quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out: sobre uma construção de narrativa

 



Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out: sobre uma construção de narrativa


            Em 2019, Rian Johnson decidiu escrever e dirigir Entre Facas e Segredos, querendo resgatar os romances policiais e dar uma roupagem mais contemporânea a um gênero literário que sempre foi adaptado com certo sucesso para as telas: o romance policial. O projeto acabou virando uma franquia, que teve como segundo exemplar Glass Onion, de que não gostei muito, e agora chega ao terceiro filme, Vivo ou Morto.

          É interessante notar que, aqui no Brasil, os nomes ficam confusos. Traduzem o título, depois não traduzem, aí traduzem de um jeito um pouco estranho. O grande exemplo é este terceiro filme da franquia, cujo título original é Dead Man Wake Up, que, em tradução livre, ficaria “Homem morto, acorde”, mas acabou sendo lançado por aqui como Vivo ou Morto. Perceba-se que a expressão perde força se levarmos em conta a história.

            No filme, acompanhamos o padre Judd (Josh O’Connor), um sujeito fofo e empático, mas com problemas de agressividade não controlada. Ele é um ex-pugilista que se converteu e entrou no seminário após matar outro lutador no ringue, depois de um grave incidente durante uma luta. Após socar a cara de um colega, Judd é orientado a se tornar vigário paroquial — um padre auxiliar do titular da paróquia —, trabalhando ao lado do padre despirocado Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), que mantém em seu círculo de convívio um séquito de paroquianos bastante problemáticos.

            Entre devoção, fanatismo e assédios morais, a igreja vai se esvaziando. Esse círculo de amigos íntimos acaba presenciando a morte misteriosa do monsenhor durante uma missa. Para piorar, o padre morre em uma câmara lateral ao lado do altar, enquanto tentava recuperar o fôlego após uma homilia acalorada. O mistério está instaurado, mas entra em cena Benoit Blanc (Daniel Craig), chamado pela autoridade local para ajudar na investigação.

            A partir daí inicia-se um jogo de construções narrativas a serviço da hipocrisia religiosa, refletindo tudo o que sabemos existir nas instituições de um grupo que pretende manipular outro por meio do discurso moral.

            O enredo, em si, não é inovador, mas funciona como um recorte de várias fórmulas já exaustivamente usadas na literatura. Isso é tão evidente que o próprio roteiro propõe uma lista de livros diretamente relacionados à história. Blanc chega a comentar que se trata de um compilado que ensina a matar alguém no clássico estilo da “sala fechada”. Os livros citados são:

Os Crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe;
Um Corpo na Banheira, de Dorothy L. Sayers;
O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie;
O Homem Oco, de John Dickson Carr;
Assassinato na Casa do Pastor, de Agatha Christie.

            Esse recurso é particularmente interessante, pois ilumina o modo como o roteiro bebe dessas obras para ser construído. Como já li quase todos estou pensando em fazer um estudo sobre a confecção do roteiro com base nos livros, não só para postar aqui, mas para eu tentar, não só entender, mas quem sabe eu um dia escrever algo... Quem sabe? Rian Johnson costuma fazer esse jogo de elaboração baseadas em várias fontes em suas histórias, e quase sempre há uma crítica relevante por trás. Em Vivo ou Morto, em especial, a crítica aparece em vários pontos: a relação com o sagrado, o abuso de líderes religiosos e, como já mencionado anteriormente, a manipulação das narrativas.

            Gostei bastante do filme, e as interpretações estão bem redondinhas. Para variar, Glenn Close está arrasando como a secretária da paróquia, uma carola de dar nos nervos. Dos três filmes da série Knives Out, este foi o que mais gostei. O primeiro achei meio confuso, e o segundo, com uma trama um tanto absurda. Este, apesar dos exageros, acaba sendo mais verossímil.

            Afinal, ver um religioso — ou uma religiosa — hipócrita se dando mal na ficção acalenta um pouco o coração. Vivemos um momento tenebroso, com religiosos no Brasil cometendo barbaridades e se bandeando para o pior lado da humanidade: ódio, intolerância, corrupção, machismo e misoginia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário