segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Filmes baseados nas obras de Agatha Christie

 



Filmes baseados nas obras de Agatha Christie

 

            Eu posso dizer, sem sombra de dúvidas, que minha transição de livros infantis ou juvenis para o universo de histórias adultas foi Agatha Christie, com Um crime adormecido, onde conheci a incrível Miss Marple. E como saber a pronúncia certa numa época em que a professora de inglês mal ia dar aula na escola pública em que eu estudava? Depois veio O caso dos dez negrinhos, que, pelos anos seguintes, foi mudando de nome devido à questão do racismo a que o título remete. De “negrinhos”, mudou para “indiozinhos” e parece que se fixou em “soldadinhos”. Não entrarei no mérito sobre isso, mas me parece que agora está tudo certo e o antigo nome não é mais usado: hoje é E não sobrou nenhum. Entrega o fim do livro, contudo não gera debates sobre etnia e raça que o título anterior poderia eclipsar da história.

            Caí em Morte no Nilo pois tinha em casa e descobri que a biblioteca da cidade onde morava, na época, tinha uma coleção quase completa de praticamente todos os livros da Dama do Crime e, obviamente, como quando gosto, eu gosto de verdade, eu me esbaldei.

            Infelizmente, quanto aos filmes, tudo era muito limitado. A televisão aberta era tão imprevisível em relação aos filmes que eu realmente queria assistir que eu precisava contar com a sorte para ter acesso a algum baseado nesses livros. Por exemplo, Assassinato no Expresso do Oriente eu só consegui assistir recentemente: tanto a versão maravilhosa de 1974, com aquele elenco espetacular, quanto a de 2017, que deu abertura para Kenneth Branagh retomar, com uma superprodução, essa mesma história e mais dois filmes em sequência, Morte no Nilo e Noite das Bruxas. E mesmo nas locadoras as “fitas” eram raras.

            Vários filmes ficaram de fora e, este ano, eu tive a oportunidade de assistir a três produções no formato de minissérie para televisão: A casa torta (2017), Os crimes ABC (2018) e E não sobrou nenhum (2015).

            São produções bem competentes; contudo, a que menos me agradou foi Os crimes ABC, que conta com Hercule Poirot interpretado por John Malkovich — e não combinou nada. Ele faz um detetive em baixa, saudosista de um passado glamoroso que não volta mais, cansado. Um assassino começa a matar pessoas seguindo um guia ferroviário “ABC”, eliminando vítimas em ordem alfabética. O roteiro é frio e distancia muito a atuação do espírito do personagem principal. E, como curiosidade, Rony Wesley — Rupert Grint — faz um inspetor arrogante que menospreza Poirot. Eu lembrava muito pouco desse livro.

            Um dos meus preferidos é justamente aquele que ganhou adaptações horríveis, de baixo orçamento: E não sobrou nenhum. Só produção barata e interpretações duvidosas. Porém, essa versão de 2015, além de contar com bons atores, teve uma produção mais caprichada. A história se passa numa ilha onde dez pessoas são convidadas para passar o fim de semana, sem contato com a costa. E, após uma gravação acusar cada uma de um crime do passado, um assassino obscuro começa a eliminá-las, um por um, em consonância com uma estatueta que representa uma cantiga infantil, na qual cada crime é inspirado. Aqui, a curiosidade fica por conta da minha imaginação, que elaborou uma ilha cheia de mata cerrada, como são nossas florestas aqui; eu não tinha a chave de leitura necessária na época em que consumi o livro pela primeira vez, para saber que a costa inglesa não é tão exuberante quanto a nossa. É a importância de como vemos o mundo e quais chaves de leitura temos para entender melhor uma obra.

            Quanto a A casa torta, eu já havia achado, quando li, que seria difícil fazer uma boa adaptação, mas que ficaria excelente se conseguissem, pois sempre considerei o final muito original, configurando-se como uma das minhas histórias favoritas. O enredo é básico: uma família muito rica e aristocrática tem seu patriarca assassinado misteriosamente. O que realmente impacta nessa obra é o assassino — ousado para a época, na minha opinião. O filme é bem competente e traz um elenco muito bom; entre os atores, temos Glenn Close como uma poderosa Lady Edith. Fantástica.

            As produções têm melhorado bastante; contudo, continuam focadas no formato televisivo, e só Branagh conseguiu transpor essas histórias para as telas de cinema. Não há previsão para um quarto filme sob sua tutela, pois o último, Noite das Bruxas, não teve uma boa performance na bilheteria.

            Enquanto isso, ando garimpando em um streaming aqui e ali alguns filmes antigos ou mesmo dando uma olhada no YouTube, que, por incrível que pareça, tem alguns títulos por lá, meio perdidos. Vale conferir.

**** Gente do céu, eu simplesmente esqueci de acrescentar A hora zero, que em inglês é Towards Zero que faz referência  a um momento que se inicia uma jogada, no caso no tênis, para se conseguir marcar o ponto necessário. E eu idealizei esse texto quando consegui assistir esse filme, eu já tinha visto A casa torta e só depois assisti aos outros. E esqueci de citar esse. Minha cabeça não está 100% ainda... O elenco encabeçado pela Anjelica Huston que faz a matriarca podre de rica que mora à beira mar, mas não sai do próprio quarto desde de que viu seu marido morrendo afogado ao longe pela janela, Lady Tressilian. Acho que é o nome mais chique que a Agatha Christie já elaborou. E é justamente ela que vai de arrasta num plano elaborado que justifica o referido ponto zero. Gostei bastante, o elenco está bem inspirado e é em formato de série de três episódios como os outros. Vale bastante dar uma conferida para quem gosta de história de detetives. 


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E caso puderem contribuir com o autor do Blog que neste fim de ano teve um presentão do acaso, o celular pifou...  Especificamente neste dia 29 de dezembro. Que data fabulosa para se ter um equipamento de uso necessário quebrado. Estava divulgando as resenhas no Instagram, então, nesse momento fico por um tempo impossibilitado.

Meu pix, caso seu coração se sinta tocado é:

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domingo, 28 de dezembro de 2025

O agente secreto - Tem tanta coisa nesse filme... Até uma "Perna Cabeluda"!

O agente secreto - Tem tanta coisa nesse filme... Até uma "Perna Cabeluda"!





            Além de gostar muito de ler, eu me formei em Letras e, quando estudamos a respeito da literatura brasileira, descobrimos o “regionalismo”. Eu nunca entendi muito bem isso. Sou do interior de São Paulo e, para mim, era óbvio que regionalismo seria um escrito típico de uma região específica e de grupos sociais específicos, ligados à cultura tradicional, mas que, se fosse uma história moderna em Fortaleza ou mesmo em Salvador, por exemplo, não seria mais regional, pois trataria de situações de grandes centros urbanos e de cunho geral. E muito me espantou que, tirando o eixo Rio–São Paulo, tudo é regional. Principalmente o que é do Nordeste. Algumas regiões são tão desprovidas de representação que, quando sai algo, é jogado direto para o rótulo de regional. Então, a nossa literatura está muito definida em função de duas cidades, basicamente. E o mesmo acontece com o cinema. O que é um absurdo. Por mais que um filme seja feito no Norte ou no Centro-Oeste do país, sendo uma história urbana e contemporânea, não deveria ser regional. Agora, uma história de uma comunidade específica que só existe em uma determinada região faria sentido, mesmo que a narrativa se passe neste ano. Histórias urbanas não deveriam ser regionais na minha concepção.

            E O agente secreto é um filme do recifense Kleber Mendonça Filho, que escreveu o roteiro e dirigiu magnificamente uma história de uma contemporaneidade tamanha que chega a ser absurda sua classificação como regional. E outra coisa que sempre me incomodou muito — principalmente na época em que eu tinha como único objeto de entretenimento, informação e cultura a televisão, pelo viés da Rede Globo, já que pouco se assistia a outros canais em casa — é o fato de saber pouco do Brasil. Era tão peneirada e selecionada a informação que chegava que hoje, depois de abandonar a TV aberta de vez há uns dez anos, eu me surpreendo ao descobrir coisas que sempre existiram no nosso território nacional e nunca chegaram até nós. São tantas coisas cuja existência descobri por meio da internet que não caberia aqui uma lista. E, mesmo que os algoritmos do Instagram, por exemplo, se condicionem a mandar apenas conteúdos dentro da sua bolha, um vídeo ou outro de algo diferente acaba aparecendo. E, nessa, lá vou eu pesquisar a respeito.

            Outra coisa que eu sempre me perguntava: por que não fazem novelas em outras cidades? Eles inventavam uma ou outra cidade genérica, mas falavam o tempo todo do Rio. Eu não suportava aquelas novelas do Manuel Carlos, fazendo do Rio de Janeiro o lugar mais paradisíaco do mundo, principalmente depois que morei lá. Vez ou outra acontecia de ter uma série que se passava em outro lugar, novela era raro. A Globo teve a possibilidade e nos negou uma diversidade cultural; nos dava migalhas. O mundo está mudando, e agora temos uma janela para ele todo nas palmas das nossas mãos.

            E a minha surpresa com O agente secreto parte disso: conhecer uma época contemporânea nossa, um passado bem recente, que é um fato histórico relativamente bem trabalhado — a época da Ditadura Militar —, mas em um lugar que foge desse eixo sudestino: Recife e todas as suas histórias urbanas deliciosas e o jeito brasileiro de ser de lá. E tudo se inicia num carnaval do ano de 1977, quando Armando/Marcelo, fugindo da perseguição política, vai se esconder na casa de Dona Sebastiana nesta cidade. O prelúdio de tudo já acontece antes mesmo, com um posto de gasolina e um Fusca parando para abastecer, e avistamos um corpo que está há uns três dias ali sem que ninguém o recolha. O cara do posto e, depois, dois policiais que aparecem para pedir um suborno ao forasteiro que está no carro já dão o tom da atuação. E saibam: não há atuação ruim. Nenhuma. Sério. O ator ou atriz que menos aparece, ou que tem menos importância, é enquadrado e trabalhado pela direção de um modo que extrai uma ótima atuação. Então, saiba que, para se destacar nesse filme, tem que ser acima do muito bom.

            E três figuras se destacam acima desse muito bom, na minha concepção, e no tipo de atuação que eu considero a mais difícil de sair bem-feita: a da pessoa comum. Não sei se é porque todo mundo se importa em se glamourizar demais e fecha os olhos para pessoas palpáveis e não produzidas, ou se é porque a simplicidade é tragada pela sofisticação de se querer parecer mais do que se é, mas a pessoa comum — simples, sem maquiagem elaborada, que faz o que tem que fazer, nem sempre de forma consciente, mas por viver a sua vida — exige uma atuação muito bem afinada para ocorrer sem clichê. E, como disse há pouco, três pessoas chegaram à perfeição: Wagner Moura, que faz Armando/Marcelo; Tânia Maria, que faz Dona Sebastiana; e Alice Carvalho, que faz a esposa morta de Armando. É absurda a interpretação deles perto de todas as outras que já são muito boas.

            E o roteiro do filme, cheio de camadas? Eu precisei que a história se assentasse um pouco na minha cabeça antes de fazer um juízo sobre ela. De início, pensei que o filme era mais ou menos; depois foi caindo a ficha. Além de perceber que não havia atuação ruim, percebi que não havia elemento que não fizesse sentido ou que fosse desnecessário na trama, seja de forma direta ou indireta, nos dando uma compreensão mais profunda do que estava acontecendo. Até o absurdo da lenda urbana da Perna Cabeluda recifense foi usado como uma metáfora da violência que a população sofria em lugares de “amor livre” que toda cidade grande tem, mas que nenhuma rede de televisão ou autoridade quer divulgar. Faz-se disso um tabu: existe, mas ninguém toca no assunto, e todos fingem que não existe; quando dá algum problema, aí se comenta a respeito, de forma a não se aprofundar demais naquilo.

            E eu fiquei muito satisfeito de, depois de Ainda estou aqui, que aborda o mesmo tema — para variar — no Rio de Janeiro e termina em São Paulo, termos uma história em Recife que já está na lista dos pré-cotados ao Oscar. A lista final sai somente no fim de janeiro de 2026.

            E, para quem fala tanto que o cinema nacional não faz filme bom, toma na cara O agente secreto. Eu não consegui achar uma crítica sequer para fazer ao filme. E o final é disruptivo e não tão fácil de entender quanto o de Ainda estou aqui, que parece acabar abruptamente; para logo em seguida ter um “pós-final” que poderia aparentar uma desconexão, mas que nos faz compreender a história por outro viés, o que a torna ainda mais interessante.

            E tem tanta coisa acontecendo nesse filme, tantos elementos que poderiam virar uma bagunça, mas acabam ficando, ao mesmo tempo, muito fáceis de entender: é carnaval acontecendo, um fusca amarelo, um fusca amarelo, mortes violentas, uma perna dentro de um tubarão, um gato de duas caras, repartição pública, uma alusão de um crime recente, mas que é colocado como se fosse naquela época, a morte fatídica do menino Miguel Otávio Santana da Silva, os elementos secundários sendo usados nos momentos certos para mostrar alguma disposição interna de um personagem, uma lembrança, um sonho, uma notícia de jornal, toda uma construção de época muito fiel e a “Perna Cabeluda”… É definitivamente muita coisa em um filme só, e todas contribuem para construir o melhor filme nacional do ano. É magistral.





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Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações.

Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões. Fiquem à vontade.

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out: sobre uma construção de narrativa

 



Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out: sobre uma construção de narrativa


            Em 2019, Rian Johnson decidiu escrever e dirigir Entre Facas e Segredos, querendo resgatar os romances policiais e dar uma roupagem mais contemporânea a um gênero literário que sempre foi adaptado com certo sucesso para as telas: o romance policial. O projeto acabou virando uma franquia, que teve como segundo exemplar Glass Onion, de que não gostei muito, e agora chega ao terceiro filme, Vivo ou Morto.

          É interessante notar que, aqui no Brasil, os nomes ficam confusos. Traduzem o título, depois não traduzem, aí traduzem de um jeito um pouco estranho. O grande exemplo é este terceiro filme da franquia, cujo título original é Dead Man Wake Up, que, em tradução livre, ficaria “Homem morto, acorde”, mas acabou sendo lançado por aqui como Vivo ou Morto. Perceba-se que a expressão perde força se levarmos em conta a história.

            No filme, acompanhamos o padre Judd (Josh O’Connor), um sujeito fofo e empático, mas com problemas de agressividade não controlada. Ele é um ex-pugilista que se converteu e entrou no seminário após matar outro lutador no ringue, depois de um grave incidente durante uma luta. Após socar a cara de um colega, Judd é orientado a se tornar vigário paroquial — um padre auxiliar do titular da paróquia —, trabalhando ao lado do padre despirocado Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), que mantém em seu círculo de convívio um séquito de paroquianos bastante problemáticos.

            Entre devoção, fanatismo e assédios morais, a igreja vai se esvaziando. Esse círculo de amigos íntimos acaba presenciando a morte misteriosa do monsenhor durante uma missa. Para piorar, o padre morre em uma câmara lateral ao lado do altar, enquanto tentava recuperar o fôlego após uma homilia acalorada. O mistério está instaurado, mas entra em cena Benoit Blanc (Daniel Craig), chamado pela autoridade local para ajudar na investigação.

            A partir daí inicia-se um jogo de construções narrativas a serviço da hipocrisia religiosa, refletindo tudo o que sabemos existir nas instituições de um grupo que pretende manipular outro por meio do discurso moral.

            O enredo, em si, não é inovador, mas funciona como um recorte de várias fórmulas já exaustivamente usadas na literatura. Isso é tão evidente que o próprio roteiro propõe uma lista de livros diretamente relacionados à história. Blanc chega a comentar que se trata de um compilado que ensina a matar alguém no clássico estilo da “sala fechada”. Os livros citados são:

Os Crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe;
Um Corpo na Banheira, de Dorothy L. Sayers;
O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie;
O Homem Oco, de John Dickson Carr;
Assassinato na Casa do Pastor, de Agatha Christie.

            Esse recurso é particularmente interessante, pois ilumina o modo como o roteiro bebe dessas obras para ser construído. Como já li quase todos estou pensando em fazer um estudo sobre a confecção do roteiro com base nos livros, não só para postar aqui, mas para eu tentar, não só entender, mas quem sabe eu um dia escrever algo... Quem sabe? Rian Johnson costuma fazer esse jogo de elaboração baseadas em várias fontes em suas histórias, e quase sempre há uma crítica relevante por trás. Em Vivo ou Morto, em especial, a crítica aparece em vários pontos: a relação com o sagrado, o abuso de líderes religiosos e, como já mencionado anteriormente, a manipulação das narrativas.

            Gostei bastante do filme, e as interpretações estão bem redondinhas. Para variar, Glenn Close está arrasando como a secretária da paróquia, uma carola de dar nos nervos. Dos três filmes da série Knives Out, este foi o que mais gostei. O primeiro achei meio confuso, e o segundo, com uma trama um tanto absurda. Este, apesar dos exageros, acaba sendo mais verossímil.

            Afinal, ver um religioso — ou uma religiosa — hipócrita se dando mal na ficção acalenta um pouco o coração. Vivemos um momento tenebroso, com religiosos no Brasil cometendo barbaridades e se bandeando para o pior lado da humanidade: ódio, intolerância, corrupção, machismo e misoginia.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Corrida das blogueiras: o poder do corte

 



Corrida das blogueiras: o poder do corte




            Se antes eu me interessava por alguma coisa através da televisão aberta, jornais e revistas, os tempos mudaram. Revistas e jornais caíram em declínio vertiginoso, e eu não assisto TV aberta desde 2015. E qual é a opção mais viável além das fake news daqueles grupos insuportáveis do WhatsApp? Mídias sociais com seus cortes. Tudo foi fragmentado em vídeos curtos para se passar em alguma timeline de alguma rede social, que disputa desesperadamente a atenção de um novo público e manipula descaradamente nosso sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina — doses cavalares, dependendo do tempo que um indivíduo fica exposto à tela do celular e a esses vídeos.

            Este que vos escreve, por não estar trabalhando, acaba pesando a mão no tempo de tela enquanto aguarda não só o tempo passar, mas o horizonte se mostrar mais benfazejo. E, nessa vigília interminável, mendigando doses cada vez maiores do neurotransmissor, eu tive contato com um corte que me chamou a atenção. Se vejo algo que me causa uma curiosidade maior, tento depois pesquisar sobre o assunto no Google. E um dos cortes que me chamou a atenção foi de um blogueiro fazendo alguma prova em algum programa sobre comida — e ele tinha a delicadeza de um rinoceronte raivoso dentro de uma sala cheia de cristais. Foi de zero a menos cem através de uma palavra que ele martelava na sua tentativa debilitada de fazer uma publicidade adequada: lixo.

            E, como os algoritmos dos aplicativos não perdoam, logo fui invadido por outros perfis com o mesmo vídeo. Fui pesquisar e, consequentemente, fui assistir ao programa todo, até o último episódio, e descobri que a final será em janeiro de 2026. E fiquei com raiva disso.

            No caso, o corte era do episódio 05 da temporada 7 do Corrida de Blogueiras. Esse programa é um reality show brasileiro de entretenimento e competição que bebe, a ponto de quase se afogar, de RuPaul’s Drag Race. O que difere o brasileiro do estadunidense é apenas o foco no tipo de participante: no gringo, só Drag Queens podem participar; no tupiniquim, o horizonte é mais amplo e aceita drags, semi-drags, mulheres cis e trans, homens cis e trans, desde que todos tenham a alcunha — através de algum perfil ativo nas redes sociais — de blogueira ou blogueiro. O foco é, em grande parte, o público LGBTQIAPN+, e só de citar isso uma grande parcela do público médio já torce o nariz. Porém, não é exibido em nenhum canal aberto de televisão e atende a uma bolha específica na internet. Instagram, X, YouTube e Facebook acabam se alimentando não só de cortes, vídeos completos e infinitas discussões e opiniões dos consumidores desse tipo de produto, que, por sinal, são bem engajados. E parece que esse corte que cito acabou extrapolando um pouco a bolha pelo absurdo que foi.

            O programa se encontra na sétima temporada e eu não assisti nenhuma das anteriores. Ao contrário de RuPaul’s Drag Race, que assisti com muita frequência, esse não me interessou muito por várias questões, entre elas os criadores do programa: o casal Eduardo Camargo e Filipe Oliveira, que também são criadores do canal de YouTube Diva Depressão, que no começo eu os achava chatos. Assistindo esses dias não só o Corrida de Blogueiras, mas também algumas lives do casal, no Diva Depressão, percebi que eles evoluíram muito em qualidade e profissionalismo em relação à época em que eu parei de assistir. O que acompanho de blogueirices é apenas o que me chega pelos Reels ou pela timeline do Facebook. E, como ando usando muito, proporcionalmente tenho tomado conhecimento de várias coisas.

            Não vou citar nomes, mas todo mundo que conferir vai saber de quem estou falando — não é segredo. Uns anos atrás, apareceu para mim um perfil de um rapaz que achei muito enfadonho: ele era afetado, se fazia de moleque e cheio de trejeitos. Isso foi me cansando até que, como de costume, apelei para o “não tenho interesse”, e vida que segue. E justamente o corte era com essa pessoa. A prova era de publicidade de comida e, ao invés de exaltar o alimento, ele usou um texto totalmente fora do bom senso: desprezou os consumidores, comparou comida a lixo, cuspiu a comida na frente das câmeras — ainda que a prova já tivesse acabado. Foi uma antipublicidade.

            E o corte, com tanto absurdo, me fez ter curiosidade para ver o programa. Eu sabia que ele existia, tento ficar antenado com tudo que se passa, mas consumir já é algo que depende de muita coisa. Ainda mais com essa crise que enfrentamos de maus blogueiros e influenciadores que só querem enriquecer a despeito de qualquer respeito e consideração pelo seu público. Porém, é um fenômeno que existe e está aí; não podemos apenas descartar e fingir que não existe. Quando assisto a algo, seleciono através dos meus critérios de preferência de assunto e tento não dar minha visualização ou curtida a influenciadores que reprovo — e meus critérios de reprovação são conteúdo raso, ser propagador de fake news e divulgar bets. Eu corro de vários canais e perfis por esses motivos. E, depois dos coaches de masculinidade, também questiono se não deveríamos adotar uma medida semelhante à que a China tem imposto aos seus produtores de conteúdo: a pessoa só poder falar de um assunto para o qual tenha formação acadêmica, além da proibição de influenciadores de conteúdo de ostentação de alto luxo. É necessária uma regulamentação para o que acontece na internet, que não pode continuar como uma terra de ninguém.

            E só lembrando uma questão levantada pelo Felca, que é um dos maiores influenciadores brasileiros do momento: a adultização de menores de idade, que desembocou na prisão preventiva de Hitalo Santos e de seu marido, que faziam justamente isso — usava a imagem de garotos e garotas menores de idade para monetizar e fazer os vídeos terem muitas visualizações, associadas a publicidades questionáveis. Com isso, um efeito dominó conseguiu apurar outros crimes que estavam envolvidos. Felca saiu não só como um herói, mas mostrou que um influenciador pode, sim, contribuir para a sociedade e abordar temas espinhosos de forma séria, através de pesquisa e coleta de provas. Os demais querem isso? Não sei. Felca já entrou para a história. Ele deu uma chacoalhada boa no bambuzal da internet.

            Voltando ao Corrida de Blogueiras, eu realmente fui assistir à temporada toda e achei bem simples diante de sua inspiração original. Contudo, os participantes e a própria dupla de apresentadores entregam diversão. E, realmente, o participante que mandou mal na prova que vi no corte é tudo e mais um pouco do que eu imaginava que ele fosse; porém, ele é talentoso na sua área. Cada modelo de roupa que ele faz demonstra isso, e percebo que muitas provas foram feitas sob medida para suas habilidades. Contudo, na relação interpessoal, ele é um trasgo da montanha com jeito de adolescente otaku de 12 anos — porém, ele tem 26. Os outros participantes entregam mais carisma, e muitos até demais, no bom sentido. Agora vamos aguardar a final. E, realmente, não sei se me cativou o suficiente para me animar a assistir a uma próxima temporada. Valeu a pena por me inteirar em um formato de programa que não é muito o meu perfil de preferência.

 


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            Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

            Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

            Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

            Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

            E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

            Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões. Fiquem à vontade.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O filho de mil homens: Desligue-se totalmente antes

 



O flho de mil homens: Desligue-se totalmente antes

            Eu não assisti O filho de mil homens do jeito certo. E não me orgulho disso. É, o celular — a culpa é do celular. Baseado na obra homônima de Valter Hugo Mãe, o que se vê em tela é um deslumbre metafórico e poético em imagens críveis. E eu não estava preparado para um filme desses neste momento. É lento, sutil, belo — pura arte. Como eu não conhecia o livro que foi adaptado, achei que seria um filme fácil de assistir. Não é: O filho de mil homens é um filme contemplativo. Cada enquadramento conta sua história em conjunto com cada atuação. E, como não consigo me desligar do celular — por mais que não o acesse — aquela ansiedade que só uma tela acesa tende a nos causar fica me incomodando. Este filme pede respiro, exercício de silenciamento.

            A história em si é um emaranhado de outras histórias que se permeiam, e todas desenrolam para o pescador Crisóstomo (Rodrigo Santoro), que tem uma ingenuidade do tamanho da ânsia de ter um filho. A vontade é tamanha que ele tem um boneco de pano que várias vezes trata como pessoa viva e joga um bilhete no meio da feira com os dizeres "Pai sem filho procura filho sem pai". Um dia a vida lhe dá a oportunidade de ter o filho que tanto quer: uma adoção — surge Camilo (Miguel Martinez), que ficou sozinho após o avô morrer. Pulando de um personagem para outro, vemos como a história desemboca no final nas conexões entre eles e, que revela um pouco do motivo do título.

            Antes de falar das atuações, tenho que chamar atenção para o cenário: as gravações foram realizadas em Búzios (RJ), especificamente nas praias de José Gonçalves e Azeda, e na vila de Igatu, na Chapada Diamantina (BA). Entre uma praia com rochas e uma vila colonial preservada, não sei dizer qual locação é mais linda. A magia do cinema une as duas como uma vila fictícia indeterminada que pode estar em qualquer lugar — inclusive na alma humana. Para nossa sorte, são patrimônios nossos e podem ser visitados; quando tiver condições pretendo ir, pelo menos, à Chapada Diamantina. Por mais que ache lindas as praias, sempre prefiro o interior, a mata e — principalmente — a cidade; por quem meu coração bate mais forte ainda, mas refiro-me a cidade grande, com mais de um milhão de habitantes.

            A vila do filme é simples, de pescadores e de gente que poderia ser comum, não fosse a complexidade das motivações humanas. Se Crisóstomo é um homem que tem dentro do peito tanto amor que se derrama na vontade de ter um filho, Camilo é um órfão que parece perdido e, contudo, como criança é ávido de afeto e consegue — mesmo que às vezes apresente comportamentos aprendidos não tão adequados — ligar-se não só ao seu novo pai, mas aos demais personagens que entram na vida dos dois. Isaura (Rebeca Jamyr) é fria, distante e desiludida com os homens; convive com a doença mental da mãe, Marta (Grace Passô), e sua vida se cruza por conveniência num casamento arranjado com Antonino (Johnny Massaro), um rapaz judiado pela vida desde cedo por várias situações — e por ser gay. O improvável acontece, e todos esses personagens se conectam numa forma de afetividade que não é comum aos nossos costumes embrutecidos.

            Mais do que um filme sobre união e afeto, é um filme sobre humanidade. Uma obra de singeleza nas ações, que não devem ser classificadas simplesmente como maldade ou bondade. São seres humanos críveis ali retratados, e cada ator consegue traduzir na poesia do texto a interpretação necessária ao personagem. Entre fala e silêncio vemos imagens belas que fazia tempo não via no cinema nacional. Digamos que nosso cinema anda um pouco voltado à ação e ao diálogo; aqui o silêncio também é diálogo. Quem não assistiu ainda, quando o fizer, lembre-se dessas coisas: as borboletas, o mar e a concha. Não vou explicar — tente captar a beleza e o significado dessas cenas.

               Estamos num bom período para a produção nacional. Desde o ano passado temos visto filmes muito bons, e este é um deles. O filho de mil homens é arte e, como tal, deve ser absorvido com calma... Então não faça como eu: desligue-se totalmente antes, para aproveitar ao máximo. Eu ainda não posso dizer que estraguei completamente minha experiência, pois tenho boa memória e consegui reter o suficiente... Poderia ter sido mais.



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Então, sou o ViGaMo / Vinícius Motta e uso este blog como uma forma de exercitar minha escrita e também de me expressar um pouco. Vim morar no interior de São Paulo e ando um pouco isolado, e o blog acaba sendo uma forma de “conversa”.

Sou formado em Letras – Português/Inglês e, devido a um desgaste e a uma grande crise de ansiedade, ainda não consegui retornar para a sala de aula — e, sinceramente, não ando muito animado para tal. Tenho outros anseios e receios e quero muito direcionar meus esforços para outros projetos. O blog me ajuda a ganhar um pouco de segurança e esperança.

Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

Obrigado por prestigiar o blog. Deixem comentários, sejam quais forem, e, quem sabe, sugestões. Fiquem à vontade.

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 Banco Inter — Vinícius Motta

domingo, 7 de dezembro de 2025

Bom Menino - Terror da perspectiva de um cachorrinho



Bom Menino - Terror da perspectiva de um cachorrinho

            Bom Menino acabou sendo a tradução de Good Boy — não foi para         Bom Garoto — e escolheram “menino” justamente para se distinguir da produção que fala de petplay, um fetiche em que pessoas se vestem com máscaras de animais para simular seus comportamentos. Estranhamos, mas não julgamos... Muito antes dos filmes, o underground paulistano já mostrava isso em algumas festas que eu frequentei.

            Quando Quatro Vidas de um Cachorro (2017) foi lançado, desanimei completamente depois de uma nota jornalística dizendo que um dos animais havia sofrido maus-tratos no set de filmagem. Não assisti ao filme. E, se você acha exagero minha reação, basta acompanhar qualquer postagem em que algum bicho é maltratado — a galera cai matando em cima mesmo.

            Quando soube deste novo filme, fiquei dividido entre duas situações: primeiro, não queria assistir a nada que tivesse colocado um animal em risco; segundo, a possibilidade de a entidade matar o cachorro também me desanimava. Aos poucos, fui lendo uma informação ou outra que me acalmou. O diretor, Ben Leonberg, que também escreve o roteiro e idealizou a história, usou seu próprio cachorro de forma totalmente segura. As imagens foram coletadas em momentos reais de convívio entre os dois, e até o sangue que aparece — todo cênico — era uma mistura inofensiva. Isso me tranquilizou. Restava lidar com a segunda possibilidade: o cachorro morrer no final. Quanto a isso, deixo vocês conferirem.

            A história é um típico terror sobre uma entidade misteriosa que assombra alguém em uma casa isolada. Todd (Shane Jensen), que sofre de uma doença pulmonar que o faz tossir sangue, sabendo que não vai viver muito, decide fazer o que muitos estadunidenses consideram de bom senso: se isolar numa casa no meio da floresta. A casa era do avô dele, que também morreu lá. Todd tem como fiel companheiro o Indy e, antes que vocês achem que é um vira-latinha caramelo, desculpem dizer: de vira-lata ele não tem nada, é um Duck Tolling Retriever da Nova Escócia. Antes mesmo de Todd perceber que está assombrado por uma entidade lamacenta, quem percebe é o seu cachorrinho fofo. E, gente, aqui está o ponto alto do filme: tudo é mostrado pela perspectiva dele. Os rostos humanos quase nem aparecem. O terror crescente que Indy sente é tão visível no rostinho peludo que realmente impressiona o quanto conseguiram extrair dessa “interpretação” sem causar sofrimento ao animal.

            E usar essa sensibilidade animal para evidenciar uma entidade é algo bem interessante, e ainda pouco explorado de forma eficiente. Tenho uma cachorrinha extremamente sensível e, de vez em quando, ela se assusta sem motivo aparente, olha para o nada... Mas foi ela quem me alertou, uma vez, em um prédio onde morei, sobre uma cascata de água que descia da caixa d’água lá em cima. Eu estava no escritório, escrevendo, achando que era só uma chuva inesperada. Agora mesmo ela está aqui aos meus pés enquanto termino meus afazeres e escrevo esta resenha — toda dorminhoca depois do remédio que dei por conta de uma alergia que não sara.

            Para amantes de cães, ver um bichinho como Indy sofrer como sofre pode ser difícil. Mas isso me faz pensar: o verdadeiro terror de um animal não seria justamente o que Indy está vivendo? Acompanhar seu tutor sofrendo por uma doença que pode matá-lo? Temos que lembrar que, quando um cão escolhe seu líder de matilha, aquela pessoa se torna seu mundo. Na natureza, numa matilha de verdade, ainda existe o conforto dos outros membros. Mas nós, que os tiramos disso para cuidar dentro de uma casa ou apartamento, isolados de outros bichos e sozinhos, nos tornamos literalmente tudo o que eles têm. Então será que ver o seu mundo morrer não é o maior terror que qualquer cão poderia viver, sem considerar aqui situações de maus-tratos?


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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente: HIV/AIDS








            Várias vezes eu me pego pensando no que me faz assistir a uma série; talvez, por escrever aqui, isso seja uma questão que me afete. E, olhando um texto antigo — Stranger Things 1983 (2016 - https://assuntocronicoviniciusmotta.blogspot.com/2016/07/stranger-things-1983.html ) — percebi que já havia ali uma forma de escolher o que ver: eu buscava no catálogo da Netflix algo interessante, alguém no Facebook falava bem da série e lá fui eu, sendo enrolado por anos por esse Mundo Invertido que está mais embolado, no fim de 2025, que minha vida pessoal. Pelo menos a série prometeu desenrolar tudo agora... Já minha vida, só esperando pelos episódios mesmo.

            Essa, claro, não é a única forma de chegar a uma obra, são inúmeras. Por exemplo, It’s a Sin (2021 — Reino Unido) veio até mim por causa de uma música: Palo Santo, do grupo Years & Years, cantada por Olly Alexander. Em um momento tenebroso da minha vida, alguns meses depois de ter me mudado para o centro de São Paulo, eu pesquisava sobre propriedades do palo santo — o inquilino anterior havia deixado um pedaço grande numa planta esquecida — e acabei encontrando a música. Gostei do ritmo e a letra casava tanto com meus sentimentos e preocupações que virou um mantra, junto com Want To, da Dua Lipa. Como a música me fisgou, pesquisei sobre o vocalista, o já citado Olly, e descobri que ele havia feito outros projetos, entre eles It’s a Sin. Isso foi em 2022. Só consegui assistir agora, em 2025.

            Companheiros de Viagem eu tinha visto em algum portal: diziam que Matthew Bomer, “o bonitão”, tinha feito uma nova série queer. Li a sinopse e: “Meh!”. Não sou fã do Bomer, e a história, mesmo com elogios da crítica, não me convenceu. Até que, em uma sessão, minha analista comentou e disse que eu talvez fosse realmente gostar. Fui assistir este ano e digo que foi sofrido. Além de o Bomer reafirmar meu desinteresse, Jonathan Bailey — interpretando seu companheiro de viagem, redundantemente — engole ele na atuação. Mas a produção de arte, figurinos e roteiro são muito bons. E, deponto ainda mais contra o Bomer, seu personagem, Hawkins, é aquele típico “não caga e não sai da moita”. Levei mais tempo que o normal para terminar os oito episódios.

            Já o título quilométrico Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente apareceu para mim num vídeo qualquer do Instagram. Me interessei pelo tema, mas fiquei com um pé atrás até assistir a uma entrevista do Sem Censura com Beatriz Grinsztejn, médica infectologista com longo histórico no combate ao HIV/AIDS; Evandro Manchini, ator, realizador audiovisual e militante que fala abertamente sobre viver com HIV; e Johnny Massaro, que parecia meio aéreo e se perdia fácil nos próprios pensamentos — alguns momentos foram bem estranhos. Ele falou da série que interpretava o protagonista, Ciça Guimarães elogiou muito e isso reacendeu minha vontade. Ontem assisti: cinco episódios que passaram voando.

            E por qual motivo essa volta toda? Talvez pelo tema central que perpassa as três produções e que, para muita gente, ainda causa desconforto: a primeira década do surgimento do HIV e da AIDS, que ceifou milhares de vidas enquanto governos fingiam não ver nada de mal e classificando como “doença de bicha”. Cada série dá um enfoque específico e mostra como foi o enfrentamento em cada contexto.

            It’s a Sin é a mais antiga e pessimista, focada em três personagens e com clima de autodescoberta juvenil na Londres dos anos 1980. Companheiros de Viagem (EUA – 2023) segue o casal desarranjado Hawk e Tim, que se conhece nos corredores políticos dos anos 1950 e enfrenta a perseguição a homossexuais no governo, atravessando décadas até chegar aos anos 1980 — é a mais fiel aos eventos históricos. E, por fim, Máscaras de Oxigênio... — vou manter as reticências para não ficar escrevendo o tempo todo esse nome enorme— é a mais solar e didática, acompanhando um comissário de bordo, Fernando, que descobre ter uma doença que mata gays e tenta trazer dos EUA um medicamento proibido no Brasil na época: o AZT.

      Nas três séries há algo que deixa muitos homens heterossexuais desconfortáveis: sexo entre homens. Se superarem isso, verão que são relatos valiosos sobre uma epidemia que assolou o mundo muito antes da Covid-19. E, pasmem: os avanços nas pesquisas sobre HIV foram importantes para entender melhor o SARS-CoV-2. Mas, entre todas, a mais didática é Máscaras de Oxigênio.... A série parece ter feito de brief um folheto de posto de saúde especializado em ISTs (o termo correto hoje, e não mais DSTs).

            O que mais me chamou atenção é que, apesar das outras tentarem retratar o universo gay com mais alegria, mesmo diante das tragédias, a série brasileira demonstra uma necessidade quase urgente de não ser negativa. Há um subtexto constante: “apesar da doença, é possível viver”. Hoje sabemos que, embora ainda não exista cura, há tratamento — e quem toma os remédios mantém carga viral indetectável não transmite o vírus. O Brasil se tornou referência no tratamento e combate ao HIV/AIDS e possibilitou vida digna a pessoas que, por tanto tempo, enfrentaram peso e estigma.

            E o mais interessante é como a série traz uma personagem como Sônia: mulher cis heterossexual, religiosa, devota de São Sebastião, que contrai o vírus do marido. Anos de casamento, fidelidade, e o homem mantinha uma vida dupla e acabou contraíndo o vírus. A interpretação de Rita Assemany é delicada e humana. Em uma cena, ela encontra a amante do marido já em estado terminal e, em vez de escurraçá-la, pergunta se ela sabe a oração de São Sebastião. Francesca, a amante, que é uma mulher trans, (Kika Sena) responde que é filha de Oxóssi, e as duas rezam juntas.

            Chamei tudo isso de “séries”, mas são, na verdade, minisséries de histórias fechadas com uma temporada só. Todas bem produzidas, todas com interpretações tocantes. Eu ainda puxo sardinha para Máscaras de Oxigênio.... E, em um vídeo aleatório, ouvi Tilda Swinton dizendo que, nos anos 1990, chegou a ir a 49 enterros — todos vítimas da AIDS. Vale lembrar: HIV é o vírus; AIDS é o conjunto de sintomas quando o sistema imunológico já está muito debilitado. Então todas trabalham uma temática ainda relevante nos dias de hoje.

            Não quero transformar este texto numa panfletagem, mas fica a dica: todos precisam entender sua própria sexualidade, e dentro dela existem riscos, doenças, informações necessárias. Sexo transmite doenças; casamento não garante fidelidade nem proteção. Tem muito marido posando de heterossexual enquanto vive uma segunda vida escondida. A hipocrisia é um dos maiores vetores de transmissão de várias doenças.

            Dezembro Vermelho é o mês de conscientização e prevenção do HIV/AIDS e outras ISTs. Qualquer situação de sexo desprotegido, ou qualquer lesão, coceira, secreção, mudança estranha: corra para um médico. E, se houve exposição, saiba que até 72h é possível iniciar a PEP, um tratamento que reduz drasticamente a chance de infecção. Educação sexual também é isso. E produções culturais podem, sim, divertir e ensinar ao mesmo tempo.

            E, por fim, viva o SUS, que oferece tratamento gratuito. Em Máscaras de Oxigênio..., os remédios que o personagem do Massaro compra nos EUA custam US$ 800,67 — o que hoje pela cotação do dia daria R$ 4.254,60. 

            Viva o SUS!

 



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Sou tutor de duas Shih-tzus de meia-idade canina e de três gatos, que me presenteiam todos os dias com um carinho e uma felicidade que somente quem tem um bichinho de quatro patas conhece. Também apadrinho uma família de gatos vira-latas que mora no fundo do meu quintal. Não desejo despejá-los de lá e acabo colocando ração para eles também.

Como já decidi há algum tempo fazer isso, deixei meu Pix para o caso de alguém querer contribuir com algo — isso ajudaria muito, e eu ficaria imensamente grato. Também deixo meu e-mail como forma de contato, quem sabe para futuras parcerias e colaborações.

E aguardem: ando planejando melhorar não só o conteúdo que preparo, como também evoluir para algo que possa ser levado a outras plataformas e redes sociais. Contudo, ainda tenho minhas limitações — sou bastante vergonhoso para fazer vídeos.

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Stranger Things 5 – Volume 1: Todo abusado vira um abusador?

 




Stranger Things 5 – Volume 1: Todo abusado vira um abusador?

 

            Eu assisti Stranger Things 5 e nem vou comentar essa estratégia de nos fazer esperar três anos e ainda dividir em três estreias com quatro episódios no dia 26 de novembro, três episódios no dia 25 de dezembro e um episódio no dia 31 de dezembro. Eu vou surtar. Os quatro primeiros episódios assistidos entre sexta e sábado e o que eu posso dizer? Foi foda!!! Eu estava meio desconectado da série — quem diria que esperar tanto tempo afetaria meu interesse — e ando um pouco disperso mesmo por questões pessoais. Não está fácil umas coisas aqui... Enfim, eu achei a história um pouco arrastada no primeiro e segundo episódios, mas aí que mora o pulo do gato dos Irmãos Duffer. Eles prepararam a arapuca e esperaram a presa cair. E caímos nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, literalmente. E a pancada foi tão forte que passei o domingo cuidando dela e vendo que não fui o único a receber bem no meio da fuça. É incrível como um assunto se torna viral e os algoritmos, que não são bobos, já te bombardeiam com muita coisa sobre o tema. Apesar de que, desde a estreia, eu pererequei para não assistir nenhum spoiler sem querer antes. E o povo, na ânsia de uma curtida ou like, tá desesperado, não respeitando e contando tudo. Todo mundo quer pegar o hype do momento e vira um Deus-nos-acuda. Olha, foi difícil, mas consegui chegar até sábado sem saber de nada.

            Temos ótimos momentos com praticamente todos os queridos personagens que já acompanhamos, mas a série dá espaço para a Holly Wheeler (Nell Fisher), que resgata a infância, pois os demais personagens já são adolescentes, e temos também um personagem deliciosamente engraçado e de boca suja, o Derek (Jake Connelly), que é visivelmente — ou não — inspirado em Eric Cartman de South Park; até o nome tem som parecido. Tirando esses rostinhos mais infantis, resgatam a Erica Sinclair (Priah Ferguson) numa cena psicopata que somente ela poderia fazer e mais ninguém. E temos o que temos para não te entregar spoilers. As redes sociais estão inundadas de “Running Up That Hill (A Deal With God)”, da Kate Bush, com cenas e mais cenas de tudo que se pode imaginar. Eu, que só tenho Facebook e Instagram, passei o dia vendo comentários, spoilers, críticas, teorias e elaborações mentais por causa do fim épico e maravilhoso, que entregou um fan service que todo mundo precisava. Como toda a série foi destrinchada por influenciadores, críticos, amadores ou profissionais, que são muito mais gabaritados que eu para isso, eu vou falar algo que acho interessante abordar. Talvez, a partir deste momento, haja um spoiler ou outro, de forma indireta ou mesmo direta. E eu, neste momento, volto à questão que coloquei no título: “Todo abusado vira um abusador?” E vou tocar também em assuntos delicados e sensíveis e tentarei ser o mais respeitoso e cuidadoso possível. Se eu errar ou pesar a mão ou cometer algum equívoco desmedido, me apontem — seja nos comentários, seja por e-mail.

 

“Todo abusado vira um abusador?”

            Eu acompanho as produções estadunidenses desde que me entendo por gente. E entre uma faculdade e outra eu me inteirei de assuntos como Filosofia, Psicologia, Mitologia, Análise do Discurso, Literatura, clássicos de vários tempos da literatura e do entretenimento, teorias de escrita, Jornada do Herói, entre outras coisas. E o assunto da criança sendo de alguma forma assediada volta com muita frequência nas grandes produções. Eu, quando assisti pela primeira vez A Hora do Pesadelo com meus oito anos, não percebi que o Freddy Krueger era um pedófilo que voltava para pegar as crianças — já crescidas — que não conseguiu. Eu nem sabia que era um pedófilo e muito menos que isso existia e era errado. E a história se repete em inúmeros filmes e séries de forma clara ou com alguma alegoria: It – A Coisa é uma delas, temos Monstros S.A., que brinca com a questão, e agora Stranger Things, que é o meu foco no momento.

            No começo da primeira temporada nada ficou muito claro. E, pelo que sei, os Duffer não tinham planejado alguns arcos e personagens, então fizeram ajustes de acordo com a carta branca que receberam já na primeira temporada. E, sem entregar muito, nesta quinta temporada precisaram filmar um encontro do Will com o Vecna (Jamie Campbell Bower). E é nessa cena que vemos claramente um abuso acontecendo. Se a série joga para a ficção e fantasia, nós percebemos o simbolismo direto com um membro fálico do Vecna sendo colocado na boca do Will. É algo que pode passar despercebido para quem não se atenta muito ou para quem realmente não consegue fazer uma leitura das alegorias e símbolos presentes na produção. São muitas camadas, e muitos não descem muito fundo em suas percepções. E a grande parte dos personagens tem arcos de histórias muito ricos e muito elaborados. E o que mais me chamou atenção é o arco do Will, que atingiu seu ápice com o quarto episódio dessa quinta temporada. Todo o mais que acontecer é consequência, ou seja, o arco está completo em sua essência. A série começou com ele sendo sequestrado. É o desaparecimento de uma criança frágil em uma situação que nós mesmos vamos descobrir juntos com os demais personagens. E viajamos no tempo para uma época em que muitos eram crianças. Eu mesmo teria meus cinco anos quando tudo começa lá em Hawkins. Tudo é muito familiar — salvo as diferenças culturais — é fácil a identificação com os personagens e com a época. O arco do Will é um arco de superação de um abuso. Ele não só estava perdido no Mundo Invertido; ele estava sendo perseguido e foi capturado pelo Vecna (que ainda podia não existir, mas foi construída sua história para ficar coesa com a narrativa). O próprio Vecna, enquanto ainda era Henry Creel (Jamie Campbell Bower), tinha sido vítima de algo parecido, sendo seu algoz o Devorador de Mentes. É muito significativo que, ao perseguir duas personagens por suas memórias, em outro momento, o Henry não entra numa caverna que é a manifestação do lugar onde ele encontrou um portal para a dimensão do Devorador de Mentes e foi totalmente transformado, sendo mais uma mente submissa dentro do que viria a ser a Mente Colmeia. Para nossa análise, temos uma criança que foi profundamente abusada, que se transformou em outra coisa. E essa criança ainda vai ter suas vivências, que a colocam em um projeto governamental onde ela tem acesso — já adulta — a crianças com poderes psíquicos, e isso leva ao embate com a Eleven (Millie Bobby Brown), que o leva a se transformar no monstro Vecna. É aí que temos uma percepção errada: ele já era um monstro. Suas escolhas, suas vivências e, principalmente, a submissão ao Devorador o fizeram assim. Ele ainda não tinha a forma física que vemos depois. E não é uma coisa só: o mal em si não estava em Henry. Ele tinha uma influência, mas não tinha apoio mais sólido. Will, além de uma mãe que não mede esforços e um irmão protetor, tem amizades. E o Henry, isolado, se perde em seus traumas e, sem apoio e acompanhamento, vira um abusador. Como disse, o Will é abusado pelo agora não mais Henry, e sim Vecna, e poderia ter o mesmo destino. A beleza — ou horror — da existência humana está aqui: não somos iguais e, por isso, reagimos de forma diferente a um acontecimento que tenha sido igual ou similar ao de outra pessoa. São tantas variantes nessa loteria humana que nenhum resultado é previsível. Apesar de alguns dados comportamentais serem possíveis de medir, as nuances de escolhas, atitudes, vivências e percepções íntimas são tão emaranhadas e complexas que muitas coisas dependem de tantas outras que beira o esotérico e o místico, mas não é. Temos o que seremos no futuro determinado ou somos livres para escolher o que quisermos ser? Longe de uma resposta rasa ou simples. Muita coisa pode influenciar qualquer resposta: misticismo de um religioso? Genes? O meio social que a pessoa vive? Temperamento e caráter? Personalidade? Will tinha sua sensibilidade extrema que o fazia mais humano que o Henry e, por mais frágil que aparentasse ser, foi uma criança forte o suficiente para sobreviver no Mundo Invertido. O que não é pouco. E quando saiu — como disse um pouco acima — ele tinha uma mãe amorosa o procurando, com seu irmão e amigos desesperados para achá-lo. Will tinha tudo para virar um monstro. O trauma o arrebentou por dentro; ele passou da segunda à quarta temporada lidando com as consequências do que foi obrigado a vivenciar e esse medo o paralisava de viver sua potencialidade como uma pessoa completa de si mesmo, capaz de se transformar e crescer. Ele não é definido pelo trauma que sofreu, mas ele tira força do que viveu para superar o que é possível desse trauma e ser forte para assumir que ele — e somente ele — pode ser: protagonista de sua história. É tocante como, em uma comparação direta, temos o Vecna que é o adulto que rouba a inocência de uma criança, pois sua própria inocência foi corrompida, e o Mike (Finn Wolfhard), que é justamente a vivência afetiva da infância na memória do Will. Toda criança tem suas descobertas e cada uma vai ter experiências de acordo com sua cultura sobre amar outra pessoa. E isso é construído nas relações com todos que a cercam. E o Will já se sentia deslocado, mas o Mike o “chama” para ser seu amigo. Ambos iniciam sua jornada de afeto. Até então, a estranheza do Will não era bem entendida por ser uma criança e, conforme se torna adolescente, ele nutre esse afeto com algo mais íntimo. Sua sexualidade aflora mais evidente que nunca, e aquela criança que quis ser seu amigo e foi a razão do afeto que ele pôde exercitar como criança agora se confunde na profusão de emoções que os novos sentimentos — impulsionados pelos hormônios da idade — o bombardeiam. Will se retrai. Os traumas ainda ressoam negativamente dentro de si. E o Mike não retribui amor; aparentemente é um garoto heterossexual, mas ainda assim dá muito afeto a ele e a todos os demais. Mike é o garoto desengonçado que é puro afeto com seus amigos. A comparação com o Vecna é que este tenta roubar o que há de mais puro em uma criança, enquanto Mike dá o que uma criança precisa e tem de mais puro: o amor afetivo e totalmente inocente da amizade, que se manifesta em querer estar junto, brincar junto e viver o ser criança como criança. O horror do abuso está aí: tirar da criança o ser criança e impor — usando um termo que tivemos muito contato há uns meses — uma adultização antes da hora. A sensibilidade do Will não permite que ele se submeta. Porém, a descoberta de si mesmo como gay o faz ficar mais inseguro devido a pressão social que exite e ele coloca em Mike a responsabilidade de sua felicidade. E o Mike — nem ninguém — pode dar felicidade a alguém. Quando Will, pressionado pela circunstância do perigo que todos ali ao seu redor enfrentam no fim do quarto episódio da quinta temporada, precisa encontrar a força que sempre teve e, com essa força, usar tudo o que pode contra os inimigos iminentes. E quem disse que o amor não salva? Não é o amor erótico que seus instintos e hormônios em ebulição impulsionam e quer o Vecna é uma alegoria deturpada dele; é o amor subestimado da amizade e da família. Vecna não tinha isso e se perdeu em sua desumanidade, tornando-se um monstro retorcido. Will estende a mão e aceita o que tem dentro de si mesmo e percebe que não é o Mike que vai deixá-lo feliz: é ele mesmo, responsável por sua vida, seu crescimento, sua aprendizagem e sua aceitação. Will, por um abuso, recebe a mesma coisa que Henry recebeu. Ambos têm um vínculo tão íntimo que Will consegue acessar os poderes de Vecna e os usa não para perpetuar o ciclo de abuso, mas para ajudar quem poderá se tornar vítima das escolhas depravadas de Vecna. Will não se torna um abusador. Ele é o mais forte de todos os personagens e tem um arco de amadurecimento e crescimento fantástico. 

            E é por isso que vale muito a pena assistir Stranger Things. Não faço ideia do que acontecerá nos próximos episódios, mas o Will já está salvo. Pelo menos a criança interior dele está acolhida e não se perdeu no poço de podridão que a alma humana pode se tornar. Já o personagem, só saberemos — como te odeio, irmãos Duffer, por me fazer esperar — no Ano-Novo...


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