sábado, 16 de maio de 2026

O Diabo Veste Prada 2 - Continuação satisfatória





 O Diabo Veste Prada 2 - Continuação satisfatória 


A indústria cinematográfica tem interesse econômico e não gosta de ficar produzindo novidades que possam gerar prejuízos e isso justifica o tanto de clichês e continuações que acabam por facilitar a vida dos produtores. Até meados dos anos de 1990 o cuidado com as continuações  eram bem reduzido, pelo menos do que eu assistia. Muitos filmes apenas reproduziam o primeiro roteiro com um elemento diferente. Esqueceram de mim foi bem isso, mesma história só mudou o ambiente e a pessoa assustadora que o personagem principal tinha preconceito. Quando a história mudava todo o roteiro a essência dos personagens principais mudava também. Acertar o tom do personagem em uma segunda vez nem sempre se conseguia. Contudo, percebi que começou-se a ter um pouco mais de cuidado com continuações por volta dos anos 2000. E em vários casos as continuações perdem o fôlego da novidade e precisam se ajeitar de outras formas. E cada dia que passa eu reconheço mais a importância do roteiro. Um bom roteiro faz diferença em tudo. Tanto que a primeiria coisa que  fazem para revitalizar alguma franquia é correr atrás de um bom roteirista. Quem não o  faz isso cai nos erros do live action da Branca de Neve. 

Me parece que era justamente isso que estava travando a execução de O Diabo Veste Prada 2. Os produtores e os roteiristas não encontravam uma justificativa para a continuidade de uma história com um arco fechado como foi. O primeiro filme foi lançado em 2006 e fez muito sucesso. E o de agora precisou ser todo reelaborado para se adequar ao mundo que estamos vivendo, sem revistas físicas e muita internet com seus sites de fofocas e redes sociais. Para quem não lembra a personagem de Anne Hathaway foi trabalhar numa renomada revista de moda e encontra o próprio diabo como sua chefe, a Meryl Streep, e conta com a ajuda de um laborioso Stanley Tucci com uma nervosa e grossa Emily Blunt, respectivamente seus personagens são: Andrea, Miranda, Nigel e Emily. 

Agora temos que levar em consideração que o primeiro filme foi baseado no livro escrito por Lauren Weisberger que fez uma continuação que se chama A Vingança Veste Prada que não foi considerado para essa sequência. Escreveram um roteiro independente. Afinal, para um filme desses que ficou autônomo em relação a autora original não faz sentido nenhum usar o material original, não é mesmo? Hollywood e suas letras miúdas nos contratos!

E como disse acima, o grande problema é achar o mesmo tom de todos no filme e tirando, talvez, a interpretação da Meryl Streep que está um pouco mais caricata, e sei que isso pode ser tido como uma heresia, mas é uma percepção minha que senti, pois no primeiro era mais séria, neste nem tanto. Contudo percebo também uns altos e baixos com essa personagem que se mostra mais atenta ao que o RH pede e não ao seu costumeiro mando despótico que aprendemos a adorar.  O restante do elenco está bem afiado e cumprindo todo o beabá do que foi feito no primeiro filme. Só acho que as atrapalhadas da Andrea eram simpáticas no primeiro filme, no segundo, deixa ela infatilizada. Tirando esses derrapões, todo o mais configura uma boa continuação e uma história que agrada o público que quer mais do mesmo ao mesmo tempo que quer novidades. As roupas estão impecáveis e só corroboram que tudo que deixam cair na mídia antes do filme ser exibido não deve ser levado em conta, até fizeram o trocadilho de que no segundo filme o Diabo vestiria Zara. O que não se confirmou. Fica a dica para o povo que está criticando A Odisseia do Nolan sem ter visto o filme, e pior, destilando todo racismo com a Lupita Nyong'o e também uma certa transfobia com o Elliot Page. Espera o filme gente.

No geral gostei bastante de o Diabo Veste Prada 2, usando um termo bem apropiado e usado no momento, ele é "satisfatório" em sua execução e finalização. E ver o desfile de celebridades e artistas convidados para aparecer no filme é algo que faltou muito no primeiro. Contudo sabemos que houve um leve boicote da toda poderosa "Diaba" da moda global, Anna Wintour. Fofocas à parte tudo termina bem na comédia romântica. Só não temos uma música que caiu tanto no gosto popular como foi Suddenly I See, de KT Tunstall que bombou em tudo que era lugar desse país: nas rádios, academias, lojas,  fone de ouvidos e afins. Admito que eu estou limitado nesse momento e não ando pelos lugares que as músicas de real sucesso tocam, baladas. Runway com Lady Gaga e Doechii está indo bem pelo que sei, o clipe é digno do que o filme propõe, contudo não ouvi em outros lugares além de meu celular em casa. 



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The original text was written without the use of any AI tools; however, the translation was carried out by ChatGPT, as the author does not yet master English grammar. Perhaps one day.

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The Devil Wears Prada 2 — A Satisfying Sequel

            The film industry is driven by economic interests and does not enjoy taking risks on new ideas that might lead to financial losses, which explains the endless wave of clichés and sequels that make producers’ lives easier. Up until the mid-1990s, at least from what I used to watch, there was very little care put into sequels. Many films simply recreated the first script with one different element. Home Alone was exactly that: the same story, only the setting and the “scary” person the main character feared had changed. And when the story did change completely, the essence of the main characters often changed as well. Capturing the right tone for a character a second time is not always easy. Still, I noticed that around the 2000s, sequels started being handled with a little more care. In many cases, sequels lose the freshness of novelty and need to find other ways to stand on their own. And with every passing day, I recognize more and more the importance of screenwriting. A good script changes everything. So much so that the first thing studios do when trying to revive a franchise is search for a strong screenwriter. Those who fail to do so end up making the same mistakes as the live-action Snow White.

            It seems that this was precisely what delayed the production of The Devil Wears Prada 2. The producers and writers simply could not find a convincing reason to continue a story whose arc had already been fully resolved. The first film was released in 2006 and became a huge success. This new one had to be entirely reworked to fit the world we live in now — a world without print magazines and overflowing with internet gossip sites and social media. For those who may not remember, Anne Hathaway’s character begins working at a prestigious fashion magazine and encounters the devil herself as her boss, played by Meryl Streep, while also relying on the help of the hardworking Stanley Tucci and the perpetually stressed and abrasive Emily Blunt. Their characters, respectively, are Andrea, Miranda, Nigel, and Emily.

            Now, we also have to consider that the first movie was based on the novel written by Lauren Weisberger, who later wrote a sequel titled Revenge Wears Prada, which was not used as the basis for this continuation. Instead, they created an entirely original screenplay. After all, for a film franchise that has become autonomous from its original author, using the source material apparently makes no sense anymore, right? Hollywood and its fine print contracts.

            And as I mentioned above, the biggest challenge is finding the exact same tone for all the characters. Aside from perhaps Meryl Streep’s performance, which feels a bit more caricatured this time around — and I know some people may consider that statement heresy, but it is simply my perception — she felt more serious in the first movie, whereas here she does not. At the same time, I also noticed some interesting ups and downs in the character, who now seems more attentive to what Human Resources demands instead of relying solely on the despotic command style we learned to love. The rest of the cast is sharp and perfectly executes the same formula established in the original film. I just think Andrea’s clumsy moments were charming in the first movie, while in the sequel they occasionally make her feel pathetically infantilized. Aside from these small stumbles, everything else forms a solid continuation and a story that pleases audiences who want more of the same while still craving something new. The costumes are impeccable and only reinforce the fact that everything leaked online before the movie’s release should not be taken seriously. There was even a joke suggesting that, in the sequel, the Devil would be wearing Zara. Thankfully, that never happened.

            A good reminder for the people already criticizing The Odyssey without even seeing the film — and worse, using it as an excuse to unleash racism toward Lupita Nyong'o as well as a certain degree of transphobia toward Elliot Page. Wait for the movie first, people.

            Overall, I really enjoyed The Devil Wears Prada 2. Using a very appropriate modern term, it is “satisfying” in both execution and conclusion. And seeing the parade of celebrity cameos and guest artists throughout the film is something the first movie sorely lacked. Of course, we all know there was a slight boycott from the all-powerful “Devil” of the global fashion industry herself, Anna Wintour. Gossip aside, everything ends well in this romantic comedy.

The only thing missing is a song that captured popular culture the way Suddenly I See by KT Tunstall did back then. That song exploded everywhere in Brazil: on the radio, in gyms, inside stores, through headphones, and beyond. I admit I may be somewhat limited these days and no longer spend time in the places where truly massive hits are played — clubs and parties. Runway by Lady Gaga and Doechii seems to be performing well from what I know, and the music video certainly matches the film’s proposal. Still, I have not heard it anywhere beyond my own cellphone at home.










quinta-feira, 14 de maio de 2026

Pela Metade: uma relação no mínimo distorcida





Pela Metade: uma relação no mínimo distorcida


Pela Metade é uma série criada e roteirizada pelo Richard Gadd que também fez a aclamada Bebê Rena, , roteiro e atuação,  que não assisti, pois me causou gatilhos. Quem já teve stalker,  e anda se tratando por causa de ansiedade, não necessariamente causada por essa situação, talvez entenda. Pela Metade tem uma temporada com seis episódios sendo que só três foram disponibiliados até o momento pela Max. Sei que já prometi não fazer resenha antes de terminar uma temporada, mas quem somos nós senão seres contraditórios e que adora morder a própria língua? Até o momento está muito interessante.

Basicamente a série foca na relação, no mínimo distorcida, de dois rapazes que são meio irmãos por parte de mães que tem uma relação amorosa. Contudo, enquanto Niall (Jamie Bell) é tímido, confuso com sua sexualidade e um "bom garoto" Ruben (Gadd) é seu oposto, "malvado", esteve preso por arrancar o nariz de um cara a dentadas, agressivo, mas é bonitão e tem personalidade. Ambos, por necessidade inicial são obrigados a dividir o próprio quarto. Contudo a relação fica muito desconfortável em vários sentidos. Niall cria uma dependência emocional tamanha com o Ruben e a cada fase da vida dos dois limites são totalmente extrapolados. 

Essa situação complexa e pautada no domínio de Ruben perpassa toda a relação dos dois. Contudo, isso não é spoiler, pois faz parte da primeira cena, Niall, já mais velho, está no dia do seu casamento tranquilo quando Ruben aparece para bagunçar a vida dele e quebrar seu nariz. Antes da cerimônia em si os dois vão tirar a limpo essa estranha relação e para entendermos como chegou até ali aquilo tudo inicia-se o flashback para nos mostrar como os dois viveram e o que levou até ali. 

Até o presente momento a série tem entregado bastante com as atuações nervosas de Bell e do bravo e irritadiço Gadd. Eu não estava reconhecendo o Bell e fui dar uma olhada no que ele fez e me surpreendi que ele foi o sensível Billy Elliot (2000) e deu a voz, na adaptação animada, a Tintim e estrelou uma parcela de filmes com relativo sucesso, Rocketman, King Kong, Expresso do Amanhã, enfim, inúmeras produções. 

Gadd é a primeira vez que vejo a atuando. Por mais desprezível que seja seu personagem possui um certo carisma. Não sei dizer se vai finalizar satisfatóriamente essa temporada ou se haverá outra. Imagino que seja uma série de uma história fechada. Como não está interiamente disponibilizada promete bastante. Se continuar para o caminho que está propondo a série vai ser bem interessante. 

Reforço minha opinião contradiótia que coloquei acima, eu não assisti inteira, mas está  bem interessante até o momento. Ela flerta com o desconforto. Ao contrário de Bebê Rena, eu estou conseguindo assistir sem me causar crises de ansiedade, mesmo sendo um tema delicado para muitos. 



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Halfway There: a relationship that is, at the very least, distorted.

            Halfway There is a series created and written by Richard Gadd, who also made the acclaimed Baby Reindeer — writing and starring in it as well — which I have not watched because it triggered me. Anyone who has ever had a stalker, and is undergoing treatment for anxiety, not necessarily caused by that situation, might understand. Halfway There has one season with six episodes, though only three have been released so far on Max. I know I already promised not to review a show before finishing a season, but who are we if not contradictory beings who love biting our own tongues? So far, it has been very interesting.

            Basically, the series focuses on the deeply distorted relationship between two young men who are half-brothers through their mothers, who are romantically involved. While Niall (Jamie Bell) is shy, confused about his sexuality, and a “good boy,” Ruben (Gadd) is his complete opposite: cruel, aggressive, and once imprisoned for biting a man’s nose off — but he is handsome and charismatic. Due to circumstances at first, the two are forced to share a bedroom. However, the relationship becomes deeply uncomfortable in many ways. Niall develops an overwhelming emotional dependency on Ruben, and with each stage of their lives, boundaries are completely shattered.

            This complex dynamic, centered around Ruben’s dominance, runs throughout their relationship. Still, this is not a spoiler, since it happens in the very first scene: an older Niall is calmly preparing for his wedding day when Ruben suddenly appears to destroy his peace and break his nose. Before the ceremony itself, the two try to settle this strange relationship once and for all, and to understand how things reached that point, the story dives into a flashback showing how they lived and what led them there.

            So far, the series has delivered strong performances from Bell and from the fierce and irritable Gadd. I did not even recognize Bell at first, so I looked into his career and was surprised to remember he was the sensitive Billy in Billy Elliot. He also voiced Tintin in the animated adaptation and has starred in several relatively successful films such as Rocketman, King Kong, and Snowpiercer, among many others.

            This is the first time I have seen Gadd acting. As despicable as his character may be, he still carries a certain charm. I cannot yet say whether this season will end satisfactorily or if there will be another one. I imagine it is meant to be a self-contained story. Since the full season has not been released yet, it still holds a lot of promise. If it continues down the path it is proposing, the series could become something truly compelling.

            I will reinforce the contradictory opinion I mentioned earlier: I have not finished watching it, but it has been very interesting so far. The show constantly flirts with discomfort. Unlike Baby Reindeer, I have been able to watch this one without triggering anxiety attacks, even though it deals with a delicate subject for many people.








quarta-feira, 13 de maio de 2026

Conto autoral: "Uma vez eu fui pescar..."

        





                 Escrevi um conto para um concurso e não fui classicado nem entre os dez primeiros. Então, como havia a necessidade de ser algo inédito e não podia postar em lugar nenhum, agora que não fui selecionado eu posto aqui. Segue abaixo o texto.


"Uma vez eu fui pescar..." 

Meu avô materno era um grande contador de causos. Nem sempre eram bem recebidos, ficava atento e quieto na sala após o jantar assistindo jornal até finalizar seu silêncio com o "Boa noite!" em resposta ao âncora do programa. E nós o acompanhavámos no mesmo silêncio. Se começava uma conversa enquanto as notícias eram transmitidas logo vinha um estalo da língua entre os dentes e o céu da boca em reprovação. Algumas vezes,  esse estalo era seguido instantanemente de um "Eh!" seco. Bastava. Contudo, durante a novela que começava logo em seguida, as lembranças e reminiscências vinham e seu monólogo começava. Era um monólogo, ninguém queria ficar interrompendo para não estender a conversa e nem ele queria isso. Tinha causo que se emendava em outro, em outro e mais outro. Coincidentemente quando terminava a novela ele terminava o causo. Não era uma disputa, ele sempre vencia. 

Ele tinha todos os requisitos para um bom contador de causos, era um senhor vivido, caipira, tinha nascido e crescido à revelia de um monte de tecnologias, seu mundo era mágico, místico e ligado à natureza, e sabia sustentar o enredo. E não menos relevante, ele tinha uma plateia e também tinha um neto com imaginação fértil e curioso para reelaborar tudo que ouvia na sua cabecinha infantil. No caso eu.

As histórias eram diversas e sempre de um fato ocorrido num passado que me parecia tão longínquo que eu mesmo não alcaçava. Alguns personagens eram frequentes, tinha um tal de Mirno que era preguiçoso, guloso, e fazia só coisas do jeito errado, em seu rígido julgamento. Eu lembro de uma frase que era frequente nas falas de meu avô "É que eu tô com fome..." que era atribuida a ele.  Até hoje não sei o que aconteceu com esse homem, pela insistência do meu avô com as recordações ele de certa forma o marcou, mesmo que se manifestasse isso através de críticas e implicâncias. Como meu vô era um homem sério alguns comportamentos o desagradavam muito. E me parece que esse Mirno tinha todos.

Por mais que fossem relatos de coisas acontecidas, tudo passava pelo filtro de sua mente e repertório linguístico e depois era plantado na minha imaginação e florescia. Eu sendo uma criança que morava numa cidade pequena, e saía para aventuras com meu avô, conhecia alguns cenários, então tudo fica muito realista. E nesses cenários, as histórias de assombração eram as que mais me impressionavam. Não havia reviravoltas mirabolantes nem um fio condutor complexo. Era um relato simples, por vezes sem fim, por vezes sem explicações e em todas eu ficava impressionado.

Vários causos começavam "Uma vez eu fui pescar..." e desenrolava um relato qualquer sobre estar indo de bicicleta para algum lugar com a lanterna ascesa, mas a noite estava clara por causa da lua. E estava lá caminhando pelas matas que eram encorpadas, mata antiga de beira de rio, típica desse centro-oeste paulistano. Se chegava ali por estradas de terra que separavam propriedades, eram lambidas de lado a lado por alguma plantação, laranjeiras, goiabeiras, limoeiros, cafezais, canaviais, tudo dependendo do que estivesse dando mais lucro naquele momento. Pastos infindáveis eram frequentes com suas vacas marrons, pretas, mochas, um  boi capão tristonho. E no fim de alguma estrada um mata-burros que impedia os bichos invadirem as terras dos vizinhos. A cerca de arame farpado dava o limite intransponível a ser obedecido. E um pescador nunca se detinha diante de qualquer obstáculo. O rio era público e nenhuma propriedade privada poderia impedir de um pescador ir até seu rio favorito. Era a epopeia do homem comum da roça. Sem limites para uma alma livre que carregava um feixe de umas cinco ou mais varas de pescar de bambu. Colhidas e preparadas por suas próprias mãos. Quantas vezes assisti aquele homem trazendo uma porção de varas de bambu finos, que serviam para pesca, verdes e ainda com as folhas. Preparava um fogo no fundo de casa, sapecava o caniço após tirar os "nós" e remanescentes de pequenos galhos e folhas  de fora afora. O batismo no fogo era para deixar a vara mais maleável, resistente e dar início ao processo de secagem. Após esse processo, eram colocadas num lugar seguro numa área que tinha em casa, uma espérice de suporte feito só de arcos de arames suspensos no teto em três pontos que davam sustentação ao mesmo tempo que deixava fora de alcance para não atrapalhar. Em outro dia, com o sol bem forte começava o processo de por a linha rodeando a ponteira. Em seguida, uma sobra de linha era deixada, um pouco maior que a própria vara e em alguns pontos eram colocados chumbadas ovais, quando redondas e sem o furo característico, eram abertos no meio com um corte de canivete na lateral e reamassados para as partes se fecharem em pressão com a linha no meio. Por fim o anzol era colocado com nós reforçados e a linha enrolada na extenção da própria vara para não ficar solta, presa com quaquer coisa que service para amarar, de uma tira de pano velho a um pedaço de plástico, tudo servia se fosse contribuir para o capricho final. 

Após passar por vários metros de alguma propriedade privada do lado oposto da cerca aparecia umas trilhas entre a grama. Em pomares não existia essas trilhas pois ninguém dixava animais zanzando entre as plantações. Era uma trilha sinuosa que parecia elaborada por uma cobra larga e rebolante. Eram só as passadas erráticas e incessantes do gado que imprimiam em poucos dias grandes veias de terra vermelha no pasto verde. No meio do daquela vegetação rasteira, uns cumieiros de cupinziros que de vez em quando meu avô levava para casa para dar para as galinhas. Eu adorava quebrar aqueles torrões duros de terra e ver os bichos se desesperando tentando se esconder das galinhas mais desesperadas ainda catatano um a um pelo bico enchendo o papo. 

Em sua grande maioria os rios estavam protegidos, não só pelas matas ciliares,  como também pelos próprios donos da terra, que as mantinham para proteger da erosão. Em vários lugares havia ainda a mata original formando uma reserva particular sem proteção além da falta de vontade daquele proprietário desmatar. Contudo não eram florestas virgens, eram muito devassadas por qualquer um que quisesse se abastecer de peixes, plantas medicinais, colher maderia para fazer cabos de enxadas, enxadões e outras ferramentas. Alguns ainda tentavam caçar algum bicho que desaparecia ostensivamente da região naquela época. 

Além da bicicleta, meu avó ia munido de um borná de lona com alguns suprimentos, pão com mortadela era o mais comum, tralhas de pescas para um eventual rompinento de linha ou perda de anzol devido algum enrosco , uma sacola de fio de nailon para por os peixes que pegasse, além das varas. Vestia um chapeu de palha surrado que mostrava as marcas nas suas abas curvas de tanto segurar na mão por qualquer motivo. Sempre de calça comprida, camisa de manga longas e, depois de quase ser picado por cobras em suas andanças, umas perneiras de couro que colocava na hora que chegava onde deixaria a bicicleta e iniciaria o caminho a pé. A luz do sol já estava se despedindo para iniciar a noite. E quando terminou de se preparar o breu caiu. 

Naquela noite a lua chegou intensa parecendo um um botão único e branco numa camisa escura.  Estava determinada a rasgar o céu em seu caminho cotidiano. Quando passou por uma ponte que dava acesso à estrada que ele pegou para chegar até ali havia um carro parado. Não era tão incomum, pois alguns vinham pescar de carro, preferindo ficar justamente próximo a alguma ponte para não ficar longe de onde o estacionaram. O rio estava com as águas claras, mesmo assim eram traiçoerias. A última chuva tinha acontecido há um tempo e não havia previsão de cair água nos próximos dias. Estava perfeito para uma boa empreitada de pesca. 

Foi andando pela mata, havia uma picada, entre muitas, que foi seguindo. Os pernilongos percebendo a oportunidade se precipitaram para todas as partes que estivessem fora das roupas. Devem ter se decepcionado muito, pouco antes meu avô, como sempre fazia, tinha se bezuntado de Repelex de um recipiente amarelo encardido com seu cheiro característico. Era algo que ele sempre contava e muitas vezes eu mesmo vi acontecer.  Achou uma clareira no barranco do rio, pelo visto já muito usada antes, e se ajeitou para se instalar e iniciar o preparo da pesca. Uma coisa que meu avô sempre carregava consigo era uma garrucha antiga de cabo curvo, era carregada manualmente com bucha, pólvora e bolas de chumbo pequenas que fazia o tiro sair espalhado, se não fosse bem socado. Quantas vezes não tinha visto aquela arma, e até pegado na mão, sempre com sua supervisão e orientação, pois, ele dizia que era perigoso. Nunca atirei com ela, ele não deixava por causa do coice. Quando adquiriu uma espingarda cartucheira me ensinou como atirar, anos depois, eu prestei o serviço militar obrigatório e não passei vergonha nem me machuquei como aconteceu com vários colegas no dia de atirar com um fuzil escangalhado disponível. 

Ele prosseguiu contando que ficou ali por meia hora e não houve nenhuma fisgada só ouviu umas cobras "assobiando". Resolveu juntar suas coisas e foi para mais longe num sentido oposto ao que tinha entrado na mata e se achegando um pouco mais perto da ponte que estava uns poucos quilometros adiante. Achou outro barranco bom para se ajeitar e começou a por uma minhoca no anzol que havia pego pouco antes de começar pescar. Era grossa, robusta, cinza avermelhada com um anel no que parecia ser seu pescoço. Lembro de achar, quando vi pela primeira vez, que eram parecidas com golas altas de blusas, gelatinosa e repugnantes. Algumas fisgadas de um ou outro lambari que, por ser pequeno demais, voltava rapidamente para o rio logo que percebido seu tamanho. 

Logo meu avô disse que escutou longe um som alto e estridente parecendo um aptito. Resolveu averiguar. Novamente jutou as coisas e foi andando pela picada em direção da ponte de onde vinha o som que ouvira antes. 

Minutos depois, vendo luzes de lanternas fortes se movendo no mato escutou: 

- Quem está aí?  - ouviu uma voz alguns metros de estava.

Eu arregalei os olhos e parei de olhar a velha televisão de tubo,  naquele momento a história dele estava mais interessante que a novela que passava.

- Quem está aí? - ele continou contanto. 

Segundo ele era um policial com seu parceiro que estava fazendo uma busca, questiounou sobre ele e o que estava fazendo ali:

  - Meu nome é Gabriel, estava aqui pescando. - Lembro que não explicou muito, mas naquela época era comum andar armado, acho que o policial não se atentou a isso e como a cidade era pequena não tinha como não se conhecerem, pelo menos de vista. Digo isso pois meu avô disse que não insistiram muito em nada, mas contaram o que estava acontecendo. 

E pense em todas essas falas com um sotaque caipira bem carregado, não aquele falso de novelas, um que tem uma cantinela gostosa com um erre retroflexo que beira o caricato aos ouvidos desavisados, porém, remonta ao poder ancestral dos povos originários que se tornam, ainda hoje, presetnes no jeito de falar pelos interiores do país. 

- Você trabalha lá com o "Nirton" do "Varte"? É né... Então, você não viu um homem claro meio baixo pelos caminhos que fez? Não? - fez uma pausar espereando as negativas de meu avô - Quando você passou pela ponte havia já um carro estacionado no acostamento?

- Sim, estava vazio e não vi ninguém por ali, era tardinha e tinha como ver alguma coisa ainda. 

Continuaram conversando sobre o horário e logo chegou mais dois guardas e continou sem dar muito atenção a eles:

- O dono do carro está sumido desde ontem, e sua mulher falou que ele não disse para onde ia. Ele não era de beber, era trabalhador e nunca tinha sumido de casa antes.

Havia uma foto pequana nas mãos da autoriade. Não era um homem que meu avô conhecia ou já tinha visto, nem sabia de que família, então foi liberado e voltou pelo caminho que tinha chegado.

Achou um lugar novo para pescar um pouco além de do ponto que tinha entrado na mata. Novamente se esparramou pelo barranco com suas tralhas de pesca e ficou esperando o peixe fisgar. A minhoca que tinha colocado era gorda e vistosa. Enquanto esperava a vontade do bicho em mordiscar a isca sua mente se aquietava. Era uma meditação, percebia e sentia  o ar, a luz do luar, um barulho de algo caindo na água, algum fruto talvez, mantendo ao mesmo tempo o foco na espera. Os apitos dos guardas continuavam lá do outro lado. 

O rio fazia uma curva logo adiante de onde estava. Curujas também se manifestavam por ali e todas as espécies de insetos que decidiam cantar ao mesmo tempo. Sua mente calma centrou o olhar na ponta da vara. Era muito visível com seus olhos já acostumados à aquela noite e novamente olhou para a lua que estava muito clara já alto no céu. E a vara deu uma leve envergada, nisso deu um puxão forte, seco e curto. Todos os sons dos bichos pareceram parar no silêncio seguinte. Levantou a vara e o anzol estava sem metade da minhoca. Não foi dessa vez. O que o incomodou foi que o barulho realmente tinha sumido.  E olhou para a água escura e limpa do rio. 

A água corria para o lado oposto ao da ponte, então era estranho o que estava vendo. Percebeu sem querer que na curva que o rio deslizava sem aparente corrente, formando um espelho calmo, um vulto se mostrava. Era grande e não saia para cima da linha d'água. Enquanto segurava uma minhoca na mão que estava para por  no anzol espremeu os olhos para ver melhor. Não tinha conhecimento de jacaré naquela região há um bom tempo. Uma capivara talvez. Sem barulho, sem fazer força contra a corrente que estava lá mesmo parecendo que não. A sombra veio para seu lado num movimento incomum para um animal. Se levantou para caso precisasse se defender ou correr, sem medo nenhum, e também para ver melhor o que era. 

Ia se achegando mais perto, era um homem. E não era um corpo boiando, era só um reflexo pálido desse homem que brilhava abaixo da superfície da água. Veio calmamente. Não dava para ver muito bem o rosto, a água deixava embaçada. Assim que chegou bem perto do barranco aquele espectro ficou uns segundos que pareceram eternidade e continou o trajeto rio acima para o lado que os policiais estavam, cortou o rio na transversal e foi se enroscar em um arranha-gato logo ali na frente e não saindo mais para lugar nenhum. 

Meu avô não fazia pausas nem drama, e sua linguagem era limpa e simples e parecia não prestar atenção à sua volta. Só contava o que vinha na sua cabeça. Se tivesse olhado para mim ia ver dois olhos arregalados entendendo que estava sendo dito, mas com medo de perguntar qualquer coisa e a palavra estampada com o peso do meu espanto: assombração!

Ele disse que de novo arrumou as coisas e foi para o lado dos policiais. E quando os achou falou para eles darem uma olhada no arbústo que ele tinha visto a alma desafortunada se enfiando. Como havia uns colegas deles do outro lado do rio, gritaram para os outros e os de lá, com ajuda de faroletes, tentaram ver o lugar da indicação de meu avô. Acharam o corpo e preso no arranha-gato assim que apontaram o foco da luz para aquele ponto. 

Após isso, como sempre acontecia, não houve grandes explicações por parte de meu avô. Ele disse que voltou mais uma vez e tentou pescar. Não deu certo, pois, os policiais apareceram de novo para perguntar como ele sabia que o corpo estava onde indicara. Eles tinham chamado os bombeiro e agora esperavam chegar para fazer o resgate do corpo, pois não esperavam encontrar a pessoa assim. Meu avó só desconversou, disse que viu um volume estranho no galho de onde estava e como eles tinham dito do desaparecimento do homem ele achou que era bom averiguar. Mesmo que a distância e a visibilidade comprometida tornasse essa possibilidade questionável. Se colocou à disposição para qualquer coisa e novamente foi dispensado. 

No dia seguinte soube que o cara era realmente um pai de família trabalhador que tinha se jogado da ponte em desespero por algum motivo que meu avô não quis contar o naquele instante. Contudo escutei ele relatando o real motivo para meu tio depois, eles não falavam certas coisas na minha frente. Como a casa era pequena não era difícil eu ouvir conversas que não faziam na minha frente. E mesmo assim eu não entendi direito o motivo na época. Depois de adulto fui entender. Naquele momento eu estava com outros questionamentos mais relevantes a um impressionado menino com seus dez anos incompletos. Era uma assombração real? Como pode isso? Por que ele foi até o Senhor e ficou parado? Foi verdade? Ele se afogou mesmo? Era muito feio? Ele foi nadando batendo os braços? Boiou como? Estava de roupa? O Senhor não sentiu medo? Era branco igual nos filmes? E saibam, nenhuma das perguntas teve resposta. 

O homem tinha passado a tarde jogando cartas e apostando. Em certo momento ele deve ter ficado confiante demais, incentivado pela bebida, que a esposa achava que ele não consumia, apostou a própria casa e perdeu. E antes de tentar negociar uma alternativa brigou com os seus rivais e saiu nervoso do buteco. Desesperado com a imprudência e má sorte não foi para casa tentar ouvir a voz da razão, foi de carro até a ponte, desceu por algum canto da mata, se desequilibrou ou pulou na água. O rio não tinha uma correnteza muito forte e nem era tão fundo, bêbado, deve ter se embolado nas plantas e cipós da beira do barranco, até pode ter tentado se salvar, pois estava cheio de arranhões pelos braços e rosto. 

- Bão... vou dormir!

Era a deixa de meu avô para dizer que não contaria mais causos naquela noite. A nolvela na televisão já mostrava os créditos finais terminando também seu enredo em aberto. Igual muitas histórias dele.


domingo, 10 de maio de 2026

Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: Gostosinho

 




Criaturas Extraordinariamente Brilhantes: Gostosinho


Em 2022 Shelby Van Pelt publicou seu livro de mesmo nome que conta a história de Tova, uma senhorinha viúva que trabalha  de faxineira num aquário no periodo noturno para não pensar no filho que morreu por um motivo que descobrimos depois de vários minutos corridos. E, deixando claro, eu não li esse livro que foi um sucesso na época de estreia.  No meio dos acontecimentos cotidianos aparece um, aparentemente, desleixado Caneron que toma seu lugar no trabalho durante uma licença que foi obrigada a tirar devido um acidente. 

Uma históriazinha banal, não fosse a peculiaridade de ser uma fábula moderna. Nela temos o grande Marcellus, um polvo. E é ele quem narra a história toda pelo seu ponto de vista superior, como ele mesmo modestamente insiste em dizer. Quem faz a voz em off de Marcellus é Alfred Molina e em sua narrativa simpática vemos que tanto a vida de Tova quanto a de Cameron se desenrolam para ser mais interessante que se pode imaginar. Nessa dupla de personagens temos uma octogenária Sally Field, bem frágil de aparência que ainda faz bonito interpretado. E, eu estava curioso para vê-lo em ação, o rapaz é interpretado pelo Lewis Pullman, filho do Bill Pullman que cresci vendo filmes desse ator. Pullman filho faz bonito em tela. 

O filme é bem Sessão da Tarde e pipocão, talvez hoje possamos trocar para é bem "Netflix". Além da plataforma ter produzido o filme é melhor para se referir esse tipo de produção. É uma ótima pedida para toda família assistir juntos. E um filme de pessoas maduras em tela. As produções hollywoodianas não gostam muito de idosos em tela como protagonistas, no máximo coadjuvantes de luxo, e aqui Tova é a principal, por mais que Cameron tenha sua importância. 

Um filme gostosinho que trás um calorzinho no coração em tempos de dureza e falta de humanidade em muita gente. Vale o tempo ganho com essa diversão em formato de filme. Ele entrega bastante o que propõe. E isso é um diferencial hoje em dia. 


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English


The original text was written without the use of any AI tools; however, the translation was carried out by ChatGPT, as the author does not yet master English grammar. Perhaps one day.

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Remarkably Bright Creatures: Comforting

            In 2022, Shelby Van Pelt published her novel of the same name, telling the story of Tova, an elderly widow who works as a janitor at an aquarium during the night shift in order to avoid thinking about her son, who died for reasons we only discover much later on. And, just to make things clear, I never read the book, despite the huge success it achieved when it was first released. In the middle of these everyday events appears the seemingly careless Cameron, who temporarily takes over Tova’s position after she is forced to take leave because of an accident.

            It would be an ordinary little story if not for the fact that it works as a modern fable. At the center of it all, we have the great Marcellus — an octopus. And he is the one narrating the entire story through his own superior point of view, as he modestly insists on reminding us. The voice-over for Marcellus is performed by Alfred Molina, and through his charming narration we realize that both Tova’s and Cameron’s lives unfold into something far more interesting than one might initially expect. Among this pair of protagonists, we have an octogenarian Sally Field, physically fragile in appearance but still delivering a beautiful performance. And I was curious to see him on screen: the young man is played by Lewis Pullman, son of Bill Pullman, whose films I grew up watching. Pullman’s son does an excellent job on screen.

            The film has that classic feel-good afternoon-movie energy — though nowadays we could simply call it “very Netflix.” Besides the platform having produced the movie, that label fits this kind of production perfectly. It is a great choice for the whole family to watch together. And, most importantly, it is a movie centered around mature people. Hollywood productions usually do not enjoy placing elderly characters in leading roles; at best, they become luxurious supporting characters. Here, however, Tova is undeniably the protagonist, even though Cameron also carries an important role.

            It is a comforting little film that brings warmth to the heart during times marked by harshness and a disturbing lack of humanity in many people. It is absolutely worth the time spent on this cinematic piece of entertainment. The movie fully delivers what it promises — and nowadays, that alone is already something special.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Michael: "...eles não ligam pra gente!"

 




Michael: "...eles não ligam pra gente!"


"Eles" ligam sim, para nosso dinheiro suado que se esforçam tanto para nos dar uma obra em troca. Basicamente o filme é uma apologia, uma obra feita para exaltar, neste caso, um discurso narrativo sobre alguém. E fizerem muito bem isso. A história se passa do início do estrelato ao início da turnê de "Bad", em torno de metade da década de 1960 até fim da década de 1980. A frase que usei no título só apareceu na gravação do clip para a música "They Don't Care About Us" que ocorreu aqui no Brasil em 1996. 

Eles tiraram grandes temas espinhosos do filme, deram uma suavizada nas ações do pai do Michael em tela, só não conseguiram totalmente por ser tão público os acontecimentos que não tinha como esconder. Contudo outras coisas foram apagadas, como  a presença da Janet Jackson que parece ter pedido para não ser retratada no filme. Quem fez o filme foi o grupo que detém os direitos do espólio de Michael Jackson. E isso já deixa a obra bem tendenciosa. E escalar o sobrinho do Michael é mais complicado ainda, só reforça o controle da narrativa que queriam ter. E tiveram. Não abordou nem de relance os escândalos que viriam pipocar alguns anos depois na vida do artista. Escolheram a época que fugia de tudo isso. Contudo, as crianças estão lá. Através de crianças que eram suas fãs e o reconhecia nas lojas de brinquedo que ia com frequência, seja nos shows, seja pelos hospitais que costumava visitar para conversar com as crianças que estavam de cama. O acidente que teve no comercial da Pepsi rendeu a doação completa da indenização para uma instituição de crianças vítimas de queimadura. E, também vemos o amor que o Michael tinha pelos animais. E não tem como não mostrarem o esquisitamente humanizado, espero que digitalmente, Bubbles, o chimpanzé que por um longo período o Michael levava a tiracolo e de fraldas por todo lugar que fosse. E com muito alívio eu fui pesquisar sobre o verdadeiro e soube que ele está muito bem tratado no Centro para Grandes Primatas na Flórida (EUA), com seus 43 aninhos. 

Tirando tudo isso que disse acima, eu particularmente gostei do filme e juro que achei que não ia gostar. A persona criada por Michael Jackson é tão forte e tão poderosa que até hoje ecoa e movimenta uma fortuna considerável e deixa praticamente a família toda envolvida e girando em torno dele ainda. Isso é retratado com a criança Michael que já era a estrela do Jackson 5 e, como o pai, a todo custo, tentava controlar esse artista fora da curva que ele se mostrava. Com muita surra e intimidação ele conseguiu esse controle até o próprio Michael Jackson por um limite bem estipulado e retratado no seu último show em conjunto com os irmãos. Jaafar Jackson faz um Michael doce e evasivo, mas decidido, e me perdoem, sou brasileiro e reparo nessas coisas, com uma bunda que extrapola o limite da composição de personagem. Claro que são pessoas com corpos diferentes e o Michael sempre foi magro, mas usava umas roupas que não evidenciavam essa parte do corpo, e não era algo que realmente chamasse a atenção. Já o sobrinho... Eu fui agora dar uma olhada em uma informação, enquanto escrevia esse texto, e vi que não fui só eu quem reparou nesse dado. Não estou sendo origianal. A internet já apontou. Saindo do bumbum do Jaafar vamos para os olhos do Colman Domingo. Sua caracterização de Joe Jackson, o complexo patriarca da família Jackson, é aterradora. E eu sempre achei o olhar do Joe algo muito incômodo, toda vez que ele aparecia em entrevistas na televisão eu não gostava do jeito que ele olhava. Era muito característico. E isso foi captado tanto pela caracterização como pela interpretação desse ator maravilhoso que Colman tem se mostrado. O olhar canalisa o nosso olhar para si e antagoniza com o olhar do Jaafar, que mostra toda força e carisma do seu tio. Duas atuações bem fortes que pegam bastante a energia das pessoas reais a quais representam. E não tem como não falar do Juliano Valdi que faz o Michael novo, muito parecido mesmo. E passamos por uma gama de personagens reais que o filme aborda, de forma até neutra para compor a história da apoteose do mito Michael Jackson como uma marca mundial. Vou mencionar, pois merece, o KeyLyn Durrel Jones que faz o onipresente guarda-costas que tem poucas falas e uma grande e forte presença de tela. E o restante do elenco faz bonito. Dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Trenamento e tantos outros) que tinha uma obra difícil de compor. A pressão dos detentores dos direitos ao espólio do artista junto com a família e, de quebra, a opinião pública, deixaram bem desfiador esse projeto. Contudo, analisando o saldo final foi bem positivo na minha opinião de último na fila do pão. Eu senti em vários momentos a emoção da  nostalgia e cumplicidade de ter assistido algo na televisão, mesmo sendo muito filtrada pela mídia hegemônica da época. 

Eu imagino que o filme desagrade um pouco a crítica especializada e aos historiadores. Ao grande público agrada e aos fãs mais ferrenhos entrega várias cenas boas. Como disse antes,  é uma obra apologética, exalta e não vai ter os os riscos e manchas na imagem do retratado. Eles estão só reforçando e comemorando o papel de um homem que em vida se tornou o o mais próximo de um deus em nossos dias. 




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English


The original text was written without the use of any AI tools; however, the translation was carried out by ChatGPT, as the author does not yet master English grammar. Perhaps one day.

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Michael: “...they don’t care about us!”

“They” do care — about our hard-earned money, which they work so hard to exchange for a piece of entertainment. Basically, the film is an apology piece, a work made to exalt, in this case, a narrative discourse about someone. And they did that very well. The story spans from the beginning of stardom to the start of the Bad tour, roughly from the mid-1960s to the late 1980s. The quote I used in the title only appeared during the recording of the music video for They Don't Care About Us, which took place here in Brazil in 1996.

They removed many thorny themes from the film and softened the father’s actions on screen, though they could not erase them entirely because the events were too public to hide. Other things, however, were erased altogether, such as the presence of Janet Jackson, who seems to have requested not to be portrayed in the film. The movie was made by the group that controls the rights to Michael Jackson’s estate, which already makes the work highly biased. Casting Michael’s nephew makes it even more complicated, reinforcing the control they wanted over the narrative. And they got it. The film does not even briefly touch on the scandals that would explode in the artist’s life a few years later. They deliberately chose the era that escaped all of that.

Still, the children are there. Through the children who were his fans and recognized him in the toy stores he frequently visited, at the concerts, and in the hospitals he used to visit to talk to bedridden children. The accident he suffered while filming the Pepsi commercial resulted in the full donation of the compensation money to an institution for child burn victims. We also see the love Michael had for animals. And there is no way they could avoid showing the strangely humanized — hopefully digitally enhanced — Bubbles, the chimpanzee Michael carried around everywhere for a long period, often in diapers. And with great relief, I later looked up the real one and found out he is being very well cared for at the Center for Great Apes in Florida, at 43 years old.

Putting all of that aside, I personally liked the film, and I honestly thought I wouldn’t. The persona created by Michael Jackson is so powerful that it still echoes today, moving an enormous fortune and keeping practically the entire family revolving around him. This is portrayed through Michael as a child, already the star of the Jackson 5, while his father desperately tried to control this extraordinary artist he realized his son was becoming. Through beatings and intimidation, he maintained that control over Michael Jackson up to a clearly defined limit, portrayed in his final performance together with his brothers.

Jaafar Jackson plays Michael as sweet and evasive, yet determined. And forgive me, I’m Brazilian and I notice these things, but his butt goes far beyond what fits the character composition. Of course, people have different body types, and Michael was always thin, but he wore clothes that did not emphasize that part of his body, and it was never something that really drew attention. His nephew, however... While writing this text, I looked it up and realized I was not the only one who noticed it. I’m not being original here — the internet already pointed it out.

Leaving Jaafar’s backside aside, let’s talk about the eyes of Colman Domingo. His portrayal of Joe Jackson, the complex patriarch of the Jackson family, is terrifying. I always found Joe’s gaze deeply unsettling. Every time he appeared in television interviews, I disliked the way he looked at people. It was very distinctive. And both the characterization and the performance captured that perfectly, proving once again what a wonderful actor Colman has become. His stare commands our attention and clashes against Jaafar’s, which conveys all the strength and charisma of his uncle. Two very strong performances that truly capture the energy of the real people they represent.

And there is no way not to mention Juliano Valdi, who plays young Michael and looks incredibly similar to him. We also move through a wide range of real-life figures whom the film portrays in a mostly neutral way to compose the story of the apotheosis of the Michael Jackson myth as a global brand. I also want to mention KeyLyn Durrel Jones, who plays the ever-present bodyguard with very few lines but an immense and powerful screen presence. The rest of the cast also does an excellent job.

The film is directed by Antoine Fuqua, known for Training Day and many others, and he had a difficult work to put together. The pressure from the holders of Michael Jackson’s estate rights, along with the family and public opinion, made this project extremely challenging. Still, looking at the final result, I think it turned out very positively — at least from my humble perspective. In several moments, I felt the emotion of nostalgia and the complicity of having witnessed some of those things on television, even if heavily filtered by the hegemonic media of the time.

I imagine the film may displease critics and historians somewhat. The general audience, however, will enjoy it, and devoted fans are given several strong scenes. As I said before, it is an apologetic work: it glorifies and refuses to show the risks and stains on the image of the man being portrayed. They are simply reinforcing and celebrating the role of a man who, during his lifetime, became the closest thing to a god in modern times.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Eles Vão te Matar: Divertido






 Eles Vão te Matar: Divertido

Quando apareceu para mim o trailer de Eles Vão te Matar pela primeira vez  eu já quis assistir o filme. Gosto bastante da Zazzie Beetz desde que a vi em Atlanta (série de 2016-2022) e logo em seguida no filme DeadPool 2 (1018) em que fazia a fantástica mutante Dominó que acho que tem um dos melhores poderes apelões da Marvel, ela tem o poder de manipular probabilidades causando para si sorte e para os inimigos azar. Minha terapeuta sabe o quanto esse "poder" precisa ser trabalhado em mim, principalmente por eu não ter poder nenhum, e se tivesse, ele estaria um pouco invertido no meu caso. E aqui nesse filme, que estou comentando, ela faz a Asia Reaves que é bem  parecida com a Dominó. 

No trailer eu percebi que iria ser uma farofada, algo meio humorístico, o que ficou muito evidente aos 28 minutos e 50 segundos do filme. Até o 19 minutos eu achei que estava indo até para um lado de suspense meio sério e nos 10 minutos seguintes começou a titubear para longe disso. E depois foi só ladeira a baixo na palhaçada e incrivelmente ladeira a cima  no quesito diversão. Nós nunca sabemos o quanto um filme é autoral ou uma homenagem a outro título.  Eu realmente senti em vários momentos de decepações de membros um misto de nostálgica recordação de Kill Bill (2004). 

Aqui acompanhamos a Asia Reaves entrando num hotel disfarçada para resgatar sua irmã desaparecida e lá se depara com um grupo que a quer como sacrifício ao deus, melhor,  demônio deles. Parece que eles fazem isso há décadas. E olha, mesmo tento mortes rocambolescas tudo faz total sentido e diverte. Diversão claramente é a motivação da história. Por mais que o roteiro seja bem amarrado tem os efeitos em sua maioria práticos. E isso dá uma graça maravilhosa. Claro que depois de tantos anos de cinema quando vamos assistir um filme sabemos que tudo é "mentira", contudo, o CGI acabou mais atrapalhando que ajudando nessa aparência de mostrar  "verdade". Com bons cortes de cenas, movimentos de câmera e luzes bem trabalhadas os efeitos práticos acabam dando aquele toque tosco que faz diferença. E esse filme brinca muito com cortes de pescoços, explosões de cabeça, facadas, membros tirados do lugar, uns andando por aí espionando e um monte de outras formas de retratar as mais diversas formas de machucar e matar alguém. E olha que tem um bônus, o sobrenatural se faz presente de um jeito bem assustador apesar do tom cômico. É que sou católico e perdi esse misticismo todo que os filmes exaltam tanto em relação ao capiroto, mas assustaria bem e, em outras épocas, não assistiria sozinho de noite nunca. Hoje evoluí, meus medos são outros: boletos. Nossa Senhora, só de lembrar até arrepia a espinha!

Realmente eu esperava um filme trasheira e bobo e veio com a diversão de brinde. Achei mesmo que iria para uma linha fácil de "final girl" no estilo Casamento Sangrento, que o 2 também tem estreia para esse ano. Eles Vão te Matar conta ainda com uma louca chefe dos empregados vivida por Patrícia Arquete e o eterno sonserino Tom Felton fazendo um dos perseguidores de Asia. Tudo tem que ser assistido com a premissa da diversão, assim, as cenas absurdas e violentas não só farão sentido, como, muitas vezes, elas são a piada da história.  

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They’re Going to Kill You: Fun

    When the trailer for They’re Going to Kill You first popped up for me, I immediately wanted to watch it. I’ve liked Zazie Beetz ever since I saw her in Atlanta, and soon after in Deadpool 2, where she played the fantastic mutant Domino. I think Domino has one of the best overpowered abilities in Marvel: she can manipulate probabilities, bringing herself good luck while giving her enemies bad luck. My therapist knows how much that “power” would need to be developed in me—especially since I have no powers at all, and if I did, mine would probably work in reverse. And here, in this film, she plays Asia Reaves, who is quite similar to Domino.

    From the trailer, I could tell it was going to be a wild, over-the-top ride with a comedic edge, something that becomes very clear around the 28-minute, 50-second mark. Up until about minute 19, I thought it was heading into more serious suspense territory, and then over the next ten minutes it started wobbling away from that. Afterward, it was all downhill into ridiculousness—and somehow uphill when it came to entertainment. We never really know how much a film is being original or paying homage to another title. In several moments of limbs being chopped off, I genuinely felt a nostalgic echo of Kill Bill: Volume 1.

    Here, we follow Asia Reaves as she sneaks into a hotel to rescue her missing sister, only to run into a group that wants to use her as a sacrifice for their god—or rather, demon. Apparently, they’ve been doing this for decades. And honestly, even with the outrageous deaths, everything somehow makes sense and remains entertaining. Fun is clearly the story’s main motivation. As tightly put together as the script is, most of the effects are practical, which gives the movie a wonderful charm. After so many years of cinema, we all know what we’re watching is “fake,” but CGI has often hurt more than helped when it comes to creating the illusion of truth. With clever editing, camera movement, and strong lighting, practical effects bring that delightfully cheesy touch that really matters. This movie has a blast with slit throats, exploding heads, stabbings, limbs ripped out of place, some of them wandering around spying, and plenty of other creative ways to injure and kill someone. And there’s a bonus: the supernatural element is genuinely creepy despite the comedic tone. I’m Catholic, so I’ve lost some of the mysticism movies love to give the devil, but it still would’ve scared me—and in other times, I’d never have watched this alone at night. Today I’ve evolved; my fears are different now: bills. Sweet Mother of God, just thinking about them sends chills down my spine.

    I truly expected a trashy, silly movie and instead got genuine fun as a bonus. I honestly thought it would follow the easy “final girl” route, in the style of Ready or Not, whose sequel is also set to release this year. They’re Going to Kill You also features a delightfully unhinged head of staff played by Patricia Arquette, along with the forever Slytherin Tom Felton as one of Asia’s pursuers. Everything has to be watched with fun as the premise. That way, the absurd and violent scenes not only make sense, but often become the punchline themselves.