domingo, 14 de dezembro de 2025

Corrida das blogueiras: o poder do corte

 



Corrida das blogueiras: o poder do corte




            Se antes eu me interessava por alguma coisa através da televisão aberta, jornais e revistas, os tempos mudaram. Revistas e jornais caíram em declínio vertiginoso, e eu não assisto TV aberta desde 2015. E qual é a opção mais viável além das fake news daqueles grupos insuportáveis do WhatsApp? Mídias sociais com seus cortes. Tudo foi fragmentado em vídeos curtos para se passar em alguma timeline de alguma rede social, que disputa desesperadamente a atenção de um novo público e manipula descaradamente nosso sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina — doses cavalares, dependendo do tempo que um indivíduo fica exposto à tela do celular e a esses vídeos.

            Este que vos escreve, por não estar trabalhando, acaba pesando a mão no tempo de tela enquanto aguarda não só o tempo passar, mas o horizonte se mostrar mais benfazejo. E, nessa vigília interminável, mendigando doses cada vez maiores do neurotransmissor, eu tive contato com um corte que me chamou a atenção. Se vejo algo que me causa uma curiosidade maior, tento depois pesquisar sobre o assunto no Google. E um dos cortes que me chamou a atenção foi de um blogueiro fazendo alguma prova em algum programa sobre comida — e ele tinha a delicadeza de um rinoceronte raivoso dentro de uma sala cheia de cristais. Foi de zero a menos cem através de uma palavra que ele martelava na sua tentativa debilitada de fazer uma publicidade adequada: lixo.

            E, como os algoritmos dos aplicativos não perdoam, logo fui invadido por outros perfis com o mesmo vídeo. Fui pesquisar e, consequentemente, fui assistir ao programa todo, até o último episódio, e descobri que a final será em janeiro de 2026. E fiquei com raiva disso.

            No caso, o corte era do episódio 05 da temporada 7 do Corrida de Blogueiras. Esse programa é um reality show brasileiro de entretenimento e competição que bebe, a ponto de quase se afogar, de RuPaul’s Drag Race. O que difere o brasileiro do estadunidense é apenas o foco no tipo de participante: no gringo, só Drag Queens podem participar; no tupiniquim, o horizonte é mais amplo e aceita drags, semi-drags, mulheres cis e trans, homens cis e trans, desde que todos tenham a alcunha — através de algum perfil ativo nas redes sociais — de blogueira ou blogueiro. O foco é, em grande parte, o público LGBTQIAPN+, e só de citar isso uma grande parcela do público médio já torce o nariz. Porém, não é exibido em nenhum canal aberto de televisão e atende a uma bolha específica na internet. Instagram, X, YouTube e Facebook acabam se alimentando não só de cortes, vídeos completos e infinitas discussões e opiniões dos consumidores desse tipo de produto, que, por sinal, são bem engajados. E parece que esse corte que cito acabou extrapolando um pouco a bolha pelo absurdo que foi.

            O programa se encontra na sétima temporada e eu não assisti nenhuma das anteriores. Ao contrário de RuPaul’s Drag Race, que assisti com muita frequência, esse não me interessou muito por várias questões, entre elas os criadores do programa: o casal Eduardo Camargo e Filipe Oliveira, que também são criadores do canal de YouTube Diva Depressão, que no começo eu os achava chatos. Assistindo esses dias não só o Corrida de Blogueiras, mas também algumas lives do casal, no Diva Depressão, percebi que eles evoluíram muito em qualidade e profissionalismo em relação à época em que eu parei de assistir. O que acompanho de blogueirices é apenas o que me chega pelos Reels ou pela timeline do Facebook. E, como ando usando muito, proporcionalmente tenho tomado conhecimento de várias coisas.

            Não vou citar nomes, mas todo mundo que conferir vai saber de quem estou falando — não é segredo. Uns anos atrás, apareceu para mim um perfil de um rapaz que achei muito enfadonho: ele era afetado, se fazia de moleque e cheio de trejeitos. Isso foi me cansando até que, como de costume, apelei para o “não tenho interesse”, e vida que segue. E justamente o corte era com essa pessoa. A prova era de publicidade de comida e, ao invés de exaltar o alimento, ele usou um texto totalmente fora do bom senso: desprezou os consumidores, comparou comida a lixo, cuspiu a comida na frente das câmeras — ainda que a prova já tivesse acabado. Foi uma antipublicidade.

            E o corte, com tanto absurdo, me fez ter curiosidade para ver o programa. Eu sabia que ele existia, tento ficar antenado com tudo que se passa, mas consumir já é algo que depende de muita coisa. Ainda mais com essa crise que enfrentamos de maus blogueiros e influenciadores que só querem enriquecer a despeito de qualquer respeito e consideração pelo seu público. Porém, é um fenômeno que existe e está aí; não podemos apenas descartar e fingir que não existe. Quando assisto a algo, seleciono através dos meus critérios de preferência de assunto e tento não dar minha visualização ou curtida a influenciadores que reprovo — e meus critérios de reprovação são conteúdo raso, ser propagador de fake news e divulgar bets. Eu corro de vários canais e perfis por esses motivos. E, depois dos coaches de masculinidade, também questiono se não deveríamos adotar uma medida semelhante à que a China tem imposto aos seus produtores de conteúdo: a pessoa só poder falar de um assunto para o qual tenha formação acadêmica, além da proibição de influenciadores de conteúdo de ostentação de alto luxo. É necessária uma regulamentação para o que acontece na internet, que não pode continuar como uma terra de ninguém.

            E só lembrando uma questão levantada pelo Felca, que é um dos maiores influenciadores brasileiros do momento: a adultização de menores de idade, que desembocou na prisão preventiva de Hitalo Santos e de seu marido, que faziam justamente isso — usava a imagem de garotos e garotas menores de idade para monetizar e fazer os vídeos terem muitas visualizações, associadas a publicidades questionáveis. Com isso, um efeito dominó conseguiu apurar outros crimes que estavam envolvidos. Felca saiu não só como um herói, mas mostrou que um influenciador pode, sim, contribuir para a sociedade e abordar temas espinhosos de forma séria, através de pesquisa e coleta de provas. Os demais querem isso? Não sei. Felca já entrou para a história. Ele deu uma chacoalhada boa no bambuzal da internet.

            Voltando ao Corrida de Blogueiras, eu realmente fui assistir à temporada toda e achei bem simples diante de sua inspiração original. Contudo, os participantes e a própria dupla de apresentadores entregam diversão. E, realmente, o participante que mandou mal na prova que vi no corte é tudo e mais um pouco do que eu imaginava que ele fosse; porém, ele é talentoso na sua área. Cada modelo de roupa que ele faz demonstra isso, e percebo que muitas provas foram feitas sob medida para suas habilidades. Contudo, na relação interpessoal, ele é um trasgo da montanha com jeito de adolescente otaku de 12 anos — porém, ele tem 26. Os outros participantes entregam mais carisma, e muitos até demais, no bom sentido. Agora vamos aguardar a final. E, realmente, não sei se me cativou o suficiente para me animar a assistir a uma próxima temporada. Valeu a pena por me inteirar em um formato de programa que não é muito o meu perfil de preferência.

 


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            Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

            Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

            Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

            Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

            E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

            Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões. Fiquem à vontade.

Pix: vinimotta2012@gmail.com
(que também é meu e-mail de contato)
Banco Inter — Vinícius Motta


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