domingo, 28 de dezembro de 2025

O agente secreto - Tem tanta coisa nesse filme... Até uma "Perna Cabeluda"!

O agente secreto - Tem tanta coisa nesse filme... Até uma "Perna Cabeluda"!





            Além de gostar muito de ler, eu me formei em Letras e, quando estudamos a respeito da literatura brasileira, descobrimos o “regionalismo”. Eu nunca entendi muito bem isso. Sou do interior de São Paulo e, para mim, era óbvio que regionalismo seria um escrito típico de uma região específica e de grupos sociais específicos, ligados à cultura tradicional, mas que, se fosse uma história moderna em Fortaleza ou mesmo em Salvador, por exemplo, não seria mais regional, pois trataria de situações de grandes centros urbanos e de cunho geral. E muito me espantou que, tirando o eixo Rio–São Paulo, tudo é regional. Principalmente o que é do Nordeste. Algumas regiões são tão desprovidas de representação que, quando sai algo, é jogado direto para o rótulo de regional. Então, a nossa literatura está muito definida em função de duas cidades, basicamente. E o mesmo acontece com o cinema. O que é um absurdo. Por mais que um filme seja feito no Norte ou no Centro-Oeste do país, sendo uma história urbana e contemporânea, não deveria ser regional. Agora, uma história de uma comunidade específica que só existe em uma determinada região faria sentido, mesmo que a narrativa se passe neste ano. Histórias urbanas não deveriam ser regionais na minha concepção.

            E O agente secreto é um filme do recifense Kleber Mendonça Filho, que escreveu o roteiro e dirigiu magnificamente uma história de uma contemporaneidade tamanha que chega a ser absurda sua classificação como regional. E outra coisa que sempre me incomodou muito — principalmente na época em que eu tinha como único objeto de entretenimento, informação e cultura a televisão, pelo viés da Rede Globo, já que pouco se assistia a outros canais em casa — é o fato de saber pouco do Brasil. Era tão peneirada e selecionada a informação que chegava que hoje, depois de abandonar a TV aberta de vez há uns dez anos, eu me surpreendo ao descobrir coisas que sempre existiram no nosso território nacional e nunca chegaram até nós. São tantas coisas cuja existência descobri por meio da internet que não caberia aqui uma lista. E, mesmo que os algoritmos do Instagram, por exemplo, se condicionem a mandar apenas conteúdos dentro da sua bolha, um vídeo ou outro de algo diferente acaba aparecendo. E, nessa, lá vou eu pesquisar a respeito.

            Outra coisa que eu sempre me perguntava: por que não fazem novelas em outras cidades? Eles inventavam uma ou outra cidade genérica, mas falavam o tempo todo do Rio. Eu não suportava aquelas novelas do Manuel Carlos, fazendo do Rio de Janeiro o lugar mais paradisíaco do mundo, principalmente depois que morei lá. Vez ou outra acontecia de ter uma série que se passava em outro lugar, novela era raro. A Globo teve a possibilidade e nos negou uma diversidade cultural; nos dava migalhas. O mundo está mudando, e agora temos uma janela para ele todo nas palmas das nossas mãos.

            E a minha surpresa com O agente secreto parte disso: conhecer uma época contemporânea nossa, um passado bem recente, que é um fato histórico relativamente bem trabalhado — a época da Ditadura Militar —, mas em um lugar que foge desse eixo sudestino: Recife e todas as suas histórias urbanas deliciosas e o jeito brasileiro de ser de lá. E tudo se inicia num carnaval do ano de 1977, quando Armando/Marcelo, fugindo da perseguição política, vai se esconder na casa de Dona Sebastiana nesta cidade. O prelúdio de tudo já acontece antes mesmo, com um posto de gasolina e um Fusca parando para abastecer, e avistamos um corpo que está há uns três dias ali sem que ninguém o recolha. O cara do posto e, depois, dois policiais que aparecem para pedir um suborno ao forasteiro que está no carro já dão o tom da atuação. E saibam: não há atuação ruim. Nenhuma. Sério. O ator ou atriz que menos aparece, ou que tem menos importância, é enquadrado e trabalhado pela direção de um modo que extrai uma ótima atuação. Então, saiba que, para se destacar nesse filme, tem que ser acima do muito bom.

            E três figuras se destacam acima desse muito bom, na minha concepção, e no tipo de atuação que eu considero a mais difícil de sair bem-feita: a da pessoa comum. Não sei se é porque todo mundo se importa em se glamourizar demais e fecha os olhos para pessoas palpáveis e não produzidas, ou se é porque a simplicidade é tragada pela sofisticação de se querer parecer mais do que se é, mas a pessoa comum — simples, sem maquiagem elaborada, que faz o que tem que fazer, nem sempre de forma consciente, mas por viver a sua vida — exige uma atuação muito bem afinada para ocorrer sem clichê. E, como disse há pouco, três pessoas chegaram à perfeição: Wagner Moura, que faz Armando/Marcelo; Tânia Maria, que faz Dona Sebastiana; e Alice Carvalho, que faz a esposa morta de Armando. É absurda a interpretação deles perto de todas as outras que já são muito boas.

            E o roteiro do filme, cheio de camadas? Eu precisei que a história se assentasse um pouco na minha cabeça antes de fazer um juízo sobre ela. De início, pensei que o filme era mais ou menos; depois foi caindo a ficha. Além de perceber que não havia atuação ruim, percebi que não havia elemento que não fizesse sentido ou que fosse desnecessário na trama, seja de forma direta ou indireta, nos dando uma compreensão mais profunda do que estava acontecendo. Até o absurdo da lenda urbana da Perna Cabeluda recifense foi usado como uma metáfora da violência que a população sofria em lugares de “amor livre” que toda cidade grande tem, mas que nenhuma rede de televisão ou autoridade quer divulgar. Faz-se disso um tabu: existe, mas ninguém toca no assunto, e todos fingem que não existe; quando dá algum problema, aí se comenta a respeito, de forma a não se aprofundar demais naquilo.

            E eu fiquei muito satisfeito de, depois de Ainda estou aqui, que aborda o mesmo tema — para variar — no Rio de Janeiro e termina em São Paulo, termos uma história em Recife que já está na lista dos pré-cotados ao Oscar. A lista final sai somente no fim de janeiro de 2026.

            E, para quem fala tanto que o cinema nacional não faz filme bom, toma na cara O agente secreto. Eu não consegui achar uma crítica sequer para fazer ao filme. E o final é disruptivo e não tão fácil de entender quanto o de Ainda estou aqui, que parece acabar abruptamente; para logo em seguida ter um “pós-final” que poderia aparentar uma desconexão, mas que nos faz compreender a história por outro viés, o que a torna ainda mais interessante.

            E tem tanta coisa acontecendo nesse filme, tantos elementos que poderiam virar uma bagunça, mas acabam ficando, ao mesmo tempo, muito fáceis de entender: é carnaval acontecendo, um fusca amarelo, um fusca amarelo, mortes violentas, uma perna dentro de um tubarão, um gato de duas caras, repartição pública, uma alusão de um crime recente, mas que é colocado como se fosse naquela época, a morte fatídica do menino Miguel Otávio Santana da Silva, os elementos secundários sendo usados nos momentos certos para mostrar alguma disposição interna de um personagem, uma lembrança, um sonho, uma notícia de jornal, toda uma construção de época muito fiel e a “Perna Cabeluda”… É definitivamente muita coisa em um filme só, e todas contribuem para construir o melhor filme nacional do ano. É magistral.





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Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

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 Banco Inter — Vinícius Motta

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