alguns reacts, reação de algum youtuber ao assistir algo. E vi um monte desses vídeos, vários adoram e estranham essa fase da Anitta. Como eles não entendem a língua, ficam com a estética e com a melodia. Alguns fizeram uma pesquisa e descobriram que são clipes muito simbólicos, cheios de referência à religião dela,  o Candomblé. Falar assim é bem simplista, ela traz sim muitos elementos dessa religião, mas traz também elementos da umbanda, da religiosidade popular regional e até um pouco da cultura indígena. 

Em tempos de masculinidade frágil, homens fazendo retiros em montanhas com nomes que remetem a um ideal de ser verdadeiramente "homem", ou vão atrás de cursos para realinharem-se com o "ser homem" provedor "másculo", o clipe de Meia Noite acertou o alvo dos evangélicos, que julgaram haver uma incorporação real de Exu no dançarino do clipe. Só desprezaram o conhecimento real em torno da situação. Primeiro que um profissional da dança tem técnicas e fica muito claro no vídeo que não são danças de terreiro, são inspiradas em alguns passos de terreiros e a coreografia é cheia de movimentos próprios do universo da dança. E que, por mais que haja uma influência externa, uma entidade incorporar fora de um culto não é o correto. Pode acontecer numa situação muito especial. E ali é um set de filmagem. O tanto que se para para maquiar, regular luz, reposicionar elementos de cena... Não há entidade que tenha paciência para esperar. E entidade não faz o que um diretor quer na hora que quer. A entidade faz o que tem que fazer e vai embora. 

Eu penso, e aqui é um exercício mental baseado em tudo que vi, li, aprendi e vivenciei, que o mundo evangélico, e anterior a ele o protestante, na tentativa de se distanciar do Catolicismo acabou tirando o feminino do jogo. Enquanto os católicos receberam a base judaica de uma divindade patriarcal, que lá nos primórdios desbancou as divindades matriarcais, eles resgataram o feminino na figura materna de Maria. Não foi colocada no status de divina, mas deram uma importância de reverência por seu papel dentro da religião. Os protestantes a destronaram desse pedestal. E aí perderam um lado da trindade divina primordial, a grande mãe. Ao ter só o grande pai e o filho essa conta não fecha. E lembrando um pouco de Lévinas, o encontro com o "outro" não deve reduzi-lo ao "eu-mesmo". Então, comparativamente,  o polo masculino sem o outro polo, o feminino, fica sem uma percepção de si mesmo. Como você pode saber que você é diferente do outro se tirou o outro da sua existência? Usando o que estou abordando nesse texto, como alguém sabe que é o lado masculino se não tem o feminino para se ver e comparar como totalmente diferente? Percebe a crise que não ter uma representatividade no seu campo religioso causa? 

Se no catolicismo, mesmo rebaixada, temos a figura da mãe, no Candomblé e outras religiões de matriz africana isso é intrínseco. A família primordial é a base: mulher, homem e prole. E devido a isso estar claramente inserido no culto e na mitologia ninguém precisa fazer curso para entender a masculinidade. E, como o clipe da Anitta mostra, caso alguém esteja um tanto confuso sobre isso, as energias das entidades são bem definidas, sejam Orixás, sejam Exus e Pombagiras, que não fazem parte do mesmo culto, e aqui não vou entrar nessa explicação. Desgraça e Meia Noite são giras de Exu e Pombagira reproduzidas artisticamente em função do trabalho da idealizadora do álbum. Então é até engraçado perceber que o que os evangélicos disseram ser uma incorporação de verdade é uma centelha artística do masculino encarnado num culto popular na figura de Exu. 

Eu recomendo a qualquer um que queira sentir o que é ser masculino, ou mesmo feminino, de forma contundente, vá numa gira de Exu. E isso não quer dizer que o povo de Umbanda ou Candomblé não tenha problemas de misoginia, machismo e outros. Contudo, eles entendem um pouco mais essa pegada e não passam vergonha sendo "macho" no meio de outros "machos" gritando "Raul, raul, raulll". Como a vida, uma gira é para todos, indiferente ao sexo biológico. Em compensação, nem sempre será um Exu que descerá em um "macho" provedor. Respeita!




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English

The original text was written without the use of any AI tools; however, the translation was carried out by ChatGPT, as the author does not yet master English grammar. Perhaps one day.

If there is anything that may be difficult to understand or that seems unclear to the reader, this may be due to certain textual constructions, sentence structures, or even references specific to regional Brazilian Portuguese and the culture of Brazil.

All subsequent texts will include this notice.
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***Note: This text discusses subjects that are very particular to Brazilian culture, and perhaps some terms, expressions, or even facts mentioned here are common knowledge nationally. However, a foreign reader who is not familiar with the culture here may not understand any of it. If that is the case, feel free to leave a comment or even send me an email. I would really like to know. Thank you for supporting the blog.


Disgrace and Masculinity
In a direct way or merely by hinting at it, I have already made clear my desire to do other things and perhaps even shut down the Blog to dedicate myself to videos on YouTube or even Instagram, and I have been studying and organizing myself for that. However, I run into my camera shyness. I never really liked appearing in videos and I also have some resistance to exposing myself, my own paranoia. This aversion to “appearing” gets to the point of greatly hindering this desire of mine to dedicate myself to content creation. I really enjoy writing, preparing, and I need to have my own content. And we know how limited writing on Blogger is. While I do nothing about it, I continue posting gigantic texts here. At most I make a card to post on Instagram informing people that there is a new review about a movie or series.
Another thing I would really like is to diversify my texts with subjects relevant to what I enjoy doing, not only films and a little bit of television series. Talking about art, literature, everyday life, whatever appealed to me: general culture. I even think about a bold project that would combine my degree in Literature to talk about writing, books, and the lifestyle of someone trying to reconcile all of this with earning daily bread. I have plenty of ideas, what is lacking is execution. I cannot forget that my current life context is somewhat troubled, at the moment I live in a small city in the countryside of São Paulo, believe me, if there is one place where culture is fading away, it is here. I will not go down the road of complaining about how much I cannot stand being here, otherwise the whining would never end. However, I have to admit that this sacrifice will be beneficial for me. That does not make anything easier, but I am here for a good reason. Once things are resolved, I would move back to São Paulo the very next day.
Anyone who does not know me from previous times can take a look at my text where I talked about my beginnings on this Blog and will understand a little about some things I am going to address here without going too deep.
I am a white guy from the countryside of São Paulo, from a city that strengthened and grew through the controversial arrival of Italians in Brazil as part of the whitening of the country. By speaking about this, I am stepping onto very unstable ground. Many people do not know the country’s history and end up feeling uncomfortable when certain subjects are brought up. As much as Europeans were seeking better living conditions and fleeing war, coincidentally our political leaders were worried about replacing enslaved labor, since abolition had happened only a few decades earlier, and also, the worst and most harmful concern of all, whitening the population. Every kind of absurdity at the time was used to justify this disgrace. Because of that, there was no historical reparation for the formerly enslaved people and their descendants, on the contrary, in many regions of the country the state paid compensation to the owners of those people, who claimed they had been harmed by losing their enslaved human property after Abolition. Even today, talking about this gives me a knot in my throat.
In the countryside of São Paulo, racial mixing was much smaller, because there were not as many descendants of enslaved people as in other places. I myself met very few Black classmates at school. And I had to learn many things that were never taught at school or at home. My own grandfather, for whom I had enormous affection, was the first person who drew my attention to the skin color of a boy who was my friend. It is not that I could not notice that someone’s skin tone was different from mine. I clearly noticed it, but I had no idea that this was supposed to be a reason for me to differentiate myself and see myself as superior. My grandfather did. And even so, despite disagreeing with him, I internalized many prejudices that I still struggle hard not to let influence me today.
Through this regional background I also inherited Catholicism as my birth religion. There was even a time when I flirted with atheism and perhaps agnosticism, but for those who read the text I mentioned, I became a seminarian of the Catholic Church. Those were bad times... However, this allowed me to live in other cities and get to know other ways of life besides the narrow-minded countryside lifestyle of São Paulo. I lived in Jaú, São Carlos, and Campinas. I had the opportunity to live in Nova Iguaçu, Seropédica, and Piranema, in the state of Rio de Janeiro, and I was always around the state capital. Whatever I could experience, I experienced. And here begins a turning point in my understanding that is relevant to everything I am writing. I had my first contacts with non-Catholic religions through people who practiced them while also attending church. And it was there that my perception of religious sense awakened. I myself found everything I lived in the seminary very rational and dry. First we studied Philosophy for three years, and then I moved on to Theology, depending on the place there are some variations in time and in other courses. Life there, until I moved to Rio, lacked mystical meaning but was intellectually rich. And later, when I abandoned the seminary for good, that is to say, when I was expelled for the third time, I decided to live my life away from religion. Someone would always appear in my life with whom I became involved who ended up being connected to Spiritism, Umbanda, Candomblé, or other denominations. And although I did not feel much mysticism within Catholicism, I studied a great deal about religious sense, obviously through a Catholic lens. And I was astonished to realize that religious sense was the same in any person who believed in something. It sounds obvious, but for me it was not. What I call religious sense was the same, only the particularities of each religion changed. And whenever possible, I went wherever I could to get to know those places. And I saw and learned things, many things, all with the academic confidence of having attended a university that gave me a scientific basis to observe the events I witnessed.
This Sunday I heard Anitta somewhere with one of the songs from her new album Equilibrium and, since some music videos had already been released, out of curiosity I wanted to know what people outside Brazil were thinking and saying about them. Here she is doing well, even if evangelicals are criticizing her. So I watched some reaction videos, some YouTuber reacting to something. And I watched many of those videos, several people adore and are intrigued by this phase. Since they do not understand the language, they focus on the aesthetics and the melody. Some did research and discovered that the videos are highly symbolic, full of references to Anitta religion, Candomblé. Saying it like that is overly simplistic, she indeed brings many elements from that religion, but she also brings elements from Umbanda, regional popular religiosity, and even a little from Indigenous culture.
In times of fragile masculinity, with men attending retreats in the mountains with names that evoke an ideal of manhood, or taking courses to realign themselves with the image of the provider “masculine” man, the video for *Disgrace* hit evangelicals right on target, as they judged there to be a real spiritual incorporation of Exu in the dancer from the video. They simply disregarded the knowledge surrounding the situation. First of all, a professional dancer has techniques, and it is very clear in the video that these are not terreiro dances, they are inspired by certain terreiro movements, and the choreography is full of techniques belonging to the universe of dance itself. And even if there is some outside influence, an entity incorporating outside a ritual is not considered correct. It can happen in a very special situation. But that was a filming set. With all the pauses for makeup, adjusting lights, repositioning scenery elements, there is no entity with the patience to wait for that. And an entity does not do what a director wants whenever he wants it. The entity does what it has to do and leaves.
I think, and here this is a mental exercise based on everything I have seen, read, learned, and experienced, that the evangelical world, and before them the Protestants, in trying to distance themselves from Catholicism ended up removing the feminine from the equation. While Catholics inherited the Jewish foundation of a patriarchal divinity, which in ancient times displaced matriarchal divinities, they recovered the feminine in the maternal figure of Mary. She was not elevated to divine status, but she was given reverence because of her role within the religion. Protestants dethroned her from that pedestal. And then we lost one side of the primordial divine trinity, the great mother. Having only the great father and the son does not complete the equation. And remembering a little of Lévinas the encounter with the other should not reduce the other to myself. So the masculine pole, without the other pole, the feminine, loses its perception of itself. How can you know you are different from the other if you removed the other from your existence? Using what I am discussing in this text, how does someone know they are the masculine side if there is no feminine side to perceive themselves as completely different from? Do you realize the crisis caused by not having representation within your religious field?
If within Catholicism, even diminished, we still have the figure of the mother, in Candomblé and other African-rooted religions this is intrinsic. The primordial family is the foundation: woman, man, and offspring. And because this is clearly embedded in worship and mythology, nobody needs to take courses to understand masculinity. And, as Anitta’s video shows, if someone is somewhat confused about this, the energies of the entities are very well defined, whether they are orixás, Exus, or Pombagiras, which are not part of the same cult, and I will not go into that explanation here. Desgraça and Meia Noite are Exu and Pombagira ceremonies artistically reproduced according to the vision of the album’s creator. So it is even amusing to realize that what evangelicals claimed was a real incorporation is actually an artistic spark of masculinity embodied in a popular ritual through the figure of Exu.
I recommend that anyone who wants to feel what it means to be masculine, or even feminine, in a powerful way, attend an Exu ceremony. And that does not mean that people from Umbanda or Candomblé do not have problems with misogyny, machismo, and others. However, they understand this dynamic a little better and do not embarrass themselves acting like “alpha males” among other “alpha males” shouting “Raul, raul, rauuul.” Like life itself, a ceremony is for everyone regardless of biological sex. On the other hand, it will not always be an Exu that descends into a provider “macho” man. Respect it!

sábado, 16 de maio de 2026

O Diabo Veste Prada 2 - Continuação satisfatória





 O Diabo Veste Prada 2 - Continuação satisfatória 


A indústria cinematográfica tem interesse econômico e não gosta de ficar produzindo novidades que possam gerar prejuízos e isso justifica o tanto de clichês e continuações que acabam por facilitar a vida dos produtores. Até meados dos anos de 1990 o cuidado com as continuações  eram bem reduzido, pelo menos do que eu assistia. Muitos filmes apenas reproduziam o primeiro roteiro com um elemento diferente. Esqueceram de mim foi bem isso, mesma história só mudou o ambiente e a pessoa assustadora que o personagem principal tinha preconceito. Quando a história mudava todo o roteiro a essência dos personagens principais mudava também. Acertar o tom do personagem em uma segunda vez nem sempre se conseguia. Contudo, percebi que começou-se a ter um pouco mais de cuidado com continuações por volta dos anos 2000. E em vários casos as continuações perdem o fôlego da novidade e precisam se ajeitar de outras formas. E cada dia que passa eu reconheço mais a importância do roteiro. Um bom roteiro faz diferença em tudo. Tanto que a primeiria coisa que  fazem para revitalizar alguma franquia é correr atrás de um bom roteirista. Quem não o  faz isso cai nos erros do live action da Branca de Neve. 

Me parece que era justamente isso que estava travando a execução de O Diabo Veste Prada 2. Os produtores e os roteiristas não encontravam uma justificativa para a continuidade de uma história com um arco fechado como foi. O primeiro filme foi lançado em 2006 e fez muito sucesso. E o de agora precisou ser todo reelaborado para se adequar ao mundo que estamos vivendo, sem revistas físicas e muita internet com seus sites de fofocas e redes sociais. Para quem não lembra a personagem de Anne Hathaway foi trabalhar numa renomada revista de moda e encontra o próprio diabo como sua chefe, a Meryl Streep, e conta com a ajuda de um laborioso Stanley Tucci com uma nervosa e grossa Emily Blunt, respectivamente seus personagens são: Andrea, Miranda, Nigel e Emily. 

Agora temos que levar em consideração que o primeiro filme foi baseado no livro escrito por Lauren Weisberger que fez uma continuação que se chama A Vingança Veste Prada que não foi considerado para essa sequência. Escreveram um roteiro independente. Afinal, para um filme desses que ficou autônomo em relação a autora original não faz sentido nenhum usar o material original, não é mesmo? Hollywood e suas letras miúdas nos contratos!

E como disse acima, o grande problema é achar o mesmo tom de todos no filme e tirando, talvez, a interpretação da Meryl Streep que está um pouco mais caricata, e sei que isso pode ser tido como uma heresia, mas é uma percepção minha que senti, pois no primeiro era mais séria, neste nem tanto. Contudo percebo também uns altos e baixos com essa personagem que se mostra mais atenta ao que o RH pede e não ao seu costumeiro mando despótico que aprendemos a adorar.  O restante do elenco está bem afiado e cumprindo todo o beabá do que foi feito no primeiro filme. Só acho que as atrapalhadas da Andrea eram simpáticas no primeiro filme, no segundo, deixa ela infatilizada. Tirando esses derrapões, todo o mais configura uma boa continuação e uma história que agrada o público que quer mais do mesmo ao mesmo tempo que quer novidades. As roupas estão impecáveis e só corroboram que tudo que deixam cair na mídia antes do filme ser exibido não deve ser levado em conta, até fizeram o trocadilho de que no segundo filme o Diabo vestiria Zara. O que não se confirmou. Fica a dica para o povo que está criticando A Odisseia do Nolan sem ter visto o filme, e pior, destilando todo racismo com a Lupita Nyong'o e também uma certa transfobia com o Elliot Page. Espera o filme gente.

No geral gostei bastante de o Diabo Veste Prada 2, usando um termo bem apropiado e usado no momento, ele é "satisfatório" em sua execução e finalização. E ver o desfile de celebridades e artistas convidados para aparecer no filme é algo que faltou muito no primeiro. Contudo sabemos que houve um leve boicote da toda poderosa "Diaba" da moda global, Anna Wintour. Fofocas à parte tudo termina bem na comédia romântica. Só não temos uma música que caiu tanto no gosto popular como foi Suddenly I See, de KT Tunstall que bombou em tudo que era lugar desse país: nas rádios, academias, lojas,  fone de ouvidos e afins. Admito que eu estou limitado nesse momento e não ando pelos lugares que as músicas de real sucesso tocam, baladas. Runway com Lady Gaga e Doechii está indo bem pelo que sei, o clipe é digno do que o filme propõe, contudo não ouvi em outros lugares além de meu celular em casa. 



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English

The original text was written without the use of any AI tools; however, the translation was carried out by ChatGPT, as the author does not yet master English grammar. Perhaps one day.

If there is anything that may be difficult to understand or that seems unclear to the reader, this may be due to certain textual constructions, sentence structures, or even references specific to regional Brazilian Portuguese and the culture of Brazil.

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The Devil Wears Prada 2 — A Satisfying Sequel

            The film industry is driven by economic interests and does not enjoy taking risks on new ideas that might lead to financial losses, which explains the endless wave of clichés and sequels that make producers’ lives easier. Up until the mid-1990s, at least from what I used to watch, there was very little care put into sequels. Many films simply recreated the first script with one different element. Home Alone was exactly that: the same story, only the setting and the “scary” person the main character feared had changed. And when the story did change completely, the essence of the main characters often changed as well. Capturing the right tone for a character a second time is not always easy. Still, I noticed that around the 2000s, sequels started being handled with a little more care. In many cases, sequels lose the freshness of novelty and need to find other ways to stand on their own. And with every passing day, I recognize more and more the importance of screenwriting. A good script changes everything. So much so that the first thing studios do when trying to revive a franchise is search for a strong screenwriter. Those who fail to do so end up making the same mistakes as the live-action Snow White.

            It seems that this was precisely what delayed the production of The Devil Wears Prada 2. The producers and writers simply could not find a convincing reason to continue a story whose arc had already been fully resolved. The first film was released in 2006 and became a huge success. This new one had to be entirely reworked to fit the world we live in now — a world without print magazines and overflowing with internet gossip sites and social media. For those who may not remember, Anne Hathaway’s character begins working at a prestigious fashion magazine and encounters the devil herself as her boss, played by Meryl Streep, while also relying on the help of the hardworking Stanley Tucci and the perpetually stressed and abrasive Emily Blunt. Their characters, respectively, are Andrea, Miranda, Nigel, and Emily.

            Now, we also have to consider that the first movie was based on the novel written by Lauren Weisberger, who later wrote a sequel titled Revenge Wears Prada, which was not used as the basis for this continuation. Instead, they created an entirely original screenplay. After all, for a film franchise that has become autonomous from its original author, using the source material apparently makes no sense anymore, right? Hollywood and its fine print contracts.

            And as I mentioned above, the biggest challenge is finding the exact same tone for all the characters. Aside from perhaps Meryl Streep’s performance, which feels a bit more caricatured this time around — and I know some people may consider that statement heresy, but it is simply my perception — she felt more serious in the first movie, whereas here she does not. At the same time, I also noticed some interesting ups and downs in the character, who now seems more attentive to what Human Resources demands instead of relying solely on the despotic command style we learned to love. The rest of the cast is sharp and perfectly executes the same formula established in the original film. I just think Andrea’s clumsy moments were charming in the first movie, while in the sequel they occasionally make her feel pathetically infantilized. Aside from these small stumbles, everything else forms a solid continuation and a story that pleases audiences who want more of the same while still craving something new. The costumes are impeccable and only reinforce the fact that everything leaked online before the movie’s release should not be taken seriously. There was even a joke suggesting that, in the sequel, the Devil would be wearing Zara. Thankfully, that never happened.

            A good reminder for the people already criticizing The Odyssey without even seeing the film — and worse, using it as an excuse to unleash racism toward Lupita Nyong'o as well as a certain degree of transphobia toward Elliot Page. Wait for the movie first, people.

            Overall, I really enjoyed The Devil Wears Prada 2. Using a very appropriate modern term, it is “satisfying” in both execution and conclusion. And seeing the parade of celebrity cameos and guest artists throughout the film is something the first movie sorely lacked. Of course, we all know there was a slight boycott from the all-powerful “Devil” of the global fashion industry herself, Anna Wintour. Gossip aside, everything ends well in this romantic comedy.

The only thing missing is a song that captured popular culture the way Suddenly I See by KT Tunstall did back then. That song exploded everywhere in Brazil: on the radio, in gyms, inside stores, through headphones, and beyond. I admit I may be somewhat limited these days and no longer spend time in the places where truly massive hits are played — clubs and parties. Runway by Lady Gaga and Doechii seems to be performing well from what I know, and the music video certainly matches the film’s proposal. Still, I have not heard it anywhere beyond my own cellphone at home.










quinta-feira, 14 de maio de 2026

Pela Metade: uma relação no mínimo distorcida





Pela Metade: uma relação no mínimo distorcida

****Observação: eu assisti o episódio 04 nesse fim de semana e saibam, que episódio que é um soco no estômago. Eu não sei por qual motivo eu insisto em escrever antes de assistir a temporada toda, tanto que saiu meio mixuruca essa resenha. Deixa finalizar a exibição do último capítulo e me comprometo a fazer uma nova reflexão sobre o assunto, que seja só desse último episório que assisti que já vale a resenha. Mas por enquanto fiquem com essa, e perdão, deveria ter sido melhor. (Vigamo - 18/05/26)


Pela Metade é uma série criada e roteirizada pelo Richard Gadd que também fez a aclamada Bebê Rena, , roteiro e atuação,  que não assisti, pois me causou gatilhos. Quem já teve stalker,  e anda se tratando por causa de ansiedade, não necessariamente causada por essa situação, talvez entenda. Pela Metade tem uma temporada com seis episódios sendo que só três foram disponibiliados até o momento pela Max. Sei que já prometi não fazer resenha antes de terminar uma temporada, mas quem somos nós senão seres contraditórios e que adora morder a própria língua? Até o momento está muito interessante.

Basicamente a série foca na relação, no mínimo distorcida, de dois rapazes que são meio irmãos por parte de mães que tem uma relação amorosa. Contudo, enquanto Niall (Jamie Bell) é tímido, confuso com sua sexualidade e um "bom garoto" Ruben (Gadd) é seu oposto, "malvado", esteve preso por arrancar o nariz de um cara a dentadas, agressivo, mas é bonitão e tem personalidade. Ambos, por necessidade inicial são obrigados a dividir o próprio quarto. Contudo a relação fica muito desconfortável em vários sentidos. Niall cria uma dependência emocional tamanha com o Ruben e a cada fase da vida dos dois limites são totalmente extrapolados. 

Essa situação complexa e pautada no domínio de Ruben perpassa toda a relação dos dois. Contudo, isso não é spoiler, pois faz parte da primeira cena, Niall, já mais velho, está no dia do seu casamento tranquilo quando Ruben aparece para bagunçar a vida dele e quebrar seu nariz. Antes da cerimônia em si os dois vão tirar a limpo essa estranha relação e para entendermos como chegou até ali aquilo tudo inicia-se o flashback para nos mostrar como os dois viveram e o que levou até ali. 

Até o presente momento a série tem entregado bastante com as atuações nervosas de Bell e do bravo e irritadiço Gadd. Eu não estava reconhecendo o Bell e fui dar uma olhada no que ele fez e me surpreendi que ele foi o sensível Billy Elliot (2000) e deu a voz, na adaptação animada, a Tintim e estrelou uma parcela de filmes com relativo sucesso, Rocketman, King Kong, Expresso do Amanhã, enfim, inúmeras produções. 

Gadd é a primeira vez que vejo a atuando. Por mais desprezível que seja seu personagem possui um certo carisma. Não sei dizer se vai finalizar satisfatóriamente essa temporada ou se haverá outra. Imagino que seja uma série de uma história fechada. Como não está interiamente disponibilizada promete bastante. Se continuar para o caminho que está propondo a série vai ser bem interessante. 

Reforço minha opinião contradiótia que coloquei acima, eu não assisti inteira, mas está  bem interessante até o momento. Ela flerta com o desconforto. Ao contrário de Bebê Rena, eu estou conseguindo assistir sem me causar crises de ansiedade, mesmo sendo um tema delicado para muitos. 



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English

The original text was written without the use of any AI tools; however, the translation was carried out by ChatGPT, as the author does not yet master English grammar. Perhaps one day.

If there is anything that may be difficult to understand or that seems unclear to the reader, this may be due to certain textual constructions, sentence structures, or even references specific to regional Brazilian Portuguese and the culture of Brazil.

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*********Note: I watched episode 04 this weekend and, believe me, what an absolute punch to the gut of an episode. I honestly don’t know why I insist on writing before finishing the whole season, which is probably why this review came out a little weak. Let the final episode air, and I promise I’ll write a new reflection on the subject — honestly, that last episode alone already deserves its own review. But for now, this is what I’ve got, and I’m sorry… it should have been better. (Vigamo - 05/18/26)


Halfway There: a relationship that is, at the very least, distorted.

            Halfway There is a series created and written by Richard Gadd, who also made the acclaimed Baby Reindeer — writing and starring in it as well — which I have not watched because it triggered me. Anyone who has ever had a stalker, and is undergoing treatment for anxiety, not necessarily caused by that situation, might understand. Halfway There has one season with six episodes, though only three have been released so far on Max. I know I already promised not to review a show before finishing a season, but who are we if not contradictory beings who love biting our own tongues? So far, it has been very interesting.

            Basically, the series focuses on the deeply distorted relationship between two young men who are half-brothers through their mothers, who are romantically involved. While Niall (Jamie Bell) is shy, confused about his sexuality, and a “good boy,” Ruben (Gadd) is his complete opposite: cruel, aggressive, and once imprisoned for biting a man’s nose off — but he is handsome and charismatic. Due to circumstances at first, the two are forced to share a bedroom. However, the relationship becomes deeply uncomfortable in many ways. Niall develops an overwhelming emotional dependency on Ruben, and with each stage of their lives, boundaries are completely shattered.

            This complex dynamic, centered around Ruben’s dominance, runs throughout their relationship. Still, this is not a spoiler, since it happens in the very first scene: an older Niall is calmly preparing for his wedding day when Ruben suddenly appears to destroy his peace and break his nose. Before the ceremony itself, the two try to settle this strange relationship once and for all, and to understand how things reached that point, the story dives into a flashback showing how they lived and what led them there.

            So far, the series has delivered strong performances from Bell and from the fierce and irritable Gadd. I did not even recognize Bell at first, so I looked into his career and was surprised to remember he was the sensitive Billy in Billy Elliot. He also voiced Tintin in the animated adaptation and has starred in several relatively successful films such as Rocketman, King Kong, and Snowpiercer, among many others.

            This is the first time I have seen Gadd acting. As despicable as his character may be, he still carries a certain charm. I cannot yet say whether this season will end satisfactorily or if there will be another one. I imagine it is meant to be a self-contained story. Since the full season has not been released yet, it still holds a lot of promise. If it continues down the path it is proposing, the series could become something truly compelling.

            I will reinforce the contradictory opinion I mentioned earlier: I have not finished watching it, but it has been very interesting so far. The show constantly flirts with discomfort. Unlike Baby Reindeer, I have been able to watch this one without triggering anxiety attacks, even though it deals with a delicate subject for many people.








quarta-feira, 13 de maio de 2026

Conto autoral: "Uma vez eu fui pescar..."

        





                 Escrevi um conto para um concurso e não fui classicado nem entre os dez primeiros. Então, como havia a necessidade de ser algo inédito e não podia postar em lugar nenhum, agora que não fui selecionado eu posto aqui. Segue abaixo o texto.


"Uma vez eu fui pescar..." 

Meu avô materno era um grande contador de causos. Nem sempre eram bem recebidos, ficava atento e quieto na sala após o jantar assistindo jornal até finalizar seu silêncio com o "Boa noite!" em resposta ao âncora do programa. E nós o acompanhavámos no mesmo silêncio. Se começava uma conversa enquanto as notícias eram transmitidas logo vinha um estalo da língua entre os dentes e o céu da boca em reprovação. Algumas vezes,  esse estalo era seguido instantanemente de um "Eh!" seco. Bastava. Contudo, durante a novela que começava logo em seguida, as lembranças e reminiscências vinham e seu monólogo começava. Era um monólogo, ninguém queria ficar interrompendo para não estender a conversa e nem ele queria isso. Tinha causo que se emendava em outro, em outro e mais outro. Coincidentemente quando terminava a novela ele terminava o causo. Não era uma disputa, ele sempre vencia. 

Ele tinha todos os requisitos para um bom contador de causos, era um senhor vivido, caipira, tinha nascido e crescido à revelia de um monte de tecnologias, seu mundo era mágico, místico e ligado à natureza, e sabia sustentar o enredo. E não menos relevante, ele tinha uma plateia e também tinha um neto com imaginação fértil e curioso para reelaborar tudo que ouvia na sua cabecinha infantil. No caso eu.

As histórias eram diversas e sempre de um fato ocorrido num passado que me parecia tão longínquo que eu mesmo não alcaçava. Alguns personagens eram frequentes, tinha um tal de Mirno que era preguiçoso, guloso, e fazia só coisas do jeito errado, em seu rígido julgamento. Eu lembro de uma frase que era frequente nas falas de meu avô "É que eu tô com fome..." que era atribuida a ele.  Até hoje não sei o que aconteceu com esse homem, pela insistência do meu avô com as recordações ele de certa forma o marcou, mesmo que se manifestasse isso através de críticas e implicâncias. Como meu vô era um homem sério alguns comportamentos o desagradavam muito. E me parece que esse Mirno tinha todos.

Por mais que fossem relatos de coisas acontecidas, tudo passava pelo filtro de sua mente e repertório linguístico e depois era plantado na minha imaginação e florescia. Eu sendo uma criança que morava numa cidade pequena, e saía para aventuras com meu avô, conhecia alguns cenários, então tudo fica muito realista. E nesses cenários, as histórias de assombração eram as que mais me impressionavam. Não havia reviravoltas mirabolantes nem um fio condutor complexo. Era um relato simples, por vezes sem fim, por vezes sem explicações e em todas eu ficava impressionado.

Vários causos começavam "Uma vez eu fui pescar..." e desenrolava um relato qualquer sobre estar indo de bicicleta para algum lugar com a lanterna ascesa, mas a noite estava clara por causa da lua. E estava lá caminhando pelas matas que eram encorpadas, mata antiga de beira de rio, típica desse centro-oeste paulistano. Se chegava ali por estradas de terra que separavam propriedades, eram lambidas de lado a lado por alguma plantação, laranjeiras, goiabeiras, limoeiros, cafezais, canaviais, tudo dependendo do que estivesse dando mais lucro naquele momento. Pastos infindáveis eram frequentes com suas vacas marrons, pretas, mochas, um  boi capão tristonho. E no fim de alguma estrada um mata-burros que impedia os bichos invadirem as terras dos vizinhos. A cerca de arame farpado dava o limite intransponível a ser obedecido. E um pescador nunca se detinha diante de qualquer obstáculo. O rio era público e nenhuma propriedade privada poderia impedir de um pescador ir até seu rio favorito. Era a epopeia do homem comum da roça. Sem limites para uma alma livre que carregava um feixe de umas cinco ou mais varas de pescar de bambu. Colhidas e preparadas por suas próprias mãos. Quantas vezes assisti aquele homem trazendo uma porção de varas de bambu finos, que serviam para pesca, verdes e ainda com as folhas. Preparava um fogo no fundo de casa, sapecava o caniço após tirar os "nós" e remanescentes de pequenos galhos e folhas  de fora afora. O batismo no fogo era para deixar a vara mais maleável, resistente e dar início ao processo de secagem. Após esse processo, eram colocadas num lugar seguro numa área que tinha em casa, uma espérice de suporte feito só de arcos de arames suspensos no teto em três pontos que davam sustentação ao mesmo tempo que deixava fora de alcance para não atrapalhar. Em outro dia, com o sol bem forte começava o processo de por a linha rodeando a ponteira. Em seguida, uma sobra de linha era deixada, um pouco maior que a própria vara e em alguns pontos eram colocados chumbadas ovais, quando redondas e sem o furo característico, eram abertos no meio com um corte de canivete na lateral e reamassados para as partes se fecharem em pressão com a linha no meio. Por fim o anzol era colocado com nós reforçados e a linha enrolada na extenção da própria vara para não ficar solta, presa com quaquer coisa que service para amarar, de uma tira de pano velho a um pedaço de plástico, tudo servia se fosse contribuir para o capricho final. 

Após passar por vários metros de alguma propriedade privada do lado oposto da cerca aparecia umas trilhas entre a grama. Em pomares não existia essas trilhas pois ninguém dixava animais zanzando entre as plantações. Era uma trilha sinuosa que parecia elaborada por uma cobra larga e rebolante. Eram só as passadas erráticas e incessantes do gado que imprimiam em poucos dias grandes veias de terra vermelha no pasto verde. No meio do daquela vegetação rasteira, uns cumieiros de cupinziros que de vez em quando meu avô levava para casa para dar para as galinhas. Eu adorava quebrar aqueles torrões duros de terra e ver os bichos se desesperando tentando se esconder das galinhas mais desesperadas ainda catatano um a um pelo bico enchendo o papo. 

Em sua grande maioria os rios estavam protegidos, não só pelas matas ciliares,  como também pelos próprios donos da terra, que as mantinham para proteger da erosão. Em vários lugares havia ainda a mata original formando uma reserva particular sem proteção além da falta de vontade daquele proprietário desmatar. Contudo não eram florestas virgens, eram muito devassadas por qualquer um que quisesse se abastecer de peixes, plantas medicinais, colher maderia para fazer cabos de enxadas, enxadões e outras ferramentas. Alguns ainda tentavam caçar algum bicho que desaparecia ostensivamente da região naquela época. 

Além da bicicleta, meu avó ia munido de um borná de lona com alguns suprimentos, pão com mortadela era o mais comum, tralhas de pescas para um eventual rompinento de linha ou perda de anzol devido algum enrosco , uma sacola de fio de nailon para por os peixes que pegasse, além das varas. Vestia um chapeu de palha surrado que mostrava as marcas nas suas abas curvas de tanto segurar na mão por qualquer motivo. Sempre de calça comprida, camisa de manga longas e, depois de quase ser picado por cobras em suas andanças, umas perneiras de couro que colocava na hora que chegava onde deixaria a bicicleta e iniciaria o caminho a pé. A luz do sol já estava se despedindo para iniciar a noite. E quando terminou de se preparar o breu caiu. 

Naquela noite a lua chegou intensa parecendo um um botão único e branco numa camisa escura.  Estava determinada a rasgar o céu em seu caminho cotidiano. Quando passou por uma ponte que dava acesso à estrada que ele pegou para chegar até ali havia um carro parado. Não era tão incomum, pois alguns vinham pescar de carro, preferindo ficar justamente próximo a alguma ponte para não ficar longe de onde o estacionaram. O rio estava com as águas claras, mesmo assim eram traiçoerias. A última chuva tinha acontecido há um tempo e não havia previsão de cair água nos próximos dias. Estava perfeito para uma boa empreitada de pesca. 

Foi andando pela mata, havia uma picada, entre muitas, que foi seguindo. Os pernilongos percebendo a oportunidade se precipitaram para todas as partes que estivessem fora das roupas. Devem ter se decepcionado muito, pouco antes meu avô, como sempre fazia, tinha se bezuntado de Repelex de um recipiente amarelo encardido com seu cheiro característico. Era algo que ele sempre contava e muitas vezes eu mesmo vi acontecer.  Achou uma clareira no barranco do rio, pelo visto já muito usada antes, e se ajeitou para se instalar e iniciar o preparo da pesca. Uma coisa que meu avô sempre carregava consigo era uma garrucha antiga de cabo curvo, era carregada manualmente com bucha, pólvora e bolas de chumbo pequenas que fazia o tiro sair espalhado, se não fosse bem socado. Quantas vezes não tinha visto aquela arma, e até pegado na mão, sempre com sua supervisão e orientação, pois, ele dizia que era perigoso. Nunca atirei com ela, ele não deixava por causa do coice. Quando adquiriu uma espingarda cartucheira me ensinou como atirar, anos depois, eu prestei o serviço militar obrigatório e não passei vergonha nem me machuquei como aconteceu com vários colegas no dia de atirar com um fuzil escangalhado disponível. 

Ele prosseguiu contando que ficou ali por meia hora e não houve nenhuma fisgada só ouviu umas cobras "assobiando". Resolveu juntar suas coisas e foi para mais longe num sentido oposto ao que tinha entrado na mata e se achegando um pouco mais perto da ponte que estava uns poucos quilometros adiante. Achou outro barranco bom para se ajeitar e começou a por uma minhoca no anzol que havia pego pouco antes de começar pescar. Era grossa, robusta, cinza avermelhada com um anel no que parecia ser seu pescoço. Lembro de achar, quando vi pela primeira vez, que eram parecidas com golas altas de blusas, gelatinosa e repugnantes. Algumas fisgadas de um ou outro lambari que, por ser pequeno demais, voltava rapidamente para o rio logo que percebido seu tamanho. 

Logo meu avô disse que escutou longe um som alto e estridente parecendo um aptito. Resolveu averiguar. Novamente jutou as coisas e foi andando pela picada em direção da ponte de onde vinha o som que ouvira antes. 

Minutos depois, vendo luzes de lanternas fortes se movendo no mato escutou: 

- Quem está aí?  - ouviu uma voz alguns metros de estava.

Eu arregalei os olhos e parei de olhar a velha televisão de tubo,  naquele momento a história dele estava mais interessante que a novela que passava.

- Quem está aí? - ele continou contanto. 

Segundo ele era um policial com seu parceiro que estava fazendo uma busca, questiounou sobre ele e o que estava fazendo ali:

  - Meu nome é Gabriel, estava aqui pescando. - Lembro que não explicou muito, mas naquela época era comum andar armado, acho que o policial não se atentou a isso e como a cidade era pequena não tinha como não se conhecerem, pelo menos de vista. Digo isso pois meu avô disse que não insistiram muito em nada, mas contaram o que estava acontecendo. 

E pense em todas essas falas com um sotaque caipira bem carregado, não aquele falso de novelas, um que tem uma cantinela gostosa com um erre retroflexo que beira o caricato aos ouvidos desavisados, porém, remonta ao poder ancestral dos povos originários que se tornam, ainda hoje, presetnes no jeito de falar pelos interiores do país. 

- Você trabalha lá com o "Nirton" do "Varte"? É né... Então, você não viu um homem claro meio baixo pelos caminhos que fez? Não? - fez uma pausar espereando as negativas de meu avô - Quando você passou pela ponte havia já um carro estacionado no acostamento?

- Sim, estava vazio e não vi ninguém por ali, era tardinha e tinha como ver alguma coisa ainda. 

Continuaram conversando sobre o horário e logo chegou mais dois guardas e continou sem dar muito atenção a eles:

- O dono do carro está sumido desde ontem, e sua mulher falou que ele não disse para onde ia. Ele não era de beber, era trabalhador e nunca tinha sumido de casa antes.

Havia uma foto pequana nas mãos da autoriade. Não era um homem que meu avô conhecia ou já tinha visto, nem sabia de que família, então foi liberado e voltou pelo caminho que tinha chegado.

Achou um lugar novo para pescar um pouco além de do ponto que tinha entrado na mata. Novamente se esparramou pelo barranco com suas tralhas de pesca e ficou esperando o peixe fisgar. A minhoca que tinha colocado era gorda e vistosa. Enquanto esperava a vontade do bicho em mordiscar a isca sua mente se aquietava. Era uma meditação, percebia e sentia  o ar, a luz do luar, um barulho de algo caindo na água, algum fruto talvez, mantendo ao mesmo tempo o foco na espera. Os apitos dos guardas continuavam lá do outro lado. 

O rio fazia uma curva logo adiante de onde estava. Curujas também se manifestavam por ali e todas as espécies de insetos que decidiam cantar ao mesmo tempo. Sua mente calma centrou o olhar na ponta da vara. Era muito visível com seus olhos já acostumados à aquela noite e novamente olhou para a lua que estava muito clara já alto no céu. E a vara deu uma leve envergada, nisso deu um puxão forte, seco e curto. Todos os sons dos bichos pareceram parar no silêncio seguinte. Levantou a vara e o anzol estava sem metade da minhoca. Não foi dessa vez. O que o incomodou foi que o barulho realmente tinha sumido.  E olhou para a água escura e limpa do rio. 

A água corria para o lado oposto ao da ponte, então era estranho o que estava vendo. Percebeu sem querer que na curva que o rio deslizava sem aparente corrente, formando um espelho calmo, um vulto se mostrava. Era grande e não saia para cima da linha d'água. Enquanto segurava uma minhoca na mão que estava para por  no anzol espremeu os olhos para ver melhor. Não tinha conhecimento de jacaré naquela região há um bom tempo. Uma capivara talvez. Sem barulho, sem fazer força contra a corrente que estava lá mesmo parecendo que não. A sombra veio para seu lado num movimento incomum para um animal. Se levantou para caso precisasse se defender ou correr, sem medo nenhum, e também para ver melhor o que era. 

Ia se achegando mais perto, era um homem. E não era um corpo boiando, era só um reflexo pálido desse homem que brilhava abaixo da superfície da água. Veio calmamente. Não dava para ver muito bem o rosto, a água deixava embaçada. Assim que chegou bem perto do barranco aquele espectro ficou uns segundos que pareceram eternidade e continou o trajeto rio acima para o lado que os policiais estavam, cortou o rio na transversal e foi se enroscar em um arranha-gato logo ali na frente e não saindo mais para lugar nenhum. 

Meu avô não fazia pausas nem drama, e sua linguagem era limpa e simples e parecia não prestar atenção à sua volta. Só contava o que vinha na sua cabeça. Se tivesse olhado para mim ia ver dois olhos arregalados entendendo que estava sendo dito, mas com medo de perguntar qualquer coisa e a palavra estampada com o peso do meu espanto: assombração!

Ele disse que de novo arrumou as coisas e foi para o lado dos policiais. E quando os achou falou para eles darem uma olhada no arbústo que ele tinha visto a alma desafortunada se enfiando. Como havia uns colegas deles do outro lado do rio, gritaram para os outros e os de lá, com ajuda de faroletes, tentaram ver o lugar da indicação de meu avô. Acharam o corpo e preso no arranha-gato assim que apontaram o foco da luz para aquele ponto. 

Após isso, como sempre acontecia, não houve grandes explicações por parte de meu avô. Ele disse que voltou mais uma vez e tentou pescar. Não deu certo, pois, os policiais apareceram de novo para perguntar como ele sabia que o corpo estava onde indicara. Eles tinham chamado os bombeiro e agora esperavam chegar para fazer o resgate do corpo, pois não esperavam encontrar a pessoa assim. Meu avó só desconversou, disse que viu um volume estranho no galho de onde estava e como eles tinham dito do desaparecimento do homem ele achou que era bom averiguar. Mesmo que a distância e a visibilidade comprometida tornasse essa possibilidade questionável. Se colocou à disposição para qualquer coisa e novamente foi dispensado. 

No dia seguinte soube que o cara era realmente um pai de família trabalhador que tinha se jogado da ponte em desespero por algum motivo que meu avô não quis contar o naquele instante. Contudo escutei ele relatando o real motivo para meu tio depois, eles não falavam certas coisas na minha frente. Como a casa era pequena não era difícil eu ouvir conversas que não faziam na minha frente. E mesmo assim eu não entendi direito o motivo na época. Depois de adulto fui entender. Naquele momento eu estava com outros questionamentos mais relevantes a um impressionado menino com seus dez anos incompletos. Era uma assombração real? Como pode isso? Por que ele foi até o Senhor e ficou parado? Foi verdade? Ele se afogou mesmo? Era muito feio? Ele foi nadando batendo os braços? Boiou como? Estava de roupa? O Senhor não sentiu medo? Era branco igual nos filmes? E saibam, nenhuma das perguntas teve resposta. 

O homem tinha passado a tarde jogando cartas e apostando. Em certo momento ele deve ter ficado confiante demais, incentivado pela bebida, que a esposa achava que ele não consumia, apostou a própria casa e perdeu. E antes de tentar negociar uma alternativa brigou com os seus rivais e saiu nervoso do buteco. Desesperado com a imprudência e má sorte não foi para casa tentar ouvir a voz da razão, foi de carro até a ponte, desceu por algum canto da mata, se desequilibrou ou pulou na água. O rio não tinha uma correnteza muito forte e nem era tão fundo, bêbado, deve ter se embolado nas plantas e cipós da beira do barranco, até pode ter tentado se salvar, pois estava cheio de arranhões pelos braços e rosto. 

- Bão... vou dormir!

Era a deixa de meu avô para dizer que não contaria mais causos naquela noite. A nolvela na televisão já mostrava os créditos finais terminando também seu enredo em aberto. Igual muitas histórias dele.


domingo, 10 de maio de 2026

Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: Gostosinho

 




Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: Gostosinho


Em 2022 Shelby Van Pelt publicou seu livro de mesmo nome que conta a história de Tova, uma senhorinha viúva que trabalha  de faxineira num aquário no periodo noturno para não pensar no filho que morreu por um motivo que descobrimos depois de vários minutos corridos. E, deixando claro, eu não li esse livro que foi um sucesso na época de estreia.  No meio dos acontecimentos cotidianos aparece um, aparentemente, desleixado Caneron que toma seu lugar no trabalho durante uma licença que foi obrigada a tirar devido um acidente. 

Uma históriazinha banal, não fosse a peculiaridade de ser uma fábula moderna. Nela temos o grande Marcellus, um polvo. E é ele quem narra a história toda pelo seu ponto de vista superior, como ele mesmo modestamente insiste em dizer. Quem faz a voz em off de Marcellus é Alfred Molina e em sua narrativa simpática vemos que tanto a vida de Tova quanto a de Cameron se desenrolam para ser mais interessante que se pode imaginar. Nessa dupla de personagens temos uma octogenária Sally Field, bem frágil de aparência que ainda faz bonito interpretado. E, eu estava curioso para vê-lo em ação, o rapaz é interpretado pelo Lewis Pullman, filho do Bill Pullman que cresci vendo filmes desse ator. Pullman filho faz bonito em tela. 

O filme é bem Sessão da Tarde e pipocão, talvez hoje possamos trocar para é bem "Netflix". Além da plataforma ter produzido o filme é melhor para se referir esse tipo de produção. É uma ótima pedida para toda família assistir juntos. E um filme de pessoas maduras em tela. As produções hollywoodianas não gostam muito de idosos em tela como protagonistas, no máximo coadjuvantes de luxo, e aqui Tova é a principal, por mais que Cameron tenha sua importância. 

Um filme gostosinho que trás um calorzinho no coração em tempos de dureza e falta de humanidade em muita gente. Vale o tempo ganho com essa diversão em formato de filme. Ele entrega bastante o que propõe. E isso é um diferencial hoje em dia. 


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Remarkably Bright Creatures: Comforting

            In 2022, Shelby Van Pelt published her novel of the same name, telling the story of Tova, an elderly widow who works as a janitor at an aquarium during the night shift in order to avoid thinking about her son, who died for reasons we only discover much later on. And, just to make things clear, I never read the book, despite the huge success it achieved when it was first released. In the middle of these everyday events appears the seemingly careless Cameron, who temporarily takes over Tova’s position after she is forced to take leave because of an accident.

            It would be an ordinary little story if not for the fact that it works as a modern fable. At the center of it all, we have the great Marcellus — an octopus. And he is the one narrating the entire story through his own superior point of view, as he modestly insists on reminding us. The voice-over for Marcellus is performed by Alfred Molina, and through his charming narration we realize that both Tova’s and Cameron’s lives unfold into something far more interesting than one might initially expect. Among this pair of protagonists, we have an octogenarian Sally Field, physically fragile in appearance but still delivering a beautiful performance. And I was curious to see him on screen: the young man is played by Lewis Pullman, son of Bill Pullman, whose films I grew up watching. Pullman’s son does an excellent job on screen.

            The film has that classic feel-good afternoon-movie energy — though nowadays we could simply call it “very Netflix.” Besides the platform having produced the movie, that label fits this kind of production perfectly. It is a great choice for the whole family to watch together. And, most importantly, it is a movie centered around mature people. Hollywood productions usually do not enjoy placing elderly characters in leading roles; at best, they become luxurious supporting characters. Here, however, Tova is undeniably the protagonist, even though Cameron also carries an important role.

            It is a comforting little film that brings warmth to the heart during times marked by harshness and a disturbing lack of humanity in many people. It is absolutely worth the time spent on this cinematic piece of entertainment. The movie fully delivers what it promises — and nowadays, that alone is already something special.