O que seria o mal? Não seria apenas um ponto de vista? O ser humano acha mal tudo que lhe aflige negativamente. Então uma doença é má. Um animal que o ataque é mau. O vizinho que o incomoda com qualquer coisa é mal? Qualquer coisa que afete o indivíduo. E como faz no meio de tantos indivíduos? Quem está do lado do mal? Escolhas. Tem religião que joga tudo que é bom nas costas de uma divindade absoluta. Tem outras que tudo é mutável. De um mal vem um bem, de um bem vem um mal sucessivamente. Então o mal é plástico, se molda de acordo com grupos, com o humano. E se o mal é isso o bem vai para o mesmo lado. Moral, ética e até filosofia foram elaborados na tentativa de, sacralizando ou não, responder sobre a natureza do que é mal. No campo amplo o mal é visível? Fácil de definir? Algumas guerras entre grupos humanos que ocorrem podem contestar essa ideia. O mal é uma entidade ou um modo de agir dentro de um coletivo? Perguntas não faltam a respeito.
Alguns lugares são tão antigos quanto a própria existencia das placas tectônicas que o planeta formou. Alguns foram dominados pelos seres humanos, outros lhe são estranhos. E houve ou não alguma energia que esteve naquele lugar antes dos homens? Se levarmos em conta a materialidade das coisas, só outros seres vivos estiveram por ali. E na sobrenaturalidade? Aquilo que o ser humano ainda não conseguiu elaborar nenhuma tecnologia para observar? Aquela fagulha que os primeiros hominídeos entendiam como algo aterrador. Havia um equilibrio entre os seres de carne e o mundo sem carne. Não se atingia ele por ele estar em unidade com a Natureza. A própria Natureza era parte, e ainda o é, de alguma forma. Podemos chamar de um grande espírito que assim como o ar permeava tudo. E, na eterna evolução, algo aconteceu e os hominídeos ficaram um pouco mais evoluído, e um pouco mais desconectados desse grande espírito primordial. E nesse desespero, de não ter acesso mais a voz espiritual, iniciou o processo de escuta, tentando religar o homem, que se entendia cada dia mais racional, com o invisível, que não se explica por essa racionalidade.
E como há pessoas mais propensas a desenvolver mais uma ou outra habilidade, com suas capacidades exercitadas na prática, há pessoas que tentam e não conseguem. Umas, desde muito novas, mostram que são boas em música. Tem quem estude a vida e tente melhorar e chega só a um certo patamar, além daquilo os genes não permitiram o aprimoramento do corpo em sua intergralidade para o executar. Tem quem consiga. Por mais que todos nós melhoremos em um exercício, tem quem parece ter um dom de nascença. Alguns odeiam essa ideia. Preferem achar que é esforço duro que determina uma técnica. Contudo tem gente que se esforça muito, e tem gente que não precisa se esforçar tanto e consegue resultados tão bons ou melhores. Um nadador com o corpo mais próximo de uma determinada forma e tamanho, com os músculos mais desenvolvidos que se combina perfeitametneo com aquele tipo de esforço vai ser mais eficiente que uma pessoa que não tem coordenação com os braços. Em grandes épocas de fome, ter um tecido adiposo eficiente em guardar reserva é melhor que o que não tem. O mesmo corpo com genes bons para reserva de gordura pode não ser esteticamente aceitável e desejado nos dias de hoje.
O mundo é muito mais antigo que uma pessoa possa imaginar. E tantos outros seres andaram por aqui antes. Seres sencientes que se emaranhavam pela matéria e pelo sobrenatural e ao terminarem seu ciclo natural de vida podem ter ficado por aqui se aglomerando. A religião que deu vasão a um lugar pós-morte que acolhe todos os seres humanos.
E o não humano? Sem Paraíso para se apegar pode estar aqui até hoje, setorizando seus domínios, se juntando com outros como um grande organismo simbiótico como um líquen. Esse ser pode estar em briga com alguns discidentes de si mesmo, tomar seu posto e guardar com sua energia condensada por milhares de anos e sucessivas outras criaturas que também findaram. Alma, espírito ernergia.
Bondade ou maldade é algo que o humano classifica. E se essas energias, se manifestasse de alguma forma com alguma capacidade dos humanos em percebê-las? E, sendo elas plásticas, elas tomassem formas convenientes. Cada grupo que adentrasse seus território, sendo esses conjuntos diversificados e fragmentados como talvez sejam, acaba assumindo um esteriótipo de ser ou não mal ou bom. E quem sabe haja só uma animosidade entre o que é material e o imaterial, ou um convívio mútuo sobreposto sem interação, e se houver interação? Tudo é possível concomitantemente. Se houvesse um ser colossal ou não, vários fragmentos em lugares proprícios como um Pando, só que, ao invés de uma estrurura arbórea que replica seu próprio clone, uma entidade que agrega em si as centelhas infinitas de criaturas finitas. E temos sobreposto a nossa realidade material humana camadas de outras realidades não material e não humana. E se elas se adaptassem aos seus interesses se acoplando de alguma forma a quem estiver vivo?
E como um corpo que se encaixa em uma utilidade criada pela existência humana pudesse estar mais sensível a essa presença, com um ouvido absoluto para a música. Nascer já propenso, mesmo que não exercitasse esse dom ele estaria lá. Uns mais sensíveis, outros menos. Uns jogariem isso para uma experiência mística religiosa.
Esse "grande espírito" "entidade", por falta de outra forma de nomear, se estabelece em lugares que de início havia formas de vidas que ao longo das gerações sucumbiram. E continuaram ali conforme a evolução acontecia. Quando o homem surge, surge a percepção de captar algo dessa entidade. Desse ser que não está na materia mas vive no planeta. É como se fosse uma bolha energética que está em algum lugar, alimentada, protegida, sugada, absorvida por sua natureza própria de acordo com a forma que se adequou.
E em São Lourenço do Rio das Pedras estava em uma espécie de planalto que se mantinha relativamente com poucas mudanças comparadas outras partes com canions ou mesmo regiões desérticas. E como qualquer lugar pelo planeta a vida começou. A constância e a evolução foi fincando ali inúmeras centelhas que não tinham seu paraíso para ir. Sequer uma religião para pedagogicamente a ela se apegar e se entender nesse mundo como algo não físico. E somente foi existindo. Evoluía um ser vivo , se extinguia, um evento climático mais drástico, outro mais ameno, mudava um relevo pelo surgimento de um veio d'água. E lá ela se fortalecia e crescia. É difícil precisar como algo sem forma é. Contudo está lá e demorou vários braços evolutivos para os primeiros seres humanos modernos chegarem pela região. De início tímidos e assustadiços, criaram sua segurança conforme entendiam o lugar que estavam, se protegiam. Especificamente a região da futura cidade era só passagem. Dificilmente ficavam acampados ali por muito tempo. Só um grupo bem peçonhento de brancos, dissidentes de uma bandeira, parou ali em um pequeno acampamento. Não acharam ouro, nem outras pedras preciosas e foram embora. Deixaram para trás uma mulher. Estava doente demais para continuar. Não se vai achar nenhum registro disso. Como tantos outros agrupamentos de tropeiros discordantes dos líderes do grupo principal muitos se perderam pelos campos ainda não desbravados dos interiores do país. Alguns se encontraram com nativos e foram acolhidos ou eliminados. O que era o mais prudente. Assim como aquela mulher, muitos estavam contaminados com doenças europeias que os nativos não tinham anticorpos.
Aquela mulher era chamada de Maria das Mercês. Tinha se amigado com um tropeiro que tinha conhecido em São Vicente. Seu pai, pobre de não poder ter uma bota de couro, só a vendeu em troca da promessa do desposo e um punhado de toucinho salgado, carne seca e umas poucas moedas de prata. Não era um homem ruim aquele que virou seu companhiero, viveu dos seus onze anos até completar vinte com ele. Ele morreu de malária. Já era tropeiro e carregava a garota com ele para todo lado. Não teve filhos. Provavelmente o homem tivesse lhe passado sífilis e isso a impediu de engravidar. Passou, enquanto mostrava alguma formosura ainda, nas mãos de outros homens que a usavam sem assumir definitivamente. Não reclamava. Apesar das dificuldades das viagens era livre. O mais livre que uma mulher poderia aquela época.
E ela não foi deixada para trás. Ela pediu para ficar, já estava com quase trinta anos e não aguentaria a viagem. Estava com feridas pelas pernas e costas. Escondia de todos, mas estava começando a ficar evidente. Conversou e convenceu seu parceiro que não tinha percebido sua doença. Ela disfarçou o que pode e ele era obtuso o suficiente para não perceber. Anos depois ele quem convalesceu numa cama em meio aos seus cinco filhos que teve com outra mulher da mesma ferideira pelo corpo.
Maria estava lá, escutava o som da mata que era um pouco abafada pelo rio que tinha escolhido ficar perto. Ela tinha aquela predisposição de sentir o peso da misericórida de Deus e da pata do Diabo. Sua mente estava doutrinada na fé popularesca católica e só conseguia essa leitura do que sentia. Passou dias arrumando seu lugar de ficar, uma cabana feita de cipó, forquilhas e folhas. Não conseguiria construir uma casa de sapé. A doença era implacável e estava avançando. E um dia estava lá sozinha deitada numa pedra da beira do rio e olhou para o céu e enxergou uma cortina quase invisível como uma proteção que vinha lhe abraçar. Achou que fosse suas vistas doentes. Pensou na beleza do que julgava ser criação de Deus. Não, era aquela entidade que estava ali. E a envolveu. Já tivera outros contatos com os indígenas que ali passavam, mas eles não eram muito receptivos. O viam como um espírito negativo, do mal. Não era do mal. Para sua existência era irrelevante o mal, como o bem. E duvidava ser espírito, mas era só a classificação humana. Estava além disso. Só estava ali tentando entender seu significado no mundo. Sua razão de existir. E aquela mulher cansada o acolheu e a primeira coisa que percebeu naquele coração foi medo e decepção. Os dois sentimentos lhe causou agrado. Havia outros tão intrigantes quanto esses. Ela morreria em alguns dias um pouco para o sul de onde estava e logo animais lhe comeriam a carne e seus ossos se perderiam, um irriquieto, curioso e guloso quati carregaria seu crânio para mais além do restante do que sobrara do corpo. E por fim, o que sobrou de Maria das Mercês afundaria na terra. E aquele seria um marco para aquela entidade. Sua primeira humana.
Buscou sentir o efeito daquelas emoções de novo. Decepção era fugaz entre os animais. Medo? Medo era constante. Aquilo inebriava e dava um sentido de vida. Nunca tinha se aprofundado antes. Precisou daquela mulher moribunda para sentir melhor. Pelos contatos que tivera com pessoas, antes e depois da Maria, percebeu que o medo era presente nos humanos, mas o medo era algo que acontecia e ia sumindo de uma geração para outra, de um grupo para outro. E ao mesmo tempo se transformava e criava outras disposições por efeitos reais ou imaginários. Tentou com seus meios entender aquilo tudo. Não tinha uma mente racional, tinha uma articulação de busca e pulsão de apenas existir. Quando entrava em contato com certas energias só sentia uma fagulha de vivência. Com aquela mulher o sentido ficou muito mais claro. Não tinha como sair dali. Havia outras estruturas não materiais totalmente diferente de si que poderiam lhe absorver ou mesmo só repelir. E aquele solo era seu, lhe agradava. Surgira ali. E como em milhares de anos esperou. Em pouco tempo, perto do que era sua existência, apareceu outro grupo de pessoas que fincariam residência naquele lugar. Era necessário também ser acolhido, em harmonia, um assentimento para ajustar uma ideia que se formava. Não existiam essas palavras como um vocábulario, tudo era entendimentos de acordo com suas estruturas do que se podia chamar de consciência. Por fim, o entendimento aconteceu, precisava de um pacto.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário