O Segredo de Widow's Bay: O Responsável foi o Rhys
Ano passado eu assisti Towards Zero uma minissérie da BBC One que é baseada no livro de mesmo nome da Agatha Christie, no Brasil A Hora Zero. E eu sou muito fã dessa autora contudo sempre achei ela bem rasa nos dramas humanos que colocava em seus livros. Até um dia ler algo que me fez mudar de perspectiva. Ela acaba sim suavizando alguns problemas sociais de sua época, mas várias críticas estão lá. Eu que não percebia tanto. Foi somente em uma matéria sobre uma adaptação de a Mansão Hollow que notei que nem tudo nos livros dessa autora era tão leve. Tudo que estava na sociedade de sua época ela tentou abordar, mulhers submissas, traições, ganâncias, paixões e ambições avassaladoras. Restrita por seu gênero literário ela só não pesou nos contornos desses assuntos. E, mesmo havendo uma mudança bem significativa na adaptação em Hora Zero para a série, o que mais me chamou a atenção, para além da história, foi a interpretação do Matthew Rhys fazendo o Inspetor Leach que, já no começo, tenta suicídio se jogando ao mar de um penhasco e graças a isso acaba por resolver o assassinato da história. O peso dramático nos ombros do personagem me deixou muito admirado. E Rhys foi o reponsável.
Eu particularmente não gosto muito de terror por vários motivos. Um deles, é que não gosto de ver corpos sendo picados, amassados, moídos, triturados... Se me causa aflição e cai no gore eu não gosto. Todo choque visual que mostra a destruição de um ser vivo me incomoda muito. Quando o terror é psicológico, insinua e não mostra, isso me deixa mais confortável, por pior, no bom sentido, que seja o desenrolar da história. E fui atrás de O Segredo de Widow's Bay e gostei da temática, mas como sou escaldado com os terrores estadunidenses notei qeu havia no elenco o Rhys que me fez dar uma chance a essa série.
E estava certo, uma vila isolada, no caso numa ilha que possui um mistério ligado a um antepassado local. São as típicas representações de pessoas alienadas e odiosas de uma comunidade pequena. Não tem um personagem que eu simpatize. E para mim parecia tudo muito atípico. Até lembrar que eu cresci em uma cidade pequena onde todo mundo se conhecia, em sua maioria, e fingem que não e muitos acabam prejudicando os outros só por achar alguma coisa que nem sempre condiz com a verdade, mas na cabeça dela foi estabelecido que sim. Então meu ódio era ver algo que eu vivi, e pior, estou de novo sendo obrigado a vivenciar por ter voltado a morar no interior. Há pessoas fantáticas, como em todo lugar, mas aqui as pessoas odiosas estão muito próximas de você. É o vizinho que do nada joga na sua cara uma opinião hedionda ou na padaria uma vózinha fofa sendo intolerante e racista. Em cidade maior isso também acontece, contudo aqui, às vezes, essa vozinha foi sua professora no Ensino Médio.
Tirando esse espelhamento e voltando para a série ela tem uma história um pouco arrastada no começo, o que nos faz conhecer melhor os personagens. Tanto que algo interessante mesmo só acontece no episódio quatro e a temporada toda tem nove ao todo. Contudo, há uma coisinha que me incomodou, não tenho muito como falar sem entregar spoiler, mas se puder dizer de forma geral, para o ato mágico acontecer há necessidade de total intenção e clareza de quem está executando algo. Não tem como invocar um demônio sem querer, nos filmes é possível por conveniência dos redatores. E aí as coisas vão virar um turbilhão de situações realmente mistériosas e interessantes.
Rhys está fantástico como o covarde prefeito Tom que entende que só não vai embora dali por causa do medo de seu filho não sobreviver fora da ilha, existe uma lenda em torno disso. E com ele tem uma equipe de outros personagens, através da boa interpretação dos atores, totalmente desfuncionais que acabam encorpando o drama e horror dos mistérios que foram esquecidos pela população local. E talvez isso explique o fato de que quando me mudo para uma cidade diferente eu tento saber toda a história local para não ser pego de surpresa. Afinal, não tem nada mais assustador que a falta de conhecimento para lidar com o sobrenatural loca. Aprendi com a Samara Morgan que às vezes a entidade só quer ser ouvida.
Um PS: Escrevi esse texto todo durante o período da tarde do dia 16 de junho de 2026. À noite na revisão decidi por a última frase. Continuei fazendo outras coisas quando vejo uma postagem no Instagram sobre a atriz Daveigh Chase ter falecido aos 35 anos. Ela interpretou Samara Morgan na versão estadunidense do filme O Chamado. Acho que a melhor vilã de filmes de terror dos últimos tempo.
R.I.P. Daveigh/Samara... Nunca mais olhei para um poço e para uma televisão de tubo com os mesmos olhos... E sempre atendo uma ligação de telefone apreensivo esperando não escutar "Seven days..."
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