segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Heatede Rivalry: E suas mulheres incríveis















Heatede Rivalry: E suas mulheres incríveis


            Não, não vou falar da Jane e Lily, os nomes postiços que Shane (Hudson Willians) e Ilya (Connor Storrie) usam para despistar qualquer suspeita sobre eles — afinal, eram rivais no rinque. Deixo de lado Elena (Nadine Bhabha)  e Maria (Bianca Nugara) por estarem só ligadas ao núcleo do Scott Hunter (François Arnoud) e Kip (Robbie Graham-Kunts). 

            E eu sei que a série é de representatividade gay e bissexual com foco na intimidade masculina através da oposição entre rivalidade e vulnerabilidade. Contudo, eu tenho uma teoria — que não é nada original — de que uma série, filme, peça teatral ou musical precisa de vários elementos para se estabelecer como uma boa obra. Primeiro, um bom roteiro, aqui fiel ao material original; depois, uma boa produção, mesmo que com um orçamento não elevadíssimo e longe dos grandes estúdios estadunidenses; e, por fim, boas atuações. O material original é baseado no livro de mesmo nome, de Rachel Reid, e ela teve a sensibilidade de dar as nuances certas aos personagens. E, óbvio, temos que reconhecer as boas atuações. Gostaria de apontar para alguns personagens da história que dão todo o apoio para que os protagonistas consigam se estabelecer como os mais fofos enamorados de uma série em muito tempo. E, obviamente, quem dá esse suporte são as atrizes coadjuvantes — quando realmente são pensadas como personagens, e não como figuração de luxo.

             E não há personagens secundários ruins nessa série: todos foram desenvolvidos em camadas que, em alguns momentos, contrastam com um dos protagonistas ou mesmo dão todo o estofo para o peso emocional de alguma cena. Destaco aqui quatro personagens femininas: Yuna Hollander (Christina Chang), Svetlana Vetrova (Ksenia Daniela Kharlamova), Rose Landry (Sophie Nélisse) e — vou abrir um parêntese poético aqui — Irina Rosanova, que não aparece fisicamente, mas está contida na atuação de Storrie, por meio da memória afetiva de Ilya sobre a mãe.

            Yuna é uma mãe amorosa e preocupada com a carreira meteórica e bem-sucedida que o filho inicia. Sempre atenta, mas, ao mesmo tempo, capaz de dar espaço suficiente para que ele viva a própria vida. Só em um momento tenta arranjar uma nora sueca da realeza, mas era pura preocupação com o filho sempre estar sozinho — e quem não queria uma nora princesa, não é mesmo? É uma mãe idealizada, quase perfeita. Ela é o primeiro suporte emocional que Shane utiliza para se sentir bem. É confirmado pela própria autora do livro que Shane está no espectro autista, e o próprio Hudson Willians, que o interpreta, disse ter se inspirado no pai, que também é autista, para compor o personagem. Hoje sabemos que o suporte familiar é essencial para que uma pessoa autista consiga se virar bem em sociedade, em conjunto com assistência médica, psicológica e pedagógica. Talvez esse seja o motivo de tanto cuidado por parte de Yuna. Ela sempre acolhe o filho — e depois, o próprio Ilya. Sem dar spoiler, prestem atenção a uma cena do último episódio: só dou a dica de que envolve ele macetando uma macarronada. E sim, tudo isso transparece na interpretação de Christina Chang. E, aliás,  que mulher bonita. As três são.

            Rose é uma atriz de Michigan, com três irmãos, que adora hóquei e fica encantada ao conhecer Shane. Os dois formam um casal que rapidamente cai no gosto do público, para o desespero de Ilya, que começa a entender que seu ciúme é mais profundo e tem outra causa. A aproximação dos dois ocorre de forma suave e leve: eles se conhecem em um restaurante fechado para a equipe do filme, e, por acaso, o dono do local era amigo de Hayden, que joga com Shane, e os apresenta. O ponto alto de Rose como personagem fantástica acontece quando, após uma falha de desempenho sexual de Shane, ela reage de forma totalmente amistosa e o ajuda a entender que talvez um “pino quadrado não encaixe em buraco redondo”, ao que nosso personagem, todo fofo, sem pestanejar, responde que talvez “prefira ser o buraco do que o pino”. O que poderia se desenrolar em algo constrangedor se transforma em uma das cenas mais simpáticas e bonitas da série. Rose explica que já namorou caras gays, está bem com isso e entende Shane. Vale lembrar que, mesmo sem saber, Shane está no espectro autista, e esse diálogo deixa isso muito claro: ele olha para cima, demonstra uma aparente falta de emoção e tem dificuldade de elaborar sentimentos para verbalizá-los. E ela, assim como Yuna, à sua maneira, o acolhe. Dá o ponto de segurança para que ele consiga reconhecer e expressar algo que não queria admitir: ser gay. E não há problema nenhum nisso. Sophie Nélisse — que já roubou muitos livros por aí, em A Garota que Roubava Livros (2013) — consegue transmitir a energia de uma jovem que não se sente rejeitada. Ela entende que não é o objeto do desejo erótico de Shane, por mais que os dois se gostem e se encaixem em muitas outras coisas. A amizade é o caminho.

            Svetlana… Que personagem fantástica. É a minha favorita. Linda, rica, desencanada, parceira, gosta do esporte que Ilya gosta; o pai era goleiro de hóquei. Com ela não tem tempo ruim. Mais do que um suporte emocional para o russo, ela é a amiga da vida inteira. Eles transam de vez em quando, mas a conexão romântica não acontece, e ela não faz drama nem o prende com jogos de manipulação emocional. Quer a felicidade dele, mesmo que seja com “Jane” — que ela sabe quem é, ou pelo menos desconfia. É surpreendente como ela nunca está mal colocada nas cenas. Mesmo quando é apenas uma presença ao lado de Ilya, se impõe com força. Não cobra o que o amigo não pode dar e devolve com generosidade o amor que recebe. Ilya a ama e retribui no que pode e como pode, também com generosidade.

            E a presença de uma personagem que só existe nos olhos tristes de Ilya: Irina. Não sei como ela é tratada nos livros, mas há uma informação — que é spoiler, então não vou escrever aqui — capaz de marcar a alma de um filho de forma indelével, eterna. Ela morreu quando ele tinha 12 anos, e essa ausência ecoa em vários momentos da série. Quando ganha um campeonato, Ilya ergue a taça e a oferece a ela. Naquele momento, ainda não era possível compreender a profundidade dessa ausência. É junto de Shane que descobrimos o quanto essa mulher foi forte e o quanto seu filho sentiu o impacto da perda. Irina é ausência que se faz presença na atuação de Storrie de forma intensa e penetrante, sobretudo no olhar. Tudo o que ele utiliza na composição do personagem é visível, quase palpável. Ilya pode, à primeira vista, parecer um estereótipo homoerótico típico de um livro apimentado, mas sua construção passa por vários caminhos e, nesse caso, por essa ausência — e isso adiciona mais uma camada de profundidade a uma história que não tem nada de leve.

            Por isso precisei escrever sobre essas mulheres. São coadjuvantes, mas todas contribuem de forma decisiva para que a história tenha o peso, o sucesso e a repercussão que vem alcançando. Personagens coadjuvantes são essenciais para que os protagonistas brilhem. E brilharam. Assim como a série inteira — e agora é aguardar os louros que ainda virão.







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English





Heated Rivalry — The Women Who Hold the Story Together

            No, I will not talk about Jane and Lily, the assumed names Shane (Hudson Williams) and Ilya (Connor Storrie) use to deflect any suspicion about themselves — after all, they were rivals on the rink. I also set aside Elena (Nadine Bhabha) and Maria (Bianca Nugara), as they are connected only to Scott Hunter’s (François Arnoud) and Kip’s (Robbie Graham-Kunts) narrative circle.

            I know the series is often framed around gay and bisexual representation. Still, I have a theory — and it’s not even originally mine — that for a series, film, stage play, or musical to establish itself as a good work, several elements must align. First, a solid script, here one that remains faithful to the source material. Then, a competent production, even with a modest budget and far removed from the major American studios. And finally, strong performances. The original material is based on the novel of the same name by Rachel Reid, and she showed remarkable sensitivity in shaping her characters with the right nuances. And, of course, the performances deserve recognition. I would like to focus on some characters in the story who provide the essential support that allows the protagonists to establish themselves as one of the most endearing romantic pairs seen in a series in quite some time. Unsurprisingly, this support comes from the female supporting characters — when they are written as true characters rather than decorative background.

            There are no weak secondary characters in this series. All of them are developed in layers that sometimes contrast with one of the protagonists or provide the emotional backbone for particularly heavy scenes. I would like to highlight four female characters: Yuna Hollander (Christina Chang), Svetlana Vetrova (Ksenia Daniela Kharlamova), Rose Landry (Sophie Nélisse), and — allow me a poetic parenthesis here — Irina Rosanova, who is not physically present but lives within Storrie’s performance through Ilya’s emotional memory of his mother.

            Yuna is a loving mother, deeply concerned about the meteoric and successful career her son is beginning. She is attentive but also capable of giving him enough space to live his own life. At one point, she even tries to set him up with a Swedish princess — pure concern over her son always being alone. And who wouldn’t want a princess as a daughter-in-law, after all? She is an idealized, almost perfect mother. She becomes the first emotional support Shane relies on to feel grounded. It has been confirmed by the book’s author that Shane is on the autism spectrum, and Hudson Willians himself has said he drew inspiration from his own father, who is also autistic. Today, we understand how essential family support is for autistic individuals to navigate society, alongside medical, psychological, and educational assistance. Perhaps that explains Yuna’s careful attention. She always embraces her son — and later, Ilya as well. Without giving spoilers, pay attention to a scene in the final episode; I’ll only say it involves him enthusiastically attacking a plate of pasta. All of this comes through in Christina Chang’s performance. And what a beautiful woman. All three of them are.

            Rose is an actress from Michigan with three brothers who loves hockey and is instantly charmed by Shane. The two quickly become a couple that audiences grow fond of — to Ilya’s despair, as he begins to realize that his jealousy runs deeper and has another cause. Their connection develops gently and naturally. They meet at a restaurant closed off for the film crew, and, by chance, the owner is a friend of Hayden, who plays alongside Shane and invites them both. Rose’s finest moment as a character comes after Shane experiences a sexual performance issue. She responds with warmth and helps him realize that perhaps “a square peg doesn’t fit into a round hole,” to which our endearingly awkward protagonist promptly replies that maybe he “prefers being the hole rather than the peg.” What could have become an uncomfortable scene turns into one of the most tender and sympathetic moments in the series. Rose explains that she has dated gay men before, is perfectly fine with it, and understands Shane. It’s worth noting that, even without knowing it, Shane is on the autism spectrum, and this dialogue makes that clear: his upward gaze, his apparent emotional restraint, and his difficulty verbalizing feelings. And she, much like Yuna, offers him emotional shelter in her own way. She provides the sense of safety he needs to recognize and articulate something he had been resisting: that he is gay. And there is nothing wrong with that. Sophie Nélisse — who famously stole many books in The Book Thief (2013) — brings the energy of a young woman who does not feel rejected. She understands that she is not the object of Shane’s erotic desire, even though they care deeply for each other and share many points of connection. Friendship becomes the path forward.

            Svetlana… what a remarkable character. She is my personal favorite. Beautiful, wealthy, easygoing, loyal, and genuinely invested in the sport Ilya loves — her father was a hockey goaltender. With her, there is no emotional dead weight. More than an emotional support for the Russian player, she is his lifelong friend. They sleep together occasionally, but the romantic spark never ignites, and she refuses to dramatize or trap him through emotional manipulation. She wants his happiness, even if it is with “Jane” — whom she knows the true identity of, or at least strongly suspects. What’s striking is how she is never misplaced within a scene. Even when she is simply present beside Ilya, she commands strength. She does not demand what he cannot give and responds to his affection with generosity. Ilya loves her and reciprocates in whatever ways he can, also generously.

            And then there is the presence of a character who exists only in Ilya’s sorrowful eyes: Irina. I’m not sure how she is portrayed in the books, but there is a piece of information — which I won’t reveal here, as it is a spoiler — capable of leaving a child’s soul permanently marked. She died when he was twelve, and this absence reverberates throughout the series. When Ilya wins a championship, he lifts the trophy and offers it to her. At that moment, the full weight of her absence is not yet visible. It is alongside Shane that we come to understand how strong this woman was and how deeply her loss shaped her son. Irina is an absence made visible in Storrie’s performance with striking intensity, especially through his eyes. Everything he employs in building the character is visible, almost tangible. Ilya may initially appear to be a homoerotic stereotype from a spicy romance novel, but his construction is deeply informed by this absence — adding another layer of depth to a story that is anything but light.

            That is why I felt compelled to write about these women. They are supporting characters, but each of them contributes decisively to the story’s emotional weight, success, and growing impact. Supporting characters are essential for protagonists to shine. And shine they did. Just as the series as a whole did — and now we wait to see the recognition still to come.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Os Sete Relógios: mais Agatha Christie, nem lá, nem cá.

 




Os Sete Relógios: mais Agatha Christie, nem lá, nem cá.

 

            Acho que está virando uma constante: filmes baseados em romances policiais da dama do crime, Agatha Christie — material não falta. Foram 66 romances policiais, fora coletâneas de contos e peças de teatro. Nem sempre as adaptações foram boas. Temos, em 1974, a melhor feita até hoje: Assassinato no Expresso do Oriente, que colocou um elenco estelar dentro do luxuoso trem com o misterioso assassinato de Ratchett/Cassetti que, sob a direção do monstro Sidney Lumet, contribuiu para a histórica vitória de Melhor Atriz Coadjuvante de Ingrid Bergman, que havia se tornado, anos antes, uma pária para a Academia.

            Sete Relógios faz uma adaptação bem mais modesta e sem o participação de Poirot, é interessante que há vários personagens detetives para além do belga perspecaz e da senhorinha fofoqueira de St. Mary Mead, Miss Marple. Aqui temos como detetive da vez um lerdo Battle, feito por Martin Freeman, que parece combinar muito com personagens desse tipo. A história acompanha mais de perto Lady Eileen “Bundle” Brent, interpretada por Mia McKenna-Bruce, cujo trabalho eu não conhecia. O grande problema — ou solução — é que, ao lado dela, está Helena Bonham Carter, vivendo sua mãe, Lady Caterham. Helena eleva o nível de tudo. E olha que não é nem de longe sua melhor interpretação: ela compõe uma britânica aristocrática falida, contida, mas sarcástica, avessa a sair de sua decadente propriedade herdada do marido, que morreu misteriosamente longe de casa, e do filho, que se foi na guerra.

            A propriedade foi alugada por uma temporada para um casal rico que acaba finalizando sua hospedagem com uma festa e, nessa ocasião, um amigo de Lady Eileen não acorda mais após uma dose mortal de sonífero. Ele não era do tipo que precisava de remédios para dormir e, aparentemente, não se mataria, pois tinha planos de se casar com Eileen e durante o evento marcou um encontro com ela para a semana seguinte e tratar do assunto.

      Eileen, impulsionada pela perda, decide investigar e se esbarra constantemente com um Battle, até certo ponto atrapalhado, que a adverte de todas as formas para não se envolver no caso. E uma nova morte só reforça que há, de fato, um grande perigo iminente.

            Comecei a ler as histórias de Agatha Christie muito novo. E, apesar dos crimes, tudo era conduzido com certa leveza. A crítica à sociedade inglesa me passava um pouco batida, mas ela sempre esteve lá, discreta. Os filmes e séries conseguiram resgatar isso e acabam dando uma tonalidade mais densa ao que a dama do crime apenas pincelava em aquarela. Uma coisa que percebi é que ela tinha seus melhores momentos geralmente com Poirot ou Miss Marple e, às vezes, com outros personagens, nas histórias estritamente de mistério em ralação a um crime da alta sociedade. Já nas tramas influenciadas pela guerra, conspirações e espionagem, ela derrapava bastante. Sociedades secretas que se unem para dominar o mundo, como em Os Quatro Grandes, ou para ajudar a Inglaterra — caso desta minissérie de três capítulos — fazem com que ela perca a mão. Depois de tantos filmes pesados sobre a Primeira e a Segunda Guerra, essas histórias acabam soando quase pueris. E esta é uma delas.

            O roteiro adota um ritmo um pouco lento, mas nos presenteia com uma boa reconstituição da Londres dos anos 1920. Mesmo com a história caindo nessa ingenuidade em relação a uma conspiração e a uma sociedade secreta chamada justamente Sete Relógios, o enredo não se sustenta tanto além das boas interpretações.

            Nem lá, nem cá, percebo que Sete Relógios é um daqueles filmes que atendem à necessidade da família de assistir a algo aos fins de semana, sem desagradar ninguém, e que acaba se perdendo depois de uns meses, como tantos outros títulos, no amontoado de produções no menu da Netflix. Só de pensar em procurar um filme sem indicação, minha ansiedade já começa a apontar. Talvez uma resenha como esta sirva justamente para dar uma luz. Voltando ao que disse no começo do parágrafo: nem lá, nem cá — apenas uma adaptação bem-feitinha de um livro da Sra. Christie. E, pelo que sei, está vindo uma nova leva de filmes por aí. As redes britânicas estão adaptando tudo o que podem. Pena que nem tudo tenha chegado ainda por aqui. Aproveito o que aparece.





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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Maurício de Sousa: O Filme - Onipresente em nossa cultura

 



                               Maurício de Sousa: O Filme - Onipresente em nossa cultura


            Já vou começar com o único ponto fraco desse filme — na verdade, são dois. O primeiro é a complacência ao mitificar um personagem histórico sem considerar com mais cuidado seus pontos negativos. Temos uma tendência de não expor nada que possa riscar a imagem de grandes ídolos brasileiros, somos comedeidos demais. O segundo ponto é a escolha do ator para viver o Maurício: o próprio filho, Mauro de Sousa. Fica evidente que ele não tem a mesma profundidade dramática de atores mais experientes, como Natália Lage, que interpreta sua mãe, Elisabeth Savalla, como uma avó amorosa, ou mesmo Thati Lopes, conhecida por sua atuação no Porta dos Fundos, que faz a primeira esposa, Marilene. Até mesmo Othon Bastos, que aparece rapidamente como Jayme Cortez, da Editora Continental, onde a revistinha infantojuvenil Zas Traz encerra as primeiras historinhas em quadrinhos do desenhista, consegue dar mais profundidade ao personagem do que Mauro. Vamos combinar: ele é carismático, mas não há muitas nuances de emoções, assim como sua expressão quase congelada em um bom humor eterno. Contudo, o mito Maurício é muito maior, e a reverência a ele é executada com grande respeito pelo diretor Pedro Vasconcelos, em co-direção com Rafael Salgado. Vasconcelos, junto de Paulo Cursino, assina um roteiro bem pé no chão e, ao mesmo tempo, capaz de fazer a magia ser tornar presente — especialmente quando, em determinado momento, os personagens começam a aparecer nos traços de Maurício, sem nunca degringolar para o fantástico, só uma licencença poética.

        A história acompanha Maurício ainda criança, passa por suas lembranças e caminha em direção às primeiras conquistas. Para surpresa de alguns e alegria de quem já sabia, o primeiro personagem pula do papel ainda sem a cor azul característica — que foi, na época, um erro de impressão e acabou se tornando sua marca registrada: Bidu. O filme também explica suas inspirações. E, para minha surpresa, o Cebolinha apareceu antes da Mônica, que acabou reivindicando seu lugar de principal estrelato. A cada referência ao que estava ao seu redor, ou às suas memórias, eu me emocionava com as cenas de Maurício criando.

        A partir daqui, entro numa digressão, mas tudo o que eu tinha para falar do filme em si já foi dito.

        Às vezes, eu me pego pensando no que me faz brasileiro além do simples fato de ter nascido no Brasil. Hoje, com o advento da internet e de aplicativos como o Instagram, ou mesmo plataformas como o YouTube, vejo estrangeiros, em seus próprios países, encantados com a cultura brasileira. Estamos vivendo um ótimo momento internacional. Se conseguirmos alinhar nossas polarizações internas em favor do bem-estar da população, isso certamente refletirá em avanços significativos para todos nós. Uma fala, certa vez, me chamou a atenção — não me lembro da nacionalidade da pessoa —, mas ela dizia que, por mais que alguém usasse a camisa da seleção brasileira e chinelos Havaianas nos pés, era visível que não se tratava de um brasileiro. Segundo ela, mesmo de costas, conseguia reconhecer um brasileiro, pois um estrangeiro, por mais que tentasse, não tinha a mesma postura. É justamente nessas coisas que eu fico pensando: o que nos dá essa — por falta de palavra melhor — energia? Para mim, são vários fatores: crenças e valores partilhados em nosso território (há os gerais e os regionais), nossa memória e nossa história, conhecimentos específicos e uma cultura que comporta manifestações infinitas. E é aqui que junto minha digressão ao tema de Mauricio de Sousa: O Filme. Eu não consigo dizer quando conheci a Turma da Mônica. Se foi pela televisão, pelos gibis ou pelo cinema. Para mim, ela simplesmente estava lá desde sempre. Minha memória mais antiga é de ir assistir ao filme A Princesa e o Robô, lançado em 1984, mas eu já flertava com os gibis mesmo sem saber ler. Quando aprendi, aqueles personagens estavam onipresentes em toda a minha infância e adolescência. Por mais “roqueira” que essa fase tenha sido, eu não abandonei as coisas de que gostava. Até tentei ler X-Men, mas, na época, as histórias ainda eram confusas, se prolongavam por várias edições e eram caras. Uma edição da Turma da Mônica se encerrava em si mesma e, quando dava, comprava-se outra.

        Agora, quer saber o que era ostentação para mim depois de um tempo? O Almanacão de Férias da Turma da Mônica. Esse eu fazia questão de ter, e, quando não dava para comprar, eu ficava frustradíssimo. Além das histórias que eu lia avidamente, o que mais gostava era o miolo, que vinha cheio de jogos, caça-palavras e desenhos para colorir. Eu achava que pintava muito bem, e as horas passavam enquanto eu sugava toda a diversão possível. A Disney até tinha uma versão sua, não chegava aos pés da Turma da Mônica. Cresci e fui estudar fora. Primeiro, cursei Filosofia, mas acabei dando uma parada, pois mal dava tempo de ler os livros exigidos para provas e trabalhos. Ainda assim, sempre dava uma olhadinha nas tirinhas dos jornais, e lá estavam meu tripé da infância, agora vida adulta: Garfield (cheguei a ter um jogo dele, de tanto que amava), Snoopy (tive livros de colorir, brinquedos e, já adulto, vários produtos) e, obviamente, a Turma da Mônica. Como professor de Língua Portuguesa, via com alegria que sempre havia alguma referência a Maurício de Sousa nos livros didáticos, por meio de tiras. E quantas campanhas e publicidades com sua marca nos acompanharam? Só nunca entendi muito bem o saco de maçãs da Turma da Mônica, pois sempre achei as frutas miúdas e feias. Fora isso, tudo fazia sentido.

        Em 2023, comecei a frequentar a Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo. Eu morava ali, na esquina da Rua do Arouche com a Rua Aurora, bem perto. Em meio às pesquisas por novos autores brasileiros, descobri que havia um bom acervo de HQs adultas. Como eu raramente consumia esse tipo de material por ser relativamente caro, decidi pegar alguns títulos que me chamaram a atenção, para finalmente ter acesso a esse universo que eu sempre soube que existia, mas nunca tinha explorado. Entre vários títulos, me deparei com Astronauta: Magnetar. Que pancada. Ver um personagem do Maurício nos traços e textos de outros artistas, pelo projeto Graphic MSP, foi arrebatador. Justamente ao ceder seus personagens para outros criadores, cada artista imprimia contornos autorais às histórias — e que histórias. Houve narrativas adultas, preciosidades tocantes. Jeremias: Pele é um soco no estômago ao tratar do racismo. Não vou conseguir listar todos os artistas envolvidos, mas, pelo que soube na própria HQ, cada um escolhia um personagem e tinha total liberdade para elaborar sua visão, desde que preservasse a essência e as características visuais básicas. É um primor atrás do outro. Não consegui ler todos, pois nem sempre estavam disponíveis e, além disso, o preço ainda pesa para mim. Dos que consegui acessar, li tudo. Abaixo eu elenco os que li e dou um resumo da história.

        Assim, entre tantas coisas que me dão o estofo de ser brasileiro, Maurício de Sousa ocupa um lugar central nesse universo nacional que nos influenciou, muitas vezes, sem percebermos. Ele é um patrimônio brasileiro, de tão onipresente que se fez em nossa cultura. Ainda acho que a Academia Brasileira de Letras perde a chance de torná-lo um imortal. Poucos fizeram tanto pela educação e incentivaram tanto a leitura quanto essa turma criada pelo mestre Maurício. Ainda existe muito preconceito em relação às HQs serem ou não consideradas literatura, por se tratarem de uma arte híbrida e relativamente recente. Ainda assim, é impossível negar a influência que exerceram sobre a maioria de nós. Por isso, um filme sobre Maurício é necessário. É reverência — uma entre tantas que ele merece.

Graphic MSP

            Vou colocar abaixo os que eu li, com um breve comentário sobre cada um. O número à frente corresponde ao seu número na coleção, o personagem que está como principal, o artista responsável e a data de publicação.

Vol. 1 - Astronauta: MagnetarDanilo Beyruth (roteiro e arte) — Nov 19, 2011 - Vemos um Astronauta envolto em paranoia por estar tanto tempo sozinho e isolado após um acidente próximo a um magnetar, que eu juro que tive que pesquisar o que era. Meu campo da física é limitadíssimo.

Vol. 2 - Turma da Mônica: LaçosVitor e Lu Cafaggi — Jun 1, 2013 - Floquinho sumiu, Cebolinha recorre à ajuda da Mônica, Cascão e Magali para tentar achar o bichinho, reforçando os laços de amizade que tinham;

Vol. 3 - Chico Bento: Pavor EspacialOrlandeli — Aug 1, 2013 - Só uma informação aqui: de longe, o Chico Bento é meu personagem favorito. Não sei se é por me ver representado nele, fui uma criança do interior, com um "pé" de goiabeira no fundo do quintal, que vivia indo a açudes e rios tomar banho (é muita licença poética e exagero, mas eu fui algumas vezes). O jeito de falar, sempre senti muito carinho por esse personagem. A escolinha da roça, eu estudei em uma que parecia muito a escola dele, uma "casinha" com uma sala só praticamente. E me surpreendeu ver que misturaram ficção científica com o Chico em uma história de abdução, e muito engraçada;

Vol. 4 - Piteco: IngáShiko — Nov 28, 2013 - Eu li o Shiko, em uma entrevista, falando sobre ele usar uma referência pré-histórica brasileira na história do Piteco. Eu mesmo não conhecia a Pedra do Ingá. E gostei de ele fazer uma Thuga toda voluptuosa em trajes sumários. Um escândalo...

Vol. 5 - Bidu: Caminhos Eduardo Damasceno & Luís Felipe Garrocho — Aug 1, 2014 - Pense numa história fofa. Nos quadrinhos tradicionais, quando o Bidu se encontra com os cães do bairro, ele conversa. Aqui também, mas sem uma palavra sequer: só se usam imagens. E, estando abandonado na rua, a história tenta mostrar como o Franjinha o conhece, o acolhe e se torna seu tutor.

Vol. 6 - Astronauta: SingularidadeDanilo Beyruth — Dec 19, 2014 - Outro termo que eu não fazia ideia do que era e tive que pesquisar. Aqui, as consequências da história anterior se fazem presentes, e ele é enviado a uma nova missão com uma psicóloga, que está cuidando de laudos sobre ele estar ou não apto a continuar o trabalho, e um pesquisador estrangeiro que parece muito mais atrapalhar do que ajudar. E temos uma referência aos Homens-Geleias, que já apareceram nos primórdios das histórias do Astronauta.

Vol. 7 - Penadinho: VidaPaulo Crumbim & Cristina Eiko — May 6, 2015 - Alminha desapareceu e Penadinho descobre que ela vai reencarnar e precisa conversar com ela mais uma vez. Contudo, Alminha foi sequestrada por um vilão que coleta almas, e Penadinho e seus amigos Frank, Zé Vampir e Muminho vão tentar resgatar a amiga. Era uma turma de que eu gostava muito também. Era sobrenatural que não me dava medo.

Vol. 9 - Turma da Mata: MuralhaRoger Cruz, Davi Calil & Artur Fujita — Sep 27, 2015 - Pensa numa subversão maravilhosa. O rei Leonino vira um tirano que explora um metal raro e cobiça as terras da mata, onde uma resistência contra sua tirania se forma. No meio disso, temos um Jotalhão que, raptado quando criança, é criado para ser um ninguém burocrático. E, ao se ver envolvido na trama política, tem que vencer sua covardia e tomar um lado. E temos direito a uma piada sobre ele ser mais conhecido por seu molho de tomate. Até hoje ele é garoto-propaganda de um extrato de tomate;

Vol. 11 - Papa-Capim: Noite BrancaMarcela Godoy & Renato Guedes — Apr 21, 2016 -É um terror perturbador que transforma a invasão europeia em uma maldição imposta aos povos indígenas;

Vol. 13 - Bidu: JuntosEduardo Damasceno & Luís Felipe Garrocho — Nov 1, 2016 - Ao ser acolhido da rua, Bidu tem alguns comportamentos que não são adequados para o convívio numa casa. Aqui vemos a relação dele com seu tutor Franjinha acontecendo.

Vol. 15 - Chico Bento: Arvorada Orlandeli — May 8, 2017 - Temos árvores que florescem aqui no Brasil que são um espetáculo. E o ipê é uma delas. A história versa sobre o amor do Chico pela vó Dita. E, como todas as avós, ela não é eterna, e o ipê florindo é o símbolo da superação do luto, que se transforma em boas lembranças ao ver uma coisa que sempre esteve por ali, que agora toma outro significado.

Vol. 16 - Capitão Feio: IdentidadeMagno & Marcelo Costa — Sep 6, 2017 - É absurda a insinuação presente nessa história sobre a população em situação de rua de São Paulo e o uso do crack. O tema nunca é citado diretamente, mas aparece em insinuações: no que é desenhado ao fundo do quadro, nos devaneios do personagem, em seu refúgio no lixão, em sua sensação de poder. Não sabemos se aquilo é real ou fruto de sua mente tomada pelo vício. E não é oficial essa versão, é uma leitura que eu tive. Para mim, é claramente o delírio de um homem que está em situação de rua e em vício... Lógico que vem depois uma situação fantástica, mas está lá a insinuação.

Vol. 18 - Jeremias: Pele Jefferson Costa — Apr 25, 2018 - Você já teve a sensação de um dia pensar "vou ler uma coisinha leve e fofa" e toma um soco no estômago? É o que aconteceu com essa história necessária. O Maurício — e ele mesmo explica isso no comentário que faz sobre a história específica, ele faz uma apresentação em cada uma das obras — disse que evitava alguns temas em suas HQs. O racismo, por exemplo: ele imaginava só brincadeiras de crianças, sem os desgastes do mundo adulto, pois seu público-alvo, ele julgava, não deveria ser exposto a isso naquele momento. Pele leva isso a um patamar que uma pessoa branca nunca vai viver. Sem contar que, deliciosamente, ele usa obras que estão espalhadas pela cidade de São Paulo, realizadas por artistas pretos ou que representam a cultura preta, como fundo dos quadros. E está lá também o racismo no seu mais sofisticado e nefasto braço. Eu sempre andei pelo centro de São Paulo e nunca fui abordado por nenhum policial. E, se fosse, estava com meu RG e tudo bem. Para pessoas pretas, não basta o RG, e eu descobri nessa HQ isso. É de se indignar mesmo.

Vol. 19 - Horácio: MãeFábio Coala — Jul 20, 2018 - É apelação pura — chorei como uma criança com a história do dinossauro comedor de alface que se perde da mãe e tenta reencontrá-la a qualquer custo. E o final... O final é o que é. 

            A Graphic MSP existe até o Vol. 47. Maurício Repórter, por Flávio Teixeira e Mauro de Souza, foi publicada, segundo as informações a que tive acesso, em dezembro de 2025. Eu queria ter lido todas; ainda não consegui.






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 Banco Inter — Vinícius Motta

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Pluribus - e a necessidade de assistir tudo antes de comentar.




Pluribus - e a necessidade de assistir tudo antes de comentar.

            É isso que eu falo no título: é uma percepção copiada da fantástica Isabela Boscov. Eu tinha com essa mulher uma relação de amor e ódio. Lembro que lia suas resenhas na extinta — da minha única e exclusiva parte — Veja. Por anos, essa revista, junto com a IstoÉ, transformaram e manipularam muito bem a opinião pública, principalmente na política. Bem ou mal, hoje, com o crescimento da influência das redes sociais, estamos caminhando para uma certa diversidade de pontos de vista; pelo menos, a manipulação é mais sabida por meio dos algoritmos, e estamos lidando com situações muito novas, que ainda carecem de legislação para resolver isso. Eu não tinha outros meios de conhecer opiniões diferentes sobre filmes naquela época além do que era impresso; às vezes, na televisão, um mirrado programa aqui ou ali falava diretamente de cinema. Talvez isso tenha me influenciado a palpitar tanto nessa área sem uma formação específica. Isso me incomoda um pouco, por um lado; por outro, lembro que sou formado em Letras, tive uma formação — ainda que ruinzinha — em Filosofia e amo o processo narrativo, então talvez isso me ajude a ter uma opinião menos leiga. Ela ainda é leiga, pois vários elementos me escapam em minhas análises imperfeitas. Então, como não profissional, tento levar isso como hobby.Voltando à Boscov, nem sempre concordava com ela — e quem sou eu na fila do pão para achar que minha opinião contava? —, mas, ao mesmo tempo, estava lá semana após semana lendo suas resenhas.

            E quando ela disse, em um vídeo recente em seu canal do YouTube que assisti, que não iria comentar sobre Stranger Things quando lançaram o primeiro volume da quinta temporada, pois queria assistir a tudo para ter uma visão mais global do conjunto concluído, percebi que estava cometendo exatamente o erro oposto. Eu assistia a alguns episódios e já resenhava, correndo o risco de nem acabar a série e não concluir um comentário relacionado ao seu desfecho.

            Para escrever este texto, não reli o anterior, para manter as impressões separadas e perceber depois como uma opinião pode mudar em relação a uma obra quando ela é vista por inteiro. Olhei apenas a data em que postei no blog: 29 de novembro de 2025. Hoje, o dia em que estou escrevendo — não necessariamente o dia em que vou postar — é 10 de janeiro de 2026. E minha opinião mudou um pouco. Ou muito. Sei lá. Como disse acima, não reli, propositalmente.

            A premissa é interessante: a humanidade é infectada por uma espécie de vírus alienígena que cria uma consciência coletiva mundial entre todos os humanos contaminados, enquanto algumas pouquíssimas pessoas não sofrem com isso. Quem está infectado vive em um estado constante de alegria e paz. Carol, interpretada por Rhea Seehorn — muito bem, por sinal —, é apresentada pela série como “a mulher mais triste do mundo”. Ela não é triste; é uma babaca sem apoio dos outros humanos não infectados e só faz merda. Tudo o que faz para tentar resolver o que acredita ser um problema acaba sempre matando milhões de espécimes humanos contaminados. As criaturas não podem guardar segredos, não mentem, não dizem “não” e tentam agradar o tempo todo. Naturalmente, trabalham para que todos estejam infectados em pouco tempo e possam viver naquele planeta. Contudo, nem colher uma maçã de uma árvore podem, para respeitar a vida. Ou estão fadados à extinção, ou são gado para outras criaturas que estão para chegar se alimentarem. Duvido que a série vá por esse caminho; acho que a mensagem é outra: o americano loiro, de olho azul, vai salvar o mundo, para a miséria anterior como se ela fosse a solução.

            A série termina como começou, em um monotom de enredo que combina com a fotografia belíssima. São só ângulos bonitos da vastidão das cidades, do mundo, do bairro em que Carol vive, intensificando a sensação de solidão da personagem ao se ver sozinha. Ela até tenta dar uma trégua com os alienígenas, até descobrir que eles tiveram acesso ao seu material genético de um jeito que faz sentido apenas dentro da lógica um pouco tênue da série. E para variar há um paraguaui “do Paraguai” (Carlos Manuel Vesga) de tão fake em suas ações. É o problema de se escrever algo quando não se sabe realmente o que se passa em uma determinada cultura.

            Admito que foi um suplício assistir; por isso, demorei tanto para escrever esta segunda parte. E não sei se volto a assistir à segunda temporada. Nunca gostei muito do formato de série; talvez por ser ansioso, sempre me angustiou acompanhar um episódio por semana. A última série que fiz isso foi Penny Dreadful (2014), e eu queria morrer ao terminar a temporada e ter que esperar o ano seguinte. Quando decidi deixar Game of Thrones para assistir tudo de uma vez, depois de finalizada, os episódios finais foram tão contrários à essência dos personagens que aquilo foi, literalmente, um tiro no pé. Nem quis começar a assitir após a fatídica e mal escrita morte de Daenerys.

            O streaming ajudou um pouco, e passei a maratonar quando dava, mas ainda me incomoda esperar um ou dois anos por uma nova temporada. Muitas vezes, depois de tanta espera, somos presenteados com uma decepção homérica. Percebi que gosto de séries curtas, fechadas em si mesmas. American Horror Story, por exemplo: não pretendo assistir a todas as temporadas, apenas às que me interessam, e está de bom tamanho.Outra perfeita foi Flea Bag que não precisava ter uma segunda temporada e quando teve foi muito boa também.E tinuam histórias conectadas pela personagem principal e pela família dela sem a história depender da primeira temporada. Não gosto dessa ideia de ficar preso, “fiel”, a uma história que pode ou não agradar, mas à qual estou envolvido a ponto de esperar a próxima temporada. Fazia sentido assistir fielmente uma novela quando não havia muito o que fazer além de ligar a televisão aberta sob o domínio massivo da Rede Globo. Agora? Se posso escolher o que fazer, onde ir, em que horário acessar, por qual motivo vou aceitar um lindo grilhão dourado preso a uma obra que pode me decepcionar?

            Natiruts já versava: “Liberdade pra dentro da cabeça”. Eu digo mais: liberdade para fora das telas da televisão, do notebook e do celular, e liberdade para não ficar esperando nada que me cause ansiedade e gastura. Decididametne eu preciso voltar à psiquiatra e pegar mais receitas para os meus remédios…


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Heated Rivalry - Rivalidade Ardente

 


Heated Rivalry - Rivalidade Ardente

            Um amigo de um primo que é irmão da cunhada do tio da vizinha da irmã do padeiro, que trabalha na cidade onde o sogro da fisioterapeuta de uma conhecida mora, me contou que assistiu a essa série e que ela é muito boa. E ainda não está disponível no Brasil, por isso vou ter que acreditar no que me falaram. (Risos)

            A série é baseada no livro de mesmo nome da escritora Rachel Reid, que é o segundo volume da série de livros esportivos e quentes Game Changers. Pelo que vi com alguns influenciadores que falam sobre esse assunto, os produtores da série escolheram fazer uma produção independente de grandes produtoras para manter o controle criativo e deixar tudo o mais próximo possível da alma do livro. Sem as censuras hipócritas dos estadunidenses, por isso tudo é feito no Canadá e depois distribuído para o streaming de forma não unificada. Cada lugar teve um contrato fechado com um serviço diferente. E a America latina, em consequência o Brasil ficou de fora até a HBO Max bater o martelo e pagar pelos direitos… Particularmente, acho que demorou; só estreará oficialmente por aqui em fevereiro desse ano.


            E realmente a história coloca um romance entre dois homens dentro de um universo muito masculino: a liga esportiva de hóquei, que, assim como o universo do futebol no Brasil, é um lugar de muita “macheza”. A autora dos livros trabalha com estereótipos, e a versão em série segue essa linha. Na história usada para a adaptação vemos dois jogadores que são opostos em tudo. De um lado, Shane Hollander (Hudson Williams), um asiático-canadense todo certinho, com uma família estruturada que preza muito pela sua imagem comercial e que, apesar de competitivo, é bem submisso e passivo na cama. Do outro, temos o russo Ilya Rosanov, com família disfuncional, um irmão que o explora, pai com lapsos de memória, órfão de mãe e todo malvadão — dotado, ele faz questão de falar a metragem em certo momento — e ativão dominador e fumante.

            Heated Rivalry, que eu ainda não consegui pronunciar direito com meu inglês capenga, ganhou uma tradução um tanto brega: “Rivalidade Ardente”, nome que não estão usando muito para designar a série. Essa tradução faz parecer um título das antigas e famosas séries de romances picantes Bianca, Sabrina e Júlia. Daí o motivo das descrições tão específicas pouco acima. Era bem a cara desses livros que se compravam em banca de jornal. Só dando os créditos, essa comparação com Bianca, Sabrina e Júlia é do @andredoval lá no Instagram (E parece que deu rebuliço com o diretor geral da HBO, enfim, confiram lá o vídeo dele que é mto bom)  E, no fundo, é isso mesmo: um livro picante, só que gay. E a série conseguiu colocar muita sensualidade nas cenas de amor entre os personagens. Um macho hétero de família tradicional cristã ficaria incomodado com tamanhas ousadias que ele finge não existir (e muitas vezes, um ou outro, vivencia com o parça dos jogos de quarta-feira enquanto a esposa fica em casa cuidando das crianças). Agora, se tiver mente aberta — o que não é piada —, o homem heterossexual até vai gostar, mas só se não tiver masculinidade frágil a ponto de não conseguir ver dois homens se beijando, o que acontece com certa frequência.

            A série também trabalha o arco do romance entre outro jogador, Scott Hunter (François Arnoud), impetuoso, assertivo e direto, e o barman Kip Grady (Robbie Graham-Kunts), meigo, inseguro, pobre, baixinho e fofo. Percebem os estereótipos comendo solto por aqui? Eles agradam o público feminino em certo ponto e o masculino em todos os pontos.

            Indiferente aos clichês homoeróticos envolvidos, eu achei a série um respiro nessa onda de produções pesadas, elaboradas e superproduzidas, com apelo global. É só um romancezinho, com momentos fofos e uns bumbuns aparecendo aqui e ali...Tá, quase em todo episódio tem muito bumbum. E, em ambos os casais, o amor entre duas pessoas vai sendo elaborado e conduzido de acordo com o meio em que desenvolvem seus trabalhos como esportistas, um meio ainda muito machista. Contudo, e dou total crédito a autora do material original, Rachel Reid, que conseguiu colocar muitas camadas psicológicas nos personagens. 

            Algumas cenas aparecem soltas na timeline das redes sociais. Eu mesmo fiquei sabendo da série pelo Instagram. E realmente é um refresco diante de tanta coisa que andamos assistindo por aí. É curioso chamarem de série — sei que é pelo formato —, mas ela tem uma carinha de novelinha das 19h, um pouco proibida para menores de 18 anos. E, sem dar spoiler, há uma das cenas mais bonitas que já vi sobre expressar o amor: é do personagem Ilya, que, após uma situação específica, está muito abalado, e o Shane pede para ele falar tudo o que quiser, mas em russo, mesmo ele não entendendo a língua, só para que o outro se sinta bem, já que não consegue se expressar tanto em inglês. Ilya diz tudo o que não tinha coragem de falar e faz uma declaração muito fofa e piegas e o Shane sem entender nada só sentido o tom de voz embargado de emoção. Se não tiver preconceito nenhum, assista. Amor é sempre bonito de ser ver quando celebrado e vivenciado, mesmo que seja através de uma tela.




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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O último azul - “E velho lá tem futuro?”

 



O último azul - “E velho lá tem futuro?”



            Daniel Mascaro é o diretor de O último azul e também um dos responsáveis pelo roteiro e, ao colocar esta frase na boca da personagem Tereza (Denise Weinberg) — “E velho lá tem futuro?” —, abre a discussão sobre o nosso próprio futuro, que é a velhice. Como tratamos nossos idosos? 

            Ele imagina um Brasil de um futuro indeterminado, onde pessoas que atingem a idade da aposentadoria são levadas para uma colônia e ali passam o restante da vida, longe da sociedade. Não é diferente do que já fazemos, em certo grau, com nossos idosos. E é bom pensar no assunto, principalmente, porque todos nós, se tudo der certo, um dia nos tornaremos idosos e o número desse grupo social tem aumentado. Alguns alarmistas dirão que o país vai quebrar pois a prirâmide de arrecadação está invertendo pois a população não está com tanta natalidade assim e o povo está se tornando longevo. Só lembrando que estão preconizando a quebra do país desde a abolição da escravatura. 

            Chega o momento de Tereza, e ela não quer ir para a colônia de idosos ao mesmo tempo que já não se conecta com a própria filha. Ela quer, pelo menos, fazer algumas coisas que não pôde fazer, pois nunca teve tempo ou dinheiro suficientes. O interessante no filme é que ele não se passa em um centro urbano sofisticado, mas em uma comunidade ribeirinha na Amazônia, e isso deixa tudo ainda mais interessante. Ela consegue despistar os agentes do governo e, com a ajuda de Cadu (Rodrigo Santoro), segue de barco até um lugarejo onde, teoricamente, poderia finalmente voar. 

            No meio do caminho, aparece um caramujo de baba azul que tem o poder místico de revelar o futuro apenas pingando a baba nos olhos. Tereza não faz uso da baba, que Cadu prontamente coloca nos próprios olhos, iniciando suas reações: febre, delírios e visões.

            Após a normalidade restabelecida, ela consegue chegar ao vilarejo, onde há um sujeito com um aeroplano, mas que precisa de conserto; ele apenas tira o dinheiro dela, se embebeda, e Tereza resolve ir embora. Nesse percurso, conhece Roberta (Miriam Socarrás), que tem um barco, é missionária e vende bíblias digitais. Ela não acredita em Deus; apenas vende o produto para conseguir dinheiro e possui uma carta de “alforria”, que a libera da obrigatoriedade de ir para a colônia de idosos. As duas vivem um romance e acabam se esbarrando novamente com o caracol. Alucinada, Tereza resolve jogar tudo o que tem em um cassino à beira d’água e consegue ganhar dinheiro suficiente para comprar sua própria carta de “alforria”. Indiferente ao que o futuro lhe reservava, Tereza construiu o seu futuro.

            É interessante notar que idosos sempre são retratados em função de algum personagem mais novo. Aqui Tereza é a personagem que importa, que está apagada pela vida e somente quando perde o direito de estar na sociedade que a fustigou e maltratou tanto é que ela realmente vive. Um amor com outra mulher da mesma idade. E isso deve nos atentar que há sim uma vida afetivo-sexual na terceira idade. Ela acontece indiferente nós sabermos ou não. E Tereza não foge do que suas escolhas propiciam, ela decide viver da melhor forma possível sua vida. 



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sábado, 3 de janeiro de 2026

Thunderbolts - Precisamos falar sobre o Bob e doenças mentais.




 Thunderbolts - Precisamos falar sobre o Bob e doenças mentais.

Se tem uma coisa que a Marvel anda fazendo é merda — e muita, daquelas que se senta em cima e esparrama com a própria bunda. Eu realmente não entendo como os produtores querem embolsar dinheiro com o mínimo esforço. Aí, não contentes em criar um universo próprio, cheio de reviravoltas complexas, expandem esse universo para um multiverso. E quando isso fica na mão de artistas de HQs, eles se preocupam um pouco mais, e muitos não só querem ganhar dinheiro: vestem a camisa do que estão escrevendo e desenhando. É bom ver algo seu, com seu estilo, aparecendo um pouco, e não ter seu talento diluído numa equipe praticamente terceirizada e assalariada para desenvolver não uma ideia artística, mas um conceito econômico com aparência de arte — o que deve ser realmente frustrante. Ao mesmo tempo em que é uma grande honra trabalhar numa produtora de filmes do porte da Marvel, você será apenas mais um nome minúsculo numa tela preta. Um filme envolve muita gente para um indivíduo se sobressair; se ele não for ator, nem o diretor ultimamente tem aparecido. Se tem uma coisa que as grandes produtoras não gostam é direção autoral. Só que, quando um nome sobressai, correm lá para sugar o que conseguirem de sucesso daquele desavisado. Se for realmente bom, tome um biscoitinho: um Oscar de Melhor Direção ou, quem sabe, um Globo de Ouro, um BAFTA, um SAG… Palma de Ouro, Urso de Ouro ou Prata? Isso é coisa para europeu ou filme de verdade, não enlatado. Hollywood é arte a serviço da produção em massa para gerar lucros. Nem precisa tanto de arte: alguém faz algo artístico uma vez, dá certo, e os demais replicam exaustivamente a fórmula para aplacar a fome de mesmice que as mesmas pessoas têm, até que elas reclamem que tudo está igual; aí aparece um novo divisor “diferentão” e todo mundo replica de novo, num grande processo circular, como numa autofagia infinita.

Autofagia é o processo biológico no qual as células do corpo digerem e reciclam seus próprios componentes danificados ou desnecessários. Nesse processo, temos obras-primas que parecem inovadoras, mas são colchas de retalhos tão bem costuradas que se pensa serem peças únicas. Um grande costureiro desse tipo de colcha é Quentin Tarantino. Se você pegar Kill Bill: Vol. 1 e Vol. 2, vai ver uma criatura tão híbrida que mal dá para dizer o que é original e o que é “homenagem” a outros filmes. E tem mais: alguns conseguem ser muito discretos, outros alcançam a façanha de se autofagiar a si mesmos (a redundância é proposital).

O que importa é que, indiferente à história genérica de anti-heróis desajustados — e como disse em Wandinha, se todo mundo é excluído e, no caso daqui, desajustado, não existem ajustados ou incluídos —, se todo mundo é diferenciado, na verdade ninguém é: são todos iguais.

Nesse grupo de anti-heróis desvirtuosos aparece, do nada, o Bob. De início, ninguém sabe quais são seus poderes, se é que tem algum. Mas seu toque atinge fundo a Yelena (Florence Pugh) em uma memória bem específica; depois, em John Walker, o quase substituto do Capitão América, o Agente Americano (Wyatt Russell), que não vingou; e, por fim, pega de surpresa a Valentina (Julia Louis-Dreyfus). Entre essas manifestações, também se descobre que há outros poderes: ele é indestrutível, voa, tem superforça. E é aqui que temos o que mais me interessou: ele é um homem fragmentado, com uma doença mental grave. Na mesma medida em que é cheio de poderes para o bem, seu lado “mau” tem valor oposto equivalente. Ele transforma as pessoas em borrões de sombra preta espalhada, como se fosse pó de impressora — quem já mexeu em uma sabe como impregna e se esparrama; é exatamente essa aparência. E, lógico, esse lado sombrio vai aparecer.

Esse filme, mais do que ser de super-herói — ou de anti-heróis —, é uma forma didática de perceber como lidar com uma doença mental. A Yelena está com depressão; o Walker, também; o Alexei / Guardião Vermelho (David Harbour) está sem perspectiva e se mantendo à base de muita vodka; o Soldado Invernal (Sebastian Stan) não tem a cabeça no lugar desde que perdeu seu grande amor — digo, amigo —, o Capitão América, fora tudo o que a Hidra fez com seu cérebro. E é interessante notar que, quando o lado obscuro do Bob toma conta, é a amizade que o faz voltar a si.

Não estou mais falando do filme em si, mas do personagem Bob / Sentinela / Vácuo. Bob é um ser humano quebrado por seus traumas. Em sua busca por aplacar a dor, acabou usando drogas e, com certeza, nesse estado, seu lado menos “bonito” aflorou e o deixou ainda mais quebrado, pois, após os eventos, ele se sente culpado — e esse sentimento pode gerar ainda mais necessidade de amortecer tudo dentro de si. Na necessidade de se encontrar, Bob entra numa pesquisa de uma organização de caráter duvidoso. Como ele diz, estavam aplicando uma injeção nele e depois ele acorda ali, no meio da ação que acontece entre os futuros Thunderbolts. De início, sua aparência frágil não revela muita coisa; ele até tenta ajudar como pode, mas, “sem poderes”, não consegue fazer muita coisa — até que, para ajudar os amigos recém-adquiridos a fugir, se joga diante de um batalhão armado até os dentes, leva todos os tiros e sobrevive com seu pijaminha todo estraçalhado. Valentina, a vilã da história, que sabe de qual pesquisa ele participou e que ele poderia virar a arma que ela precisa para se livrar de várias acusações e de uma cassação de seu cargo, o coopta e tenta manipulá-lo para seu plano. E aqui as coisas fogem do controle. Na mesma medida em que o Sentinela é forte e faz suas coisinhas de herói, manipulado pela vilã, existe nele — literalmente — um lado sombrio que toma o controle. Tudo de bom que poderia existir some. Vou chamar assim, pois não sei se é o termo ideal: uma bipolaridade doentia assumindo o lado mais sombrio. Ele quer destruir tudo, inclusive a própria autoestima de Bob, que se refugia num lugar seguro dentro de si mesmo.

Yelena percebe que a única forma de ajudar a derrotar o Vácuo é entrando dentro de Bob e se enfia na aniquilação causada pelo Vácuo, virando uma mancha preta de pó de impressão, como disse acima. E lá ela se depara com seus próprios traumas — o Vácuo faz isso se manifestar. Enfrentando esses traumas, ela consegue chegar ao Bob que não é o Sentinela nem o Vácuo: é um ser fragmentado, tentando se refugiar dentro de si mesmo, num labirinto infinito de possibilidades e memórias conturbadas. Bob precisa sair desse falso conforto e enfrentar o Vácuo, lembrando que ele é o próprio vilão. Não adianta se debater: um alimenta o outro. E acontece a cena mais bonita — e que deveria nos nortear diante de um surto de ansiedade. Só tenham cuidado para que seja seguro: nem sempre é seguro chegar perto de alguém fora de si, mas tente trazê-lo para a razão. No filme, Yelena vai, o abraça e o chama para o presente. Ele está ensandecido, batendo no Vácuo, tentando derrotá-lo — e não é na pancada que se resolve. Tomando consciência de si e sabendo que não está sozinho, o abraço — primeiro de Yelena e depois dos demais Thunderbolts — mostra a Bob que, além de não estar sozinho, ele precisa enfrentar de forma serena seu lado obscuro, não para vencê-lo, mas para controlá-lo e administrá-lo. Ou seja: uma metáfora bonita, apesar de ser um filme da Marvel, para o tratamento adequado — terapia, medicação com acompanhamento psiquiátrico e uma rede de apoio.

O individualismo contemporâneo nos joga numa solidão e faz do homem uma ilha — e não somos. Evoluímos como seres sociais e esquecemos disso: queremos negar a família; se um amigo desagrada, já rompemos a amizade; se começamos a namorar e a pessoa comete uma falha, nos afastamos. Não lapidamos nossas individualidades para viver no coletivo. E isso é a base de um surto de doenças mentais pelo qual estamos passando, somado a inúmeros outros fatores que esses tempos nos trazem.

Se um dia perceber que não está bem, procure ajuda. Ou, como foi um pouco o meu caso, aceite a ajuda de algum amigo ou amiga que perceba que você não está bem. Todos nós podemos ser acometidos por alguma doença mental em algum momento da vida — e, sério, não é fácil tratar, não é rápido. Cuidado com coaches e religiosos: eles te levam para longe do tratamento e dão uma falsa sensação de cura. Participe de qualquer religião, sem problemas, mas nunca deixe de lado a terapia com um bom profissional nem o acompanhamento psiquiátrico, se for o caso. Ambos não só ajudam muito como salvam vidas.




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Os problemas continuam tá gente, o mimimi está na resenha de Wicked, resumindo: gatinhos famintos, celular quebrado no fim do ano, falta de trabalho e agora doença mental, na verdade este problema é antigo... e já vou agregar desespero do começo de ano... Quem puder contribuir com qualquer valor ajudaria muito:

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