Desgraça e Masculinidade
De forma direta ou apenas insinuando, eu já deixei clara minha vontade de fazer outras coisas e talvez até encerrar o Blog para me dedicar a vídeos no YouTube ou mesmo Instagram, e ando estudando e me organizando para tal. Contudo, esbarro na minha vergonha de tela. Nunca gostei muito de aparecer em vídeo e também tenho um pouco de restrição em me expor, paranoia minha. Essa aversão em "aparecer" chega ao ponto de me atrapalhar muito essa vontade de me dedicar à produção de conteúdo. Gosto bastante de escrever, preparar e eu sei que preciso ter meu conteúdo próprio. E sabemos como limitado é escrever no Blogger. Enquanto não faço nada a esse respeito, continuo com textos quilométricos por aqui. No máximo faço um card para postar no Instagram informando que há uma resenha nova sobre um filme ou série.
Outra coisa que gostaria muito é diversificar meus textos com assuntos pertinentes ao que gosto de fazer, não só filmes e um pouco de série. Falar de arte, literatura, cotidiano, o que me apetecesse: cultura geral. Penso até num projeto ousado que juntaria minha formação em Letras para falar de escrita, livros e estilo de vida de quem tenta conciliar tudo isso com o ganhar o pão diário. Ideias tenho de monte, falta execução. Não posso esquecer que meu contexto de vida atual está um tanto conturbado, moro, no momento, numa cidade do interior de São Paulo, acreditem, se tem um lugar onde a cultura está minguando é aqui. Não vou enveredar pelo caminho da reclamação de como não suporto estar aqui, senão o chororô vai longe. Contudo, tenho que admitir que esse sacrifício vai ser benéfico para mim. O que não deixa nada mais fácil, mas estou aqui por um bom motivo. Resolvendo, volto a morar em São Paulo no dia seguinte.
Quem não me conhece de outros escritos pode dar uma olhada no meu texto em que falei sobre meus primórdios nesse Blog e vai entender um pouco umas coisas que vou abordar aqui sem aprofundar. Quem quiser o link é este aqui:
https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/2026/04/meus-primordios-neste-blog.html
Eu sou um cara branco do interior de São Paulo, de uma cidade que se fortalece e cresce com a controversa vinda dos italianos para o Brasil para embranquecimento do país. Estou pisando aqui, ao falar disso, em um terreno bem movediço. Muitos não sabem da história do país e acabam estranhando quando alguns assuntos são abordados. Por mais que os europeus estivessem em busca de uma melhor condição de vida, fugindo da guerra, coincidentemente nossos líderes políticos estavam preocupados com a substituição da mão de obra escrava, que a libertação tinha ocorrido há algumas décadas, e também, a pior e mais nefasta preocupação, era embranquecer a população. Todo tipo de sandice na época era usada para justificar essa mazela. Com isso, não houve nenhuma reparação histórica para os escravizados e seus descendentes, pelo contrário, em muitas regiões do país o estado pagou indenizações aos donos das pessoas que se acharam lesados ao perder o patrimônio humano escravizado com a Abolição. Isso me dá um nó na garganta ainda hoje ao ter que falar disso.
No interior de São Paulo onde cresci, a presença negra era muito menos visível socialmente do que em outros lugares que conheci depois. Eu mesmo tive pouquíssimos colegas na escola que eram negros. E eu precisei aprender muita coisa que não era ensinada na escola e em minha casa. Meu avô mesmo, por quem eu nutria um carinho enorme, foi o primeiro que me atentou para a cor da pele de um garoto que era meu amigo. Não que eu não percebesse que o tom de pele de alguém fosse diferente do meu. Eu percebia claramente, mas não tinha noção de que aquilo era motivo para eu me diferenciar e me achar melhor. Meu avô sim. E mesmo assim, não concordando com ele, eu introjetei muitos preconceitos que até hoje eu luto bastante para não influenciar negativamente, e muitas vezes eu traio nessa empreitada.
Por esse viés regional eu também recebi o catolicismo como religião de berço. Até houve um tempo em que flertei com o ateísmo e quiçá o agnosticismo, mas para quem leu o texto que indiquei sabe que eu me tornei seminarista da Igreja Católica. Maus tempos aqueles... Contudo, isso me propiciou morar em outras cidades e conhecer outros modos de viver que não o interiorano tacanho paulista. Cheguei a morar em Jaú, São Carlos e Campinas. Tive a oportunidade de morar em Nova Iguaçu, Seropédica e Piranema, no estado do Rio de Janeiro, e estava sempre pela capital do estado. O que pude conhecer eu conheci. E aqui começa um ponto de virada nos meus conhecimentos que é pertinente a tudo que estou escrevendo. Eu tive meus primeiros contatos com religiões não católicas através de pessoas que eram praticantes ao mesmo tempo que frequentavam a igreja. E foi ali que me despertou a percepção do senso religioso. Eu mesmo achava tudo que eu vivia no seminário muito racional e árido. Primeiro estudamos Filosofia, três anos, e depois fui para a Teologia, dependendo do lugar há alguma variação de tempo e de cursos. A vivência, até eu morar no Rio, era muito sem sentido místico, mas rica intelectualmente. E depois, quando abandonei de vez o seminário, quer dizer, fui mandado embora pela terceira vez, eu resolvi viver minha vida afastado da religião. Sempre aparecia alguém na minha vida com quem eu me relacionava, seja amizade ou no campo amoroso, que era do espiritismo, ou da umbanda, candomblé e outras denominações e até religiões. E, apesar de não sentir tanto a mística dentro do catolicismo, eu estudei bastante sobre o senso religioso, com viés católico, obviamente. E me espantei que o senso religioso era o mesmo em qualquer pessoa que acreditasse em algo. Parece óbvio, para mim não foi. Isso que chamo de senso religioso era o mesmo, mudavam as particularidades de cada religião em si. E sempre que era possível eu fui no que pude ir para conhecer os lugares. E vi e aprendi coisas, muitas coisas, e tudo com a segurança acadêmica de ter feito uma faculdade que me deu base científica para observar os eventos que presenciei.
Este domingo eu escutei em algum lugar a Anitta com uma de suas músicas do seu álbum novo e, como alguns clipes já estavam lançados, eu quis saber por curiosidade o que o povo de fora do Brasil estava pensando e dizendo sobre ele. Aqui ela vai bem, mesmo que os evangélicos estejam criticando. E fui assistir alguns reacts, reação de algum youtuber ao assistir algo. E vi um monte desses vídeos, vários adoram e estranham essa fase da Anitta. Como eles não entendem a língua, ficam com a estética e com a melodia. Alguns fizeram uma pesquisa e descobriram que são clipes muito simbólicos, cheios de referência à religião dela, o Candomblé. Falar assim é bem simplista, ela traz sim muitos elementos dessa religião, mas traz também elementos da umbanda, da religiosidade popular regional e até um pouco da cultura indígena.
Em tempos de masculinidade frágil, homens fazendo retiros em montanhas com nomes que remetem a um ideal de ser verdadeiramente "homem", ou vão atrás de cursos para realinharem-se com o "ser homem" provedor "másculo", o clipe de Meia Noite acertou o alvo dos evangélicos, que julgaram haver uma incorporação real de Exu no dançarino do clipe. Só desprezaram o conhecimento real em torno da situação. Primeiro que um profissional da dança tem técnicas e fica muito claro no vídeo que não são danças de terreiro, são inspiradas em alguns passos de terreiros e a coreografia é cheia de movimentos próprios do universo da dança. E que, por mais que haja uma influência externa, uma entidade incorporar fora de um culto não é o correto. Pode acontecer numa situação muito especial. E ali é um set de filmagem. O tanto que se para para maquiar, regular luz, reposicionar elementos de cena... Não há entidade que tenha paciência para esperar. E entidade não faz o que um diretor quer na hora que quer. A entidade faz o que tem que fazer e vai embora.
Eu penso, e aqui é um exercício mental baseado em tudo que vi, li, aprendi e vivenciei, que o mundo evangélico, e anterior a ele o protestante, na tentativa de se distanciar do Catolicismo acabou tirando o feminino do jogo. Enquanto os católicos receberam a base judaica de uma divindade patriarcal, que lá nos primórdios desbancou as divindades matriarcais, eles resgataram o feminino na figura materna de Maria. Não foi colocada no status de divina, mas deram uma importância de reverência por seu papel dentro da religião. Os protestantes a destronaram desse pedestal. E aí perderam um lado da trindade divina primordial, a grande mãe. Ao ter só o grande pai e o filho essa conta não fecha. E lembrando um pouco de Lévinas, o encontro com o "outro" não deve reduzi-lo ao "eu-mesmo". Então, comparativamente, o polo masculino sem o outro polo, o feminino, fica sem uma percepção de si mesmo. Como você pode saber que você é diferente do outro se tirou o outro da sua existência? Usando o que estou abordando nesse texto, como alguém sabe que é o lado masculino se não tem o feminino para se ver e comparar como totalmente diferente? Percebe a crise que não ter uma representatividade no seu campo religioso causa?
Se no catolicismo, mesmo rebaixada, temos a figura da mãe, no Candomblé e outras religiões de matriz africana isso é intrínseco. A família primordial é a base: mulher, homem e prole. E devido a isso estar claramente inserido no culto e na mitologia ninguém precisa fazer curso para entender a masculinidade. E, como o clipe da Anitta mostra, caso alguém esteja um tanto confuso sobre isso, as energias das entidades são bem definidas, sejam Orixás, sejam Exus e Pombagiras, que não fazem parte do mesmo culto, e aqui não vou entrar nessa explicação. Desgraça e Meia Noite são giras de Exu e Pombagira reproduzidas artisticamente em função do trabalho da idealizadora do álbum. Então é até engraçado perceber que o que os evangélicos disseram ser uma incorporação de verdade é uma centelha artística do masculino encarnado num culto popular na figura de Exu.
Eu recomendo a qualquer um que queira sentir o que é ser masculino, ou mesmo feminino, de forma contundente, vá numa gira de Exu. E isso não quer dizer que o povo de Umbanda ou Candomblé não tenha problemas de misoginia, machismo e outros. Contudo, eles entendem um pouco mais essa pegada e não passam vergonha sendo "macho" no meio de outros "machos" gritando "Raul, raul, raulll". Como a vida, uma gira é para todos, indiferente ao sexo biológico. Em compensação, nem sempre será um Exu que descerá em um "macho" provedor. Respeita!
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