domingo, 1 de fevereiro de 2026

O cativo: submissão e dominação na história

 


O cativo: submissão e dominação na história 

            Uh! Vamos pesar o clima aqui!!! Não, não é a intenção; contudo, resvalaremos em algumas questões. Fetiches existem e, se praticados por adultos livres, de comum acordo, sem infringir leis e sem causar mal a ninguém — e isso inclui ambas as partes —, são manifestações da humanidade que podem causar muito prazer. E vejam: o “causar mal” envolve prejuízo físico, emocional, psicológico e material. Alguns fetiches caminham na linha entre o que é certo e o que é errado, da ética ou mesmo dos limites da lei. Quando passam dessas bordas, a fetichização se torna um problema a ser revisto e analisado em terapia. Acho até que alguns fetiches são ressignificados após uma boa “epifania” terapêutica. E aqui entramos no filme: há uma submissão e dominação retratadas em tela, contudo em um contexto histórico que não vivenciamos e sobre o qual sabemos relativamente pouco de forma geral, o começo da Idade Moderna. O mundo era muito diferente e, entre uma Europa purulenta e fedida, em que mal se tomavam banhos, havia o mundo mouro — sempre demonizado ou até apagado —, que era, à época, mais vibrante, limpo e até permissivo com muitas práticas que sempre existiram, mas que a sociedade cristã insistia em fingir que não.

            O filme conta um período de cinco anos em que o considerado inventor do romance moderno, Miguel de Cervantes, passou prisioneiro, cativo, em Argel. E lá começou a contar histórias não só para se entreter, como para extravasar algo que já estava nele: a literatura. Obviamente, o filme bebe de fontes históricas e faz escolhas de ficção para tornar a narrativa mais interessante. E como fica interessante.

            Em sua condição de cativo, vale lembrar que direitos básicos não existem; ele corre risco de morrer a qualquer momento. O governador de Argel, Hassan Bajá (Alessandro Borghi), é tão impiedoso e temido quanto seus olhos são azuis, cristalinos e penetrantes. Convertido ao islamismo, ele conseguiu chegar ao poder depois de ter sido ele próprio um prisioneiro, tornando-se o governador daquela cidade. Ele escuta as histórias de Miguel de Cervantes (Julio Peña), que já está com o braço incapacitado por ferimentos da Guerra de Lepanto, e demonstra grande interesse pela literatura. Pontuo que, como Argel está sob um regime islâmico, não se pode publicar livros — isso é importante para a história. Miguel é um ótimo mentiroso, contador de lorotas que ele transforma em histórias e para se safar de situações diversas e isso é delicioso de se ver. Ele mesmo quase virou escravo comum e, com uma convicção que só um contador de histórias e um mentiroso possuem, passa a ser visto como alguém importante da corte europeia. Por isso acaba no pátio do governador como preso de alto valor de resgate, um fidalgo ou mesmo um religioso.

            A reconstituição histórica é de arrebatar. Quando fui ver quem era o diretor, entendi tanto esmero e por qual motivo o filme me fez questionar algumas coisas da minha vida. O diretor é Alejandro Amenábar, que também colabora no roteiro junto de Alejandro Hernández, diretor de cinema venezuelano, que também co-dirige o filme. Só para ter noção dos filmes de Amenábar que eu assisti: Alexandria me causou uma crise religiosa e me fez ter vergonha de ser católico; Vanilla Sky me causou confusão e, até hoje, não sei se entendi direito — triste; Mar Adentro me apresentou uma atuação arrebatadora de Javier Bardem; e o incrível Os Outros, no qual fiquei puto com a personagem da Nicole Kidman no final… De forma positiva. Só não tive medo porque assisti com amigos que já tinham visto antes e faziam comentários o tempo todo, entregando tudo. Enfim.

            Voltando ao que disse no primeiro parágrafo, é interessante como um jogo de dominação e submissão pode apimentar uma relação e talvez até pautar o tipo de vínculo que se deseja ter. E isso vai se estabelecendo no filme. Miguel é um ninguém, que chegou àquela condição de cativo por sua esperteza — a outra opção era virar escravo comum. E Bajá não é nenhum bobinho: chegou ao poder com muita inteligência e estratégia. Vai se criando, então, uma relação desigual entre uma pessoa presa e um que governa tudo ali, e a submissão e a dominação real e verdadeira se estabelece. Mesmo que Miguel se encante e queira cortejar o seu algoz, ele está muito mais em modo de sobrevivência do que em modo de romance. O próprio Bajá percebe essa esperteza em Miguel e, mesmo ele estando com o braço impossibilitado — o que o torna, na linguagem da época reproduzida pelo filme, um “aleijado” —, vemos que ele sucumbe aos encantos e aos poderes de Miguel: o poder da palavra. Com esse poder acima da média, Bajá vai concedendo pequenas recompensas até chegar a grandes concessões ao cativo. E aqui está a diferença: o filme trabalha essa dinâmica fetichista para instigar o público, é óbvio. Contudo, Miguel não é um submisso; ele é esperto e ardiloso aprisionado que alimenta o encanto de Bajá ao mesmo tempo que deseja ser livre por necessidade de se manter vivo. E liberdade distingue um preso — no caso, Miguel — de um fetichista submisso. Não há como alguém privado de seus direitos mais básicos ser submetido ao amor de outra pessoa. A Miguel falta o que é essencial para o artista que ele vem ensainando virar: ser livre para produzir sua obra para seu público. Bajá o quer só para si. Essa é a questão mais refinada e sofisticada do filme: o que acontece quando Bajá realmente dá a Miguel o poder de escolher entre ficar com ele, viver bem, mas submetido ao seu jugo emocional, psicológico e físico, sem poder publicar nada, ou ir embora livre para mostrar ao público suas obras? Sabemos a resposta — não é spoiler. Dom Quixote aconteceu e é considerado um clássico mundial. Quando a liberdade é dada ao indivíduo e ele escolhe continuar sob o domínio de um mestre, isso é fetiche e fruto de nossa era. O oposto, em nossa era, é abuso. Se houver sofrimento de uma das partes, é abuso. E eu reforço e repito: se uma das partes estiver em sofrimento e não tiver total condição de exercer sua liberdade de ir e vir, estiver psicologicamente incapacitada ou sendo coagida — principalmente se for o lado submisso —, é ABUSO. E Miguel sofria. Por isso a história provoca tanto esse questionamento. A liberdade é um bem fundamental, principalmente para um espírito que almeja a excelência artística.

            O Cativo é um filme que me surpreendeu positivamente com toda a sua narrativa — e olha que é um roteiro complexo. Miguel cria narrativas dentro da própria narrativa, que já é o roteiro, e não fica confuso em momento algum. No filme, Miguel não dá ponto sem nó: aproveita tudo o que pode, observa, absorve, vivencia e transforma tudo em sua arte máxima — contar histórias: é uma aula de escrita criativa. E isso o faz chegar a lugares que, até hoje, ele continua alcançando, cerca de 410 anos após sua morte. Estou encantado com Miguel de Cervantes por causa desse filme. E, depondo contra mim mesmo, ainda não li Dom Quixote… vergonhoso!



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English

The Captive: Submission and Domination in History

            Uh! Let’s make things heavy here!!! No, that’s not the intention; still, we will brush up against a few issues. Fetishes exist and, when practiced by free adults, by mutual consent, without breaking the law and without causing harm to anyone — and that includes both parties — they are expressions of humanity that can generate great pleasure. And note this: “causing harm” involves physical, emotional, psychological, and material damage. Some fetishes walk a fine line between right and wrong, ethics, or even the limits of the law. When they cross those boundaries, fetishization becomes a problem that must be revisited and analyzed in therapy. I even believe that some fetishes are re-signified after a good therapeutic “epiphany.” And here we enter the film: there is submission and domination portrayed on screen, but within a historical context we did not experience and about which we generally know very little — the beginning of the Early Modern Age. The world was vastly different and, amid a festering, foul-smelling Europe where bathing was rare, there existed the Moorish world — always demonized or even erased — which was, at the time, more vibrant, cleaner, and even permissive toward many practices that had always existed, but which Christian society stubbornly pretended did not.

            The film portrays a five-year period during which the man considered the inventor of the modern novel, Miguel de Cervantes, was held prisoner — captive — in Algiers. There, he began telling stories not only to entertain himself, but to release something that was already within him: literature. Naturally, the film draws from historical sources and makes fictional choices to render the narrative more engaging. And how engaging it becomes.

            In his condition as a captive, it is worth remembering that basic rights do not exist; he is at risk of death at any moment. The governor of Algiers, Hassan Bajá (Alessandro Borghi), is as ruthless and feared as his eyes are blue — crystalline and piercing. Converted to Islam, he rose to power after having once been a prisoner himself, eventually becoming governor of the city. He listens to the stories of Miguel de Cervantes (Julio Peña), whose arm has been disabled by injuries from the Battle of Lepanto, and shows great interest in literature. It is important to point out that, as Algiers is under an Islamic regime, books cannot be published — a key element of the story. Miguel is an excellent liar, a spinner of tall tales that he turns into stories to escape countless situations, and this is a delight to watch. He nearly became a common slave himself and, with a conviction that only storytellers and liars possess, he comes to be seen as an important figure of the European court. As a result, he ends up in the governor’s courtyard as a prisoner of high ransom value — a nobleman or perhaps even a religious figure.

            The historical reconstruction is breathtaking. When I looked up who the director was, I understood such care and why the film made me question certain aspects of my own life. The director is Alejandro Amenábar, who also collabor on the screenplay alongside Alejandro Hernández, a Venezuelan filmmaker who also co-directs the film. Just to give a sense of Amenábar’s films that I’ve seen: Agora caused me a religious crisis and made me feel ashamed of being Catholic; Vanilla Sky left me confused and, to this day, I’m not sure I fully understood it — sadly; The Sea Inside introduced me to Javier Bardem’s overwhelming performance; and the incredible The Others, in which I was furious with Nicole Kidman’s character at the end… in a positive way. I wasn’t scared only because I watched it with friends who had already seen it and kept commenting the whole time, spoiling everything. Anyway.

            Returning to what I said in the first paragraph, it is interesting how a game of domination and submission can spice up a relationship and perhaps even define the kind of bond one wishes to have. And this gradually establishes itself in the film. Miguel is a nobody who arrived at that condition of captivity through cleverness — the alternative was becoming a common slave. And Bajá is no fool: he reached power through intelligence and strategy. Thus, an unequal relationship forms between a man imprisoned and another who governs everything there, and real, concrete submission and domination take shape. Even if Miguel becomes enchanted and seeks to court his executioner, he is far more in survival mode than in romantic mode. Bajá himself perceives Miguel’s cleverness and, even though Miguel’s arm is disabled — which, in the language of the time portrayed by the film, makes him a “cripple” — we see Bajá succumb to Miguel’s charms and powers: the power of words. With this above-average power, Bajá begins granting small rewards, eventually reaching major concessions to the captive.

            And here lies the difference: the film employs this fetishistic dynamic to provoke the audience — obviously. However, Miguel is not submissive; he is a clever and cunning prisoner who feeds Bajá’s fascination while simultaneously longing for freedom out of sheer necessity to remain alive. And freedom is what distinguishes a prisoner — in this case, Miguel — from a submissive fetishist. There is no way someone deprived of their most basic rights can be subjected to another person’s love. Miguel lacks what is essential for the artist he is in the process of becoming: the freedom to produce his work for an audience. Bajá wants him entirely for himself.

            This is the film’s most refined and sophisticated question: what happens when Bajá truly gives Miguel the power to choose between staying with him, living well but submitted to his emotional, psychological, and physical dominion, without being able to publish anything, or leaving freely to show his works to the world? We know the answer — it’s not a spoiler. Don Quixote happened and is considered a world classic. When freedom is granted to an individual and they choose to remain under a master’s dominion, that is fetish — and a product of our era. The opposite, in our era, is abuse. If there is suffering on one side, it is abuse. And I emphasize and repeat: if one of the parties is suffering and does not have full conditions to exercise their freedom of movement, is psychologically incapacitated, or is being coerced — especially if it is the submissive party — it is ABUSE. And Miguel suffered. That is why the story provokes such deep questioning. Freedom is a fundamental good, especially for a spirit that longs for artistic excellence.

            The Captive is a film that surprised me positively with its entire narrative — and make no mistake, it is a complex screenplay. Miguel creates narratives within the narrative itself, which is already the script, and it never becomes confusing. In the film, Miguel leaves no stone unturned: he takes advantage of everything he can, observes, absorbs, experiences, and transforms it all into his greatest art — storytelling. It is a masterclass in creative writing. And this has carried him to places he continues to reach even today, some 410 years after his death. I am enchanted with Miguel de Cervantes because of this film. And, testifying against myself, I still haven’t read Don Quixote… shameful!


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Valor Sentimental: Três atrizes e um ator indicados ao Oscar, ao todo quatro!

 






Valor Sentimental: Três atrizes e um ator indicados ao Oscar, ao todo quatro!

            Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas são as três atrizes e um ator  dão corpo a esse filme. E os quatro foram indicados ao Oscar. Só a primeira na categoria principal, e todos os demais como coadjuvantes. Isso é a perfeição. Talvez se o Stellan fosse indicado à categoria principal — afinal, ele e a Renate são o centro do filme — ajudaria a melhorar o que já é ótimo. E eu confundi a Renate, achando que o nome dela era Inga. Eu sabia da indicação sem conhecer os rostos. E, assistindo ao filme, toda vez que Agnes, a personagem da Inga, aparecia, eu pensava o quanto ela era boa. E via a outra junto, não me conformava com o fato de só uma ter sido indicada. E eu, que estava sem saber que as duas estavam indicadas. E olha, merecem demais. E desde Demônio Neon (2016) eu espero o reconhecimento da Elle Fanning. Ela é muito boatambém. Fora as outras categorias que também foi indicado e inúmeros outros prêmios que concorreu e outros tantos que ganhou. 

            Valor Sentimental é um filme que parte de um cotidiano construído em uma casa. O cotidiano da família que mora ali por gerações. Ou ainda da memória que fica ali. Tanto que, em certo momento, vemos na parede do quarto de uma das irmãs uma rachadura que não foi consertada. Está lá, como se fosse a rachadura da casa de qualquer um, sem pretensão e sem pressa de ajeitar. É casa de viver não de performar. É algo que só acontece a uma casa. E aí percebemos que o filme não está usando a casa apenas como cenário, pois tudo poderia ser pintado e milimetricamente decorado. A casa tem vida. Em várias épocas em que são citados os sentimentos da casa, ela é viva, com suas bagunças, suas lascas... A não ser em filmes de terror, por motivos óbvios de composição de cenário, eu nunca tinha reparado que uma casa do cinema poderia ter uma teia de aranha ali, esquecida de ser limpa. E lá estava a teia de aranha, pomposa, em um móvel. Tudo bagunçado, mas não a bagunça desordeira de gente desleixada — aquela bagunça do viver de verdade dentro de uma casa. Algo que anda soterrado por essa decoração insípida que se tornou padrão hoje em dia. E eu, suspeito que sou, amei que ela seja pintada de preto por fora, com os detalhes das janelas e portas vermelhos, esmaecidos pelo tempo. E, por dentro, a maior normalidade de uma família com criança e cores neutras.

            A família que vivia ali também tentava manter a normalidade interna de um lar. Mesmo que, na última leva de moradores, o pai fosse um renomado e ausente diretor de cinama, com duas filhas praticamente abandonadas por ele. Uma das filhas, Agnes (vivida por Inga), foi usada por ele em um filme que fez sucesso na época quinze anos antes. Depois disso, separado da esposa e sem dar muitas caras às filhas, ele volta para o velório da esposa. E traz consigo um roteiro para a outra filha, a atriz de teatro Nora (Renate). De início, ela rejeita a ideia, pois não fazia sentido o pai tê-la abandonado por tanto tempo e agora voltar pedindo isso.

            Como uma tentativa de estepe, ele, após conhecer Rachel Kemp (Elle), acha que pode usá-la como substitituta. E Rachel percebe que é uma escolha equivocada. Ela quer fazer o filme para mostrar a Hollywood que é uma atriz “de verdade”, mas entende que está sendo apenas uma segunda opção de quem Gustav (Stellan) realmente queria e se recusava: Nora (Renate).

            Nora tem uma vivência que a faz perfeita para o papel que o próprio pai escreveu. Rachel é uma ótima atriz, contudo não atinge o âmago da personagem roteirizada, e desiste do papel. E vemos, nesse meio-tempo, o amor de Agnes por Nora — um amor entre irmãs tão comovente e bonito que era impossível as duas não serem indicadas ao Oscar. E que bom que eu estava enganado achando que só uma foi indicada. Geralmente a arte trabalha com situações de embate, e ver as duas em situação de afeto fraterno dá um colorzinho no coração. Ainda mais quando temos a indústria estadunidense sexualizando tudo. Saber usar uma emoção sem cinismo e sem deturpação sexual é algo raro hoje em dia nas produções por aí.

            E eu gostei muito de como o filme aborda a feitura de um filme. No fundo, Gustav quer fazer um último filme e percebe que não está mais com aquele pique todo, está envelhecendo, e todos os seus amigos e colaboradores também. E que é necessária a conexão com sua filha Nora. Agnes está ali, apoiando, tentando ser a melhor irmã possível e, se conseguir, a filha que aquele pai não merece. Ele se justifica com a desculpa de ser artista e de não poder ficar preso a nada, nem a uma família. Um diálogo explicita essa colocação dele, o que é uma mentira, pois foi justamente na “prisão” do lar que sua obra floresceu: primeiro com sua filha Agnes e, ao que tudo indica, com Nora e seu neto Erik (Øyvind Hesjedal Loven) no filme que ele quer rodar.

            Desde A Festa de Babette (Dinamarca, 1987), um filme escandinavo não me deixava tão tocado. Só lembrando que Valor Sentimental é de origem norueguesa. Quando decidem fazer um bom filme acontece pérolas como essas duas produções.

 



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Sentimental Value

            Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning, and Inga Ibsdotter Lilleaas are the four actors who give shape to this film. And all four were nominated for the Academy Awards. Only the first in a leading category, the others as supporting actors. That feels like perfection. Perhaps Stellan should have been nominated in the leading category as well — after all, he and Renate are the true center of the film. And I had confused Renate, thinking her name was Inga. I knew about the nominations without knowing the faces. And while watching the film, every time Agnes, Inga’s character, appeared, I kept thinking about how good she was. And when I saw the other one alongside her, I couldn’t accept that only one of them had been nominated. And I, without knowing it, was wrong — both of them were nominated. And honestly, they deserve it immensely. And since The Neon Demon (2016), I’ve been waiting for proper recognition for Elle Fanning. She is very good.

            Sentimental Value is a film that emerges from an everyday life built inside a house. Perhaps the house of a family that has lived there for generations. Or perhaps the memory that remains there. At a certain point, we see a crack on the bedroom wall of one of the sisters that was never repaired. It is simply there, like the crack in anyone’s house, without intention. It is something that only happens to a house. And then we realize that the film is not merely using the house as a set. Everything could have been painted and meticulously decorated. But the house has life. In several moments when the feelings of the house are evoked, it is alive, with its mess, its chipped surfaces… Except in horror films, for obvious reasons of set design, I had never noticed that a house could have a spiderweb left behind, forgotten, uncleaned. And there it was — a proud spiderweb sitting on a piece of furniture. Everything is messy, but not the careless mess of neglectful people — it is the mess of truly living inside a house. Something that has been buried by the bland, insipid decor that has become the standard today. And I, biased as I am, loved that the house is painted black on the outside, with window and door details in red, faded by time. And inside, the utmost normality of a family with a child.

            The family that lived there also tried to maintain the internal normalcy of a home. Even though, in the last generation of residents, the father was a renowned yet absent parent, with two daughters he had practically abandoned. One of the daughters, Agnes (played by Inga), had been used by him in a film that was successful at the time. After that, separated from his wife and rarely present in his daughters’ lives, he returns for his wife’s funeral. And he brings with him a screenplay for his other daughter, the theater actress Nora (Renate). At first, she rejects the idea, as it made no sense for a father who had abandoned her for so long to return asking for this. As a stopgap solution, after meeting Rachel Kemp (Elle), he thinks he can use her as a substitute. And Rachel realizes that this is a misguided choice. She wants to make the film to prove to Hollywood that she is a real actress, but she understands that she is only a stand-in for the person Gustav (Stellan) truly wanted: Nora.

            Nora has a lived experience that makes her perfect for the role her own father wrote. Rachel is a great actress, yet she does not reach the core of the scripted character and asks to step away from the role. And in the meantime, we witness Agnes’s love for Nora — a love between sisters so moving and beautiful that it would have been impossible for only one of them to be nominated. And thankfully, I was mistaken. Art usually works through conflict, and seeing the two of them in a space of fraternal affection adds a touch of color to the heart. Especially when we are dealing with an American industry that sexualizes everything. Knowing how to use emotion without cynicism or sexual distortion has become rare in contemporary productions.

            I also greatly appreciated how the film addresses the making of a film itself. At its core, Gustav wants to make one last film and realizes that he no longer has the same energy. And that a connection with his daughter Nora is necessary. Agnes is there, supporting him, trying to be the best sister possible and, if she can manage it, the daughter that this father does not deserve. He justifies himself with the excuse of being an artist and therefore unable to be tied down to anything. A dialogue explicitly states this position, which is a lie, because it was precisely within the “prison” of domestic life that his work flourished — first with his daughter Agnes and, it seems, later with Nora and his grandson Erik (Øyvind Hesjedal Loven) in the film he wants to make.

            Since Babette’s Feast (Denmark, 1987), a Scandinavian film had not left me this moved. Just as a reminder, Sentimental Value is of Norwegian origin. When they decide to make a good film, it results in these two pearls.

 


sábado, 24 de janeiro de 2026

Uma batalha após a outra: estranheza inexplicável


 Uma batalha após a outra: estranheza inexplicável 


Eu fui assistir a esse filme sem nenhuma informação além de ser estrelado por Leonardo DiCaprio e de o diretor ser Paul Thomas Anderson — que, por sinal, também assina o roteiro. E me dei conta de que um monte de filmes que eu fiquei ensaiando assistir e nunca assisti são dele: O Mestre, Sangue Negro e Boogie Nights. E por qual motivo? Uma preguiça inexplicável diante do que esses filmes representam: uma lufada de masculinidade, com crítica boa. Eu tinha assistido quando estreou Magnólia e não sei por qual motivo nunca associei a ele a feitura desse filme. E eu gostei muito de Magnólia; contudo, eu mesmo não consigo elaborar o motivo de me incomodar com a ideia geral dos filmes dele. E isso aconteceu com Uma batalha após a outra.


Assistindo a esse filme, eu percebi que um monte de coisas me incomodavam — não no sentido de achar ruim. Eu nem estou conseguindo elaborar o sentimento que tenho sobre ele. E veja bem: a história é muito boa, divertida ao seu modo, tem atuações fantásticas e é uma crítica ferrenha ao que está acontecendo agora nos EUA, de forma alegórica. Eu juro que realmente não entendo essa estranheza que o filme me causa. Quando eu entender, volto aqui e atualizo o que descobri. E vejam bem: eu ainda não fui assistir a nenhum comentarista de cinema sobre esse filme para poder escrever minhas impressões sem estar influenciado pelo pensamento deles. 


A história é um absurdo que funciona mais como uma alegoria da hipocrisia da ultradireita dos estadunidenses. Um grupo revolucionário vive cometendo ações agressivas contra instituições militares e bancos, e um dia uma das ativistas desse grupo usa sua arma para “conquistar” um militar de alta patente — conquistar é eufemismo... O cara surta de paixão por ela. Ela engravida e continua gravidíssima participando das ações de protesto. Quando já deu à luz, é presa e, para se livrar, acaba caguetando vários membros do grupo. Foge, e o seu companheiro, Bob — um Leonardo DiCaprio que faz um personagem poderosamente honesto, um homem comum meio tonto — foge, se esconde e cuida da criança como se fosse sua filha. Passam-se os anos, e o militar, o Coronel Steven Lockjaw — Sean Penn, outro fenômeno na atuação de um homem cheio de contradições, rígido e desesperado para entrar numa entidade exclusiva de brancos, com intenções péssimas, estadunidenses, tão estranha quanto ser membro daquelas empresas que parecem seitas doidas — tenta ingressar nesse círculo. Contudo, essa entidade, ou irmandade, ou grupo político, tudo junto ao mesmo tempo. Investiga a vida dos candidatos à filiação e descobrem que a criança que Bob cria é possivelmente filha dele e, na cabeça deles, um branco não pode “sujar seu pênis” e ter filhos inter-raciais o que por si mesmo já é absurdo.

Para tentar limpar seu nome e eliminar a única prova de seu “descuido”, o Coronel Steven deflagra praticamente uma guerra civil contra supostos traficantes numa cidade cheia de imigrantes latinos. Aí entra outro ator fenomenal: Benicio del Toro, com seu sansei latino Sergio, que acaba se revelando uma liderança da comunidade que se protege na briga forjada pelo Coronel Steven. E, no meio de tudo isso, Bob — que vive chapado — entra em enrascadas por ser um abobalhado que vive chapado e fora de forma. É incrivel como todos são melhores que ele em tudo. Esse homem, tão atrapalhado, precisa deixar tudo isso de lado e tentar salvar a sua filha no meio da confusão e do perigo que se formam. E ela foi sequestrada pelo Coronel Steven para tentar descobrir se aquela menina é sua filha ou não. 


Essa filha é interpretada por Chase Infiniti, que eu já tinha visto em Acima de qualquer suspeita, a série de 2024, onde fez um papel bem forte. Aqui, ela nos contempla com outra personagem igualmente forte: Willa, filha da amante de Bob, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), que, além de ter um nome fantástico, entrega uma atuação muito potente também. E o final é catártico. Estamos precisando de finais catárticos. Nas artes, catarse é o alívio emocional que sentimos quando uma obra canaliza intencionalmente uma emoção que já está em nós e conseguimos, de forma segura, vivenciá-la diante da obra. É um expurgo emocional — muito bom, por sinal, quando acontece.


E são tantas coisas que acontecem nesse filme que a estranheza de que falei lá no começo continua até o fim. Aqui faço um ponto de comparação com o brasileiro Agente Secreto. Digamos que cada um mostra sua versão de uma situação que seus respectivos países vivem, ou viveram, através de um homem comum, revolucionário: no Brasil, feito fantasticamente por Wagner Moura; nos EUA, o homem comum revolucionário é feito por Leonardo DiCaprio. É incrível como eles são mais próximos do que se pode imaginar. E eu ainda fico com o Wagner, que faz um personagem lúcido; o Leonardo ainda está meio chapado durante quase todo o filme, as nuances emocionais são filtradas pela droga. De cara limpa é mais difícil. Realmente, o páreo é duro, mas, como um outro disse por aí em uma entrevista, como brasileiro que sou eu fico do lado até de um sapato. Eu prefiro ficar do lado de um chinelo, que deumuito  mais o que falar por aqui.




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English




One Battle After Another


            I went to see this film with no information whatsoever beyond the fact that it stars Leonardo DiCaprio and that it was directed by Paul Thomas Anderson — who, incidentally, also wrote the screenplay. And I realized that a bunch of films I’ve been meaning to watch for years and never actually did are his: The Master, There Will Be Blood, and Boogie Nights. And why is that? An inexplicable laziness in the face of what these films seem to represent: a burst of masculinity, paired with solid critical thinking. I had watched Magnolia when it was first released, and for some reason I never associated the making of that film with him. And I liked Magnolia a lot; still, I can’t quite articulate why the general idea of his films bothers me. And the same thing happened with One Battle After Another.

            While watching this film, I realized that a lot of things bothered me — not in the sense of thinking it was bad. I can’t even properly articulate the feeling it leaves me with. And mind you: the story is very good, entertaining in its own way, with fantastic performances, and it works as a fierce allegorical critique of what is happening right now in the U.S. I honestly don’t understand the strangeness this film causes in me. When I do, I’ll come back and update what I’ve discovered. And just to be clear: I still haven’t watched any film commentators talk about this movie, precisely so I could write my impressions without being influenced by their views.

            The story is an absurd one, functioning more as an allegory of the hypocrisy of the American far right. A revolutionary group carries out aggressive actions against military institutions and banks, and one day one of the group’s activists uses her weapon to “conquer” a high-ranking military officer — “conquer” being a euphemism… The man falls madly in love with her. She becomes pregnant and continues, very visibly pregnant, taking part in protest actions. After giving birth, she is arrested and, in order to save herself, ends up snitching on several members of the group. She escapes, and her partner, Bob — Leonardo DiCaprio playing a powerfully honest character, a somewhat dim-witted ordinary man — flees, goes into hiding, and raises the child as if she were his own daughter. Years go by, and the military man, Colonel Steven Lockjaw — Sean Penn, another phenomenal presence, portraying a man full of contradictions, rigid and desperate to enter an all-white organization with sinister intentions, as American as it is strange, not unlike those corporations that resemble deranged cults — attempts to gain entry into this circle. This entity — or brotherhood, or political group, all of it at once — investigates the personal lives of its candidates and discovers that the child Bob is raising may in fact be his daughter. And in their worldview, a white man cannot “soil his penis” by having interracial children — which is absurd in and of itself.

            In an attempt to cleanse his name and eliminate the only proof of his “carelessness,” Colonel Steven practically unleashes a civil war against alleged drug traffickers in a city full of Latino immigrants. This is where another phenomenal actor comes in: Benicio del Toro, as the Latino sensei Sergio, who turns out to be a community leader protecting his people amid the conflict fabricated by Colonel Steven. And in the middle of all this, Bob — perpetually stoned — gets himself into trouble for being a foolish, permanently high, out-of-shape man. It’s incredible how everyone else seems better than him at absolutely everything. This clumsy man has to put all of that aside and try to save his daughter in the middle of the chaos and danger that unfold. She has been kidnapped by Colonel Steven in order to find out whether or not the girl is actually his daughter.

            That daughter is played by Chase Infiniti, whom I had already seen in Presumed Innocent, the 2024 series, where she delivered a very strong performance. Here, she gives us another equally compelling character: Willa, the daughter of Bob’s lover, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), who, besides having a fantastic name, also delivers a remarkably powerful performance. And the ending is cathartic. We are in dire need of cathartic endings. In the arts, catharsis is the emotional release we experience when a work intentionally channels an emotion that already exists within us, allowing us to experience it safely through the artwork. It is an emotional purge — and a very satisfying one, when it happens.

            So many things happen in this film that the sense of strangeness I mentioned at the beginning remains until the very end. Here, I draw a comparison with the Brazilian film Secret Agent. Each one presents its own version of a situation their respective countries are living — or have lived — through the lens of an ordinary, revolutionary man: in Brazil, brilliantly played by Wagner Moura; in the U.S., the revolutionary everyman is played by Leonardo DiCaprio. It’s remarkable how much closer these characters are than one might expect. And I still side with Wagner, who plays a lucid character; Leonardo’s character is still half-stoned for almost the entire film, his emotional nuances filtered through drugs. Facing things sober is harder. The competition is tough, indeed — but, as someone once said in an interview, as a Brazilian, I’ll side even with a shoe. I’d rather stand with a flip-flop, which caused far more buzz around here.












segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Heatede Rivalry: E suas mulheres incríveis















Heatede Rivalry: E suas mulheres incríveis


            Não, não vou falar da Jane e Lily, os nomes postiços que Shane (Hudson Willians) e Ilya (Connor Storrie) usam para despistar qualquer suspeita sobre eles — afinal, eram rivais no rinque. Deixo de lado Elena (Nadine Bhabha)  e Maria (Bianca Nugara) por estarem só ligadas ao núcleo do Scott Hunter (François Arnoud) e Kip (Robbie Graham-Kunts). 

            E eu sei que a série é de representatividade gay e bissexual com foco na intimidade masculina através da oposição entre rivalidade e vulnerabilidade. Contudo, eu tenho uma teoria — que não é nada original — de que uma série, filme, peça teatral ou musical precisa de vários elementos para se estabelecer como uma boa obra. Primeiro, um bom roteiro, aqui fiel ao material original; depois, uma boa produção, mesmo que com um orçamento não elevadíssimo e longe dos grandes estúdios estadunidenses; e, por fim, boas atuações. O material original é baseado no livro de mesmo nome, de Rachel Reid, e ela teve a sensibilidade de dar as nuances certas aos personagens. E, óbvio, temos que reconhecer as boas atuações. Gostaria de apontar para alguns personagens da história que dão todo o apoio para que os protagonistas consigam se estabelecer como os mais fofos enamorados de uma série em muito tempo. E, obviamente, quem dá esse suporte são as atrizes coadjuvantes — quando realmente são pensadas como personagens, e não como figuração de luxo.

             E não há personagens secundários ruins nessa série: todos foram desenvolvidos em camadas que, em alguns momentos, contrastam com um dos protagonistas ou mesmo dão todo o estofo para o peso emocional de alguma cena. Destaco aqui quatro personagens femininas: Yuna Hollander (Christina Chang), Svetlana Vetrova (Ksenia Daniela Kharlamova), Rose Landry (Sophie Nélisse) e — vou abrir um parêntese poético aqui — Irina Rosanova, que não aparece fisicamente, mas está contida na atuação de Storrie, por meio da memória afetiva de Ilya sobre a mãe.

            Yuna é uma mãe amorosa e preocupada com a carreira meteórica e bem-sucedida que o filho inicia. Sempre atenta, mas, ao mesmo tempo, capaz de dar espaço suficiente para que ele viva a própria vida. Só em um momento tenta arranjar uma nora sueca da realeza, mas era pura preocupação com o filho sempre estar sozinho — e quem não queria uma nora princesa, não é mesmo? É uma mãe idealizada, quase perfeita. Ela é o primeiro suporte emocional que Shane utiliza para se sentir bem. É confirmado pela própria autora do livro que Shane está no espectro autista, e o próprio Hudson Willians, que o interpreta, disse ter se inspirado no pai, que também é autista, para compor o personagem. Hoje sabemos que o suporte familiar é essencial para que uma pessoa autista consiga se virar bem em sociedade, em conjunto com assistência médica, psicológica e pedagógica. Talvez esse seja o motivo de tanto cuidado por parte de Yuna. Ela sempre acolhe o filho — e depois, o próprio Ilya. Sem dar spoiler, prestem atenção a uma cena do último episódio: só dou a dica de que envolve ele macetando uma macarronada. E sim, tudo isso transparece na interpretação de Christina Chang. E, aliás,  que mulher bonita. As três são.

            Rose é uma atriz de Michigan, com três irmãos, que adora hóquei e fica encantada ao conhecer Shane. Os dois formam um casal que rapidamente cai no gosto do público, para o desespero de Ilya, que começa a entender que seu ciúme é mais profundo e tem outra causa. A aproximação dos dois ocorre de forma suave e leve: eles se conhecem em um restaurante fechado para a equipe do filme, e, por acaso, o dono do local era amigo de Hayden, que joga com Shane, e os apresenta. O ponto alto de Rose como personagem fantástica acontece quando, após uma falha de desempenho sexual de Shane, ela reage de forma totalmente amistosa e o ajuda a entender que talvez um “pino quadrado não encaixe em buraco redondo”, ao que nosso personagem, todo fofo, sem pestanejar, responde que talvez “prefira ser o buraco do que o pino”. O que poderia se desenrolar em algo constrangedor se transforma em uma das cenas mais simpáticas e bonitas da série. Rose explica que já namorou caras gays, está bem com isso e entende Shane. Vale lembrar que, mesmo sem saber, Shane está no espectro autista, e esse diálogo deixa isso muito claro: ele olha para cima, demonstra uma aparente falta de emoção e tem dificuldade de elaborar sentimentos para verbalizá-los. E ela, assim como Yuna, à sua maneira, o acolhe. Dá o ponto de segurança para que ele consiga reconhecer e expressar algo que não queria admitir: ser gay. E não há problema nenhum nisso. Sophie Nélisse — que já roubou muitos livros por aí, em A Garota que Roubava Livros (2013) — consegue transmitir a energia de uma jovem que não se sente rejeitada. Ela entende que não é o objeto do desejo erótico de Shane, por mais que os dois se gostem e se encaixem em muitas outras coisas. A amizade é o caminho.

            Svetlana… Que personagem fantástica. É a minha favorita. Linda, rica, desencanada, parceira, gosta do esporte que Ilya gosta; o pai era goleiro de hóquei. Com ela não tem tempo ruim. Mais do que um suporte emocional para o russo, ela é a amiga da vida inteira. Eles transam de vez em quando, mas a conexão romântica não acontece, e ela não faz drama nem o prende com jogos de manipulação emocional. Quer a felicidade dele, mesmo que seja com “Jane” — que ela sabe quem é, ou pelo menos desconfia. É surpreendente como ela nunca está mal colocada nas cenas. Mesmo quando é apenas uma presença ao lado de Ilya, se impõe com força. Não cobra o que o amigo não pode dar e devolve com generosidade o amor que recebe. Ilya a ama e retribui no que pode e como pode, também com generosidade.

            E a presença de uma personagem que só existe nos olhos tristes de Ilya: Irina. Não sei como ela é tratada nos livros, mas há uma informação — que é spoiler, então não vou escrever aqui — capaz de marcar a alma de um filho de forma indelével, eterna. Ela morreu quando ele tinha 12 anos, e essa ausência ecoa em vários momentos da série. Quando ganha um campeonato, Ilya ergue a taça e a oferece a ela. Naquele momento, ainda não era possível compreender a profundidade dessa ausência. É junto de Shane que descobrimos o quanto essa mulher foi forte e o quanto seu filho sentiu o impacto da perda. Irina é ausência que se faz presença na atuação de Storrie de forma intensa e penetrante, sobretudo no olhar. Tudo o que ele utiliza na composição do personagem é visível, quase palpável. Ilya pode, à primeira vista, parecer um estereótipo homoerótico típico de um livro apimentado, mas sua construção passa por vários caminhos e, nesse caso, por essa ausência — e isso adiciona mais uma camada de profundidade a uma história que não tem nada de leve.

            Por isso precisei escrever sobre essas mulheres. São coadjuvantes, mas todas contribuem de forma decisiva para que a história tenha o peso, o sucesso e a repercussão que vem alcançando. Personagens coadjuvantes são essenciais para que os protagonistas brilhem. E brilharam. Assim como a série inteira — e agora é aguardar os louros que ainda virão.







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English





Heated Rivalry — The Women Who Hold the Story Together

            No, I will not talk about Jane and Lily, the assumed names Shane (Hudson Williams) and Ilya (Connor Storrie) use to deflect any suspicion about themselves — after all, they were rivals on the rink. I also set aside Elena (Nadine Bhabha) and Maria (Bianca Nugara), as they are connected only to Scott Hunter’s (François Arnoud) and Kip’s (Robbie Graham-Kunts) narrative circle.

            I know the series is often framed around gay and bisexual representation. Still, I have a theory — and it’s not even originally mine — that for a series, film, stage play, or musical to establish itself as a good work, several elements must align. First, a solid script, here one that remains faithful to the source material. Then, a competent production, even with a modest budget and far removed from the major American studios. And finally, strong performances. The original material is based on the novel of the same name by Rachel Reid, and she showed remarkable sensitivity in shaping her characters with the right nuances. And, of course, the performances deserve recognition. I would like to focus on some characters in the story who provide the essential support that allows the protagonists to establish themselves as one of the most endearing romantic pairs seen in a series in quite some time. Unsurprisingly, this support comes from the female supporting characters — when they are written as true characters rather than decorative background.

            There are no weak secondary characters in this series. All of them are developed in layers that sometimes contrast with one of the protagonists or provide the emotional backbone for particularly heavy scenes. I would like to highlight four female characters: Yuna Hollander (Christina Chang), Svetlana Vetrova (Ksenia Daniela Kharlamova), Rose Landry (Sophie Nélisse), and — allow me a poetic parenthesis here — Irina Rosanova, who is not physically present but lives within Storrie’s performance through Ilya’s emotional memory of his mother.

            Yuna is a loving mother, deeply concerned about the meteoric and successful career her son is beginning. She is attentive but also capable of giving him enough space to live his own life. At one point, she even tries to set him up with a Swedish princess — pure concern over her son always being alone. And who wouldn’t want a princess as a daughter-in-law, after all? She is an idealized, almost perfect mother. She becomes the first emotional support Shane relies on to feel grounded. It has been confirmed by the book’s author that Shane is on the autism spectrum, and Hudson Willians himself has said he drew inspiration from his own father, who is also autistic. Today, we understand how essential family support is for autistic individuals to navigate society, alongside medical, psychological, and educational assistance. Perhaps that explains Yuna’s careful attention. She always embraces her son — and later, Ilya as well. Without giving spoilers, pay attention to a scene in the final episode; I’ll only say it involves him enthusiastically attacking a plate of pasta. All of this comes through in Christina Chang’s performance. And what a beautiful woman. All three of them are.

            Rose is an actress from Michigan with three brothers who loves hockey and is instantly charmed by Shane. The two quickly become a couple that audiences grow fond of — to Ilya’s despair, as he begins to realize that his jealousy runs deeper and has another cause. Their connection develops gently and naturally. They meet at a restaurant closed off for the film crew, and, by chance, the owner is a friend of Hayden, who plays alongside Shane and invites them both. Rose’s finest moment as a character comes after Shane experiences a sexual performance issue. She responds with warmth and helps him realize that perhaps “a square peg doesn’t fit into a round hole,” to which our endearingly awkward protagonist promptly replies that maybe he “prefers being the hole rather than the peg.” What could have become an uncomfortable scene turns into one of the most tender and sympathetic moments in the series. Rose explains that she has dated gay men before, is perfectly fine with it, and understands Shane. It’s worth noting that, even without knowing it, Shane is on the autism spectrum, and this dialogue makes that clear: his upward gaze, his apparent emotional restraint, and his difficulty verbalizing feelings. And she, much like Yuna, offers him emotional shelter in her own way. She provides the sense of safety he needs to recognize and articulate something he had been resisting: that he is gay. And there is nothing wrong with that. Sophie Nélisse — who famously stole many books in The Book Thief (2013) — brings the energy of a young woman who does not feel rejected. She understands that she is not the object of Shane’s erotic desire, even though they care deeply for each other and share many points of connection. Friendship becomes the path forward.

            Svetlana… what a remarkable character. She is my personal favorite. Beautiful, wealthy, easygoing, loyal, and genuinely invested in the sport Ilya loves — her father was a hockey goaltender. With her, there is no emotional dead weight. More than an emotional support for the Russian player, she is his lifelong friend. They sleep together occasionally, but the romantic spark never ignites, and she refuses to dramatize or trap him through emotional manipulation. She wants his happiness, even if it is with “Jane” — whom she knows the true identity of, or at least strongly suspects. What’s striking is how she is never misplaced within a scene. Even when she is simply present beside Ilya, she commands strength. She does not demand what he cannot give and responds to his affection with generosity. Ilya loves her and reciprocates in whatever ways he can, also generously.

            And then there is the presence of a character who exists only in Ilya’s sorrowful eyes: Irina. I’m not sure how she is portrayed in the books, but there is a piece of information — which I won’t reveal here, as it is a spoiler — capable of leaving a child’s soul permanently marked. She died when he was twelve, and this absence reverberates throughout the series. When Ilya wins a championship, he lifts the trophy and offers it to her. At that moment, the full weight of her absence is not yet visible. It is alongside Shane that we come to understand how strong this woman was and how deeply her loss shaped her son. Irina is an absence made visible in Storrie’s performance with striking intensity, especially through his eyes. Everything he employs in building the character is visible, almost tangible. Ilya may initially appear to be a homoerotic stereotype from a spicy romance novel, but his construction is deeply informed by this absence — adding another layer of depth to a story that is anything but light.

            That is why I felt compelled to write about these women. They are supporting characters, but each of them contributes decisively to the story’s emotional weight, success, and growing impact. Supporting characters are essential for protagonists to shine. And shine they did. Just as the series as a whole did — and now we wait to see the recognition still to come.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Os Sete Relógios: mais Agatha Christie, nem lá, nem cá.

 




Os Sete Relógios: mais Agatha Christie, nem lá, nem cá.

 

            Acho que está virando uma constante: filmes baseados em romances policiais da dama do crime, Agatha Christie — material não falta. Foram 66 romances policiais, fora coletâneas de contos e peças de teatro. Nem sempre as adaptações foram boas. Temos, em 1974, a melhor feita até hoje: Assassinato no Expresso do Oriente, que colocou um elenco estelar dentro do luxuoso trem com o misterioso assassinato de Ratchett/Cassetti que, sob a direção do monstro Sidney Lumet, contribuiu para a histórica vitória de Melhor Atriz Coadjuvante de Ingrid Bergman, que havia se tornado, anos antes, uma pária para a Academia.

            Sete Relógios faz uma adaptação bem mais modesta e sem o participação de Poirot, é interessante que há vários personagens detetives para além do belga perspecaz e da senhorinha fofoqueira de St. Mary Mead, Miss Marple. Aqui temos como detetive da vez um lerdo Battle, feito por Martin Freeman, que parece combinar muito com personagens desse tipo. A história acompanha mais de perto Lady Eileen “Bundle” Brent, interpretada por Mia McKenna-Bruce, cujo trabalho eu não conhecia. O grande problema — ou solução — é que, ao lado dela, está Helena Bonham Carter, vivendo sua mãe, Lady Caterham. Helena eleva o nível de tudo. E olha que não é nem de longe sua melhor interpretação: ela compõe uma britânica aristocrática falida, contida, mas sarcástica, avessa a sair de sua decadente propriedade herdada do marido, que morreu misteriosamente longe de casa, e do filho, que se foi na guerra.

            A propriedade foi alugada por uma temporada para um casal rico que acaba finalizando sua hospedagem com uma festa e, nessa ocasião, um amigo de Lady Eileen não acorda mais após uma dose mortal de sonífero. Ele não era do tipo que precisava de remédios para dormir e, aparentemente, não se mataria, pois tinha planos de se casar com Eileen e durante o evento marcou um encontro com ela para a semana seguinte e tratar do assunto.

      Eileen, impulsionada pela perda, decide investigar e se esbarra constantemente com um Battle, até certo ponto atrapalhado, que a adverte de todas as formas para não se envolver no caso. E uma nova morte só reforça que há, de fato, um grande perigo iminente.

            Comecei a ler as histórias de Agatha Christie muito novo. E, apesar dos crimes, tudo era conduzido com certa leveza. A crítica à sociedade inglesa me passava um pouco batida, mas ela sempre esteve lá, discreta. Os filmes e séries conseguiram resgatar isso e acabam dando uma tonalidade mais densa ao que a dama do crime apenas pincelava em aquarela. Uma coisa que percebi é que ela tinha seus melhores momentos geralmente com Poirot ou Miss Marple e, às vezes, com outros personagens, nas histórias estritamente de mistério em ralação a um crime da alta sociedade. Já nas tramas influenciadas pela guerra, conspirações e espionagem, ela derrapava bastante. Sociedades secretas que se unem para dominar o mundo, como em Os Quatro Grandes, ou para ajudar a Inglaterra — caso desta minissérie de três capítulos — fazem com que ela perca a mão. Depois de tantos filmes pesados sobre a Primeira e a Segunda Guerra, essas histórias acabam soando quase pueris. E esta é uma delas.

            O roteiro adota um ritmo um pouco lento, mas nos presenteia com uma boa reconstituição da Londres dos anos 1920. Mesmo com a história caindo nessa ingenuidade em relação a uma conspiração e a uma sociedade secreta chamada justamente Sete Relógios, o enredo não se sustenta tanto além das boas interpretações.

            Nem lá, nem cá, percebo que Sete Relógios é um daqueles filmes que atendem à necessidade da família de assistir a algo aos fins de semana, sem desagradar ninguém, e que acaba se perdendo depois de uns meses, como tantos outros títulos, no amontoado de produções no menu da Netflix. Só de pensar em procurar um filme sem indicação, minha ansiedade já começa a apontar. Talvez uma resenha como esta sirva justamente para dar uma luz. Voltando ao que disse no começo do parágrafo: nem lá, nem cá — apenas uma adaptação bem-feitinha de um livro da Sra. Christie. E, pelo que sei, está vindo uma nova leva de filmes por aí. As redes britânicas estão adaptando tudo o que podem. Pena que nem tudo tenha chegado ainda por aqui. Aproveito o que aparece.





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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Maurício de Sousa: O Filme - Onipresente em nossa cultura

 



                               Maurício de Sousa: O Filme - Onipresente em nossa cultura


            Já vou começar com o único ponto fraco desse filme — na verdade, são dois. O primeiro é a complacência ao mitificar um personagem histórico sem considerar com mais cuidado seus pontos negativos. Temos uma tendência de não expor nada que possa riscar a imagem de grandes ídolos brasileiros, somos comedeidos demais. O segundo ponto é a escolha do ator para viver o Maurício: o próprio filho, Mauro de Sousa. Fica evidente que ele não tem a mesma profundidade dramática de atores mais experientes, como Natália Lage, que interpreta sua mãe, Elisabeth Savalla, como uma avó amorosa, ou mesmo Thati Lopes, conhecida por sua atuação no Porta dos Fundos, que faz a primeira esposa, Marilene. Até mesmo Othon Bastos, que aparece rapidamente como Jayme Cortez, da Editora Continental, onde a revistinha infantojuvenil Zas Traz encerra as primeiras historinhas em quadrinhos do desenhista, consegue dar mais profundidade ao personagem do que Mauro. Vamos combinar: ele é carismático, mas não há muitas nuances de emoções, assim como sua expressão quase congelada em um bom humor eterno. Contudo, o mito Maurício é muito maior, e a reverência a ele é executada com grande respeito pelo diretor Pedro Vasconcelos, em co-direção com Rafael Salgado. Vasconcelos, junto de Paulo Cursino, assina um roteiro bem pé no chão e, ao mesmo tempo, capaz de fazer a magia ser tornar presente — especialmente quando, em determinado momento, os personagens começam a aparecer nos traços de Maurício, sem nunca degringolar para o fantástico, só uma licencença poética.

        A história acompanha Maurício ainda criança, passa por suas lembranças e caminha em direção às primeiras conquistas. Para surpresa de alguns e alegria de quem já sabia, o primeiro personagem pula do papel ainda sem a cor azul característica — que foi, na época, um erro de impressão e acabou se tornando sua marca registrada: Bidu. O filme também explica suas inspirações. E, para minha surpresa, o Cebolinha apareceu antes da Mônica, que acabou reivindicando seu lugar de principal estrelato. A cada referência ao que estava ao seu redor, ou às suas memórias, eu me emocionava com as cenas de Maurício criando.

        A partir daqui, entro numa digressão, mas tudo o que eu tinha para falar do filme em si já foi dito.

        Às vezes, eu me pego pensando no que me faz brasileiro além do simples fato de ter nascido no Brasil. Hoje, com o advento da internet e de aplicativos como o Instagram, ou mesmo plataformas como o YouTube, vejo estrangeiros, em seus próprios países, encantados com a cultura brasileira. Estamos vivendo um ótimo momento internacional. Se conseguirmos alinhar nossas polarizações internas em favor do bem-estar da população, isso certamente refletirá em avanços significativos para todos nós. Uma fala, certa vez, me chamou a atenção — não me lembro da nacionalidade da pessoa —, mas ela dizia que, por mais que alguém usasse a camisa da seleção brasileira e chinelos Havaianas nos pés, era visível que não se tratava de um brasileiro. Segundo ela, mesmo de costas, conseguia reconhecer um brasileiro, pois um estrangeiro, por mais que tentasse, não tinha a mesma postura. É justamente nessas coisas que eu fico pensando: o que nos dá essa — por falta de palavra melhor — energia? Para mim, são vários fatores: crenças e valores partilhados em nosso território (há os gerais e os regionais), nossa memória e nossa história, conhecimentos específicos e uma cultura que comporta manifestações infinitas. E é aqui que junto minha digressão ao tema de Mauricio de Sousa: O Filme. Eu não consigo dizer quando conheci a Turma da Mônica. Se foi pela televisão, pelos gibis ou pelo cinema. Para mim, ela simplesmente estava lá desde sempre. Minha memória mais antiga é de ir assistir ao filme A Princesa e o Robô, lançado em 1984, mas eu já flertava com os gibis mesmo sem saber ler. Quando aprendi, aqueles personagens estavam onipresentes em toda a minha infância e adolescência. Por mais “roqueira” que essa fase tenha sido, eu não abandonei as coisas de que gostava. Até tentei ler X-Men, mas, na época, as histórias ainda eram confusas, se prolongavam por várias edições e eram caras. Uma edição da Turma da Mônica se encerrava em si mesma e, quando dava, comprava-se outra.

        Agora, quer saber o que era ostentação para mim depois de um tempo? O Almanacão de Férias da Turma da Mônica. Esse eu fazia questão de ter, e, quando não dava para comprar, eu ficava frustradíssimo. Além das histórias que eu lia avidamente, o que mais gostava era o miolo, que vinha cheio de jogos, caça-palavras e desenhos para colorir. Eu achava que pintava muito bem, e as horas passavam enquanto eu sugava toda a diversão possível. A Disney até tinha uma versão sua, não chegava aos pés da Turma da Mônica. Cresci e fui estudar fora. Primeiro, cursei Filosofia, mas acabei dando uma parada, pois mal dava tempo de ler os livros exigidos para provas e trabalhos. Ainda assim, sempre dava uma olhadinha nas tirinhas dos jornais, e lá estavam meu tripé da infância, agora vida adulta: Garfield (cheguei a ter um jogo dele, de tanto que amava), Snoopy (tive livros de colorir, brinquedos e, já adulto, vários produtos) e, obviamente, a Turma da Mônica. Como professor de Língua Portuguesa, via com alegria que sempre havia alguma referência a Maurício de Sousa nos livros didáticos, por meio de tiras. E quantas campanhas e publicidades com sua marca nos acompanharam? Só nunca entendi muito bem o saco de maçãs da Turma da Mônica, pois sempre achei as frutas miúdas e feias. Fora isso, tudo fazia sentido.

        Em 2023, comecei a frequentar a Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo. Eu morava ali, na esquina da Rua do Arouche com a Rua Aurora, bem perto. Em meio às pesquisas por novos autores brasileiros, descobri que havia um bom acervo de HQs adultas. Como eu raramente consumia esse tipo de material por ser relativamente caro, decidi pegar alguns títulos que me chamaram a atenção, para finalmente ter acesso a esse universo que eu sempre soube que existia, mas nunca tinha explorado. Entre vários títulos, me deparei com Astronauta: Magnetar. Que pancada. Ver um personagem do Maurício nos traços e textos de outros artistas, pelo projeto Graphic MSP, foi arrebatador. Justamente ao ceder seus personagens para outros criadores, cada artista imprimia contornos autorais às histórias — e que histórias. Houve narrativas adultas, preciosidades tocantes. Jeremias: Pele é um soco no estômago ao tratar do racismo. Não vou conseguir listar todos os artistas envolvidos, mas, pelo que soube na própria HQ, cada um escolhia um personagem e tinha total liberdade para elaborar sua visão, desde que preservasse a essência e as características visuais básicas. É um primor atrás do outro. Não consegui ler todos, pois nem sempre estavam disponíveis e, além disso, o preço ainda pesa para mim. Dos que consegui acessar, li tudo. Abaixo eu elenco os que li e dou um resumo da história.

        Assim, entre tantas coisas que me dão o estofo de ser brasileiro, Maurício de Sousa ocupa um lugar central nesse universo nacional que nos influenciou, muitas vezes, sem percebermos. Ele é um patrimônio brasileiro, de tão onipresente que se fez em nossa cultura. Ainda acho que a Academia Brasileira de Letras perde a chance de torná-lo um imortal. Poucos fizeram tanto pela educação e incentivaram tanto a leitura quanto essa turma criada pelo mestre Maurício. Ainda existe muito preconceito em relação às HQs serem ou não consideradas literatura, por se tratarem de uma arte híbrida e relativamente recente. Ainda assim, é impossível negar a influência que exerceram sobre a maioria de nós. Por isso, um filme sobre Maurício é necessário. É reverência — uma entre tantas que ele merece.

Graphic MSP

            Vou colocar abaixo os que eu li, com um breve comentário sobre cada um. O número à frente corresponde ao seu número na coleção, o personagem que está como principal, o artista responsável e a data de publicação.

Vol. 1 - Astronauta: MagnetarDanilo Beyruth (roteiro e arte) — Nov 19, 2011 - Vemos um Astronauta envolto em paranoia por estar tanto tempo sozinho e isolado após um acidente próximo a um magnetar, que eu juro que tive que pesquisar o que era. Meu campo da física é limitadíssimo.

Vol. 2 - Turma da Mônica: LaçosVitor e Lu Cafaggi — Jun 1, 2013 - Floquinho sumiu, Cebolinha recorre à ajuda da Mônica, Cascão e Magali para tentar achar o bichinho, reforçando os laços de amizade que tinham;

Vol. 3 - Chico Bento: Pavor EspacialOrlandeli — Aug 1, 2013 - Só uma informação aqui: de longe, o Chico Bento é meu personagem favorito. Não sei se é por me ver representado nele, fui uma criança do interior, com um "pé" de goiabeira no fundo do quintal, que vivia indo a açudes e rios tomar banho (é muita licença poética e exagero, mas eu fui algumas vezes). O jeito de falar, sempre senti muito carinho por esse personagem. A escolinha da roça, eu estudei em uma que parecia muito a escola dele, uma "casinha" com uma sala só praticamente. E me surpreendeu ver que misturaram ficção científica com o Chico em uma história de abdução, e muito engraçada;

Vol. 4 - Piteco: IngáShiko — Nov 28, 2013 - Eu li o Shiko, em uma entrevista, falando sobre ele usar uma referência pré-histórica brasileira na história do Piteco. Eu mesmo não conhecia a Pedra do Ingá. E gostei de ele fazer uma Thuga toda voluptuosa em trajes sumários. Um escândalo...

Vol. 5 - Bidu: Caminhos Eduardo Damasceno & Luís Felipe Garrocho — Aug 1, 2014 - Pense numa história fofa. Nos quadrinhos tradicionais, quando o Bidu se encontra com os cães do bairro, ele conversa. Aqui também, mas sem uma palavra sequer: só se usam imagens. E, estando abandonado na rua, a história tenta mostrar como o Franjinha o conhece, o acolhe e se torna seu tutor.

Vol. 6 - Astronauta: SingularidadeDanilo Beyruth — Dec 19, 2014 - Outro termo que eu não fazia ideia do que era e tive que pesquisar. Aqui, as consequências da história anterior se fazem presentes, e ele é enviado a uma nova missão com uma psicóloga, que está cuidando de laudos sobre ele estar ou não apto a continuar o trabalho, e um pesquisador estrangeiro que parece muito mais atrapalhar do que ajudar. E temos uma referência aos Homens-Geleias, que já apareceram nos primórdios das histórias do Astronauta.

Vol. 7 - Penadinho: VidaPaulo Crumbim & Cristina Eiko — May 6, 2015 - Alminha desapareceu e Penadinho descobre que ela vai reencarnar e precisa conversar com ela mais uma vez. Contudo, Alminha foi sequestrada por um vilão que coleta almas, e Penadinho e seus amigos Frank, Zé Vampir e Muminho vão tentar resgatar a amiga. Era uma turma de que eu gostava muito também. Era sobrenatural que não me dava medo.

Vol. 9 - Turma da Mata: MuralhaRoger Cruz, Davi Calil & Artur Fujita — Sep 27, 2015 - Pensa numa subversão maravilhosa. O rei Leonino vira um tirano que explora um metal raro e cobiça as terras da mata, onde uma resistência contra sua tirania se forma. No meio disso, temos um Jotalhão que, raptado quando criança, é criado para ser um ninguém burocrático. E, ao se ver envolvido na trama política, tem que vencer sua covardia e tomar um lado. E temos direito a uma piada sobre ele ser mais conhecido por seu molho de tomate. Até hoje ele é garoto-propaganda de um extrato de tomate;

Vol. 11 - Papa-Capim: Noite BrancaMarcela Godoy & Renato Guedes — Apr 21, 2016 -É um terror perturbador que transforma a invasão europeia em uma maldição imposta aos povos indígenas;

Vol. 13 - Bidu: JuntosEduardo Damasceno & Luís Felipe Garrocho — Nov 1, 2016 - Ao ser acolhido da rua, Bidu tem alguns comportamentos que não são adequados para o convívio numa casa. Aqui vemos a relação dele com seu tutor Franjinha acontecendo.

Vol. 15 - Chico Bento: Arvorada Orlandeli — May 8, 2017 - Temos árvores que florescem aqui no Brasil que são um espetáculo. E o ipê é uma delas. A história versa sobre o amor do Chico pela vó Dita. E, como todas as avós, ela não é eterna, e o ipê florindo é o símbolo da superação do luto, que se transforma em boas lembranças ao ver uma coisa que sempre esteve por ali, que agora toma outro significado.

Vol. 16 - Capitão Feio: IdentidadeMagno & Marcelo Costa — Sep 6, 2017 - É absurda a insinuação presente nessa história sobre a população em situação de rua de São Paulo e o uso do crack. O tema nunca é citado diretamente, mas aparece em insinuações: no que é desenhado ao fundo do quadro, nos devaneios do personagem, em seu refúgio no lixão, em sua sensação de poder. Não sabemos se aquilo é real ou fruto de sua mente tomada pelo vício. E não é oficial essa versão, é uma leitura que eu tive. Para mim, é claramente o delírio de um homem que está em situação de rua e em vício... Lógico que vem depois uma situação fantástica, mas está lá a insinuação.

Vol. 18 - Jeremias: Pele Jefferson Costa — Apr 25, 2018 - Você já teve a sensação de um dia pensar "vou ler uma coisinha leve e fofa" e toma um soco no estômago? É o que aconteceu com essa história necessária. O Maurício — e ele mesmo explica isso no comentário que faz sobre a história específica, ele faz uma apresentação em cada uma das obras — disse que evitava alguns temas em suas HQs. O racismo, por exemplo: ele imaginava só brincadeiras de crianças, sem os desgastes do mundo adulto, pois seu público-alvo, ele julgava, não deveria ser exposto a isso naquele momento. Pele leva isso a um patamar que uma pessoa branca nunca vai viver. Sem contar que, deliciosamente, ele usa obras que estão espalhadas pela cidade de São Paulo, realizadas por artistas pretos ou que representam a cultura preta, como fundo dos quadros. E está lá também o racismo no seu mais sofisticado e nefasto braço. Eu sempre andei pelo centro de São Paulo e nunca fui abordado por nenhum policial. E, se fosse, estava com meu RG e tudo bem. Para pessoas pretas, não basta o RG, e eu descobri nessa HQ isso. É de se indignar mesmo.

Vol. 19 - Horácio: MãeFábio Coala — Jul 20, 2018 - É apelação pura — chorei como uma criança com a história do dinossauro comedor de alface que se perde da mãe e tenta reencontrá-la a qualquer custo. E o final... O final é o que é. 

            A Graphic MSP existe até o Vol. 47. Maurício Repórter, por Flávio Teixeira e Mauro de Souza, foi publicada, segundo as informações a que tive acesso, em dezembro de 2025. Eu queria ter lido todas; ainda não consegui.






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