quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O filho de mil homens: Desligue-se totalmente antes

 



O flho de mil homens: Desligue-se totalmente antes

            Eu não assisti O filho de mil homens do jeito certo. E não me orgulho disso. É, o celular — a culpa é do celular. Baseado na obra homônima de Valter Hugo Mãe, o que se vê em tela é um deslumbre metafórico e poético em imagens críveis. E eu não estava preparado para um filme desses neste momento. É lento, sutil, belo — pura arte. Como eu não conhecia o livro que foi adaptado, achei que seria um filme fácil de assistir. Não é: O filho de mil homens é um filme contemplativo. Cada enquadramento conta sua história em conjunto com cada atuação. E, como não consigo me desligar do celular — por mais que não o acesse — aquela ansiedade que só uma tela acesa tende a nos causar fica me incomodando. Este filme pede respiro, exercício de silenciamento.

            A história em si é um emaranhado de outras histórias que se permeiam, e todas desenrolam para o pescador Crisóstomo (Rodrigo Santoro), que tem uma ingenuidade do tamanho da ânsia de ter um filho. A vontade é tamanha que ele tem um boneco de pano que várias vezes trata como pessoa viva e joga um bilhete no meio da feira com os dizeres "Pai sem filho procura filho sem pai". Um dia a vida lhe dá a oportunidade de ter o filho que tanto quer: uma adoção — surge Camilo (Miguel Martinez), que ficou sozinho após o avô morrer. Pulando de um personagem para outro, vemos como a história desemboca no final nas conexões entre eles e, que revela um pouco do motivo do título.

            Antes de falar das atuações, tenho que chamar atenção para o cenário: as gravações foram realizadas em Búzios (RJ), especificamente nas praias de José Gonçalves e Azeda, e na vila de Igatu, na Chapada Diamantina (BA). Entre uma praia com rochas e uma vila colonial preservada, não sei dizer qual locação é mais linda. A magia do cinema une as duas como uma vila fictícia indeterminada que pode estar em qualquer lugar — inclusive na alma humana. Para nossa sorte, são patrimônios nossos e podem ser visitados; quando tiver condições pretendo ir, pelo menos, à Chapada Diamantina. Por mais que ache lindas as praias, sempre prefiro o interior, a mata e — principalmente — a cidade; por quem meu coração bate mais forte ainda, mas refiro-me a cidade grande, com mais de um milhão de habitantes.

            A vila do filme é simples, de pescadores e de gente que poderia ser comum, não fosse a complexidade das motivações humanas. Se Crisóstomo é um homem que tem dentro do peito tanto amor que se derrama na vontade de ter um filho, Camilo é um órfão que parece perdido e, contudo, como criança é ávido de afeto e consegue — mesmo que às vezes apresente comportamentos aprendidos não tão adequados — ligar-se não só ao seu novo pai, mas aos demais personagens que entram na vida dos dois. Isaura (Rebeca Jamyr) é fria, distante e desiludida com os homens; convive com a doença mental da mãe, Marta (Grace Passô), e sua vida se cruza por conveniência num casamento arranjado com Antonino (Johnny Massaro), um rapaz judiado pela vida desde cedo por várias situações — e por ser gay. O improvável acontece, e todos esses personagens se conectam numa forma de afetividade que não é comum aos nossos costumes embrutecidos.

            Mais do que um filme sobre união e afeto, é um filme sobre humanidade. Uma obra de singeleza nas ações, que não devem ser classificadas simplesmente como maldade ou bondade. São seres humanos críveis ali retratados, e cada ator consegue traduzir na poesia do texto a interpretação necessária ao personagem. Entre fala e silêncio vemos imagens belas que fazia tempo não via no cinema nacional. Digamos que nosso cinema anda um pouco voltado à ação e ao diálogo; aqui o silêncio também é diálogo. Quem não assistiu ainda, quando o fizer, lembre-se dessas coisas: as borboletas, o mar e a concha. Não vou explicar — tente captar a beleza e o significado dessas cenas.

               Estamos num bom período para a produção nacional. Desde o ano passado temos visto filmes muito bons, e este é um deles. O filho de mil homens é arte e, como tal, deve ser absorvido com calma... Então não faça como eu: desligue-se totalmente antes, para aproveitar ao máximo. Eu ainda não posso dizer que estraguei completamente minha experiência, pois tenho boa memória e consegui reter o suficiente... Poderia ter sido mais.



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Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

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 Banco Inter — Vinícius Motta

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