Thunderbolts - Precisamos falar sobre o Bob e doenças mentais.
Se tem uma coisa que a Marvel anda fazendo é merda — e muita, daquelas que se senta em cima e esparrama com a própria bunda. Eu realmente não entendo como os produtores querem embolsar dinheiro com o mínimo esforço. Aí, não contentes em criar um universo próprio, cheio de reviravoltas complexas, expandem esse universo para um multiverso. E quando isso fica na mão de artistas de HQs, eles se preocupam um pouco mais, e muitos não só querem ganhar dinheiro: vestem a camisa do que estão escrevendo e desenhando. É bom ver algo seu, com seu estilo, aparecendo um pouco, e não ter seu talento diluído numa equipe praticamente terceirizada e assalariada para desenvolver não uma ideia artística, mas um conceito econômico com aparência de arte — o que deve ser realmente frustrante. Ao mesmo tempo em que é uma grande honra trabalhar numa produtora de filmes do porte da Marvel, você será apenas mais um nome minúsculo numa tela preta. Um filme envolve muita gente para um indivíduo se sobressair; se ele não for ator, nem o diretor ultimamente tem aparecido. Se tem uma coisa que as grandes produtoras não gostam é direção autoral. Só que, quando um nome sobressai, correm lá para sugar o que conseguirem de sucesso daquele desavisado. Se for realmente bom, tome um biscoitinho: um Oscar de Melhor Direção ou, quem sabe, um Globo de Ouro, um BAFTA, um SAG… Palma de Ouro, Urso de Ouro ou Prata? Isso é coisa para europeu ou filme de verdade, não enlatado. Hollywood é arte a serviço da produção em massa para gerar lucros. Nem precisa tanto de arte: alguém faz algo artístico uma vez, dá certo, e os demais replicam exaustivamente a fórmula para aplacar a fome de mesmice que as mesmas pessoas têm, até que elas reclamem que tudo está igual; aí aparece um novo divisor “diferentão” e todo mundo replica de novo, num grande processo circular, como numa autofagia infinita.
Autofagia é o processo biológico no qual as células do corpo digerem e reciclam seus próprios componentes danificados ou desnecessários. Nesse processo, temos obras-primas que parecem inovadoras, mas são colchas de retalhos tão bem costuradas que se pensa serem peças únicas. Um grande costureiro desse tipo de colcha é Quentin Tarantino. Se você pegar Kill Bill: Vol. 1 e Vol. 2, vai ver uma criatura tão híbrida que mal dá para dizer o que é original e o que é “homenagem” a outros filmes. E tem mais: alguns conseguem ser muito discretos, outros alcançam a façanha de se autofagiar a si mesmos (a redundância é proposital).
O que importa é que, indiferente à história genérica de anti-heróis desajustados — e como disse em Wandinha, se todo mundo é excluído e, no caso daqui, desajustado, não existem ajustados ou incluídos —, se todo mundo é diferenciado, na verdade ninguém é: são todos iguais.
Nesse grupo de anti-heróis desvirtuosos aparece, do nada, o Bob. De início, ninguém sabe quais são seus poderes, se é que tem algum. Mas seu toque atinge fundo a Yelena (Florence Pugh) em uma memória bem específica; depois, em John Walker, o quase substituto do Capitão América, o Agente Americano (Wyatt Russell), que não vingou; e, por fim, pega de surpresa a Valentina (Julia Louis-Dreyfus). Entre essas manifestações, também se descobre que há outros poderes: ele é indestrutível, voa, tem superforça. E é aqui que temos o que mais me interessou: ele é um homem fragmentado, com uma doença mental grave. Na mesma medida em que é cheio de poderes para o bem, seu lado “mau” tem valor oposto equivalente. Ele transforma as pessoas em borrões de sombra preta espalhada, como se fosse pó de impressora — quem já mexeu em uma sabe como impregna e se esparrama; é exatamente essa aparência. E, lógico, esse lado sombrio vai aparecer.
Esse filme, mais do que ser de super-herói — ou de anti-heróis —, é uma forma didática de perceber como lidar com uma doença mental. A Yelena está com depressão; o Walker, também; o Alexei / Guardião Vermelho (David Harbour) está sem perspectiva e se mantendo à base de muita vodka; o Soldado Invernal (Sebastian Stan) não tem a cabeça no lugar desde que perdeu seu grande amor — digo, amigo —, o Capitão América, fora tudo o que a Hidra fez com seu cérebro. E é interessante notar que, quando o lado obscuro do Bob toma conta, é a amizade que o faz voltar a si.
Não estou mais falando do filme em si, mas do personagem Bob / Sentinela / Vácuo. Bob é um ser humano quebrado por seus traumas. Em sua busca por aplacar a dor, acabou usando drogas e, com certeza, nesse estado, seu lado menos “bonito” aflorou e o deixou ainda mais quebrado, pois, após os eventos, ele se sente culpado — e esse sentimento pode gerar ainda mais necessidade de amortecer tudo dentro de si. Na necessidade de se encontrar, Bob entra numa pesquisa de uma organização de caráter duvidoso. Como ele diz, estavam aplicando uma injeção nele e depois ele acorda ali, no meio da ação que acontece entre os futuros Thunderbolts. De início, sua aparência frágil não revela muita coisa; ele até tenta ajudar como pode, mas, “sem poderes”, não consegue fazer muita coisa — até que, para ajudar os amigos recém-adquiridos a fugir, se joga diante de um batalhão armado até os dentes, leva todos os tiros e sobrevive com seu pijaminha todo estraçalhado. Valentina, a vilã da história, que sabe de qual pesquisa ele participou e que ele poderia virar a arma que ela precisa para se livrar de várias acusações e de uma cassação de seu cargo, o coopta e tenta manipulá-lo para seu plano. E aqui as coisas fogem do controle. Na mesma medida em que o Sentinela é forte e faz suas coisinhas de herói, manipulado pela vilã, existe nele — literalmente — um lado sombrio que toma o controle. Tudo de bom que poderia existir some. Vou chamar assim, pois não sei se é o termo ideal: uma bipolaridade doentia assumindo o lado mais sombrio. Ele quer destruir tudo, inclusive a própria autoestima de Bob, que se refugia num lugar seguro dentro de si mesmo.
Yelena percebe que a única forma de ajudar a derrotar o Vácuo é entrando dentro de Bob e se enfia na aniquilação causada pelo Vácuo, virando uma mancha preta de pó de impressão, como disse acima. E lá ela se depara com seus próprios traumas — o Vácuo faz isso se manifestar. Enfrentando esses traumas, ela consegue chegar ao Bob que não é o Sentinela nem o Vácuo: é um ser fragmentado, tentando se refugiar dentro de si mesmo, num labirinto infinito de possibilidades e memórias conturbadas. Bob precisa sair desse falso conforto e enfrentar o Vácuo, lembrando que ele é o próprio vilão. Não adianta se debater: um alimenta o outro. E acontece a cena mais bonita — e que deveria nos nortear diante de um surto de ansiedade. Só tenham cuidado para que seja seguro: nem sempre é seguro chegar perto de alguém fora de si, mas tente trazê-lo para a razão. No filme, Yelena vai, o abraça e o chama para o presente. Ele está ensandecido, batendo no Vácuo, tentando derrotá-lo — e não é na pancada que se resolve. Tomando consciência de si e sabendo que não está sozinho, o abraço — primeiro de Yelena e depois dos demais Thunderbolts — mostra a Bob que, além de não estar sozinho, ele precisa enfrentar de forma serena seu lado obscuro, não para vencê-lo, mas para controlá-lo e administrá-lo. Ou seja: uma metáfora bonita, apesar de ser um filme da Marvel, para o tratamento adequado — terapia, medicação com acompanhamento psiquiátrico e uma rede de apoio.
O individualismo contemporâneo nos joga numa solidão e faz do homem uma ilha — e não somos. Evoluímos como seres sociais e esquecemos disso: queremos negar a família; se um amigo desagrada, já rompemos a amizade; se começamos a namorar e a pessoa comete uma falha, nos afastamos. Não lapidamos nossas individualidades para viver no coletivo. E isso é a base de um surto de doenças mentais pelo qual estamos passando, somado a inúmeros outros fatores que esses tempos nos trazem.
Se um dia perceber que não está bem, procure ajuda. Ou, como foi um pouco o meu caso, aceite a ajuda de algum amigo ou amiga que perceba que você não está bem. Todos nós podemos ser acometidos por alguma doença mental em algum momento da vida — e, sério, não é fácil tratar, não é rápido. Cuidado com coaches e religiosos: eles te levam para longe do tratamento e dão uma falsa sensação de cura. Participe de qualquer religião, sem problemas, mas nunca deixe de lado a terapia com um bom profissional nem o acompanhamento psiquiátrico, se for o caso. Ambos não só ajudam muito como salvam vidas.
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Os problemas continuam tá gente, o mimimi está na resenha de Wicked, resumindo: gatinhos famintos, celular quebrado no fim do ano, falta de trabalho e agora doença mental, na verdade este problema é antigo... e já vou agregar desespero do começo de ano... Quem puder contribuir com qualquer valor ajudaria muito:
Pix: vinimotta2012@gmail.com
(que também é meu e-mail de contato)
Banco Inter — Vinícius Motta

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