sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Pluribus: o luto durante um evento de alcance mundial

 



Pluribus: não lançaram tudo ainda

            Começo pelo que todos os sites do assunto estão dizendo: Pluribus é do criador de Breaking Bad. E a palavra em si significa “de muitos” e vem da expressão latina E pluribus unum (“de muitos, um”) — e, pasmem, foi um lema não oficial dos EUA e ainda consta inscrito nas moedas deste país. É a ideia de unificação de uma nação através de seus indivíduos em uma unidade nacionalista.

            A série se pretende ser uma ficção científica, pois parte de um princípio bem característico: uma espécie de contaminação que faz todo mundo compartilhar os pensamentos em uma unidade. Todo mundo, menos um grupo de pessoas espalhadas pelo mundo. Entre essas pessoas temos Carol (Rhea Seehorn). É um pouco complicado falar sem dar spoilers, mas vou tentar. Quanto menos você souber, talvez a série se mostre mais interessante. Carol, nesse processo de contaminação, não sai ilesa: sua companheira — que também trabalhava com ela como uma espécie de agente literária, já que Carol é uma escritora de relativo sucesso com livros comerciais — morre. E o que vemos, antes de tudo, é um processo de luto acontecendo juntamente a situações inusitadas de contágio da população mundial por uma mente compartilhada, como se fosse um ser único que manipulasse todos — ou quase todos. E vamos acompanhando a personagem nesse processo. Ela nega a ajuda que as “novas” pessoas oferecem para cuidar do corpo de sua companheira morta, e, ao mesmo tempo, tenta entender o que está acontecendo. A criatura, agora com mil faces, se mostra tão feliz, disponível e preocupada com o bem-estar dela que, óbvio, sendo estadunidense, ela vai achar tudo muito estranho e vai fazer tanta coisa estúpida que honraria sua nação — se eles não estivessem submetidos a essa mente coletiva.

            Até agora foram disponibilizados cinco episódios, e os próximos estarão virão a partir do quinto dia de dezembro. Eu tinha lido a respeito da série bem por alto e fui assistir. Porém, com uns vinte minutos, aconteceu uma coisa tão estúpida que eu realmente desisti. Só retomei depois de ver no YouTube a Isabela Boscov falando muito bem no canal dela. E, para a Isabela falar bem de algo… É porque é bom mesmo. Por mais que paguem para ela dar sua opinião, ela é uma crítica que, se merecer, desce o cacete sem pestanejar. Eu adoraria receber para destruir filme ruim… Mas ainda não recebo nada — o que seria de bom grado; tenho muitas bocas felinas e duas caninas para alimentar…

            Estava lendo uma matéria sobre cores no cinema (antes que falem algo: sim, se aplica também a séries) e, levando em consideração o cartaz promocional — que mostra a personagem principal aparentemente gritando em um fundo chapado amarelo —, lá consta o seguinte sobre o amarelo: “sabedoria, conhecimento, relaxamento, alegria, felicidade, otimismo, idealismo, imaginação, esperança, luz do sol, verão, desonestidade, covardia, traição, ciúme, cobiça, engano, doença, perigo”. Quem quiser pesquisar o site, é este aqui: https://www.qu4rtostudio.com.br/post/a-teoria-das-cores-no-cinema. E justamente esse misto de significados permeia os cinco episódios assistidos até agora. A cabeça de Carol está confusa por um evento mundial que, contudo, se mostra — até agora — carregado de uma positividade que a deixa em pânico.

            Quanto a mim, eu ando me incomodando um pouco com umas ideologias que filmes e séries hollywoodianas têm. Nesse caso, tudo se encaminha para a única pessoa, que por coincidência é dos EUA, veja um problema real onde ninguém dos outros países que sobraram vê. Só existe um recluso da América do Sul — e não é do Brasil — que não quis contato com a população que modificou o comportamento. Se vai para esse lado? Não sei. Se a série é boa? Também não sei. Essa mania de fazer uma série em duas etapas, mesmo sendo curtinha, anda me dando nos nervos. Pelo menos não vai ser igual a Stranger Things, que levou apenas três anos — o que são uns trinta dias perto disso? O fim do quinto episódio de Pluribus promete um plot grandioso. E, depois daquele lapso do início, os episódios se desenrolam bem, com um crescente de suspense e curiosidade na tentativa de entender o que está acontecendo. Contudo, uma ressalva minha: que mulher chata é a Carol. Tá, tudo bem que o mundo foi transformado à sua volta e ela perdeu o amor da vida dela. Contudo, existem lembranças que mostram que ela já era meio c*zona. Isso me fez pensar se o que ela sente é tristeza pelo luto ou é remorso de não ter vivido direito com sua amada, e agora tudo que vier daqui para a frente não vai trazer ninguém de volta e isso a incomoda. Sua revolta talvez seja mais em relação ao fato de esse evento ter tirado dela algo que não poderá ser reposto que realemtne preocupação com o mundo.

            Não me arrisco a dizer muito mais por não ter assistido ao restante ainda, e tudo depende do que virá. Até agora, foi divertido.




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Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões. Fiquem à vontade.

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(que também é meu e-mail de contato)

 Banco Inter — Vinícius Motta

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Tremembé – Entre crimes e celebridades

 




Tremembé – Entre crimes e celebridades


            Tudo isso começa com Ulisses Campbell, um repórter focado no mundo do crime brasileiro. Natural de Belém (PA), trabalhou em inúmeros jornais e revistas impressas e ganhou alguns prêmios por suas reportagens. Fez coberturas de temas espinhosos como prostituição, máfias e crimes escrabosos. Acompanhou casos que escandalizaram o Brasil, como o do Maníaco do Parque, o crime dos irmãos Cravinhos e Suzane von Richthofen, o caso de Elize Matsunaga e seu marido, o rico herdeiro da empresa de produtos alimentícios Yoki, e, mais recentemente, o caso de Isabella Nardoni, seu pai Alexandre Nardoni e Carolina Jatobá, sua madrasta. Um dos mais recentes — que não está na série, mas virou livro — é o da pastora evangélica Flor de Lis. Um estrangeiro teria que dar um Google para entender quem são essas pessoas. Um brasileiro? Não só sabemos como muitos acompanharam, virou assunto comum; humoristas e o público faziam e fazem piadas com todos, existem memes, viram referência em várias situações. E tudo isso se deve não só ao peso criminal que cada caso escabroso carrega, mas ao sensacionalismo típico com que jornalistas trataram esses episódios. E Ulisses é um deles. Depois de anos acompanhando esses casos, ele coletou muita informação e resolveu lançar vários livros sobre os que o “tocaram mais no coração” — e que, certamente, teriam mais apelo popular e boas vendas. Depois de relatar jornalisticamente algumas dessas figuras criminais, ele escreveu Tremembé: o presídio dos famosos, livro que deu base para a série Tremembé, do Prime Video, que pretende ser um true crime brasileiro, porém com uma boa pincelada dramática. Segundo entrevistas que assisti, Ulisses se baseou nas sentenças, nos laudos psicológicos, em depoimentos e provas — como cartas trocadas entre os presos, entre outras coisas. Ele também ajuda no roteiro da série, que conta com cinco episódios de cerca de cinquenta minutos a uma hora, e já parece ter confirmada uma segunda temporada, inclusive com um comercial antecipando a chegada de um preso: o jogador de futebol Robinho.

            Vou supor que alguém não saiba do que se trata, mas o presídio de Tremembé tem fama de ser uma cadeia para presos “ilustres” ou ricos, por questões de segurança. Em certo momento de suas respectivas penas, alguns desses presos famosos acabaram se encontrando por lá. A série não tem um arco narrativo; acaba sendo uma crônica criminal sobre alguns conflitos e dificuldades enfrentados por esses detentos retratados. Mas ela não se propõe a ser crítica nem a suscitar reflexões: apenas apresenta os casos, algumas interações entre os presos e recria os crimes em analepse — e eu nem conhecia essa palavra, é o termo técnico e literário para flashback. Vamos valorizar nossa língua portuguesa, que é tão bela e tem palavra para praticamente tudo... Depois desse ataque de pedantismo, retorno ao que estava escrevendo: a série é exatamente o que se propõe a ser, crônicas criminais roteirizadas para contar causos e fofocas sem aprofundar em nada. Além dos casos notórios, temos personagens desconhecidos do grande público, mas que, por estarem lá e interagirem com os demais, foram colocados na trama para encorpar o roteiro.

            Primeiro: este que vos escreve, por coincidência, trabalhou numa prisão. De 2017 a 2020, se não me engano, no Presídio Feminino de Santana, em São Paulo. E, apesar de uns deslizes, a produção realmente reproduz a conduta dos agentes penitenciários. Só quem conviveu com eles tem o olho clínico para perceber alguma derrapada. A segunda coisa que me chamou atenção foi a escolha do elenco, a caracterização e a atuação. Se o roteiro falha em aprofundar qualquer coisa que possa acontecer, os atores conseguem tirar leite de pedra — com uma exceção aqui e ali. Mesmo Marina Ruy Barbosa, que interpreta Suzane von Richthofen, consegue encarnar bem a personagem, que é uma pessoa real com inúmeros registros em vídeo. Ela sensualiza um pouco demais, sendo que acredito que a verdadeira se mostrava mais sonsa diante das câmeras, e a prótese dentária ficou exagerada. Tanto que, no anúncio da segunda temporada, ela aparece com uma prótese mais ajustada. Os mais assustadores na caracterização, para mim, são o veterano Anselmo Vasconcelos, que interpreta o asqueroso estuprador em série e médico especialista em reprodução humana Roger Abdelmassih, e o novato (para mim) Lucas Oradovschi como Alexandre Nardoni, condenado por jogar a filha ainda viva da janela do apartamento em que morava. Eu não conhecia nem lembrava das entrevistas ao programa do apresentador Gugu então não tenho comparativo para falar da Letícia Rodrigues como Sandrão, que era namorada da Matsunaga antes de chegar a Suzane e tomar ela para si mas por ver uma entrevista da atriz vi o quão diferente da personagem. Porém, a energia captada na atuação de Carol Garcia é impressionante: ela faz a fria Elize Matsunaga, que mata o marido — que ameaçava se separar dela e tomar sua filha — e o esquarteja com a precisão de um bom açougueiro desossando um boi. Bianca Comparato interpreta uma evasiva Caroline Jatobá, que parece não saber ao certo o que está fazendo presa e mostra toda sua fragilidade como criminosa que, entre as próprias detentas, é considerada uma “coisa”. Isso a série não fala, mas aprendi lá no Presídio de Santana:  uma “coisa” é alguém que cometeu um crime tão errado que até os demais presos o repudiam. Em muitos casos, esse criminoso pode ser perseguido, apanhar e até morrer lá dentro. Eu dava aulas no presídio e, certa vez, usei o termo “coisa” me referindo a alguém — o que já não era adequado — e elas me explicaram que eram crimes que elas mesmas não aceitavam, e matar criança certamente colocava Carolina nessa categoria. O já conhecido Felipe Simas vive Daniel Cravinhos, e o irmão Cristian é interpretado pelo, para mim, novato Kelner Macedo. Este último causou alvoroço por protagonizar uma cena em que Cristian se envolve sexualmente com outro detento e usa calcinha. O verdadeiro Christian se pronunciou na internet dizendo que isso era mentira. Tudo bem meter paulada na cabeça dos pais da namorada do irmão; usar calcinha e se relacionar com um gay na prisão, jamais. O rapaz com quem houve o relacionamento na cadeia se pronunciou, e Ulisses mostrou uma carta como prova. Nessa briga eu fico do lado da fofoca. 

            E aqui chegamos a uma das críticas mais frequentes à série: ela teria dado notoriedade excessiva aos criminosos, transformando-os em celebridades a serem idolatradas e seguidas nas redes sociais — ainda mais agora que praticamente todos estão soltos, seja por terem cumprido a pena, seja em regime semiaberto. Alguns até estão se beneficiando do momento, seja com processos, seja reativando perfis, seja vendendo coisas. Particularmente, não acho que a série tenha glamourizado ninguém; o problema são as pessoas assistirem, já saberem da história e irem seguir os perfis. A série não tem culpa se o público se sente atraído e quer ter essas pessoas como amigas, mesmo que virtuais. O brasileiro tem uma propensão a adotar um bandido de estimação. E, quando vira seita, então, esse bandido pode tentar violar a tornozeleira eletrônica com ferro de solda para fugir — e muita gente ainda não acredita que isso aconteceu, mesmo com tudo registrado e a perícia confirmando o equipamento violado.

            Assim como filmes de terror, true crime não me agrada muito. Até levo de boa crimes ficcionais — adoro um romance policial ou histórias de detetives e mortes. Quando a produção se baseia em fatos reais, já não me sinto tão animado a assistir ou ler. Quando trabalhei dando aula para detentas, eu nunca perguntava qual crime elas tinham cometido; era um presídio feminino, e vez ou outra uma comentava algo sobre o caso. Éramos orientados a agir da forma mais discreta possível para que elas se sentissem confortáveis no ambiente de estudo. Ainda assim, ouvi coisas escabrosas. Sem citar nomes, uma me contou que meteu a faca na cabeça do marido durante uma briga porque ficou nervosa e não achou que fosse machucar; só percebeu quando jorrou sangue, e aí entrou em desespero porque amava aquele homem e não conseguiria viver sem ele. Por sorte, foi superficial e nem virou boletim de ocorrência. Ela estava presa por tráfico. Outros casos, quem sabe, conto um dia em alguma crônica.

            Tremembé apostou num estilo de produção que antes só aparecia em programas de baixo orçamento na televisão aberta, mas, feita por uma gigante como o Prime Video, ganha proporções de superprodução. E vale a pena, sim. Sei que não citei outros personagens da série, mas até os coadjuvantes estão muito bem em suas atuações. Querendo ou não, é um resgate de uma brasilidade que, por mais torta que seja, compõe uma dimensão da nossa cultura. Crime pode ser visto como entretenimento, sim, porque cai na boca do povo — e o povo transforma tudo em fofoca. Seja o que for. Ouso dizer que foi a produção nacional mais comentada do semestre. E, mesmo que a estreia tenha sido no dia 31 de outubro, ainda reverbera nos noticiários e nas redes sociais.





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Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

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 Banco Inter — Vinícius Motta

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Frankenstein - Audácia necrófila...

 




Frankenstein - Audácia necrófila...


            Frankenstein figura naquele panteão de criaturas do terror clássico que todos herdamos quase que por osmose através da cultura pop, e isso pode gerar uma falsa familiaridade. Principalmente se for como eu: alguém que não leu o texto original da Mary Shelley — uma vergonha, eu sei, mas se eu elencar tudo o que não li ainda vou cavar um buraco e me enterrar, aí sim haverá motivo de vergonha. Além disso, essa grande escritora publicou o livro quando contava apenas 18 anos, numa época em que não davam crédito a autoras mulheres, e ainda conseguiu escrever uma obra que se fixou como clássico e deu origem ao que chamamos hoje de ficção científica. A mulher conseguiu uma façanha digna mesmo o povo achando impossível que alguém tão jovem, e mulher, produzisse algo desse tamanho. E nem vamos nos aprofundar muito no machismo da época que ela enfrentou. Ela era capaz, foi lá e fez — e muito bem feito.

            Para além dos filmes vagamente inspirados, que também deram pano para o imaginário da criatura de Frankenstein, eu admito que não era um monstro pelo qual eu tinha muito apreço. Quando criança, eu achava boba a ideia de reanimar um corpo com um raio de tempestade, ainda mais um corpo feito de retalhos de mortos. Eu cresci no interior; sempre matavam uma galinha no fundo de casa, ou cevavam um porco para o Natal, e eu via meu avô e meu tio estripando os bichos. Sabia que costurar partes num corpo morto era inviável, e a decomposição é um fato. Depois veio a escola: por mais que muitos não prestassem atenção, eu gostava de estudar, e os avanços científicos que fui aprendendo me deixavam mais cético com essa história em particular. Com o tempo parei de ser tão literal e entendi que a obra foi escrita numa época em que as descobertas estavam ainda se iniciando — e que existe algo essencial na literatura além da verossimilhança, que é a liberdade poética. Afinal, qual monstro passa realmente pelo crivo da ciência hoje? Mas como metáfora, todos funcionam bem.

            Para além do Boris Karloff em 1931 — que confesso só ter visto em trechos — tenho dois exemplares que me ajudaram a ter mais simpatia pelo “Prometeu moderno”. O primeiro foi o filme Frankenstein de Mary Shelley (1994), com Robert De Niro como a criatura e Kenneth Branagh como o criador inconsequente e também diretor do filme. Até então, era a obra que se intitulava mais fiel ao original. Mas lembra lá do começo? Eu não li o livro… Então não sei quão fiel realmente é. De qualquer modo, o De Niro deu à criatura uma aspereza que beirava a bestialidade. E fui perceber que ela não era tão bestial assim somente na segunda referência: a série Penny Dreadful (2014–2016), que surgiu do desastre que foi A Liga Extraordinária, adaptação da HQ de mesmo nome do renomado Alan Moore. A adaptação flopou, e então John Logan foi lá e fez Penny Dreadful, praticamente com a mesma ideia, mas jogando sua criatividade e conseguindo o sucesso que o filme anterior não teve. Ali temos a criatura mais sensível e sartriana até então — muito bem interpretada por Rory Kinnear. Quando, num encontro com outra personagem, ele declama poemas, é algo de tal sensibilidade que só uma alma humana alcançaria. E o grande questionamento de Frankenstein é esse: ele criou uma “coisa” com alma ou sem alma humana?

            E então chegamos a Guillermo del Toro e sua produção de arte incomparável. São tantos detalhes nos cenários, nas vestimentas, na maquiagem e na caracterização da criatura que os olhos quase não conseguem captar tudo. É uma explosão de beleza gótica que esbanja cuidado e perfeição. Se no filme de 1994 temos um De Niro áspero, e na série um Kinnear sensível, nesta obra de 2025 temos Jacob Elordi — que eu achava que não daria conta do recado — entregando uma criatura que chega a um meio-termo. E, dos três, sob a direção artística de Del Toro, é o mais grotescamente belo, mesmo sendo uma colcha de retalhos humanos. Mesmo o Victor Frankenstein de Oscar Isaac está um passo à frente dos outros atores que interpretaram o papel. No filme de 1994 havia uma neutralidade ao estilo de Branagh; na série, o Harry Treadaway tinha uma carinha de “bonzinho demais” para ser realmente o monstro da história. Isaac é perfeito. Seu misto de atuação visceral e cruel, somado àquele charme de galã “feio” e malicioso e à sua estatura mais baixa comparada à de Elordi, dá exatamente a potência e megalomania necessária à ambição do personagem — e desculpa se usei algum estereótipo ofensivo, mas para explicar o efeito da atuação do Isaac precisei recorrer a esses adjetivos.

            Contudo, preciso admitir: talvez por não ser meu monstro favorito, tive que assistir em três parcelas, em dias diferentes. O streaming permite isso, então não perco tempo com o que não me prende e, como tenho ansiedade — e ela anda um pouco alta esses dias, afinal estou num lugar de que não gosto e ainda por cima com milhões de coisas que não estão acontecendo; segundo os astros tudo muda até dia trinta, estou torcendo — se sinto algum desconforto que ameaça virar gatilho, eu paro. E, sabendo disso, tento não ser injusto e volto a insistir. Isso aconteceu com Pluribus: me incomodei já nos primeiros vinte minutos e desisti, precisei ver a Isabela Boscov falando bem no YouTube para continuar. E foi uma grande surpresa. Olha eu misturando assuntos… logo posto algo sobre Pluribus.

            Voltando a Frankenstein: eu realmente quase desisti. Não estava me conectando, mas na terceira tentativa engatou e comecei a gostar da história. E, como disse, tudo é lindo na direção de arte. Uma cena me chamou muita atenção — acho que foi daí que deslanchei: a “confecção” da criatura no laboratório de Victor. Para quem não sabe de outras resenhas minhas, eu odeio terror, principalmente aqueles que picam, fatiam, cortam, dilaceram, moem, trituram e liquidificam pessoas. Mas a sensibilidade de Del Toro fez aquela cena, que parecia um açougue humano onde o açougueiro escolhia os cortes, se tornar de uma beleza grotesca que me deixou de boca aberta. É quase transgressora... É nojenta e bela ao mesmo tempo. Assustou-me também a audácia necrófila — me pegou de surpresa. É como se ele retratassse um fascínio e um asco simultâneos pelo que a morte causa, e ver que somos só carne pode gerar boas reflexões sobre a própria finitude. Finalizo aqui o que queria falar sobre Frankenstein. No fim, realmente gostei da experiência de ver mais uma adaptação de Mary Shelley na visão de um criador tão sensível quanto Del Toro.

        Um Ps: Tem mais uma cena que achei linda que é o sonho de Victor um anjo, acho que o Miguel, aparecendo para o aterrorizar. E todo o simbolismo de cores envolvido daria outra análise que sinceramente não dá no momento.




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sábado, 22 de novembro de 2025

It: Bem-vidos a Derry - "Relaxa"




It: Bem-vidos a Derry - "Relaxa" 



         Toda vez que vou escrever minhas crônicas ou resenhas de filmes e séries, eu abro uma aba no Google para me certificar de que escrevo os nomes dos atores, diretores e roteiristas de forma correta, e sempre escapa uma coisa aqui ou ali. Dessa vez assim que digitei o nome da série, abriu a página com os atores e personagens, e um balão vermelho subiu na tela. Tive um mini-infarto. Até o cérebro concatenar que era só estratégia de marketing, e não o Pennywise fazendo um crossover com a Samara Morgan e se despejando da tela do meu notebook feito um vômito nojento, foram uns três segundos de puro terror. Bendita IA que possibilita essas coisas agora. Tentei reproduzir, mas não aconteceu de novo — para me deixar um pouco mais tenso. Será que foi coisa da minha cabeça? Será que realmente esse palhaço pedófilo estava aqui mesmo? O que me confortou um pouco é que não estou mais na idade de que ele gosta. E é aqui que entro na problemática do universo do Stephen King.

        Por via das dúvidas, coloquei no Spotify cantos indígenas brasileiros. Na força dos caboclos eu me protejo e escrevo seguro. Sarcasmo à parte, a figura indígena no Kingverso é sempre um ser místico que guarda ou foi responsável por algum lugar que contém algum mal. É bem uma visão branca europeia que vê o indígena como um ser tão fora de sua realidade e não busca entender e atribuindo coisas ruins a eles ou os coloca como guardiões místicos de algo. Se não são diretamente responsáveis pelos eventos, são por omitir informações ou mesmo por simplesmente não ajudar. É interessante que até no excelente Pecadores, de Ryan Coogler, os indígenas combatem um mal, mas ao se depararem com a intransigência dos brancos, lavam as mãos e vão embora, deixando o mal arrasar tudo. Não os julgo, faria pior.  Afinal, europeus não querem saber de nada. Contudo, somos brasileiros e, por mais que tenhamos massacrado nossos povos originários, absorvemos muitos ensinamentos e, até certo ponto, quando a ganância não fala mais alto, respeitamos suas terras sagradas. Que piada, né? Espero que não tenham acreditado nisso, pois um grande exemplo entre tantos é o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, que era a moradia do espírito Anhangá e hoje virou praça de shows particulares com preços exorbitantes — tudo financiado com dinheiro público.

        Mas Stephen King lançou It em 1986, e a primeira versão filmada foi só em 1990, quando eu tinha 12 anos. O que não faço em nome dos meus textos: entregar a idade. Possivelmente eu assisti no máximo dois anos depois, quando já tinha acesso a filmes por ter um videocassete — que era coisa de rico — e eu, como pobre, vibrei por meu tio ter comprado um parcelado em 12 vezes no carnê, mentira, eu tio comprava tudo à vista, por isso demorava muito a ter algo, primeiro guardava, depois comprava. Entre tantos filmes, um dia foi justamente It: Uma Obra-prima do medo que carregava um subtítulo um tanto prepotente. John Carpenter riria disso. Só sei que esse (coloque aqui o xingamento que quiser) de palhaço me fez ter pesadelos bem vívidos. Demorou para eu olhar um palhaço com simpatia de novo. Quanto ao livro, eu ensaiei lê-lo, mas o calhamaço não me animou até hoje a enfrentá-lo. E depois, com o advento da internet — de novo entregando a idade, sou paleozóico mesmo — fui me inteirando da história e do contexto envolvido em torno das obras de King. Por anos ele usou drogas e álcool, e alguns livros ele admite não lembrar muito do processo criativo envolvido. E It... tem uma cena muito contestável, tanto que ninguém teve coragem de reproduzir em nenhuma das versões no cinema: a cena de sexo entre os adolescentes na toca da criatura, como se uma situação de terror extremo, onde todos quase viraram petisco de uma criatura cósmica, fosse motivo para uma suruba impúbere. Então, as obras de King são permeadas por uma cosmovisão no mínimo complexa, para não dizer outra coisa. E nós sabemos o tanto de coisa que está sendo descoberta — e algumas abafadas — no mundo dos famosos estadunidenses e dos políticos, são vários "Its" por aí.

        A série não leva a mão; até onde sei, do próprio King, ele somente é consultor e colaborador informal, sem tocar no roteiro. O que me incomoda é o sadismo extremo com crianças. Tá, eu sei que é uma obra comercial de entretenimento, mas tudo que o homem produz reflete sua cosmovisão. E a temática de aterrorizar jovens impúberes é muito visitada pela literatura, pelo cinema e pela televisão dos EUA. E como disse, não tem como não levar em conta o contexto político e cultural do lugar onde o produto está sendo feito. Os EUA causam arrepios em relação a coisas que não deviam acontecer com adolescentes e crianças.

E nos filmes de 2017 e 2019 já davam uma pegada predatória incômoda ao Pennywise. Contudo, a série já dá uma conotação um tanto sexual demais para o meu gosto. Há uma cena em que o Pennywise usa a imagem do pai da Lilly (Clara Stack), que é nojenta — e não pela razão certa. Não vou falar muito para não dar spoiler. E isso não aconteceu com outros personagens que, coincidentemente, eram meninos. Toda a conotação da fala na cena remete a uma ambiguidade que aponta ao sexual e não ao desespero de uma criatura em conseguir assustar sua presa para dar cabo ao seu plano sinistro — que não sabemos direito qual é, pois, se ele quisesse, já teria comido a garota há um tempo, pois teve inúmeras oportunidades...

        A cena inicial do primeiro episódio é tão grotesca quanto, porém não há conotação sexual — e olha que acontece uma coisa horrorosa — que também não vou contar para não dar spoiler. O Matty (Milles Eckardt), que já vai de arrasto nos primeiros 15 minutos de série, não é assediado com conotações sexuais ou textos dúbios. Já a garota é. Vale lembrar que a série é dirigida pelo Andy Muschietti, que também é o roteirista principal, então o King ficou mais como consultor, sem um envolvimento efetivo. E essa história é uma extensão para explicar os eventos anteriores aos que ocorrem no filme/livro. Ou seja, um caça-níquel. Sendo uma produção boa, não há problema: o público é ávido por produções de seus personagens ou monstros favoritos. E It: Bem-vindo a Derry dá margem para se explorar muito bem esse personagem.  E aqui o King sofre do mesmo mal do H.P. Lovecraft, que possui criaturas além da imaginação humana, milenares, que causam transtornos só de dar um arroto enquanto dormem, mas um ser humano com uma arma — ou um navio inteiro — mata eles, mesmo eles sendo gosmas ou gigantescos ancestrais de forma relativamente tranquila. Realmente o ser humano é forte e inteligente o suficiente para matar uma criatura que acumulou milênios de existência. É entretenimento, não é? E matar o monstro ou entidade cósmica no final traz conforto e satisfação: afinal, até ali ele dilacerou tudo e todos que cruzaram seu caminho. O povo de Hollywood só não gosta de derrotar definitivamente o Capiroto, mesmo segundo a mitologia dele ele já estar derrotado com a ressurreição do Cristo. E outra figura que ninguém assume a morte, mesmo Nietzsche tendo sido seu arauto em A Gaia Ciência, é Deus, que ele diz que a própria sociedade, com as crenças nas leis físicas da criação do universo, matou a ideia de um Deus onipotente para muitos.

        Tabus e imortalidade do que convém.

        Até agora, assisti a apenas quatro episódios de It: Bem-vindos a Derry e, tirando essas estranhezas que citei lá em cima, a história tem se mostrado um bom terror, apesar da carnificina — afinal, quem é que não gosta de ver um monte de crianças dilaceradas por um palhaço com intenções bem claras de predá-las para encher a pança? É diversão que, parafraseando a Irmã Selma do antigo Terça Insana, “relaxa”.




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Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões. Fiquem à vontade.

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 Banco Inter — Vinícius Motta

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sassaricando de 1987 – Novelão brasileiro





 
Sassaricando de 1987 – Novelão brasileiro


        Quando eu tinha 9 anos, como muitos brasileiros de minha idade, era tão grudado na televisão que não perdia quase nenhuma novela da finada, por minha parte, Rede Globo. Hoje em dia eu assisto esporadicamente algum corte em algum programa pelo Instagram, mas assistir mesmo — de sentar no sofá, apertar o botãozinho vermelho do controle remoto e ficar o tempo inteiro, por livre e espontânea vontade, diante da TV aberta — é muito raro. E, quando acontece de haver algum interesse em algum programa específico, eu vou a alguma plataforma, como é o caso do YouTube.

        E por qual motivo isso é relevante nessa crônica? Porque esse é justamente o grande problema que a televisão aberta tem, mas não admite. Muita gente, com o acesso fácil à internet, costuma selecionar o que vai assistir porque pode. Em 1987, quando estreou Sassaricando, não havia grandes concorrências — ou mesmo não havia nenhuma. A Globo era monopólio, principalmente em relação à produção de novelas.

        Recentemente tivemos um remake dirigido e roteirizado de uma forma que não chegou aos pés do que pedia a obra original, que foi Vale Tudo. E não vou entrar no mérito de gostar ou não; o que quero dizer é que, por ser uma obra canonizada pelo público, refazê-la em tempos de inúmeras plataformas exige, no mínimo, uma certa reverência pelo material original e o desenvolvimento de uma trama tão exemplar quanto a de 1988. Se há concorrência, é necessário produzir algo que não brinque com a capacidade do público de perceber que o produto está sendo feito com baixa qualidade. Foi-se a época em que todo mundo parava para assistir a uma novela — principalmente quando ela não era tão boa e não prendia a atenção do público. E a Globo anda um pouco perdida no rumo do que quer fazer: quer produzir enlatados, seguindo fórmulas batidas, sem qualidade e não entende por qual motivo não faz sucesso. Acho que a última novela que me chamou atenção foi Avenida Brasil, em 2012.

        Outra coisa que nunca entendi foi o motivo de a Globo não disponibilizar antes as suas novelas, seja em DVD, seja em um canal próprio. Isso só aconteceu muito tempo depois, quando apareceu o streaming. Ela segurou tanto por medo de pirataria, como se isso adiantasse. Houve uma tentativa de reviver novelas antigas com o canal Viva, que tinha suas limitações — não estava disponível para todo mundo. Ela perdeu muito tempo com a falta de administração de seus próprios conteúdos e com a oportunidade de trabalhar seu catálogo como a Disney faz com seus clássicos, que continuam rendendo o máximo possível.

        E é aí que entro em Sassaricando. Quando a Globo disponibilizou as novelas para assistir no seu streaming, eu comecei a me interessar, mas havia tantas coisas inéditas interessantes que eu sempre deixava para depois. Sem contar que ou você escolhe um ou outro, senão seu salário fica todo com eles. E mesmo com um streaming bom, com um catálogo sortido, temos aquela sensação de “não tem nada para ver”. Eu já percebia isso quando trabalhei numa locadora, na adolescência — estava o tempo todo em contato com os títulos e, mesmo assim, parecia que nada era interessante. E, em um desses momentos de dificuldade para escolher algo, me ocorreu a ideia de assistir Sassaricando até tomar conhecimento de algo que me interessasse. E que delícia tem sido a experiência.

        O lado gostoso aparece quando, reassistindo, puxo minha memória e comparo o que realmente lembro com o que realmente é. Outra coisa é ver São Paulo — uma cidade pela qual tenho bastante carinho e amor, e onde infelizmente não estou morando no momento — nas cores, modas e lentes daquela época. E, por fim, dar um refresco em tramas mirabolantes ou pesadas demais com um produto de humor leve, brasileiro. Tem realmente sido um respiro. E, com a minha cosmovisão atual, percebo camadas que uma criança de 9 anos não percebia.

        Estou adorando ver Tônia Carrero encabeçando o trio com Eva Vilma e Irene Ravache num arco inspirado em Como Agarrar um Milionário. Ou mesmo o arco de Aparício Varela (Paulo Autran), Teodora e Fedora Abdala (Jandira Martini e Cristina Pereira) e a Camila lindíssima com uma jovem Maitê Proença em seu resplendor de olhos penetrantes. E tantos outros atores que eram muito constantes nas telinhas e, com o tempo, foram desaparecendo — seja lá o motivo. E, se você der uma olhada mais maliciosa, em alguns momentos existe um subtexto bem camuflado que é delicioso. Autores bons fazem isso.

        Claro que não deixei de assistir nada dos estadunidenses, mas é bom dar um respiro. Valorizar algo que é nosso. E, apesar de alguns desastres, temos sim produtos cinematográficos ou televisivos muito bons. Infelizmente, percebo que a senhora emissora referida, ao criar seus outros canais na televisão paga, tem deixado a desejar na televisão aberta. E nem vou falar da chatice que está virando um grupo aí, que me recuso a citar pelo nome, boicotando qualquer coisa porque “é contra os costumes, a família e o bem absoluto”. Arte, mesmo a comercial, não deve se render a grupo nenhum. Tem sim que apresentar algo da sociedade e mesmo criticiar. 

        Eu até hoje não vejo nossa cultura realmente explorada em uma séries — novelas, então, nem pensar. Sempre camuflando ou evitando. Sei que Carmen, exibida em 1987 na extinta Rede Manchete,

 ousou um pouco nessa vereda. Por sinal, preciso assistir. E temos também Xica da Silva, bem ousada na época. 

        Usar essa ideia de ir assistindo novelas antigas enquanto aguardo uma continuação ou não me me interesso por nada tem me prospiciado momentos divertidos. Afinal não assistimos nada para simplesmente odiar, no mínimo eu quero amar odiar. 







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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Boots - O Pentágono disse que é "lixo woke" então fui assistir

 



Boots - O Pentagono disse que é "lixo woke" então fui assistir


            Quando vi um anúncio de Boots, eu pensei: “Mais um filme de gay (em meus pensamentos, não usei um termo tão técnico quanto esse; pensem aí o que quiserem e, no texto, vamos manter um pouco de decoro, hoje acordei conservador nas palavras) para mostrar corpos e o estilo de vida deles.”
            Até que o maravilhoso Pentágono soltou uma nota classificando a série como “lixo woke” e dizendo que a Netflix estava promovendo uma agenda ideológica. Como esse povo é meio desprovido de senso crítico e de noção, não percebeu, mas acabou fazendo uma campanha para o filme. Eu mesmo pensei: “Se o Pentágono, e consequentemente o Trump, não aprovam, então vou assistir.” E que surpresa! O que o Pentágono — e, consequentemente, uma parcela da população — não entendem é o poder da Psicologia. Quando Freud iniciou seus estudos e publicações que deram origem ao que entendemos hoje como Psicanálise, os comportamentos começaram a se desvelar. Inúmeras coisas são explicadas pelo viés psicológico.
            E os escritores americanos sabem, os roteiristas sabem, o pessoal das HQs sabe — qualquer pessoa com dois neurônios e um pouco de disposição para ler sabe disso. E quem não sabe? Vou deixar essa pergunta suspensa para ser respondida no coraçãozinho de quem estiver lendo. Isso é um recurso chamado “pergunta retórica”: serve para construir o argumento, mas também para fazer o ouvinte ou leitor responder por si mesmo. Parece que o Pentágono e o pessoal das forças armadas sequer sabem quem é Freud. Então, quando você tira as mulheres do convívio de adolescentes com hormônios em ebulição, obriga-os a realizar exercícios em roupas apertadas — que remetem a um ideal de masculinidade — ou curtas, e ainda os obriga a tomar banho juntos, reprimindo-os com violência e castigos, tratando-os com palavras “menininhas”, é óbvio que, mesmo com o peso heterossexual que se impõe, o meio é homoerótico.
            E aí volto a uma reflexão que fiz em sala de aula, uma vez, sobre Dom Casmurro: Bentinho não tinha ciúmes da Capitu de forma simples; ele tinha ciúmes da Capitu estar com seu melhor amigo, Escobar, pois o homem brasileiro faz sexo com as mulheres, mas a razão do afeto dele é outro homem. Claro que elaborei muito mais a reflexão, pois a crítica de Machado à sociedade ainda não está totalmente compreendida por nós. É necessário muita pesquisa e produção acadêmica para chegar lá.

            Outra coisa da minha vida que influenciou muito eu gostar da série — de uma forma torta, e sendo grato por tudo ter ficado no passado — é que eu prestei o Tiro de Guerra, que é uma parceria da prefeitura de uma cidade com o Exército para manter um quartel e formar reservistas de segunda categoria. E foi um inferno. Muitos adoram fazer o Tiro de Guerra, mas eu achei um tempo tão perdido e desnecessário, fora o gasto dos cofres públicos. Sem contar que, em cidades pequenas, atrapalha muito a pessoa conseguir emprego. E, se tem emprego, precisa entrar depois das 9h, pois fica lá aos mandos e desmandos de um sargento ou tenente que, se for caprichoso — e geralmente é —, não liga para nada. O jovem que se vire.

            Guardadas as proporções, o Tiro de Guerra não chega perto dos assédios morais do sistema estadunidense e do Corpo de Fuzileiros Navais, que é uma preparação para criar um braço armado de morte em massa nos países de que os EUA se aproveitam para girar sua economia com investimentos em armas e enriquecimento dos donos dessas empresas. Esse sofrimento todo que se passa na tela — dos garotos sendo (de)formados para serem “homens” de verdade — só me fez ter mais simpatia pela produção.

            A história segue Cameron Cope (Miles Heizer), um garoto gay oprimido pela vida que leva, sofrendo bullying de outros garotos. Num impulso, resolve acompanhar Ray McAffey (Liam Oh), que sonha em seguir a carreira militar, assim como seu pai rígido.
            Acompanhamos os primeiros passos desengonçados desse personagem, que conta muito com seu amigo para ajudá-lo. No caminho, eles se deparam com o Sgt. Sullivan (Max Parker — e eu nem lembrava que essa era a abreviação de sargento), que parece ter um segredo perigoso que pode desestabilizá-lo e fazê-lo perder o posto no Corpo de Fuzileiros Navais. E, como é óbvio, por ser reprimido e não admitir para si mesmo o que é e o que gosta, desconta tudo que pode nos garotos, sob a desculpa de ser exigente no treinamento. Mas acaba desenvolvendo uma relação que começa com perseguição e depois se torna uma espécie de mentoria torta para ajudar Cope a concluir os seis meses de treinamento. Pense bem: uma suposta elite das forças armadas de um país sedento por guerras treina seus jovens por apenas seis meses! O Google me informou, alarmantemente, que pode levar até menos — dez semanas, dois meses e meio.

            E o que mais chama atenção nem é a tentativa não tão eficiente de Cope em esconder sua homossexualidade, mas sim a jornada de amizade que ele constrói com McAffey — uso os sobrenomes porque é o costume masculino dos militares — e como ele vai ganhando o respeito de seus colegas. Temos vários dramas paralelos que ajudam a deixar o enredo mais encorpado. Os personagens se desenvolvem bem e caminham para o fim do treinamento, tudo equilibrado com drama e comédia nos momentos certos, sem cair em melodramas piegas e sem apelar demais ao universo gay — tanto que ele existe, mas é necessário reprimi-lo.

            Tem corpos à mostra? Muitos. Até umas rolas você vai ver; bunda, então, nem se fala. E bunda americana branca, quadrada. Não que isso seja importante para a esta apreciação, mas, sabe como é, somos brasileiros e isso faz parte da nossa cultura: prestamos atenção numa boa bunda — ou numa não tão boa também — e falamos delas, escondido ou não, mas falamos.

            No geral, a série é divertida. Talvez conservadores e um público heterossexual não se sintam confortáveis em assistir — afinal, sabe como é: “coisa de boiola”, “sou macho, não vejo essas coisas, não”, ou ainda “viadagem”. Freud, corre aqui...               Mas quem quebrar esse preconceito vai gostar de ver a esperança em garotos de dezoito anos, meio ingênuos, fortalecendo suas personalidades e crescendo para se tornarem um tipo de homem, contestável, mas um tipo: um fuzileiro da Marinha americana.
              A série chega num momento delicado da política dos EUA e só torna mais intensa e necessária a reflexão que ela suscita por lá.
              Aqui é de boa: todo mundo se pega quando quer, na encolha, e tá tudo certo — só ser discreto e fora do meio. Para quem não percebeu, contém muita ironia.





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