Maurício de Sousa: O Filme - Onipresente em nossa cultura
Já vou começar com o único ponto fraco desse filme — na verdade, são dois. O primeiro é a complacência ao mitificar um personagem histórico sem considerar com mais cuidado seus pontos negativos. Temos uma tendência de não expor nada que possa riscar a imagem de grandes ídolos brasileiros, somos comedeidos demais. O segundo ponto é a escolha do ator para viver o Maurício: o próprio filho, Mauro de Sousa. Fica evidente que ele não tem a mesma profundidade dramática de atores mais experientes, como Natália Lage, que interpreta sua mãe, Elisabeth Savalla, como uma avó amorosa, ou mesmo Thati Lopes, conhecida por sua atuação no Porta dos Fundos, que faz a primeira esposa, Marilene. Até mesmo Othon Bastos, que aparece rapidamente como Jayme Cortez, da Editora Continental, onde a revistinha infantojuvenil Zas Traz encerra as primeiras historinhas em quadrinhos do desenhista, consegue dar mais profundidade ao personagem do que Mauro. Vamos combinar: ele é carismático, mas não há muitas nuances de emoções, assim como sua expressão quase congelada em um bom humor eterno. Contudo, o mito Maurício é muito maior, e a reverência a ele é executada com grande respeito pelo diretor Pedro Vasconcelos, em co-direção com Rafael Salgado. Vasconcelos, junto de Paulo Cursino, assina um roteiro bem pé no chão e, ao mesmo tempo, capaz de fazer a magia ser tornar presente — especialmente quando, em determinado momento, os personagens começam a aparecer nos traços de Maurício, sem nunca degringolar para o fantástico, só uma licencença poética.
A história acompanha Maurício ainda criança, passa por suas lembranças e caminha em direção às primeiras conquistas. Para surpresa de alguns e alegria de quem já sabia, o primeiro personagem pula do papel ainda sem a cor azul característica — que foi, na época, um erro de impressão e acabou se tornando sua marca registrada: Bidu. O filme também explica suas inspirações. E, para minha surpresa, o Cebolinha apareceu antes da Mônica, que acabou reivindicando seu lugar de principal estrelato. A cada referência ao que estava ao seu redor, ou às suas memórias, eu me emocionava com as cenas de Maurício criando.
A partir daqui, entro numa digressão, mas tudo o que eu tinha para falar do filme em si já foi dito.
Às vezes, eu me pego pensando no que me faz brasileiro além do simples fato de ter nascido no Brasil. Hoje, com o advento da internet e de aplicativos como o Instagram, ou mesmo plataformas como o YouTube, vejo estrangeiros, em seus próprios países, encantados com a cultura brasileira. Estamos vivendo um ótimo momento internacional. Se conseguirmos alinhar nossas polarizações internas em favor do bem-estar da população, isso certamente refletirá em avanços significativos para todos nós. Uma fala, certa vez, me chamou a atenção — não me lembro da nacionalidade da pessoa —, mas ela dizia que, por mais que alguém usasse a camisa da seleção brasileira e chinelos Havaianas nos pés, era visível que não se tratava de um brasileiro. Segundo ela, mesmo de costas, conseguia reconhecer um brasileiro, pois um estrangeiro, por mais que tentasse, não tinha a mesma postura. É justamente nessas coisas que eu fico pensando: o que nos dá essa — por falta de palavra melhor — energia? Para mim, são vários fatores: crenças e valores partilhados em nosso território (há os gerais e os regionais), nossa memória e nossa história, conhecimentos específicos e uma cultura que comporta manifestações infinitas. E é aqui que junto minha digressão ao tema de Mauricio de Sousa: O Filme. Eu não consigo dizer quando conheci a Turma da Mônica. Se foi pela televisão, pelos gibis ou pelo cinema. Para mim, ela simplesmente estava lá desde sempre. Minha memória mais antiga é de ir assistir ao filme A Princesa e o Robô, lançado em 1984, mas eu já flertava com os gibis mesmo sem saber ler. Quando aprendi, aqueles personagens estavam onipresentes em toda a minha infância e adolescência. Por mais “roqueira” que essa fase tenha sido, eu não abandonei as coisas de que gostava. Até tentei ler X-Men, mas, na época, as histórias ainda eram confusas, se prolongavam por várias edições e eram caras. Uma edição da Turma da Mônica se encerrava em si mesma e, quando dava, comprava-se outra.
Agora, quer saber o que era ostentação para mim depois de um tempo? O Almanacão de Férias da Turma da Mônica. Esse eu fazia questão de ter, e, quando não dava para comprar, eu ficava frustradíssimo. Além das histórias que eu lia avidamente, o que mais gostava era o miolo, que vinha cheio de jogos, caça-palavras e desenhos para colorir. Eu achava que pintava muito bem, e as horas passavam enquanto eu sugava toda a diversão possível. A Disney até tinha uma versão sua, não chegava aos pés da Turma da Mônica. Cresci e fui estudar fora. Primeiro, cursei Filosofia, mas acabei dando uma parada, pois mal dava tempo de ler os livros exigidos para provas e trabalhos. Ainda assim, sempre dava uma olhadinha nas tirinhas dos jornais, e lá estavam meu tripé da infância, agora vida adulta: Garfield (cheguei a ter um jogo dele, de tanto que amava), Snoopy (tive livros de colorir, brinquedos e, já adulto, vários produtos) e, obviamente, a Turma da Mônica. Como professor de Língua Portuguesa, via com alegria que sempre havia alguma referência a Maurício de Sousa nos livros didáticos, por meio de tiras. E quantas campanhas e publicidades com sua marca nos acompanharam? Só nunca entendi muito bem o saco de maçãs da Turma da Mônica, pois sempre achei as frutas miúdas e feias. Fora isso, tudo fazia sentido.
Em 2023, comecei a frequentar a Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo. Eu morava ali, na esquina da Rua do Arouche com a Rua Aurora, bem perto. Em meio às pesquisas por novos autores brasileiros, descobri que havia um bom acervo de HQs adultas. Como eu raramente consumia esse tipo de material por ser relativamente caro, decidi pegar alguns títulos que me chamaram a atenção, para finalmente ter acesso a esse universo que eu sempre soube que existia, mas nunca tinha explorado. Entre vários títulos, me deparei com Astronauta: Magnetar. Que pancada. Ver um personagem do Maurício nos traços e textos de outros artistas, pelo projeto Graphic MSP, foi arrebatador. Justamente ao ceder seus personagens para outros criadores, cada artista imprimia contornos autorais às histórias — e que histórias. Houve narrativas adultas, preciosidades tocantes. Jeremias: Pele é um soco no estômago ao tratar do racismo. Não vou conseguir listar todos os artistas envolvidos, mas, pelo que soube na própria HQ, cada um escolhia um personagem e tinha total liberdade para elaborar sua visão, desde que preservasse a essência e as características visuais básicas. É um primor atrás do outro. Não consegui ler todos, pois nem sempre estavam disponíveis e, além disso, o preço ainda pesa para mim. Dos que consegui acessar, li tudo. Abaixo eu elenco os que li e dou um resumo da história.
Assim, entre tantas coisas que me dão o estofo de ser brasileiro, Maurício de Sousa ocupa um lugar central nesse universo nacional que nos influenciou, muitas vezes, sem percebermos. Ele é um patrimônio brasileiro, de tão onipresente que se fez em nossa cultura. Ainda acho que a Academia Brasileira de Letras perde a chance de torná-lo um imortal. Poucos fizeram tanto pela educação e incentivaram tanto a leitura quanto essa turma criada pelo mestre Maurício. Ainda existe muito preconceito em relação às HQs serem ou não consideradas literatura, por se tratarem de uma arte híbrida e relativamente recente. Ainda assim, é impossível negar a influência que exerceram sobre a maioria de nós. Por isso, um filme sobre Maurício é necessário. É reverência — uma entre tantas que ele merece.
Graphic MSP
Vou colocar abaixo os que eu li, com um breve comentário sobre cada um. O número à frente corresponde ao seu número na coleção, o personagem que está como principal, o artista responsável e a data de publicação.
Vol. 1 - Astronauta: Magnetar — Danilo Beyruth (roteiro e arte) — Nov 19, 2011 - Vemos um Astronauta envolto em paranoia por estar tanto tempo sozinho e isolado após um acidente próximo a um magnetar, que eu juro que tive que pesquisar o que era. Meu campo da física é limitadíssimo.
Vol. 2 - Turma da Mônica: Laços — Vitor e Lu Cafaggi — Jun 1, 2013 - Floquinho sumiu, Cebolinha recorre à ajuda da Mônica, Cascão e Magali para tentar achar o bichinho, reforçando os laços de amizade que tinham;
Vol. 3 - Chico Bento: Pavor Espacial — Orlandeli — Aug 1, 2013 - Só uma informação aqui: de longe, o Chico Bento é meu personagem favorito. Não sei se é por me ver representado nele, fui uma criança do interior, com um "pé" de goiabeira no fundo do quintal, que vivia indo a açudes e rios tomar banho (é muita licença poética e exagero, mas eu fui algumas vezes). O jeito de falar, sempre senti muito carinho por esse personagem. A escolinha da roça, eu estudei em uma que parecia muito a escola dele, uma "casinha" com uma sala só praticamente. E me surpreendeu ver que misturaram ficção científica com o Chico em uma história de abdução, e muito engraçada;
Vol. 4 - Piteco: Ingá — Shiko — Nov 28, 2013 - Eu li o Shiko, em uma entrevista, falando sobre ele usar uma referência pré-histórica brasileira na história do Piteco. Eu mesmo não conhecia a Pedra do Ingá. E gostei de ele fazer uma Thuga toda voluptuosa em trajes sumários. Um escândalo...
Vol. 5 - Bidu: Caminhos — Eduardo Damasceno & Luís Felipe Garrocho — Aug 1, 2014 - Pense numa história fofa. Nos quadrinhos tradicionais, quando o Bidu se encontra com os cães do bairro, ele conversa. Aqui também, mas sem uma palavra sequer: só se usam imagens. E, estando abandonado na rua, a história tenta mostrar como o Franjinha o conhece, o acolhe e se torna seu tutor.
Vol. 6 - Astronauta: Singularidade — Danilo Beyruth — Dec 19, 2014 - Outro termo que eu não fazia ideia do que era e tive que pesquisar. Aqui, as consequências da história anterior se fazem presentes, e ele é enviado a uma nova missão com uma psicóloga, que está cuidando de laudos sobre ele estar ou não apto a continuar o trabalho, e um pesquisador estrangeiro que parece muito mais atrapalhar do que ajudar. E temos uma referência aos Homens-Geleias, que já apareceram nos primórdios das histórias do Astronauta.
Vol. 7 - Penadinho: Vida — Paulo Crumbim & Cristina Eiko — May 6, 2015 - Alminha desapareceu e Penadinho descobre que ela vai reencarnar e precisa conversar com ela mais uma vez. Contudo, Alminha foi sequestrada por um vilão que coleta almas, e Penadinho e seus amigos Frank, Zé Vampir e Muminho vão tentar resgatar a amiga. Era uma turma de que eu gostava muito também. Era sobrenatural que não me dava medo.
Vol. 9 - Turma da Mata: Muralha — Roger Cruz, Davi Calil & Artur Fujita — Sep 27, 2015 - Pensa numa subversão maravilhosa. O rei Leonino vira um tirano que explora um metal raro e cobiça as terras da mata, onde uma resistência contra sua tirania se forma. No meio disso, temos um Jotalhão que, raptado quando criança, é criado para ser um ninguém burocrático. E, ao se ver envolvido na trama política, tem que vencer sua covardia e tomar um lado. E temos direito a uma piada sobre ele ser mais conhecido por seu molho de tomate. Até hoje ele é garoto-propaganda de um extrato de tomate;
Vol. 11 - Papa-Capim: Noite Branca — Marcela Godoy & Renato Guedes — Apr 21, 2016 -É um terror perturbador que transforma a invasão europeia em uma maldição imposta aos povos indígenas;
Vol. 13 - Bidu: Juntos — Eduardo Damasceno & Luís Felipe Garrocho — Nov 1, 2016 - Ao ser acolhido da rua, Bidu tem alguns comportamentos que não são adequados para o convívio numa casa. Aqui vemos a relação dele com seu tutor Franjinha acontecendo.
Vol. 15 - Chico Bento: Arvorada — Orlandeli — May 8, 2017 - Temos árvores que florescem aqui no Brasil que são um espetáculo. E o ipê é uma delas. A história versa sobre o amor do Chico pela vó Dita. E, como todas as avós, ela não é eterna, e o ipê florindo é o símbolo da superação do luto, que se transforma em boas lembranças ao ver uma coisa que sempre esteve por ali, que agora toma outro significado.
Vol. 16 - Capitão Feio: Identidade — Magno & Marcelo Costa — Sep 6, 2017 - É absurda a insinuação presente nessa história sobre a população em situação de rua de São Paulo e o uso do crack. O tema nunca é citado diretamente, mas aparece em insinuações: no que é desenhado ao fundo do quadro, nos devaneios do personagem, em seu refúgio no lixão, em sua sensação de poder. Não sabemos se aquilo é real ou fruto de sua mente tomada pelo vício. E não é oficial essa versão, é uma leitura que eu tive. Para mim, é claramente o delírio de um homem que está em situação de rua e em vício... Lógico que vem depois uma situação fantástica, mas está lá a insinuação.
Vol. 18 - Jeremias: Pele — Jefferson Costa — Apr 25, 2018 - Você já teve a sensação de um dia pensar "vou ler uma coisinha leve e fofa" e toma um soco no estômago? É o que aconteceu com essa história necessária. O Maurício — e ele mesmo explica isso no comentário que faz sobre a história específica, ele faz uma apresentação em cada uma das obras — disse que evitava alguns temas em suas HQs. O racismo, por exemplo: ele imaginava só brincadeiras de crianças, sem os desgastes do mundo adulto, pois seu público-alvo, ele julgava, não deveria ser exposto a isso naquele momento. Pele leva isso a um patamar que uma pessoa branca nunca vai viver. Sem contar que, deliciosamente, ele usa obras que estão espalhadas pela cidade de São Paulo, realizadas por artistas pretos ou que representam a cultura preta, como fundo dos quadros. E está lá também o racismo no seu mais sofisticado e nefasto braço. Eu sempre andei pelo centro de São Paulo e nunca fui abordado por nenhum policial. E, se fosse, estava com meu RG e tudo bem. Para pessoas pretas, não basta o RG, e eu descobri nessa HQ isso. É de se indignar mesmo.
Vol. 19 - Horácio: Mãe — Fábio Coala — Jul 20, 2018 - É apelação pura — chorei como uma criança com a história do dinossauro comedor de alface que se perde da mãe e tenta reencontrá-la a qualquer custo. E o final... O final é o que é.
A Graphic MSP existe até o Vol. 47. Maurício Repórter, por Flávio Teixeira e Mauro de Souza, foi publicada, segundo as informações a que tive acesso, em dezembro de 2025. Eu queria ter lido todas; ainda não consegui.
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