Na semana seguinte a fisioterapeuta, compadecida, levou bala de coco para mim. A minha língua que estava estragada com o fel dos remédios regozijou naquele torrão de puro açúcar como um anjo degustaria seu pão do céu. E como em todos os momentos como aqueles eu realmente me sentia agradecido por estar recuperando a normalidade. É engraçado como minha cabeça funciona. Eu, até aquele momento da sessão anterior, sequer lembrava de bala de coco. Realmente não tem sentido eu fazer uma comparação entre mim e aquele puxa-puxa da bala. Principalmente, como eu já disse antes, eu me lembrar de pouca coisa da minha infância. Contudo algo puxa um gatilho que me leva a uma lembrança perdida. E como estou escrevendo para investigar minhas memórias, por menores e menos importante que sejam elas podem me ajudar a compor algo que eu tenha deixado passar. E, pelo pouco que sei da psicanálise, nunca fiz, contudo li uns textos sobre o tema, o solo da infância é terreno fértil para se entender o presente. Algo assim.
Algumas semanas depois daquele quitute eu recebi alta e fui para casa no interior. Por ficar tanto tempo acamado, minha família no Lockdown rescindiu o contrato do apartamento que morava, encaixotou meus livros, e objetos de uso pessoal e os móveis maiores desfizeram-se deles. Acho que venderam. Tudo isso já sabendo que seria necessária uma longa temporada de recuperação e em família seria tranquilo. Antes fosse.
Levaram tudo o que tinha numa caminhonete alugada meses antes. Fiquei aliviado que naquela época não tinha nada comprometedor nas minhas coisas. Seria muito constrangedor se minha mãe achasse algo. Apesar que eu já estava com a idade de não me importar com isso. No fundo estava só preocupado com meus livros e meu laptop. Este sim tinha um conteúdo inapropriado para uma senhora da idade dela. Eu fui de carro, também alugado na cidade mesmo com um motorista de taxi. Nessa volta fiquei no banco da frente, sem querer conversar muito. Eu imagino que o motorista tenha conversado muito na vinda com minha mãe, pareciam não ter mais assunto ou só estavam me poupando. Saímos do hospital já no meio da manhã e seria uma viagem de cerca de cinco horas e meia se a Marginal Tietê estivesse sem congestionamento quando passássemos por lá. Estava feliz de sair daquele hospital barulhento e cheio de gente. Quando comentei sobre isso minha mãe se espantou:
- Achei tão calmo. A recepção era um pouco cheia dependendo do dia, mas o povo não fazia muito barulho não - Olhou para os prédios que que se intercalavam de tamanho, cores e formas - A ala das crianças era um pouco cheia de choro, mas acho que você não ia lá.
- Nossa mãe - Eu incrédulo tentando falar sem olhar para trás, ainda tinha umas limitações na movimentação - Tinha madrugada que era tanta gente falando naquela enfermaria que eu acordava. E não parava de ver gente pasando pela porta do quarto.
- Devia ser os enfermeiros e médicos - minha mãe olhou para mim e rapidamente desviou os olhos cobiçosa para uma loja com móveis expostos que passávamos do lado - E tem o pessoal da limpeza que não para. E ali onde você ficou é um dos maiores hospitais da cidade. É estranho ter tanto barulho num hospital. Nas noites que fiquei ali era bem silencioso.
Minha mãe tinha sido enfermeira até se aposentar com pouco mais de cinquenta anos.
- Teve uma vez que eu acordei com uma enfermeira me encarando - recordei do momento que já estava em recuperação sem tomar remédios muito fortes - Levei um susto.
- Ela foi dar alguma medicação com certeza.
- Ela não falou nada, quando perguntei o que ela queria ela saiu e não emitiu som. Não vi mais ela e esqueci de perguntar para as enfermeiras quem era depois.
- Ela não voltou outro dia - minha mãe insistiu - e você não viu por estar dormindo. Também podia ser uma paciente perdida.
- É possível - conjecturei - Que medo se é uma doida e faz algo?
O motorista do carro quebrou o silêncio mudando de assunto de forma educada explicando onde faríamos alguma parada para comer e se necessário para usar o banheiro. Já estávamos na Marginal naquele momento. Minha mãe até tentou retomar o assunto. Só que eu não quis sustentar. Logo eu estava virando a cabeça e cochilando. Só voltei acordar na primeira parada onde almoçamos. E logo continuamos e paramos mais uma vez, pois a bexiga da minha mãe não estava armazenando com mais eficiência os líquidos como antes e parece que a do motorista também.
Em algum momento chegamos na Rodovia Washington Luíz e era um retão só que acentuava mais ainda meu sono. Nem vi quando entrou pela vicinal que passava na entrada principal da cidade São Lourenço do Rio das Pedras. De boa parte da estrada não se via a cidade de longe, mesmo dando a sensação de estar descendo para algum lugar. Meia hora depois, como era dia, se enxergava umas construções esparramadas por loteamentos começados e umas casas de sítio remanescentes. E no nível da estrada o que parecia ser o limite da cidade ao lado, se olhasse melhor, ia perceber que em relação ao asfalto da via a cidade começava a afundar numa depressão natural, não chegava ser um vale, mas uma baixada do rio que acomodava a cidade. O próprio rio parecia uma cicatriz irregular de fora a fora o município.
"Um verdadeiro buraco!" Pensei com amargura.
Eu percebi que de onde estava se via uma cortina do que parecia uma poeira envolvendo a depressão que a cidade se encontrava. Não chegava a formar uma redoma. Também havia uma núvem de chuva carregada do outro lado bem escura. Parecia que ia desabar uma tempestade em algum momento.
- Que poeirão!
E realmente o vento começou a açoitar a lateral do carro e fazer muito barulho nas frestas que deixamos no vidro do carro. Logo subimos os vidros vedando o carro do som alto.
- Não é poeira - rompeu o motorista.
- É o quê? - perguntei tentando olhar melhor o céu com meu pescoço duro de ter pescado tanto por causa do sono. Tive torcicolo no dia seguinte.
- É alguma coisa daqui, pois toda vez que o tempo muda, não importa o clima que seja, isso aparece, e só dá para ver desse ponto. Como viajo muito eu percebi isso faz tempo. E conversei com outros motoristas que falaram a mesma coisa.
- Que estranho - disse minha mãe atrás - eu não estou vendo nada.
- Faz muito tempo que tem isso. De moleque quando eu viajava com meu pai eu já existia. Deve ser alguma coisa meterológica, a posição que a cidade está. Aqui é mais seco sempre. Ajuda a levantar a terra que vira um pó fino.
Eu meio intrigado por nunca ter notado nas vezes que fiz o caminho, poucas vezes por sinal:
- Se eu lembrar eu pesquiso depois na internet, não conheço esse fenômeno.
E o trevo da cidade apareceu à distânica de uns quilômetros e logo entramos e o motorista fez o percurso da rua principal que tanto conhecia passando em frente da igreja martriz e seu largo. Contudo, ao invés de virar à esquerda três quadras passadas da praça da matriz ele continuou reto bem mais para cima e virou à direita na avenida do cemitério e desceu até cinco quadras antes de chegar no velório e parou na frente de uma casa que eu não conhecia.
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