Pluribus - e a necessidade de assistir tudo antes de comentar.
É isso que eu falo no título: é uma percepção copiada da fantástica Isabela Boscov. Eu tinha com essa mulher uma relação de amor e ódio. Lembro que lia suas resenhas na extinta — da minha única e exclusiva parte — Veja. Por anos, essa revista, junto com a IstoÉ, transformaram e manipularam muito bem a opinião pública, principalmente na política. Bem ou mal, hoje, com o crescimento da influência das redes sociais, estamos caminhando para uma certa diversidade de pontos de vista; pelo menos, a manipulação é mais sabida por meio dos algoritmos, e estamos lidando com situações muito novas, que ainda carecem de legislação para resolver isso. Eu não tinha outros meios de conhecer opiniões diferentes sobre filmes naquela época além do que era impresso; às vezes, na televisão, um mirrado programa aqui ou ali falava diretamente de cinema. Talvez isso tenha me influenciado a palpitar tanto nessa área sem uma formação específica. Isso me incomoda um pouco, por um lado; por outro, lembro que sou formado em Letras, tive uma formação — ainda que ruinzinha — em Filosofia e amo o processo narrativo, então talvez isso me ajude a ter uma opinião menos leiga. Ela ainda é leiga, pois vários elementos me escapam em minhas análises imperfeitas. Então, como não profissional, tento levar isso como hobby.Voltando à Boscov, nem sempre concordava com ela — e quem sou eu na fila do pão para achar que minha opinião contava? —, mas, ao mesmo tempo, estava lá semana após semana lendo suas resenhas.
E quando ela disse, em um vídeo recente em seu canal do YouTube que assisti, que não iria comentar sobre Stranger Things quando lançaram o primeiro volume da quinta temporada, pois queria assistir a tudo para ter uma visão mais global do conjunto concluído, percebi que estava cometendo exatamente o erro oposto. Eu assistia a alguns episódios e já resenhava, correndo o risco de nem acabar a série e não concluir um comentário relacionado ao seu desfecho.
Para escrever este texto, não reli o anterior, para manter as impressões separadas e perceber depois como uma opinião pode mudar em relação a uma obra quando ela é vista por inteiro. Olhei apenas a data em que postei no blog: 29 de novembro de 2025. Hoje, o dia em que estou escrevendo — não necessariamente o dia em que vou postar — é 10 de janeiro de 2026. E minha opinião mudou um pouco. Ou muito. Sei lá. Como disse acima, não reli, propositalmente.
A premissa é interessante: a humanidade é infectada por uma espécie de vírus alienígena que cria uma consciência coletiva mundial entre todos os humanos contaminados, enquanto algumas pouquíssimas pessoas não sofrem com isso. Quem está infectado vive em um estado constante de alegria e paz. Carol, interpretada por Rhea Seehorn — muito bem, por sinal —, é apresentada pela série como “a mulher mais triste do mundo”. Ela não é triste; é uma babaca sem apoio dos outros humanos não infectados e só faz merda. Tudo o que faz para tentar resolver o que acredita ser um problema acaba sempre matando milhões de espécimes humanos contaminados. As criaturas não podem guardar segredos, não mentem, não dizem “não” e tentam agradar o tempo todo. Naturalmente, trabalham para que todos estejam infectados em pouco tempo e possam viver naquele planeta. Contudo, nem colher uma maçã de uma árvore podem, para respeitar a vida. Ou estão fadados à extinção, ou são gado para outras criaturas que estão para chegar se alimentarem. Duvido que a série vá por esse caminho; acho que a mensagem é outra: o americano loiro, de olho azul, vai salvar o mundo, para a miséria anterior como se ela fosse a solução.
A série termina como começou, em um monotom de enredo que combina com a fotografia belíssima. São só ângulos bonitos da vastidão das cidades, do mundo, do bairro em que Carol vive, intensificando a sensação de solidão da personagem ao se ver sozinha. Ela até tenta dar uma trégua com os alienígenas, até descobrir que eles tiveram acesso ao seu material genético de um jeito que faz sentido apenas dentro da lógica um pouco tênue da série. E para variar há um paraguaui “do Paraguai” (Carlos Manuel Vesga) de tão fake em suas ações. É o problema de se escrever algo quando não se sabe realmente o que se passa em uma determinada cultura.
Admito que foi um suplício assistir; por isso, demorei tanto para escrever esta segunda parte. E não sei se volto a assistir à segunda temporada. Nunca gostei muito do formato de série; talvez por ser ansioso, sempre me angustiou acompanhar um episódio por semana. A última série que fiz isso foi Penny Dreadful (2014), e eu queria morrer ao terminar a temporada e ter que esperar o ano seguinte. Quando decidi deixar Game of Thrones para assistir tudo de uma vez, depois de finalizada, os episódios finais foram tão contrários à essência dos personagens que aquilo foi, literalmente, um tiro no pé. Nem quis começar a assitir após a fatídica e mal escrita morte de Daenerys.
O streaming ajudou um pouco, e passei a maratonar quando dava, mas ainda me incomoda esperar um ou dois anos por uma nova temporada. Muitas vezes, depois de tanta espera, somos presenteados com uma decepção homérica. Percebi que gosto de séries curtas, fechadas em si mesmas. American Horror Story, por exemplo: não pretendo assistir a todas as temporadas, apenas às que me interessam, e está de bom tamanho.Outra perfeita foi Flea Bag que não precisava ter uma segunda temporada e quando teve foi muito boa também.E tinuam histórias conectadas pela personagem principal e pela família dela sem a história depender da primeira temporada. Não gosto dessa ideia de ficar preso, “fiel”, a uma história que pode ou não agradar, mas à qual estou envolvido a ponto de esperar a próxima temporada. Fazia sentido assistir fielmente uma novela quando não havia muito o que fazer além de ligar a televisão aberta sob o domínio massivo da Rede Globo. Agora? Se posso escolher o que fazer, onde ir, em que horário acessar, por qual motivo vou aceitar um lindo grilhão dourado preso a uma obra que pode me decepcionar?
Natiruts já versava: “Liberdade pra dentro da cabeça”. Eu digo mais: liberdade para fora das telas da televisão, do notebook e do celular, e liberdade para não ficar esperando nada que me cause ansiedade e gastura. Decididametne eu preciso voltar à psiquiatra e pegar mais receitas para os meus remédios…
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Banco Inter — Vinícius Motta

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