Eu lembro que sentia tanto frio nos pés e mãos e não conseguia me aquecer, não conseguia pedir uma meia, ou ajuda. E todas as vezes que olhava para minhas pernas elas estavam debaixo de um cobertor suspeito. Eu acordava e dormia. Mal conseguia resmungar. Tinha dias que eu via em torno de mim várias pessoas, outros dias apenas uma. Alguém animado demais sempre tocava minhas mãos e eu sentia o gostosinho do calor dar um alento. Era fechar os olhos e sumia para voltar e ver que estava entrando alguém, ou saindo alguém, ou alguém falando comigo, ou falando com outra pessoa, ou preocupada ou aliviada, era um vai e volta constante que me deixava zonzo.
Uma dor aguda na cabeça, no estômago, na garganta. Voltava a dormir, voltava acordar e a dor mudava. Só o frio permanecia e logo sumia como tudo à volta de novo. Não havia sonhos só escuridão. Acordei com choro, riso, acordei com solavanco. Acordei com silêncio. E sempre havia luz quando abria os olhos. E o que eu escutava não fazia sentido. Parecia um monte de pessoas assistindo um jogo numa algazarra infernal. Tinha vez que todos comemoravam, outras, parecia que que havia discórdia. Se fosse uma novela que estava comovendo o público eu não saberia dizer.
Não vi túnel, não vi vulto, não vi nada além de formas de pessoas que chegavam até mim e saiam. Se era noite ou dia a luz não deixava saber. Era uma luz branca tão fria quanto o que eu sentia nas extremidades de meu corpo. E toda vez que sentia algo mais desagradável, de ânsia de vômito à qualquer dor, eu apagava. Era uma falta de certeza que tonteava minha cabeça. Eu imaginava que se levantasse eu cairia. Tentava me segurar no colchão e não tinha força para pegar sequer no lençol.
Havia momentos que alguém manipulava meu corpo, colocava de lado, e virava para outro lado, sentia mexer minha perna violentamente, sentia uma catilagem, uma vertebra ou a pele reclamar . Umas pontadas de dor aguda onde não conseguia localizar. Só sentia. O estômago sempre embrulhado, evacuar e mijar eu não saberia dizer se estava acontecendo ou não. Frio, barulho, só tínha calma na escuridão que sempre aparecia. Plácida e profunda.
Um dia estava de lado e olhava uma parede bege e sem nada na frente. Outro dia estava virado e via outras camas depois de uma cortina que me protegia. Vi gente de máscara. Vi gente vestido de algo que lembrava sacos azuis. Eu não entendi o que acontecia lá. Tudo parecia muito estranho era um olhar e não reconhecer, o tempo passava brecando o prórprio tempo. E de repente avançava para brecar de novo.
Algumas vezes eu acordava e permanecia de olhos fechados. Sentia a luz mesmo com a palpebra protegendo. Sabia que tinha uma luz lá. Contudo, em uns momentos era um breu só. Nenhuma luz eu conseguia localizar e nesses dias eu notava outra luz, difusa, que parecia um sobretom por cima do preto que eu achava enxergar, esse sobretom ia lentamente virando um marrom escuro, depois clareava e ia a um avermelhado bordô e não passava disso. Bem no centro da escuridão, como se eu olhasse para frente e tentasse enchergar eu via um ponto diminuto de um vermelho vivo esfumaçado. E, aí eu acho que alucianava demais, em outros momentos eu parecia ver as veias que existem na pele que me cerrava e protegia os olhos. Eram finas e delicadas, mais escuras que o resto, se destavavam pela textura. E voltava ao breu inconsciente. E depois de um tempo, isso tudo continuava, mas só quando eu estava consciente de olhos fechados, eu sentia uma luz forte, por trás da minha cabeça, como se estivesse de costas para uma lampada na altura do cocoruto. À esquerda ficava mais avermelhada e preta, como se luz pudesse ser preta, um contrasenso, mas era o que me parecia e quando à direita era sempre branca perolada e aconchegante.
Teve outra vez antes de acordar definitivamente, e não faço ideia de quanto tempo, eu estava numa posição na cama que deixava o tronco levemente levantado, como se fosse sentado. Abri os olhos e vaguei a visão por onde podia. Vi que estava num canto e havia camas do meu lado, mais do outro e mais duas em um recuo que seria na direção de minhas pernas continuando a parede que estava à minha esquerda. Todas as camas tinham sua proteção de cortina de plásico. Nunca tinha visto aquilo. Estranhamente eu escutava muito barulho de conversa e não via ninguém conversando, só os bururinhos. Três ou quatro enfermeiras, se houvesse médico não diferenciava, atarantadas entre um leito e outro. E aos pés do último leito, que ficava na direção esqueda, tinha uma mesa onde outro enfermeiro anotava com atenção plena algo importante. Ao seu lado, uma porta fechada que dava para um corredor que virava em L para à direita e perdia a vista. O chão azul, as paredes de um bege bem claro.
Pode parecer o óbvio, mas só conseguir chegar a seguinte conclusão na minha cabeça "Ah, estou no hospital, e meu rocambole?" Eu estava atordoado e foi a única coisa que consegui elaborar na minha cabeça sem gerar estranheza e desconexão. E vejo no fim do corredor um vulto, de um branco que não brilhava. Não roubava luz de nada, não dava para ver o que era. Era uma massa disforme que vinha em minha direção pulsando. Desabava a massa branca sobre si mesma e pulsava viva e disforme. Me fez lembrar um fígado sendo manipulado, um estranho fígado branco viscoso, pulsava e caía sobre si mesmo. Não firmava forma nenhuma. Vinha na minha direção, parecia tocar um chão que não era o azul ao mesmo tempo que não flutuava, estava bem apoiado nesse chão invisível. Foi chegando, chegando, passou pela porta, que era de vai e vem, se esgueirou pelas frestras de cerca de menos de um dedo. A porta chegou a mexer levemente. Por pouco não esbarra na mesa que o enfermeiro estava. Ele, bem na hora que aquilo pasava, pareceu perceber e deixou de olhar a planilha que preenchia no computador e encara bem o meio da massa branca disforme. Olha ao redor, olha para as outras enfermeiras e percebe o nada. Coloca as mão sobre a testa, até parece fazer uma oração ou só manifestava um cansaço justificado. A massa não se detém e continua no seu caminho invísível e para aos pés de minha cama. E fica ali caindo sobre si mesma e suponho que me encarasse. E ficou ali pelo tempo que meus olhos ficaram abertos.
E logo se fechou pela última vez para aquela escuridão inconsciente.
E quando abri novamente, após sei lá quanto dias, foi quando saí do coma definitivamente.
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