Escrevi um conto para um concurso e não fui classicado nem entre os dez primeiros. Então, como havia a necessidade de ser algo inédito e não podia postar em lugar nenhum, agora que não fui selecionado eu posto aqui. Segue abaixo o texto.
"Uma vez eu fui pescar..."
Meu avô materno era um grande contador de causos. Nem sempre eram bem recebidos, ficava atento e quieto na sala após o jantar assistindo jornal até finalizar seu silêncio com o "Boa noite!" em resposta ao âncora do programa. E nós o acompanhavámos no mesmo silêncio. Se começava uma conversa enquanto as notícias eram transmitidas logo vinha um estalo da língua entre os dentes e o céu da boca em reprovação. Algumas vezes, esse estalo era seguido instantanemente de um "Eh!" seco. Bastava. Contudo, durante a novela que começava logo em seguida, as lembranças e reminiscências vinham e seu monólogo começava. Era um monólogo, ninguém queria ficar interrompendo para não estender a conversa e nem ele queria isso. Tinha causo que se emendava em outro, em outro e mais outro. Coincidentemente quando terminava a novela ele terminava o causo. Não era uma disputa, ele sempre vencia.
Ele tinha todos os requisitos para um bom contador de causos, era um senhor vivido, caipira, tinha nascido e crescido à revelia de um monte de tecnologias, seu mundo era mágico, místico e ligado à natureza, e sabia sustentar o enredo. E não menos relevante, ele tinha uma plateia e também tinha um neto com imaginação fértil e curioso para reelaborar tudo que ouvia na sua cabecinha infantil. No caso eu.
As histórias eram diversas e sempre de um fato ocorrido num passado que me parecia tão longínquo que eu mesmo não alcaçava. Alguns personagens eram frequentes, tinha um tal de Mirno que era preguiçoso, guloso, e fazia só coisas do jeito errado, em seu rígido julgamento. Eu lembro de uma frase que era frequente nas falas de meu avô "É que eu tô com fome..." que era atribuida a ele. Até hoje não sei o que aconteceu com esse homem, pela insistência do meu avô com as recordações ele de certa forma o marcou, mesmo que se manifestasse isso através de críticas e implicâncias. Como meu vô era um homem sério alguns comportamentos o desagradavam muito. E me parece que esse Mirno tinha todos.
Por mais que fossem relatos de coisas acontecidas, tudo passava pelo filtro de sua mente e repertório linguístico e depois era plantado na minha imaginação e florescia. Eu sendo uma criança que morava numa cidade pequena, e saía para aventuras com meu avô, conhecia alguns cenários, então tudo fica muito realista. E nesses cenários, as histórias de assombração eram as que mais me impressionavam. Não havia reviravoltas mirabolantes nem um fio condutor complexo. Era um relato simples, por vezes sem fim, por vezes sem explicações e em todas eu ficava impressionado.
Vários causos começavam "Uma vez eu fui pescar..." e desenrolava um relato qualquer sobre estar indo de bicicleta para algum lugar com a lanterna ascesa, mas a noite estava clara por causa da lua. E estava lá caminhando pelas matas que eram encorpadas, mata antiga de beira de rio, típica desse centro-oeste paulistano. Se chegava ali por estradas de terra que separavam propriedades, eram lambidas de lado a lado por alguma plantação, laranjeiras, goiabeiras, limoeiros, cafezais, canaviais, tudo dependendo do que estivesse dando mais lucro naquele momento. Pastos infindáveis eram frequentes com suas vacas marrons, pretas, mochas, um boi capão tristonho. E no fim de alguma estrada um mata-burros que impedia os bichos invadirem as terras dos vizinhos. A cerca de arame farpado dava o limite intransponível a ser obedecido. E um pescador nunca se detinha diante de qualquer obstáculo. O rio era público e nenhuma propriedade privada poderia impedir de um pescador ir até seu rio favorito. Era a epopeia do homem comum da roça. Sem limites para uma alma livre que carregava um feixe de umas cinco ou mais varas de pescar de bambu. Colhidas e preparadas por suas próprias mãos. Quantas vezes assisti aquele homem trazendo uma porção de varas de bambu finos, que serviam para pesca, verdes e ainda com as folhas. Preparava um fogo no fundo de casa, sapecava o caniço após tirar os "nós" e remanescentes de pequenos galhos e folhas de fora afora. O batismo no fogo era para deixar a vara mais maleável, resistente e dar início ao processo de secagem. Após esse processo, eram colocadas num lugar seguro numa área que tinha em casa, uma espérice de suporte feito só de arcos de arames suspensos no teto em três pontos que davam sustentação ao mesmo tempo que deixava fora de alcance para não atrapalhar. Em outro dia, com o sol bem forte começava o processo de por a linha rodeando a ponteira. Em seguida, uma sobra de linha era deixada, um pouco maior que a própria vara e em alguns pontos eram colocados chumbadas ovais, quando redondas e sem o furo característico, eram abertos no meio com um corte de canivete na lateral e reamassados para as partes se fecharem em pressão com a linha no meio. Por fim o anzol era colocado com nós reforçados e a linha enrolada na extenção da própria vara para não ficar solta, presa com quaquer coisa que service para amarar, de uma tira de pano velho a um pedaço de plástico, tudo servia se fosse contribuir para o capricho final.
Após passar por vários metros de alguma propriedade privada do lado oposto da cerca aparecia umas trilhas entre a grama. Em pomares não existia essas trilhas pois ninguém dixava animais zanzando entre as plantações. Era uma trilha sinuosa que parecia elaborada por uma cobra larga e rebolante. Eram só as passadas erráticas e incessantes do gado que imprimiam em poucos dias grandes veias de terra vermelha no pasto verde. No meio do daquela vegetação rasteira, uns cumieiros de cupinziros que de vez em quando meu avô levava para casa para dar para as galinhas. Eu adorava quebrar aqueles torrões duros de terra e ver os bichos se desesperando tentando se esconder das galinhas mais desesperadas ainda catatano um a um pelo bico enchendo o papo.
Em sua grande maioria os rios estavam protegidos, não só pelas matas ciliares, como também pelos próprios donos da terra, que as mantinham para proteger da erosão. Em vários lugares havia ainda a mata original formando uma reserva particular sem proteção além da falta de vontade daquele proprietário desmatar. Contudo não eram florestas virgens, eram muito devassadas por qualquer um que quisesse se abastecer de peixes, plantas medicinais, colher maderia para fazer cabos de enxadas, enxadões e outras ferramentas. Alguns ainda tentavam caçar algum bicho que desaparecia ostensivamente da região naquela época.
Além da bicicleta, meu avó ia munido de um borná de lona com alguns suprimentos, pão com mortadela era o mais comum, tralhas de pescas para um eventual rompinento de linha ou perda de anzol devido algum enrosco , uma sacola de fio de nailon para por os peixes que pegasse, além das varas. Vestia um chapeu de palha surrado que mostrava as marcas nas suas abas curvas de tanto segurar na mão por qualquer motivo. Sempre de calça comprida, camisa de manga longas e, depois de quase ser picado por cobras em suas andanças, umas perneiras de couro que colocava na hora que chegava onde deixaria a bicicleta e iniciaria o caminho a pé. A luz do sol já estava se despedindo para iniciar a noite. E quando terminou de se preparar o breu caiu.
Naquela noite a lua chegou intensa parecendo um um botão único e branco numa camisa escura. Estava determinada a rasgar o céu em seu caminho cotidiano. Quando passou por uma ponte que dava acesso à estrada que ele pegou para chegar até ali havia um carro parado. Não era tão incomum, pois alguns vinham pescar de carro, preferindo ficar justamente próximo a alguma ponte para não ficar longe de onde o estacionaram. O rio estava com as águas claras, mesmo assim eram traiçoerias. A última chuva tinha acontecido há um tempo e não havia previsão de cair água nos próximos dias. Estava perfeito para uma boa empreitada de pesca.
Foi andando pela mata, havia uma picada, entre muitas, que foi seguindo. Os pernilongos percebendo a oportunidade se precipitaram para todas as partes que estivessem fora das roupas. Devem ter se decepcionado muito, pouco antes meu avô, como sempre fazia, tinha se bezuntado de Repelex de um recipiente amarelo encardido com seu cheiro característico. Era algo que ele sempre contava e muitas vezes eu mesmo vi acontecer. Achou uma clareira no barranco do rio, pelo visto já muito usada antes, e se ajeitou para se instalar e iniciar o preparo da pesca. Uma coisa que meu avô sempre carregava consigo era uma garrucha antiga de cabo curvo, era carregada manualmente com bucha, pólvora e bolas de chumbo pequenas que fazia o tiro sair espalhado, se não fosse bem socado. Quantas vezes não tinha visto aquela arma, e até pegado na mão, sempre com sua supervisão e orientação, pois, ele dizia que era perigoso. Nunca atirei com ela, ele não deixava por causa do coice. Quando adquiriu uma espingarda cartucheira me ensinou como atirar, anos depois, eu prestei o serviço militar obrigatório e não passei vergonha nem me machuquei como aconteceu com vários colegas no dia de atirar com um fuzil escangalhado disponível.
Ele prosseguiu contando que ficou ali por meia hora e não houve nenhuma fisgada só ouviu umas cobras "assobiando". Resolveu juntar suas coisas e foi para mais longe num sentido oposto ao que tinha entrado na mata e se achegando um pouco mais perto da ponte que estava uns poucos quilometros adiante. Achou outro barranco bom para se ajeitar e começou a por uma minhoca no anzol que havia pego pouco antes de começar pescar. Era grossa, robusta, cinza avermelhada com um anel no que parecia ser seu pescoço. Lembro de achar, quando vi pela primeira vez, que eram parecidas com golas altas de blusas, gelatinosa e repugnantes. Algumas fisgadas de um ou outro lambari que, por ser pequeno demais, voltava rapidamente para o rio logo que percebido seu tamanho.
Logo meu avô disse que escutou longe um som alto e estridente parecendo um aptito. Resolveu averiguar. Novamente jutou as coisas e foi andando pela picada em direção da ponte de onde vinha o som que ouvira antes.
Minutos depois, vendo luzes de lanternas fortes se movendo no mato escutou:
- Quem está aí? - ouviu uma voz alguns metros de estava.
Eu arregalei os olhos e parei de olhar a velha televisão de tubo, naquele momento a história dele estava mais interessante que a novela que passava.
- Quem está aí? - ele continou contanto.
Segundo ele era um policial com seu parceiro que estava fazendo uma busca, questiounou sobre ele e o que estava fazendo ali:
- Meu nome é Gabriel, estava aqui pescando. - Lembro que não explicou muito, mas naquela época era comum andar armado, acho que o policial não se atentou a isso e como a cidade era pequena não tinha como não se conhecerem, pelo menos de vista. Digo isso pois meu avô disse que não insistiram muito em nada, mas contaram o que estava acontecendo.
E pense em todas essas falas com um sotaque caipira bem carregado, não aquele falso de novelas, um que tem uma cantinela gostosa com um erre retroflexo que beira o caricato aos ouvidos desavisados, porém, remonta ao poder ancestral dos povos originários que se tornam, ainda hoje, presetnes no jeito de falar pelos interiores do país.
- Você trabalha lá com o "Nirton" do "Varte"? É né... Então, você não viu um homem claro meio baixo pelos caminhos que fez? Não? - fez uma pausar espereando as negativas de meu avô - Quando você passou pela ponte havia já um carro estacionado no acostamento?
- Sim, estava vazio e não vi ninguém por ali, era tardinha e tinha como ver alguma coisa ainda.
Continuaram conversando sobre o horário e logo chegou mais dois guardas e continou sem dar muito atenção a eles:
- O dono do carro está sumido desde ontem, e sua mulher falou que ele não disse para onde ia. Ele não era de beber, era trabalhador e nunca tinha sumido de casa antes.
Havia uma foto pequana nas mãos da autoriade. Não era um homem que meu avô conhecia ou já tinha visto, nem sabia de que família, então foi liberado e voltou pelo caminho que tinha chegado.
Achou um lugar novo para pescar um pouco além de do ponto que tinha entrado na mata. Novamente se esparramou pelo barranco com suas tralhas de pesca e ficou esperando o peixe fisgar. A minhoca que tinha colocado era gorda e vistosa. Enquanto esperava a vontade do bicho em mordiscar a isca sua mente se aquietava. Era uma meditação, percebia e sentia o ar, a luz do luar, um barulho de algo caindo na água, algum fruto talvez, mantendo ao mesmo tempo o foco na espera. Os apitos dos guardas continuavam lá do outro lado.
O rio fazia uma curva logo adiante de onde estava. Curujas também se manifestavam por ali e todas as espécies de insetos que decidiam cantar ao mesmo tempo. Sua mente calma centrou o olhar na ponta da vara. Era muito visível com seus olhos já acostumados à aquela noite e novamente olhou para a lua que estava muito clara já alto no céu. E a vara deu uma leve envergada, nisso deu um puxão forte, seco e curto. Todos os sons dos bichos pareceram parar no silêncio seguinte. Levantou a vara e o anzol estava sem metade da minhoca. Não foi dessa vez. O que o incomodou foi que o barulho realmente tinha sumido. E olhou para a água escura e limpa do rio.
A água corria para o lado oposto ao da ponte, então era estranho o que estava vendo. Percebeu sem querer que na curva que o rio deslizava sem aparente corrente, formando um espelho calmo, um vulto se mostrava. Era grande e não saia para cima da linha d'água. Enquanto segurava uma minhoca na mão que estava para por no anzol espremeu os olhos para ver melhor. Não tinha conhecimento de jacaré naquela região há um bom tempo. Uma capivara talvez. Sem barulho, sem fazer força contra a corrente que estava lá mesmo parecendo que não. A sombra veio para seu lado num movimento incomum para um animal. Se levantou para caso precisasse se defender ou correr, sem medo nenhum, e também para ver melhor o que era.
Ia se achegando mais perto, era um homem. E não era um corpo boiando, era só um reflexo pálido desse homem que brilhava abaixo da superfície da água. Veio calmamente. Não dava para ver muito bem o rosto, a água deixava embaçada. Assim que chegou bem perto do barranco aquele espectro ficou uns segundos que pareceram eternidade e continou o trajeto rio acima para o lado que os policiais estavam, cortou o rio na transversal e foi se enroscar em um arranha-gato logo ali na frente e não saindo mais para lugar nenhum.
Meu avô não fazia pausas nem drama, e sua linguagem era limpa e simples e parecia não prestar atenção à sua volta. Só contava o que vinha na sua cabeça. Se tivesse olhado para mim ia ver dois olhos arregalados entendendo que estava sendo dito, mas com medo de perguntar qualquer coisa e a palavra estampada com o peso do meu espanto: assombração!
Ele disse que de novo arrumou as coisas e foi para o lado dos policiais. E quando os achou falou para eles darem uma olhada no arbústo que ele tinha visto a alma desafortunada se enfiando. Como havia uns colegas deles do outro lado do rio, gritaram para os outros e os de lá, com ajuda de faroletes, tentaram ver o lugar da indicação de meu avô. Acharam o corpo e preso no arranha-gato assim que apontaram o foco da luz para aquele ponto.
Após isso, como sempre acontecia, não houve grandes explicações por parte de meu avô. Ele disse que voltou mais uma vez e tentou pescar. Não deu certo, pois, os policiais apareceram de novo para perguntar como ele sabia que o corpo estava onde indicara. Eles tinham chamado os bombeiro e agora esperavam chegar para fazer o resgate do corpo, pois não esperavam encontrar a pessoa assim. Meu avó só desconversou, disse que viu um volume estranho no galho de onde estava e como eles tinham dito do desaparecimento do homem ele achou que era bom averiguar. Mesmo que a distância e a visibilidade comprometida tornasse essa possibilidade questionável. Se colocou à disposição para qualquer coisa e novamente foi dispensado.
No dia seguinte soube que o cara era realmente um pai de família trabalhador que tinha se jogado da ponte em desespero por algum motivo que meu avô não quis contar o naquele instante. Contudo escutei ele relatando o real motivo para meu tio depois, eles não falavam certas coisas na minha frente. Como a casa era pequena não era difícil eu ouvir conversas que não faziam na minha frente. E mesmo assim eu não entendi direito o motivo na época. Depois de adulto fui entender. Naquele momento eu estava com outros questionamentos mais relevantes a um impressionado menino com seus dez anos incompletos. Era uma assombração real? Como pode isso? Por que ele foi até o Senhor e ficou parado? Foi verdade? Ele se afogou mesmo? Era muito feio? Ele foi nadando batendo os braços? Boiou como? Estava de roupa? O Senhor não sentiu medo? Era branco igual nos filmes? E saibam, nenhuma das perguntas teve resposta.
O homem tinha passado a tarde jogando cartas e apostando. Em certo momento ele deve ter ficado confiante demais, incentivado pela bebida, que a esposa achava que ele não consumia, apostou a própria casa e perdeu. E antes de tentar negociar uma alternativa brigou com os seus rivais e saiu nervoso do buteco. Desesperado com a imprudência e má sorte não foi para casa tentar ouvir a voz da razão, foi de carro até a ponte, desceu por algum canto da mata, se desequilibrou ou pulou na água. O rio não tinha uma correnteza muito forte e nem era tão fundo, bêbado, deve ter se embolado nas plantas e cipós da beira do barranco, até pode ter tentado se salvar, pois estava cheio de arranhões pelos braços e rosto.
- Bão... vou dormir!
Era a deixa de meu avô para dizer que não contaria mais causos naquela noite. A nolvela na televisão já mostrava os créditos finais terminando também seu enredo em aberto. Igual muitas histórias dele.

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