Eu há muito tempo deixei de assistir documentários. Acho que o último que fui assisti no cinema foi A Marcha dos Pinguins em 2005. Eu cresci assistindo Planeta Terra na Cultura ao invés de Faustão e Os Trapalhões. E gostava muito. E depois desse documentário em específico, e com as facilidades da internet, eu achei que não fazia sentido pagar um ingresso de cinema para assistir algo assim, era só esperar que, se o assunto fosse de meu interesse, eu o veria no YouTube e depois o streaming facilitou mais ainda. E como leio muito sobre muitos assuntos, várias coisas que antes só saberia por uma dessas produções ficaram acessíveis, só dar um Google. Desanimei um pouco com a questão de descobrir que um documentário, assim como um filme, é realizado como uma obra cinematográfica, e na minha ingenuidade, achei que era demais roteirizar, na minha cabeça documentários deveriam ser "verdades jornalísticas". Falta de conhecimento meu, depois descobri que tudo é roteirizado para realizar uma obra audiovisual, não tem como não ser. E quanto a verdade, que verdade não é mesmo? Verdade é de quem constrói uma determinada narrativa segundo um ponto de vista.
Eu acompanhei a trajetória da Preta como uma pessoa que não era um fã. Sabia das notícias e ouvia uma música ou outra. Eu achava que o povo, bem entre aspas esse "povo", entendam, a criticava demais, desnecessariamente. E por motivos preconceituosos. Ela era uma mulher, preta e gorda. E como tal não deveria se expor, segundo o que essas pessoas julgavam. E realmente, temos o peso do padrão imposto no entretenimeno depondo a esse respeito. Só que Preta tinha noção realista de que era uma nepo baby, filha de um monstro da cutura brasileira, Gilberto Gil, afilhada de Gal Costa e sobrinha do Caetano. E, só uma curiosidade, sua mãe teve uma música feita em sua homenagem que é um clássico da MPB, Drão. Que é o apelido que a mãe de Preta leva consigo até hoje. Ao contrário de outros nepo babys, que nunca saem da sombra de seus pais, Preta percebeu que seu maior capital não era superar seu pai. Era ir para outro lado. Ela entendeu primeiro o poder da internet e das redes sociais que começavam quando ela iniciou sua carreira. Ela, claro que usando todos os privilégios de ser filha de quem era, se fez valer de construir sua carreira com consistência, mirou num público e usou de sua boa articulação para se colocar nos lugares certos, usando as redes sociais a seu favor, e com seu carisma selou o apreço de muitos fãs que conquistou. Isso sendo uma mulher, preta e gorda. E gente, quando você tem dinheiro e relevância social sólida, esse combo só é problema para quem vocifera ódio na internet. Ela foi, peitou e venceu.
Aí veio a doença. E acompanhar isso é difícil para qualquer um. E ela entendendo quem era e resolveu se expor. E quando temos uma pessoa que vive uma persona para o público, e todos os artistas têm isso e fazem uso, e decide mostrar, não tudo, mas mostrar um pouco sua vulnerabilidade, temos que respeitar. Claro, é um documentário, roteirizado, com cenas selecionadas, contudo, ainda há lampejos de uma verdade que a persona não consegue esconder o tempo todo. A vida real é difícil de segurar na persona a todo momento. A fala embarga, o artista desmonta essa máscara, mesmo que em um instante fugaz, e vemos a pessoa real. E várias personalidades do mundo artístico brasileiro já possuem uma espontaneidade conhecida, mesmo assim, eles seguram diante das câmeras. Então, ao ver uma Ivete Sangalo, do porte que é, alguém que a persona é muito transparente, até certo ponto, perdendo o controle do choro, é de assustar. Ela se debatendo em lembrar da amiga e não querer revelar a intimidade da mesma e tendo que dar depoimento diante de uma câmera é de cortar o coração. Se tem algo que eles presam e compactuam é sobre isso, a intimidade um do outro. E não falo como uma crítica, falo que ficou evidente a coisa mais humana que eles escondem com a persona, a contradição. "O que vão pensar?" Isso permeia o artista que se expõe na mídia o tempo todo. Por isso constrói-se uma narrativa, fortalece a persona. E diante da morte isso não importa não é mesmo? Várias vezes percebi que havia uma encenação, contudo, nas entrelinhas, havia uma apreensão em torno de tudo que era filmado. Todos em algum momento percebiam que Preta não estava bem. Para a câmera ela fez o que o profissionalismo pede de um artista, mantinha o próposito e tentou segurar o ânimo, mesmo que os olhos revelassem o cansaço. Um câncer agressimvo é cansativo e tratar pode virar um suplício. Acomapanhei duas pessoas na família que ficaram um caco devido a mesma doença. E ela tinha todo o aparato médico e rede de apoio familiar e aquele que o dinheiro pode proporcionar. E só vemos, depois no depoimento final, triste de doer na alma, Gilberto Gil falando "Puxa vida, minha menina foi embora..." e um riso nervoso "Tenho muita saudade dela..." Não é persona, e ele tenta segurar o que pode, chega a engolir o choro. Mas está lá o sofrimento de um pai que teve sua filha, um furacão, levado dele.
Nós, que assistimos, nos emocionamos e ficamos admirados com o poder que ela exerceu construindo sua importância no país sendo tudo e mais um pouco do que era, a mulher fantástica que teve oportunidade de ser.
Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões e convites para parcerias. Ficaria muito feliz, agora que ando estudando sobre roteirização.
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