sábado, 17 de janeiro de 2026

Os Sete Relógios: mais Agatha Christie, nem lá, nem cá.

 




Os Sete Relógios: mais Agatha Christie, nem lá, nem cá.

 

            Acho que está virando uma constante: filmes baseados em romances policiais da dama do crime, Agatha Christie — material não falta. Foram 66 romances policiais, fora coletâneas de contos e peças de teatro. Nem sempre as adaptações foram boas. Temos, em 1974, a melhor feita até hoje: Assassinato no Expresso do Oriente, que colocou um elenco estelar dentro do luxuoso trem com o misterioso assassinato de Ratchett/Cassetti que, sob a direção do monstro Sidney Lumet, contribuiu para a histórica vitória de Melhor Atriz Coadjuvante de Ingrid Bergman, que havia se tornado, anos antes, uma pária para a Academia.

            Sete Relógios faz uma adaptação bem mais modesta e sem o participação de Poirot, é interessante que há vários personagens detetives para além do belga perspecaz e da senhorinha fofoqueira de St. Mary Mead, Miss Marple. Aqui temos como detetive da vez um lerdo Battle, feito por Martin Freeman, que parece combinar muito com personagens desse tipo. A história acompanha mais de perto Lady Eileen “Bundle” Brent, interpretada por Mia McKenna-Bruce, cujo trabalho eu não conhecia. O grande problema — ou solução — é que, ao lado dela, está Helena Bonham Carter, vivendo sua mãe, Lady Caterham. Helena eleva o nível de tudo. E olha que não é nem de longe sua melhor interpretação: ela compõe uma britânica aristocrática falida, contida, mas sarcástica, avessa a sair de sua decadente propriedade herdada do marido, que morreu misteriosamente longe de casa, e do filho, que se foi na guerra.

            A propriedade foi alugada por uma temporada para um casal rico que acaba finalizando sua hospedagem com uma festa e, nessa ocasião, um amigo de Lady Eileen não acorda mais após uma dose mortal de sonífero. Ele não era do tipo que precisava de remédios para dormir e, aparentemente, não se mataria, pois tinha planos de se casar com Eileen e durante o evento marcou um encontro com ela para a semana seguinte e tratar do assunto.

      Eileen, impulsionada pela perda, decide investigar e se esbarra constantemente com um Battle, até certo ponto atrapalhado, que a adverte de todas as formas para não se envolver no caso. E uma nova morte só reforça que há, de fato, um grande perigo iminente.

            Comecei a ler as histórias de Agatha Christie muito novo. E, apesar dos crimes, tudo era conduzido com certa leveza. A crítica à sociedade inglesa me passava um pouco batida, mas ela sempre esteve lá, discreta. Os filmes e séries conseguiram resgatar isso e acabam dando uma tonalidade mais densa ao que a dama do crime apenas pincelava em aquarela. Uma coisa que percebi é que ela tinha seus melhores momentos geralmente com Poirot ou Miss Marple e, às vezes, com outros personagens, nas histórias estritamente de mistério em ralação a um crime da alta sociedade. Já nas tramas influenciadas pela guerra, conspirações e espionagem, ela derrapava bastante. Sociedades secretas que se unem para dominar o mundo, como em Os Quatro Grandes, ou para ajudar a Inglaterra — caso desta minissérie de três capítulos — fazem com que ela perca a mão. Depois de tantos filmes pesados sobre a Primeira e a Segunda Guerra, essas histórias acabam soando quase pueris. E esta é uma delas.

            O roteiro adota um ritmo um pouco lento, mas nos presenteia com uma boa reconstituição da Londres dos anos 1920. Mesmo com a história caindo nessa ingenuidade em relação a uma conspiração e a uma sociedade secreta chamada justamente Sete Relógios, o enredo não se sustenta tanto além das boas interpretações.

            Nem lá, nem cá, percebo que Sete Relógios é um daqueles filmes que atendem à necessidade da família de assistir a algo aos fins de semana, sem desagradar ninguém, e que acaba se perdendo depois de uns meses, como tantos outros títulos, no amontoado de produções no menu da Netflix. Só de pensar em procurar um filme sem indicação, minha ansiedade já começa a apontar. Talvez uma resenha como esta sirva justamente para dar uma luz. Voltando ao que disse no começo do parágrafo: nem lá, nem cá — apenas uma adaptação bem-feitinha de um livro da Sra. Christie. E, pelo que sei, está vindo uma nova leva de filmes por aí. As redes britânicas estão adaptando tudo o que podem. Pena que nem tudo tenha chegado ainda por aqui. Aproveito o que aparece.





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