sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Wicked - Meu coração está peludo.


 

Wicked - Meu coração está peludo.


            Eu não estou dando conta de produzir textos sobre as obras que assisto, ando assistindo muita coisa, só ontem revi A maldição do espelo de 1980 com a Elisabeth Taylor, Angela Lansbury como uma Miss Marple enérgica, Kim Novak ainda bela, Rock Hudson e um Tony Curtis já sem viço. E só estou escrevendo tanto porque, no momento, não estou trabalhando. Antes, eu estava afastado, com todos os direitos garantidos, e agora, graças a um “ótimo” profissional que exerce seu ofício como um babuíno em um jantar servido à francesa — constipado há vinte dias, sem evacuar, todo enfesado —, fiquei sem o benefício e não pude voltar a trabalhar, pois o ano letivo já se foi. Para quem não sabe, sou professor, e foi isso que me adoeceu: uma crise de ansiedade tão forte que precisei me afastar por vários meses. E, olha, eu nunca fui de faltar um dia sequer ao trabalho. Hoje, quando vejo um adolescente, já começo a suar frio…

            Não sou concursado por isso não pude voltar ao cargo.E como a vida é a vida, às vezes a roda da fortuna está lá embaixo, e às vezes ela continua lá embaixo. Desconfio que a minha anda meio quebrada, pois não muda de posição desde 2002…

            Meu celular, que uso bastante para divulgar o Blog, simplesmente pifou. A Camélia, quando caiu do galho, deu dois suspiros para morrer; meu celular não caiu de lugar nenhum e só “puf!”, inadvertidamente, sem presságios, sem agouros… Apagou. Entã, fica a dica: no final do texto está meu Pix para um “apoia-se” fora do YouTube. Eu ia começar um canal por lá — olha só, mais um adiamento na minha vida. Mas esse será muito temporário se tudo der certo. E, se não quiser ajudar um escritor desesperado para reaver um equipamento importantíssimo para a vida nesses tempos, aqui vou apelar violentamente — preparem-se: meus gatinhos lindos precisam de ração. O pior nem são os meus gatos, que até dou conta de alimentá-los; o problema são os gatos sem dono que eu ajudo aqui na rua. Esses comem mais que a Magali, da Turma da Mônica (uso essa referência porque estou finalizando o texto sobre o filme Maurício de Sousa: O Filme). Apelei o suficientemente? Acho que já tentei bastante tocar o coração dos meus leitores… E, com certeza, falhei… Muitos corações peludos... Vou criar um clube de assinantes, vocês vão ver.

            Onde eu estava? Ah, mimimi… tadinho de mim… celular… apelar com meus gatos… mimimi… É até ruim usar esse termo que, em contextos errados, me dá ranço.

            Wicked! Era aqui que eu deveria ter ido desde o começo. Eu sabia da existência do musical e, sinceramente, nunca me interessou muito. Assisti a O Mágico de Oz na Sessão da Tarde, sei lá quando, e realmente não gostei. Antes achei que fosse birra de criança obrigada a assistir o que passava na televisão, mas não. Uma garota usando um sapato de rubi, caminhando por uma estrada de tijolos amarelos como “ouro” rumo a uma cidade de esmeralda, descobre que bastava bater os sapatos para tudo se resolver — depois de matar a bruxa má verde? Para mim, já era ruim demais. Eu sei da legião de adoradores dessa obra. Sei também o quanto isso pode me render ódio deles. Com o tempo, fui ler sobre a produção caótica do filme. Existe até uma lenda urbana de que há um enforcado em um frame da filmagem. As condições eram insalubres: a atriz que fazia a Bruxa Má do Oeste se queimou gravemente em um acidente; o ambiente de trabalho beirava o assédio moral; o Homem de Lata sofreu uma intoxicação grave por causa da maquiagem pesada; o ator do Leão Covarde usava uma roupa feita de pele verdadeira de animal; e Dorothy, Judy Garland, sofreu abusos e maus-tratos. Os atores que faziam os Munchkins a assediaram sexualmente, chegaram a apalpá-la. Fora a pressão dos estúdios, obrigando-a a trabalhar 18 horas por dia. Ela era submetida a dietas rígidas e a comprimidos para mantê-la acordada — e, logo depois, para fazê-la dormir. Judy Garland tinha apenas 16 anos durante a produção. Dizem que ela ainda levou um tapa no rosto por ter rido em uma cena em que não deveria rir. E a produção achou de bom tom usar neve de amianto para parecer mais real. Alegaram desconhecer os riscos. Ser ator ou atriz naquela época era um tanto perigoso. Dá para gostar desse filme sabendo de tudo isso? Pelo visto, dá. Ele é um fenômeno mundial e segue sendo resgatado, inclusive em Agatha Desde Sempre, uma das séries que mais gostei nos últimos anos.

            Wicked é uma invenção de Gregory Maguire, que escreve um livro repensando a história de O Mágico de Oz pela ótica da Bruxa Má. É uma grande colcha de retalhos em torno da obra original, que, por sua vez, vem do livro homônimo de Frank Baum. O volume de releituras, artigos e críticas é imenso — e só reforça o impacto dessa narrativa no imaginário hollywoodiano.

            Acompanhamos em Wicked a vida desafortunada de Elphaba (Cynthia Erivo), que se tornará a Bruxa Má do Oeste, e sua amizade com Galinda, que por algum motivo vira Glinda, a Bruxa Boa do Norte. Uma fofura passivo-agressiva interpretada pela assustadoramente magérrima Ariana Grande — e Erivo não fica muito atrás. Ambas estão ossudas demais. Isso não é saudável.

            Durante o desenrolar da história, vemos como as ações equivocadas de Elphaba acabam criando alguns dos personagens mais queridos do universo de Oz, ao mesmo tempo em que a podridão política se revela. Eu me admiro como, mesmo com histórias assim, as pessoas ainda apoiam lados totalitários. O governo de Oz é horrível — e muitos governos reais usam o mesmo método: inventam inimigos, manipulam a opinião pública e exploram os mais fracos. Inúmeras obras denunciam isso, especialmente do lado do Tio Sam, e eles seguem fazendo o que sempre fazem. Escolhas.

            Eu fiquei com ódio da Glinda, que não vale um tostão furado e sempre escolhe o lado que mais lhe convém. Fiquei com ódio de Fiyero, que enganou a sonsa da Galinda — só dou um desconto porque ele é interpretado pelo maravilhoso Jonathan Bailey, a quem vi sofrer por um macho escroto que não se assume em Companheiros de Viagem. Fiquei com ódio da Nessarose, uma idiota: tudo o que a irmã fazia para ajudá-la, ela achava ruim. Michelle Yeoh é ótima, mas sua Madame Morrible é tão sem tempero que não fixa na memória. Jeff Goldblum faz Jeff Goldblum vestido de Mágico de Oz — e é isso.

            A produção é impecável: figurinos, cenários, coreografias. As vozes de Ariana e Cynthia são fantásticas; ouso dizer que a de Cynthia é ainda melhor, o que não é pouca coisa, considerando o talento absurdo da Ariana. Ainda assim, a história, transposta para o cinema, me cansou. Não assisti ao musical no palco, mas o Instagram me bombardeou com cenas da montagem brasileira. Tive um vislumbre do carisma de Fabi Bang, o ponto alto da dublagem — pena que não lhe deram as mesmas liberdades que ela tem no teatro, imprimindo uma identidade mais nossa.

            E não dá para fechar os olhos para tudo o que aconteceu fora da tela: as aparições esquisitíssimas das duas atrizes principais; Ariana se recusando a vir ao Brasil e ainda postando que os brasileiros não deveriam “despejar coisas ruins sobre ela”; e o absurdo de impedirem Myra Ruiz e Fabi Bang, protagonistas do musical no Brasil, de se encontrarem com o elenco do filme na pré-estreia. Elas mereciam respeito. O filme não teria esse hype sem as centenas de profissionais envolvidos em montagens ao redor do mundo.

            Foi sofrido assistir. Eu sei que há inúmeros fãs que passam pano para tudo isso. Eu não consigo. E olha que passo pano para muita coisa.

            Wicked realmente não tocou meu coração… Ele está peludo igual ao dos meus leitores.



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Quem tiver sem pelo no coração lá vai:

Pix: vinimotta2012@gmail.com

(que também é meu e-mail de contato)

 Banco Inter — Vinícius Motta


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