Não achei filme ou série que me interessasse essa semana. E como ainda não pude assistir A Odisseia então fui para outros campos que por sinal não deixa de ser um curta metragem com qualidade de filme. É um grande clip que a Anitta fez. Isso aqui é só um rascunho que fiz tentando entender, refletir e explicitar o que eu consegui captar do curta. Os termos ou partes usadas por mim são o que consegui alcançar e nomear ao meu modo.
Segue abaixo, lembrando que está no Substack também.
Eu entendo perfeitamente que ao escrever algo ficcional podemos ficar perdidos. E usar facilitadores nos ajuda muito. E trazendo o título para o nosso lado o “contar histórias” é algo tão ancestral quanto qualquer manifestão humana.
Quando comecei a pesquisar sobre escrever já me deparei com a Jornada do herói do Campbell. E assustadoramente percebi que virou o manual absoluto dos escritores que querem fazer uma fantástica elaboração exacerbada de emoção e de aventura épica. Porém, esquecemos algo fundamental, nós podemos criar nosso jeito de contar uma história, nós podemos criar um caminho próprio.
E quem fez um uso muito interessante de um caminho de contar uma história com cara de Brasil, sem elixir de nada para ninguém além de si mesma foi a Anitta com o lançamento do curta metragem Equilibrivm II. E é com isso que eu faço uma crítica ao uso exclusivo de um caminho para contar uma história que vem um mercado estrangeiro. Só o que os povos ancestrais têm para nos ensinar é absurdamente cheio de possibilidades. As influência dos africanos escravizados que transmitiram o que lembraram para seus descendentes e tudo isso deu o tempero à cultura, um tanto insosa, europeia portuguesa. Somos um caldeirão de possibilidades e isso dá tanto caminho para construir estruturas narrativas.
Hoje eu vi um vídeo do Roger Cipó (@rogercipo) falando sobre isso e adorei, eu já estava tentando nomear algumas coisas e ele trouxe a belezura do termo “Jornada do Ori Vencedor” ele disse que vai sentar e elaborar melhor os passos e trabalhar isso em algum vídeo com mais tempo. E é mais ou menos isso que eu percebi, era uma “jornada” aos moldes brasileiros. Já cansamos de regurgitar ou só reproduziro que os caras de fora nos impuzeram.
Isso que estou escrevendo agora é mais um rascunho do que eu consegui analisar. Com certeza o Roger fará algo muito melhor, principalmente por ele estar inserido na cultura religiosa afro-brasileira. Eu só rabisco uma reflexão simples de um possível modelo de processo narrativo.
Então fica os tópicos com uma pequena explicação dessa jornada à moda brasileira:
- Vida comum: As coisas podem ou não estarem bem, a vida está acontecendo;
- Decepção ou desilução: algo acontece que causa uma ruptura. A vida que estava normal não faz mais sentido. Algo se perde, se quebra ou incomoda. No clip parece ser uma decepção amorosa;
- Vai-se até o Oráculo: não importa se é tarot ou apenas ir atrás de conhecimento, a pessoa precisa se entender, e como não tem o que é necessário se apega a um oráculo que vai demandar os passos iniciais apontando uma possibilidade;
- A encruzilhada e a malandragem: aqui um elemento bem brasileiro tanto pode ser a busca das entidades como a entrega aos prazeres da vida, o caminho da Lira. Pombogira e Malandro que mesmo no aparente hedonismo do entorpecimento com sexo e bebida, vai te direcionar aos mais íntimos momentos de purificação e dar o que é necesário. Quem é das artes não fica sem a malandragem, quem é mulher precisa da sua pomboriga de frente como guia;
- A queda: Se o caminho não foi percorrido com moderação a saúde mental ou física pode ser comprometida se o hedonismo não é superado. É nesse momento que a personagem precisa decidir, ela ainda está no caminho que a fez cair ou retoma de forma radical ao que se apresentou antes, ou ainda tem a possibilidade final e radical: morrer;
- A camarinha: ou retirada para o isolamento espiritual, pode ser o tempo de preparação ou mesmo o tempo de conexão real com a divindade. É onde aparece seu pai espiritual que vai conduzir sua nova jornada, fortalecer seu Ori com o alimento espiritual, o Bori. Dali só se levanta restaurado e renascido;
- De frente com seus arquetipos mais profundos: você é de quem, quem te guia, quem é sua mãe seu pai, seu Deus (Orixá), quem são seus antepassados, quem é importante na vida e quem foi que te conduziu até ali, avós, sua ancestraliade, reconhecer que a vida é finita como carne, mas é imortal na continuação natural da família, o reconhecimento do valor do feminino ( lembrando que a jornada é de uma pessoa do sexo feminino);
- A calmaria: nesse momento devido a euforia do renasciento parece que realmente tudo é novo e visto com cores novas, o ritual faz efeito e a vida floresce e se percebe que o mundo é uma vereda verdejante e principalmente como mulher você resgata a divindade destronada que o cristianismo insistiu em impor a todos, a personagem não segue mais convenções cristãs institucionais, segue sua raíz que é reflexo da cultura popular do povo de seu país;
- A percepção da Natureza: Estamos no Brasil uma terra que já tinha várias nações quando os portugueses chegaram, povos originários e entender a importância deles vai ajudar a entender melhor o chão que pisamos. Reconhecer os povos que estiveram aqui antes é essencial e quando se dá a devida importância a isso percebemos que um de seus ensinamentos mais profundos é de unidade com a terra, perceber que somos uma única tribo onde um depende do outro e todos da Natureza. Caça e pesca é permitido, desde que sem ganância e destruição;
- A retomada da vida: aqui seus antigos costumes começam aparecer. Só que você não é a mesma pessoa, tem sangue renovado pela sua ancestralidade, é floresta, é sal grosso, é mandinga, é rever o que fazia com novas lentes, mexer a bunda? Que seja, mas não mais sem os conhecimentos místicos e revelações adquiridos.
- A criança interior ferida: algumas dúvidas aparecem e há a insegurança. A tentação é se tornar hipócrita escondendo o que acha que não deveria mostrar, sua sombra pode aparecer, acolha isso.
- O tropeço: A forte matriz cultural cristã te faz achar que você precisa ser beata aos moldes de algo que você não pertence mais. A religiosidade que pede para ser você transbordar, não existe moral existe sua nova versão que precisa ser explorada e tranbordada de si mesma. Não há repartição entre carne e espírito, entre sagrado e profano. O ser humano é uma unidade indivizível.
- O novo levantar: A vida é feita de alegrias e comemorações. E a volta aos caminhos da malandragem requer leveza sem se entregar dessa vez aos prazeres desenfreados, agora os prazeres bem vividos farão parte sem te destruir, pois no equilíbrio você já sabe os próprios limites e consciente de si pode continuar para uma nova etapa de uma outra jornada.
- O encontro com o Guarda das encruzilhadas: Se na jornada do herói finaliza com a volta vitoriosa para casa aqui não há vitória, há evolução. Lá o herói vai viver feliz para sempre, aqui a persongem é emaranhada de acontecimentos e esse encontro só vai dar um novo caminho. Representado por Exu no clip, não existe parar, mesmo a morte é um novo processo. Não há fim.
- Sentar no Trono: Sabendo que tudo correu bem essa personagem pode aproveitar o que conquistou contudo esse trono é da nova criatura que se tornou plena e merece todos os louros. Contudo, tudo é transformação, troca, movimento e agradecer também é aproveitar todas as consequências boas do processo. O fim nunca pode ser fechado. Mas sempre celebrado. E quem está chegando? Não é o “herói campbellano”. Sabemos pela batida do tambor que é uma entidade brasileira pronta para reinar. Encerra essa jornada.
Finalizando: esse caminho tem pontos convergentes com a jornada do herói do Campbell, mas está mais confeccionada com nossa cultura e seus elementos. Tudo bem que muita gente tem dificuldade por estar dentro de uma bolha muito específica. Tem gente que mal conhece a história da própria região ou cidade que mora. E essa jornada é uma proposta de valorizar a própria cultura e que pode ser adaptada. Lembrar que ela é baseada no que acontece no curta metragem Equilibrivm II e tem a base religiosa da artista.
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